Revista De Castro

Saúde / 1 de outubro de 2026

Eu fui checar

Fé, oração e saúde mental: o que a ciência mediu em quem reza

Leitores da revista contaram que saíram da depressão rezando o Rosário. Eu fui ler os estudos: 444 pesquisas sobre religião e depressão, duas coortes de Harvard com mais de 89 mil mulheres, o experimento do BMJ com a Ave-Maria e as revisões que não acharam efeito. A fé aparece associada a menos depressão e menos suicídio. E nenhum desses estudos autoriza trocar remédio ou terapia por oração.

Publicado
1 de outubro de 2026
Atualizado
1 de outubro de 2026
Editoria
Saúde
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7 min
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11 citadas

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Velha rezando, de Matthias Stom (século 17). The Metropolitan Museum of Art / Wikimedia Commons, CC0. Imagem ilustrativa.
Velha rezando, de Matthias Stom (século 17). The Metropolitan Museum of Art / Wikimedia Commons, CC0. Imagem ilustrativa.

Os estudos científicos mostram que quem pratica a fé tem, em média, menos depressão e menos suicídio. A maior revisão sobre o tema, do psiquiatra americano Harold G. Koenig, achou essa associação em 61% de 444 pesquisas. Mas nenhuma delas prova que a oração cura depressão, e nenhuma autoriza trocar remédio ou terapia por reza.

Eu fui ler os estudos porque a pergunta chegou pelos comentários. Depois da matéria sobre a vigília do Frei Gilson no Mangueirão, leitores contaram que saíram da depressão rezando o Rosário. Eu acredito em cada um deles. E quis saber o que a ciência consegue medir, e o que ela não consegue.

Quantas pesquisas existem sobre fé e depressão?

Muitas. Koenig reuniu, em 2012, na revista ISRN Psychiatry, pelo menos 444 estudos que cruzaram religiosidade e depressão. Em 272 deles (61%), quem era mais religioso tinha menos depressão. Entre os estudos de melhor qualidade, a proporção subiu para 67%.

A conclusão dele é cuidadosa: no balanço, a religião aparece ligada a mais bem-estar, a lidar melhor com o estresse e a melhor saúde mental.

No Brasil, o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida chegou ao mesmo ponto numa revisão publicada pela revista da Associação Brasileira de Psiquiatria. Quem tem mais religiosidade e espiritualidade mostra mais bem-estar e menos depressão, menos abuso de substâncias e menos comportamento suicida.

O que os estudos de Harvard acharam?

Os números mais fortes vêm de duas pesquisas com enfermeiras americanas, coordenadas pelo epidemiologista Tyler VanderWeele, da Escola de Saúde Pública de Harvard.

A primeira acompanhou 48.984 mulheres de 1996 a 2008. As que iam à igreja com mais frequência tiveram 29% menos chance de desenvolver depressão do que as que nunca iam.

A segunda acompanhou 89.708 mulheres de 1996 a 2010. Quem ia a cultos ou missas uma vez por semana ou mais teve uma taxa de suicídio cerca de cinco vezes menor do que quem nunca ia. Entre as católicas, a diferença foi ainda maior que entre as protestantes.

EstudoQuem participouO que achou
Koenig, 2012444 pesquisas61% ligam religiosidade a menos depressão
Li e VanderWeele, 201648.984 enfermeiras29% menos chance de depressão em quem ia mais à igreja
VanderWeele, 201689.708 enfermeirassuicídio cerca de 5 vezes menor com frequência semanal
Gonçalves e colegas, 201523 ensaios, 2.721 pessoasansiedade caiu; na depressão, a diferença não fechou
Cochrane, 200910 ensaios, 7.646 pacientesoração feita por outros sem efeito claro

Fontes: os próprios artigos, nas revistas citadas.

Velha em oração, de Rembrandt, por volta de 1630

E o terço, especificamente?

Existe um experimento famoso, publicado no British Medical Journal em 22 de dezembro de 2001. Uma equipe italiana liderada por Luciano Bernardi pôs 23 adultos saudáveis para recitar a Ave-Maria em latim, do jeito que se reza o Rosário, e mediu a respiração e o coração.

A respiração caiu de 14,1 para 5,6 por minuto, perto de 6, o ritmo em que, segundo os autores, respiração, coração e pressão entram em sincronia. A sensibilidade do barorreflexo, um dos freios naturais da pressão arterial, subiu de 9,5 para 11,5. Um mantra de ioga produziu o mesmo efeito.

Os autores concluíram que fórmulas rítmicas com seis respirações por minuto induzem efeitos psicológicos favoráveis, e possivelmente fisiológicos. É uma explicação de corpo para algo que muita avó já sabia: o terço acalma.

O estudo tem limites claros. Foram 23 pessoas sem doença, numa sessão. Ninguém mediu depressão.

A oração funciona como tratamento?

