Ele morreu às 3h20 da madrugada de 29 de setembro de 1908, na casa número 18 da Rua Cosme Velho, no Rio de Janeiro.
Tinha 69 anos e era presidente da Academia Brasileira de Letras, cargo que ocupava desde a fundação, em 1897.
O escrivão Olympio da Silva Pereira preencheu a certidão de óbito. Na linha da cor, escreveu uma palavra: branca.
A carta
Dias depois, o crítico José Veríssimo publicou o necrológio no Jornal do Commercio. Escreveu que Machado, "mulato, foi de fato um grego da melhor época".
Joaquim Nabuco leu e respondeu por carta. Pediu que a palavra saísse das edições seguintes do texto. As frases dele estão reproduzidas na revista acadêmica Machado de Assis em Linha, da USP:
"Eu não o teria chamado mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese." "A palavra não é literária e é pejorativa." "O Machado para mim era branco, e creio que por tal se tomava." "Eu pelo menos só vi nele o grego."
Nabuco era abolicionista. Tinha sido um dos homens que derrubaram a escravidão no Brasil. E, no mês da morte do amigo, gastou uma carta para corrigir a cor dele.
O apagamento racial de Machado de Assis não começou nos livros didáticos do século 20. Começou em 1908, por escrito, com nome e sobrenome.
O morro
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, na Gamboa, zona portuária do Rio.
O pai, Francisco José de Assis, era pintor de paredes e dourador. Na certidão de batismo dele, de 11 de outubro de 1806, consta a expressão da época para quem nascia de gente liberta: pardo forro. Os avós paternos, Francisco de Assis e Inácia Maria Rosa, aparecem nos registros com a mesma classificação. A bisavó, Benta Maria da Piedade, aparece como ex-escrava de uma dona Maria Tereza dos Santos.
A mãe, Maria Leopoldina Machado da Câmara, era portuguesa, da Ilha de São Miguel, nos Açores.
A conta da infância dele é curta e dura. A irmã Maria morreu de sarampo em 1845. A mãe morreu de tuberculose em 1849, quando ele tinha 10 anos. O pai casou de novo em 18 de junho de 1854, com Maria Inês da Silva, lavadeira portuguesa, e foi ela quem criou o menino. O pai morreu em 22 de abril de 1864.
Machado nunca frequentou universidade. Nunca concluiu curso regular nenhum. Aprendeu francês com um padeiro imigrante do bairro e latim com um padre.
O tipógrafo
Em 1854, aos 15 anos, publicou o primeiro texto: um soneto, no Periódico dos Pobres. No ano seguinte saiu o poema "Ela", em A Marmota Fluminense.
Em 1856 entrou na Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo. Compunha com a mão as letras que outros escreviam. Ali conheceu Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Milícias, que o empurrou para a redação.
Em 1858 era revisor e colaborador do Correio Mercantil. Em 1860 entrou para o Diário do Rio de Janeiro. Em 1862 virou censor teatral, sem receber nada por isso.
Em 12 de novembro de 1869 casou com Carolina Augusta Xavier de Novais, portuguesa, irmã de um amigo morto. Ficaram juntos 35 anos. Nunca tiveram filhos.
A escalada, em números
| Ano | Posto | Vencimento anual |
|---|---|---|
| 1873 | Primeiro oficial do Ministério da Agricultura | 4 contos de réis |
| 1876 | Chefe de seção | 5,4 contos de réis |
| 1889 | Diretor da Diretoria Geral de Comércio | 8 contos de réis |
| 1893 | Diretor geral de Viação | |
| 1902 | Diretor geral de Contabilidade, até a morte |
Foram 35 anos de ministério. Colegas de repartição registraram o rigor dele no cumprimento do dever e a capacidade administrativa.
No mesmo período, a obra: Crisálidas em 1864, Ressurreição em 1872, Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1881, Quincas Borba em 1891, Dom Casmurro em 1899, Esaú e Jacó em 1904 e Memorial de Aires em 1908, no ano em que morreu.
Em 28 de janeiro de 1897, na instalação da Academia Brasileira de Letras, foi eleito presidente por unanimidade. Ficou no cargo até morrer, mais de dez anos depois. Ocupou a cadeira 23, cujo patrono escolheu: José de Alencar.
O funcionário que decidia sobre gente escravizada
Machado chefiou por anos a segunda seção da Diretoria de Agricultura, e esse detalhe de repartição vale mais do que parece.
Segundo o historiador Sidney Chalhoub, um dos assuntos principais daquela seção era a escravidão, e em especial a aplicação da lei de 28 de setembro de 1871, a Lei do Ventre Livre. Machado redigia pareceres. Alguns deles, de natureza estritamente jurídica, sobre a liberdade de pessoas.
A historiadora Lilia Moritz Schwarcz afirma que, nessa função, ele "sistematicamente deu ganho de causa a escravizados".
Na obra, a escravidão aparece por dentro, sem discurso. O conto "Pai contra mãe" mostra um caçador de escravos que devolve uma mulher grávida ao dono e assiste, sem se abalar, ao aborto que provoca. É das páginas mais cruéis já escritas no Brasil, e não tem uma linha de sermão.
