Revista De Castro

Saúde / 25 de setembro de 2026

Eu fui checar

Alerta vermelho em oito estados: o que é o Super El Niño e o que fazer nos próximos cinco dias

O Inmet colocou 45 regiões de oito estados em grande perigo, das 12h de sábado às 18h de quarta. Explico em português o que é El Niño, por que ele esquenta o Centro-Sul, o que significa o nível vermelho e o que a pessoa faz na prática. Fui checar também as 451 mil mortes projetadas por um relatório americano, e o que ele de fato diz.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
Editoria
Saúde
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7 min
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19 citadas
União Europeia, Copernicus Marine Service / Wikimedia Commons, licença Attribution
União Europeia, Copernicus Marine Service / Wikimedia Commons, licença Attribution

O Inmet colocou 45 regiões de oito estados em alerta vermelho de onda de calor.

Vale das 12h deste sábado, 26 de setembro, até as 18h de quarta-feira, 30. É o nível mais alto da escala, o que o instituto chama de grande perigo.

Os estados: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

Primeiro, a correção

Várias reportagens de 24 de setembro falaram em seis estados. O aviso do Inmet publicado no mesmo dia cobre oito, somando Santa Catarina e Goiás.

Só em São Paulo são mais de 600 municípios, incluindo a capital, a região metropolitana, os dois litorais e o Vale do Paraíba.

O que significa alerta vermelho

Não é "vai fazer calor". É outra coisa, e o critério é numérico.

Para o Inmet, onda de calor é uma sequência de pelo menos cinco dias seguidos com as máximas 5 °C acima da média climatológica daquela região naquela época do ano. O nível vermelho entra quando esse desvio se estende por mais de cinco dias.

O que define é o desvio, não o número absoluto. Cada lugar é medido contra a própria média.

As previsões do aviso: até 32 °C em São Paulo no domingo, até 41 °C em Cuiabá no domingo, até 40 °C em Campo Grande na segunda. A faixa geral vai de 30 °C a 40 °C.

O que é El Niño, sem jargão

O Pacífico equatorial tem um vento que sopra de leste para oeste, os alísios. Esse vento empurra a água quente da superfície na direção da Ásia e da Oceania. Do lado da América do Sul, água fria sobe do fundo para ocupar o lugar.

É como soprar a superfície de uma bacia de água morna: a parte quente se acumula do lado oposto ao sopro.

No El Niño, o vento enfraquece. A água quente que estava empilhada do lado de lá escorrega de volta para o centro e para o leste do Pacífico. Uma faixa enorme de oceano fica mais quente que o normal.

Oceano quente aquece o ar que está em cima dele. Esse ar sobe, muda onde chove, e desloca as correntes que organizam o tempo no planeta. Por isso um oceano do outro lado do mundo mexe no termômetro de Campo Grande.

Quando a anomalia passa de 2 °C por alguns meses, a comunidade científica chama de super El Niño.

Por que sobra calor para o Centro-Sul

Aqui está a parte que interessa a quem mora em São Paulo, no Paraná ou em Minas.

Alexandre Nascimento, sócio-diretor da Nottus Meteorologia, explicou à CNN Brasil, em 24 de setembro:

"Em geral, o El Niño 'trava' as frentes frias mais ao sul e os ventos predominantes de norte proporcionam temperaturas mais altas."

Traduzindo: a frente fria que derrubaria a temperatura fica presa lá embaixo, e o vento que chega vem do norte, quente. O ar quente entra e não tem quem empurre para fora.

O tamanho deste El Niño, pelos dados oficiais

Da discussão do Climate Prediction Center, da NOAA, publicada em 10 de setembro de 2026:

"El Niño is strengthening, with a greater than 90% chance of a very strong event during the Northern Hemisphere fall and winter 2026-27."
IndicadorValor
Índice Niño 3.4 em agosto de 2026+1,8 °C
Chance de evento muito forte entre o fim de 2026 e o começo de 2027acima de 90%
Chance de evento histórico, com índice trimestral em +2,5 °C ou mais75%
Comparaçãosuperaria todos os eventos registrados desde 1950

A Al Jazeera registra que o evento atual chegou a 2,7 °C no mês anterior e cita previsões de até 4 °C no pico, entre novembro e dezembro.