Aqui os números mudam de tom. Uma meta-análise de pesquisadores brasileiros, publicada em 2015 na Psychological Medicine, juntou 23 ensaios clínicos com 2.721 pessoas que receberam algum tipo de intervenção religiosa ou espiritual.

A ansiedade caiu de forma consistente. Na depressão, o resultado pendeu a favor da fé, mas a diferença não foi estatisticamente significativa. Os autores falam em tratamento complementar, nunca substituto.

Já a oração feita por outras pessoas, sem o doente saber, foi testada em 10 ensaios com 7.646 pacientes. A revisão da Cochrane não achou efeito claro, nem para melhor nem para pior, e diz que o paciente deve manter o cuidado médico de sempre.

Por que a fé protege?

Na minha leitura dos estudos, aparecem três caminhos, e nenhum deles foi medido sozinho. Comunidade, porque a missa de domingo é também encontro com gente, e a revista já mostrou que a solidão rouba anos de vida saudável. Sentido, porque quem acredita encontra significado no sofrimento. E hábito, porque o terço diário organiza a respiração e o dia.

Fiéis na missa de Nossa Senhora Aparecida, no Santuário Nacional

Quantos brasileiros têm depressão?

Pela Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, 10,2% dos adultos tinham diagnóstico de depressão em 2019, eram 7,6% em 2013. As mulheres somam 14,7%, quase três vezes os 5,1% dos homens. Só 52,8% dos que tinham diagnóstico procuraram atendimento no ano anterior.

Então, oração substitui remédio?

Não. O Ministério da Saúde escreve que o tratamento da depressão é "medicamentoso e psicoterápico" e que interromper o tratamento por conta própria pode aumentar muito o risco de a doença se tornar crônica. No SUS, o atendimento começa na unidade básica e segue nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Quem reza e toma remédio está fazendo as duas coisas que os estudos apoiam. Quem pensa em parar o remédio porque começou a rezar deve conversar antes com o médico que receitou. E quem está em crise pode ligar 188, o número do CVV, de graça e a qualquer hora.

Na minha opinião, os leitores que saíram da depressão rezando o terço contaram algo verdadeiro, e a ciência dá razões para isso: a oração acalma o corpo, a fé dá sentido, e a comunidade tira a pessoa do isolamento. A mesma ciência pede uma coisa em troca: que a fé ande junto com o tratamento. Santa Dulce rezou a vida inteira e transformou um galinheiro no maior hospital da Bahia.

Perguntas que chegam nos comentários

Rezar o terço cura depressão?

Nenhum estudo mostrou cura. Os estudos mostram que quem pratica a fé tem, em média, menos depressão, e um experimento do BMJ de 2001 mostrou que recitar a Ave-Maria desacelera a respiração para cerca de 6 por minuto, o que acalma. Depressão se trata com médico, psicoterapia e, quando indicado, remédio.

Posso parar o antidepressivo porque comecei a rezar?

Não por conta própria. O Ministério da Saúde alerta que interromper o tratamento sem orientação aumenta o risco de a depressão se tornar crônica. A conversa sobre reduzir ou parar é com o médico que receitou.

Quem vai à missa tem menos depressão?

Num estudo de Harvard com 48.984 enfermeiras, as que iam com mais frequência tiveram 29% menos chance de desenvolver depressão. É uma associação, e o próprio estudo mostra que a depressão também afasta as pessoas da igreja.

Onde pedir ajuda em uma crise?

No CVV, pelo telefone 188, de graça e 24 horas, ou pelo chat do site cvv.org.br. No SUS, na unidade básica de saúde ou no CAPS da cidade.

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Fontes desta materia

  1. Harold G. Koenig, Religion, Spirituality, and Health: The Research and Clinical Implications, ISRN Psychiatry, 2012
  2. Li, Okereke, Chang, Kawachi e VanderWeele, Religious service attendance and lower depression among women, Annals of Behavioral Medicine, 2016
  3. VanderWeele e colegas, Association Between Religious Service Attendance and Lower Suicide Rates Among US Women, JAMA Psychiatry, 2016
  4. ScienceDaily, Religious service attendance associated with lower suicide risk among women, 29 de junho de 2016
  5. Bernardi e colegas, Effect of rosary prayer and yoga mantras on autonomic cardiovascular rhythms, BMJ, 22 de dezembro de 2001
  6. Gonçalves, Lucchetti, Menezes e Vallada, Religious and spiritual interventions in mental health care: meta-análise, Psychological Medicine, 2015
  7. Cochrane, Intercessory prayer for the alleviation of ill health, revisão de Roberts e colegas
  8. Moreira-Almeida e Stroppa, Espiritualidade e saúde mental: o que as evidências mostram?, Debates em Psiquiatria (ABP)
  9. Brito e colegas, Prevalência de depressão autorreferida no Brasil: PNS 2019 e 2013, Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2022
  10. Ministério da Saúde, Depressão, Saúde de A a Z
  11. CVV, Centro de Valorização da Vida, atendimento pelo 188