O caso mais recente de sarampo em São Paulo é um homem de 42 anos, morador da capital, sem vacina. Com ele, o estado chegou a 37 casos em 2026, segundo a Secretaria Estadual da Saúde (O Tempo, 25/09/2026).
Em todo o ano de 2025, o estado tinha registrado 2.
O número que mais pesa, porém, não está nas manchetes. Está na página oficial do Ministério da Saúde.
O fato central
O ministério contava 42 casos confirmados no Brasil até a semana epidemiológica 38: 36 em São Paulo, 5 no Amazonas e 1 no Rio de Janeiro.
Dos 36 casos paulistas, 2 foram importados, ligados a viagem. Os outros 34 têm "fonte de infecção desconhecida", nas palavras do próprio ministério.
O caso do Rio segue a mesma linha: fonte desconhecida e nenhum registro de vacina.
Fonte desconhecida quer dizer que a investigação não achou a viagem nem o contato que explicaria o contágio. É o vírus aparecendo sem deixar rastro de onde veio.
Onde estão os casos
Na conta da Agência Brasil de 21 de setembro, os casos de São Paulo se dividiam assim: 32 na capital, 2 em São Bernardo do Campo, 1 em Guarulhos e 1 em Santo André.
No Amazonas, o desenho é outro. Os três primeiros casos, em Tabatinga e Carauari, vieram de Alto Monte, no Peru, na tríplice fronteira. Nenhum dos três era vacinado (Agência Brasil, 11/09/2026).
Em Santo André, depois do caso na cidade, a prefeitura passou a aplicar a chamada dose zero em bebês de 6 a 11 meses e 29 dias (Agência Brasil, 21/09/2026).
A velocidade
Em 13 de agosto, o ministério falava em 24 registros no país, com 21 em acompanhamento em São Paulo.
Em 25 de setembro, o estado de São Paulo sozinho tinha 37. Foram seis semanas.
A conta da Secretaria Estadual (37) e a do ministério (36) diferem em um caso. A estadual foi divulgada em 25 de setembro; a federal vai até a semana epidemiológica 38.
O continente piorou
O Brasil não está isolado. As Américas somam 47.459 casos e 44 mortes em 2026 até setembro, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, citada pela Faculdade de Medicina da UFMG. Guatemala, México, Estados Unidos e Peru respondem por 95% deles.
Em 13 de junho, o número era de 22.324 casos em 17 países, com 38 mortes (Ministério da Saúde, 13/08/2026). Em três meses, o total mais que dobrou.
Em 2025 inteiro foram 14.891 casos no continente, 32 vezes mais que em 2024.
Os números
| Indicador | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Casos no Brasil em 2026 (até a SE 38) | 42 | Ministério da Saúde |
| Casos em São Paulo (ministério) | 36 | Ministério da Saúde |
| Casos paulistas com fonte desconhecida | 34 | Ministério da Saúde |
| Casos em SP em 2025, ano inteiro | 2 | O Tempo, com dados da Secretaria |
| Pacientes em SP sem vacina ou com esquema incompleto | 27 de 37 | O Tempo, com dados da Secretaria |
| Casos nas Américas em 2026 | 47.459 | Opas, via UFMG |
| Mortes nas Américas em 2026 | 44 | Opas, via UFMG |
De onde veio o selo, e como ele já caiu
O Brasil recebeu o certificado de eliminação do sarampo em 2016. Dois anos depois, vieram os surtos de Amazonas e Roraima: até 1º de agosto de 2018 eram 1.053 casos confirmados, 742 no Amazonas e 280 em Roraima, a maior parte ligada ao vírus importado da Venezuela.
A palavra que o ministério usa para 2024 é recertificação: em novembro daquele ano, a Opas voltou a reconhecer o Brasil como livre da circulação endêmica. Segundo a página oficial, o país mantém esse status até hoje.
O critério de eliminação usado pelo CDC, o centro de controle de doenças dos Estados Unidos, é a ausência de transmissão contínua da doença por mais de 12 meses.
É por isso que a origem dos casos importa tanto. Caso importado com rastro conhecido é uma coisa. Cadeia de contágio sem origem, que dura, é outra.
O que diz quem acompanha
Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, disse à Agência Brasil em 11 de setembro: "É fundamental a vigilância, o bloqueio desses casos confirmados, a vacinação de pessoas suscetíveis que tiveram contato."
O ministério afirma que os registros "ocorrem em meio a surtos em outros países das Américas".
O que joga contra, e entra
"42 casos num país de 200 milhões é nada." O número absoluto é baixo, e o país segue livre, segundo o ministério. O ponto é outro: São Paulo teve 2 casos em 2025 e tem 37 em 2026, e em 34 a investigação não achou a origem.
"Isso vem de fora, é culpa da fronteira." No Amazonas, sim: os casos vieram do Peru. Em São Paulo, só 2 dos 36 foram ligados a viagem, pela conta oficial.
"Então o Brasil perdeu o certificado." Não perdeu. A página oficial diz que o país mantém o status. Nenhuma fonte que eu li falou em perda.
"Qual é a cobertura vacinal hoje?" Não achei o número atualizado de 2026 nas fontes oficiais que abri. Prefiro deixar a lacuna à vista a chutar.
"O que eu faço?" A orientação oficial é conferir a caderneta. O calendário nacional prevê a vacina tríplice viral dos 12 meses aos 59 anos, em duas doses, e a dose zero a partir dos 6 meses quando o vírus circula (Rádio Senado, 14/09/2026; O Tempo, 25/09/2026). A dúvida sobre o seu caso vai para a unidade de saúde.
A resposta
O sarampo voltou a São Paulo, e com um detalhe que a manchete não conta: em 34 de 36 casos paulistas, a investigação não sabe de onde o vírus veio.
O Brasil continua com o selo de país livre. Só que, depois dos surtos de 2018, precisou ser recertificado, e isso só aconteceu em novembro de 2024.
O número para acompanhar agora é o dos casos sem origem, mais do que o total.