As 451 mil mortes: o que o estudo diz de verdade

Esse é o número que está circulando. Fui checar.

O relatório é do Climate Impact Lab, grupo de pesquisa ligado à Universidade de Chicago, divulgado em 23 de setembro de 2026.

Ele projeta 451 mil mortes adicionais por calor no mundo, entre junho de 2026 e fevereiro de 2027.

Como foi feito: cruzaram a relação entre temperatura e mortalidade em 24.378 regiões do planeta com as anomalias previstas pelo sistema sazonal SEAS5, do Centro Europeu de Previsões de Tempo a Médio Prazo. A premissa é de 1,2 °C acima do normal sobre os continentes e 44% mais dias de calor extremo do que na base de 1996 a 2025.

País ou regiãoMortes adicionais projetadas
Sahel (região)66.800
Nigéria31.400
Indonésia19.300
Sudão17.500
Índia15.800
Brasil13.300
Estados Unidos3.500

No Brasil, 8.000 dessas 13.300 mortes projetadas se concentram entre dezembro e fevereiro.

A ressalva que precisa vir junto

O relatório é preliminar e ainda não passou por revisão por pares. A metodologia que ele usa é revisada, o documento em si não é.

E a comunidade científica está dividida sobre o número, nos dois sentidos.

Akshay Deoras, da Universidade de Reading, disse à Al Jazeera que considera os números subjetivos, que é cético quanto às distribuições por região e que é difícil calcular um resultado tão exato.

Tom Burke, do centro de pesquisa E3G, disse na mesma reportagem que a estimativa é conservadora, porque só conta morte por calor e deixa de fora incêndio, enchente e crise alimentar, que também vêm no pacote do El Niño.

Um acha alto demais, o outro acha baixo demais. Os dois estão aqui porque os dois existem.

O que você faz nos próximos cinco dias

Estas são as orientações oficiais do Ministério da Saúde, da página "Ondas de calor" do gov.br.

Água. Beba regularmente, mesmo sem sede. O piso citado nas notas do ministério é de um litro e meio por dia. Evite álcool e bebida com cafeína, que desidratam.

Horário. Planeje o que for ao ar livre para o começo da manhã ou o fim da tarde. O miolo do dia é o que machuca.

Roupa. Leve, de cor clara, em tecido que deixe a pele transpirar.

Casa. Persiana baixada durante o dia, casa arejada nas horas mais frescas.

Quem precisa de atenção redobrada. Idosos, crianças, pessoas com problema renal, cardíaco, respiratório ou de circulação, diabéticos, gestantes e população em situação de rua.

E aqui está o detalhe que salva vida: idoso e criança têm dificuldade de reconhecer a sede. Não adianta esperar que peçam. A água tem que ser oferecida, de hora em hora.

Os sinais, em duas listas

Sinais de alerta, que pedem sombra, água e descanso imediatos: transpiração excessiva, fraqueza, tontura, náusea, dor de cabeça, cãibra muscular e diarreia.

Sinais graves, que são emergência médica: confusão mental, convulsão e perda de consciência. Isso é golpe de calor. Nessa hora se procura unidade de saúde, não se espera melhorar.

O caso que dá tamanho a isso

Ana Clara Benevides Machado tinha 23 anos.

Ela morreu em 17 de novembro de 2023, dentro do Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio, durante um show da Eras Tour, de Taylor Swift. O Rio registrou naquele dia sensação térmica de 59,3 °C.

