Os estudos científicos mostram que quem pratica a fé tem, em média, menos depressão e menos suicídio. A maior revisão sobre o tema, do psiquiatra americano Harold G. Koenig, achou essa associação em 61% de 444 pesquisas. Mas nenhuma delas prova que a oração cura depressão, e nenhuma autoriza trocar remédio ou terapia por reza.
Eu fui ler os estudos porque a pergunta chegou pelos comentários. Depois da matéria sobre a vigília do Frei Gilson no Mangueirão, leitores contaram que saíram da depressão rezando o Rosário. Eu acredito em cada um deles. E quis saber o que a ciência consegue medir, e o que ela não consegue.
Quantas pesquisas existem sobre fé e depressão?
Muitas. Koenig reuniu, em 2012, na revista ISRN Psychiatry, pelo menos 444 estudos que cruzaram religiosidade e depressão. Em 272 deles (61%), quem era mais religioso tinha menos depressão. Entre os estudos de melhor qualidade, a proporção subiu para 67%.
A conclusão dele é cuidadosa: no balanço, a religião aparece ligada a mais bem-estar, a lidar melhor com o estresse e a melhor saúde mental.
No Brasil, o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida chegou ao mesmo ponto numa revisão publicada pela revista da Associação Brasileira de Psiquiatria. Quem tem mais religiosidade e espiritualidade mostra mais bem-estar e menos depressão, menos abuso de substâncias e menos comportamento suicida.
O que os estudos de Harvard acharam?
Os números mais fortes vêm de duas pesquisas com enfermeiras americanas, coordenadas pelo epidemiologista Tyler VanderWeele, da Escola de Saúde Pública de Harvard.
A primeira acompanhou 48.984 mulheres de 1996 a 2008. As que iam à igreja com mais frequência tiveram 29% menos chance de desenvolver depressão do que as que nunca iam.
A segunda acompanhou 89.708 mulheres de 1996 a 2010. Quem ia a cultos ou missas uma vez por semana ou mais teve uma taxa de suicídio cerca de cinco vezes menor do que quem nunca ia. Entre as católicas, a diferença foi ainda maior que entre as protestantes.
| Estudo | Quem participou | O que achou |
|---|---|---|
| Koenig, 2012 | 444 pesquisas | 61% ligam religiosidade a menos depressão |
| Li e VanderWeele, 2016 | 48.984 enfermeiras | 29% menos chance de depressão em quem ia mais à igreja |
| VanderWeele, 2016 | 89.708 enfermeiras | suicídio cerca de 5 vezes menor com frequência semanal |
| Gonçalves e colegas, 2015 | 23 ensaios, 2.721 pessoas | ansiedade caiu; na depressão, a diferença não fechou |
| Cochrane, 2009 | 10 ensaios, 7.646 pacientes | oração feita por outros sem efeito claro |
Fontes: os próprios artigos, nas revistas citadas.

E o terço, especificamente?
Existe um experimento famoso, publicado no British Medical Journal em 22 de dezembro de 2001. Uma equipe italiana liderada por Luciano Bernardi pôs 23 adultos saudáveis para recitar a Ave-Maria em latim, do jeito que se reza o Rosário, e mediu a respiração e o coração.
A respiração caiu de 14,1 para 5,6 por minuto, perto de 6, o ritmo em que, segundo os autores, respiração, coração e pressão entram em sincronia. A sensibilidade do barorreflexo, um dos freios naturais da pressão arterial, subiu de 9,5 para 11,5. Um mantra de ioga produziu o mesmo efeito.
Os autores concluíram que fórmulas rítmicas com seis respirações por minuto induzem efeitos psicológicos favoráveis, e possivelmente fisiológicos. É uma explicação de corpo para algo que muita avó já sabia: o terço acalma.
O estudo tem limites claros. Foram 23 pessoas sem doença, numa sessão. Ninguém mediu depressão.
A oração funciona como tratamento?
Aqui os números mudam de tom. Uma meta-análise de pesquisadores brasileiros, publicada em 2015 na Psychological Medicine, juntou 23 ensaios clínicos com 2.721 pessoas que receberam algum tipo de intervenção religiosa ou espiritual.
A ansiedade caiu de forma consistente. Na depressão, o resultado pendeu a favor da fé, mas a diferença não foi estatisticamente significativa. Os autores falam em tratamento complementar, nunca substituto.
Já a oração feita por outras pessoas, sem o doente saber, foi testada em 10 ensaios com 7.646 pacientes. A revisão da Cochrane não achou efeito claro, nem para melhor nem para pior, e diz que o paciente deve manter o cuidado médico de sempre.
Por que a fé protege?
Na minha leitura dos estudos, aparecem três caminhos, e nenhum deles foi medido sozinho. Comunidade, porque a missa de domingo é também encontro com gente, e a revista já mostrou que a solidão rouba anos de vida saudável. Sentido, porque quem acredita encontra significado no sofrimento. E hábito, porque o terço diário organiza a respiração e o dia.

Quantos brasileiros têm depressão?
Pela Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, 10,2% dos adultos tinham diagnóstico de depressão em 2019, eram 7,6% em 2013. As mulheres somam 14,7%, quase três vezes os 5,1% dos homens. Só 52,8% dos que tinham diagnóstico procuraram atendimento no ano anterior.
Então, oração substitui remédio?
Não. O Ministério da Saúde escreve que o tratamento da depressão é "medicamentoso e psicoterápico" e que interromper o tratamento por conta própria pode aumentar muito o risco de a doença se tornar crônica. No SUS, o atendimento começa na unidade básica e segue nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Quem reza e toma remédio está fazendo as duas coisas que os estudos apoiam. Quem pensa em parar o remédio porque começou a rezar deve conversar antes com o médico que receitou. E quem está em crise pode ligar 188, o número do CVV, de graça e a qualquer hora.
Na minha opinião, os leitores que saíram da depressão rezando o terço contaram algo verdadeiro, e a ciência dá razões para isso: a oração acalma o corpo, a fé dá sentido, e a comunidade tira a pessoa do isolamento. A mesma ciência pede uma coisa em troca: que a fé ande junto com o tratamento. Santa Dulce rezou a vida inteira e transformou um galinheiro no maior hospital da Bahia.
Perguntas que chegam nos comentários
Rezar o terço cura depressão?
Nenhum estudo mostrou cura. Os estudos mostram que quem pratica a fé tem, em média, menos depressão, e um experimento do BMJ de 2001 mostrou que recitar a Ave-Maria desacelera a respiração para cerca de 6 por minuto, o que acalma. Depressão se trata com médico, psicoterapia e, quando indicado, remédio.
Posso parar o antidepressivo porque comecei a rezar?
Não por conta própria. O Ministério da Saúde alerta que interromper o tratamento sem orientação aumenta o risco de a depressão se tornar crônica. A conversa sobre reduzir ou parar é com o médico que receitou.
Quem vai à missa tem menos depressão?
Num estudo de Harvard com 48.984 enfermeiras, as que iam com mais frequência tiveram 29% menos chance de desenvolver depressão. É uma associação, e o próprio estudo mostra que a depressão também afasta as pessoas da igreja.
Onde pedir ajuda em uma crise?
No CVV, pelo telefone 188, de graça e 24 horas, ou pelo chat do site cvv.org.br. No SUS, na unidade básica de saúde ou no CAPS da cidade.