As doenças que ele nunca admitiu
Machado era gago. Biógrafos contam que ele disfarçava a dificuldade de falar reclamando de feridas na boca, repetindo "estas aftas, estas aftas".
Sobre a epilepsia, é preciso um cuidado que muita matéria não tem. Ele nunca admitiu a doença em vida. O diagnóstico é de biógrafos, feito depois da morte, e hoje é praticamente unânime entre eles. As crises teriam começado na infância, ficado raras na adolescência e piorado nos últimos anos.
Vários biógrafos atribuem a ausência de filhos ao medo de transmitir a doença. Não existe declaração dele sobre isso. Fica registrado como versão dos biógrafos, não como fato.
A certidão de óbito registra úlcera cancerosa na boca e arteriosclerose generalizada. A versão popular de "câncer na língua" vem de médicos e biógrafos que ligam a úlcera às mordidas na língua durante as convulsões. É uma hipótese com lastro, e não é o que está escrito na certidão.
Carolina morreu em 1904. Ele escreveu: "Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo." Viveu mais quatro anos.
O velório
O corpo foi velado no Silogeu, sede da Academia. Euclides da Cunha, Coelho Neto, Mário de Alencar, José Veríssimo e Raimundo Correia fizeram vigília ao lado do caixão, cercado por seis círios de prata.
Rui Barbosa discursou. O presidente Affonso Pena mandou pêsames chamando o morto de glória da literatura brasileira. O Estado de S. Paulo abriu com uma linha: "Estão de grande luto as letras brasileiras".
No meio do velório, um rapaz desconhecido entrou, ajoelhou, beijou a mão de Machado e saiu sem falar com ninguém. Anos depois foi identificado: Astrogildo Pereira, que viria a fundar o Partido Comunista Brasileiro.
O que joga contra, e entra
Esta parte a revista não pula.
"Ele era mulato, não negro." A discussão sobre a palavra é antiga e legítima. O pai foi registrado como pardo forro, a mãe era branca e portuguesa. O ponto desta matéria não depende do rótulo escolhido: depende do fato de que o rótulo foi trocado por "branca", em documento oficial, no dia da morte.
"Machado nunca militou pela abolição." Verdade. Ele não foi Nabuco nem José do Patrocínio. Não subiu em palanque, não assinou manifesto, não fez da cor uma bandeira pública. Quem procura militância vai encontrar silêncio. Quem procura decisão administrativa vai encontrar pareceres.
"Isso de embranquecimento é invenção de agora." A carta de Nabuco é de 1908. A certidão é de 1908. O professor Eduardo de Assis Duarte, da UFMG, lembra ainda os retoques de estúdio: "os polêmicos retoques para clarear a pele nos estúdios dos fotógrafos da época."
"Ele mesmo se deixou embranquecer." A acusação existe. E existe o contraponto documental: em carta de 6 de junho de 1871, o poeta negro Gonçalves Crespo se dirigiu a Machado como alguém "de cor como eu".
"Foi uma vida de vitória, então não teve tanto contra." Teve as duas coisas ao mesmo tempo. Virou presidente da Academia e teve a cor corrigida no dia seguinte ao enterro.
Cento e dezoito anos depois
Em 2011, uma propaganda da Caixa Econômica Federal mostrou Machado de bengala, pincenez e pele branca.
Em junho de 2019, a agência Grey Brasil criou para a Faculdade Zumbi dos Palmares a campanha "Machado de Assis Real". Coloriram uma fotografia antiga e pediram às editoras que parassem de imprimir a versão embranquecida. Foi a partir dali que saiu o primeiro livro com a foto real do escritor na capa, e o retrato dele na Academia Brasileira de Letras foi trocado.
Em março de 2024, a própria Academia lançou um avatar digital de Machado, feito com a empresa Euvatar Storyliving. O avatar saiu branco. A crítica foi imediata.
Seis meses depois, em 23 de setembro de 2024, a Academia inaugurou um mural de 150 metros do artista Fernando Cazé, do projeto Negro Muro. No centro da pintura, um Machado negro dá xeque-mate num Machado embranquecido. Cazé resumiu assim: "é dando fim à história de que Machado era branco."
A resposta
O crítico americano Harold Bloom colocou Machado no livro Genius, de 2002, ao lado de Shakespeare e Cervantes, e o chamou de "the supreme black literary artist to date", o maior artista literário negro até hoje.
Bloom contou também que se apaixonou pela obra antes de descobrir que Machado era mulato e neto de escravos. Até ali, tinha presumido que o autor fosse branco.
Foi exatamente esse o efeito que a certidão de 1908 produziu por um século.
O menino nasceu num morro da zona portuária, neto de gente alforriada, filho de pintor de paredes, criado por uma lavadeira, órfão de mãe aos 10 anos, gago, sem escola, aprendiz de tipógrafo aos 17.
Morreu presidente da Academia Brasileira de Letras, autor do melhor romance já escrito no país.
Não faltou nada na história dele. Faltou deixarem a história inteira em pé.