O laudo apontou parada cardíaca por exaustão pelo calor. Cerca de mil pessoas passaram mal por desidratação no mesmo evento. A organizadora proibia garrafa de água particular, alegando segurança.

Cinco dias depois, o governo federal publicou portaria obrigando pontos de água gratuita e liberando garrafa de uso pessoal em eventos. Até março de 2024, mais de 100 câmaras municipais e assembleias estaduais aprovaram leis com o mesmo objetivo, muitas levando o nome dela.

Não foi um verão inteiro. Foi uma tarde.

O que joga contra, e entra

"Calor no fim de setembro é normal no Brasil." O critério do Inmet não olha o termômetro absoluto, olha o desvio: 5 °C acima da média local por cinco dias seguidos. É anormal por definição.

"Esse número de mortes é alarmismo." Um pesquisador de Reading diz praticamente isso, e outro, do E3G, diz o oposto. O relatório é preliminar e não revisado por pares. Nenhum número dele aparece aqui como fato consumado.

"El Niño não traz chuva para o Sul?" Traz, em geral, e seca para o Norte e o Nordeste. O calor no Centro-Sul vem do bloqueio das frentes frias e do vento de norte, segundo a Nottus.

"Beber água não resolve 40 graus." Não resolve. Reduz. Hidratação, sombra e horário são as três medidas gratuitas que existem, e são justamente as que dependem de você.

"É El Niño ou aquecimento global?" Os dois: o relatório parte de um planeta que já esquentou e soma o El Niño por cima.

"Vai durar só esses cinco dias?" O alerta, sim. O El Niño, não. As previsões oficiais colocam o pico entre novembro e dezembro, com o fenômeno se estendendo até 2027.

A resposta

O Super El Niño é um oceano do outro lado do mundo que esquentou e reorganizou o tempo do planeta. O alerta vermelho é o Inmet dizendo que, por cinco dias, o seu pedaço do Brasil vai ficar 5 °C acima do que costuma ficar.

O que você controla é pequeno e é o que importa: água oferecida de hora em hora para quem não pede, sombra no miolo do dia e telefone na mão se alguém em casa começar a falar coisa desconexa.

O resto é previsão. Isso aí é sábado de manhã.

Fontes desta materia

  1. CNN Brasil, Super El Niño vai gerar onda de calor com elevação extrema de temperatura
  2. Portal de Prefeitura, Inmet emite alerta de grande perigo para onda de calor em oito estados
  3. NSC Total, Alerta vermelho do Inmet: onda de calor coloca 8 estados em grande perigo
  4. O Tempo, Alerta vermelho de onda de calor em São Carlos eleva temperaturas 5 graus acima da média
  5. O Tempo, Alerta vermelho: onda de calor extremo eleva temperatura em Volta Redonda
  6. NOAA Climate Prediction Center, ENSO Diagnostic Discussion de 10 de setembro de 2026
  7. Al Jazeera, Scientists warn super El Nino could cause 450,000 deaths: should we worry?
  8. CNN, Super-sized El Niño could cause more than 450,000 heat deaths by February
  9. Bloomberg Línea, El Niño causaría 451.000 muertes por calor en el mundo
  10. Ara.cat, The super-El Niño could cause almost half a million deaths due to heat
  11. The Print, Super El Niño projected to cause 450,000 heat deaths worldwide, says study
  12. ETV Bharat, Super El Nino could lead to more than 451,000 heat deaths globally
  13. Ministério da Saúde, página Ondas de Calor
  14. Ministério da Saúde, Nota Técnica Conjunta sobre onda de calor
  15. Exame, Ondas de calor: quais cuidados tomar, segundo órgãos oficiais de saúde
  16. Wikipédia, Death of Ana Clara Benevides
  17. Global News, Taylor Swift fan died of heat exhaustion at Rio concert
  18. Weather.com, What a historic super El Niño ahead means for your fall and winter
  19. IRI Columbia, September 2026 ENSO Quick Look