Seis em cada dez brasileiros dizem que a própria saúde está ótima ou boa. Na mesma pesquisa, 63% estão acima do peso e 42% não fazem nenhuma atividade física.
Os dois números vieram juntos, em 24 de setembro. Um dia antes, a série Carga Global de Doenças tinha publicado a curva de 30 anos da obesidade no Brasil.
Eu juntei as duas pesquisas e o levantamento oficial do governo. Os três contam a mesma história por caminhos diferentes.
O fato central
A pesquisa "A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos" foi feita pelo A.C.Camargo Cancer Center com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados. Foram 2.015 entrevistas face a face, com pessoas a partir de 16 anos, nas 27 unidades da federação.
O resultado, segundo a Agência Brasil e O Tempo:
- 60% avaliam a própria saúde como ótima ou boa
- 63% estão acima do peso
- 26% têm obesidade pelo critério da OMS
- 42% não fazem atividade física
- entre os que fazem, a média é de 2,4 dias por semana
A reportagem do JR traz o mesmo estudo com 59% para a boa avaliação da saúde. A diferença de um ponto aparece entre os veículos; a Agência Brasil e O Tempo publicam 60%.
O dado do álcool
A pesquisa perguntou sobre bebida. 58% não bebem, 30% bebem de um a dois dias por semana e 5% bebem de cinco a sete dias.
Entre quem bebe de cinco a sete dias por semana, 64% dizem ter saúde ótima ou boa. Entre quem não bebe, 58%.
Quem bebe quase todo dia se acha mais saudável do que quem não bebe.
O CEO do A.C.Camargo, Victor Piana, explicou o achado ao JR: "A socialização e o relaxamento associados ao consumo frequente de álcool fazem com que a pessoa confunda sentir-se bem com estar saudável."
A curva de 30 anos
A série Carga Global de Doenças, publicada na revista Lancet, mediu o Brasil entre 1990 e 2023. Os números, segundo a Agência Brasil:
- obesidade: de 7,8% para 27,7%
- excesso de peso: de 40,3% para 66,8%
É a conta dos dois em cada três. E o Brasil foi, nas palavras da reportagem, "o país que apresentou maior crescimento entre os 17 países latino-americanos pesquisados".
A epidemiologista Deborah Carvalho Malta, da UFMG, apontou uma causa à Agência Brasil: a "substituição dos alimentos saudáveis pelos alimentos não saudáveis, como os ultraprocessados. Porque são mais baratos, tem um marketing muito grande".
Três réguas para a mesma obesidade
Existe uma terceira fonte, a do próprio governo: o Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde feito nas capitais. O relatório 2006-2024 diz que a obesidade em adultos subiu de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. O excesso de peso foi de 42,6% para 62,6%.
| Régua | Método | Ano | Obesidade | Excesso de peso |
|---|---|---|---|---|
| Carga Global de Doenças (Lancet) | estimativa por modelo, país inteiro | 2023 | 27,7% | 66,8% |
| Vigitel (Ministério da Saúde) | entrevista por telefone, capitais | 2024 | 25,7% | 62,6% |
| A.C.Camargo e Nexus | entrevista presencial, 27 UFs | 2026 | 26% | 63% |
Os números não batem porque cada régua mede de um jeito. Uma estima o país inteiro por modelo estatístico. Outra liga para telefones nas capitais. A terceira bate na porta em todos os estados. Os anos também são diferentes.
O que chama atenção é o contrário: com três métodos, o resultado fica entre 25,7% e 27,7% de obesidade. É um adulto em cada quatro.
A régua entra na política
O número do Vigitel foi parar no pedido que o Ministério da Saúde protocolou na Conitec em 24 de setembro, para levar canetas de emagrecer ao SUS. O ministério cita a alta de 11,8% para 25,7% como argumento.
Para a OMS, excesso de peso em adulto é índice de massa corporal (IMC) igual ou maior que 25. Obesidade é IMC igual ou maior que 30.
No mundo, a OMS contava em 2022 43% dos adultos com excesso de peso e 16% com obesidade. O Brasil está acima da média mundial nas duas contas, com a ressalva de que ano e método são diferentes.
O que atrapalha comer melhor
A pesquisa do A.C.Camargo perguntou por que as pessoas não comem como gostariam. 29% citam o preço de carne fresca, fruta e verdura. 21% citam falta de tempo e cansaço.
O corte por renda muda a resposta, segundo o JR. Entre quem ganha até um salário mínimo, 40% relatam dificuldade para se alimentar bem. Acima de cinco salários, são 10%, e o obstáculo principal passa a ser o tempo.
66% dizem comer alimentos frescos seis dias ou mais por semana.
O que joga contra, e entra
"IMC não mede saúde de ninguém." O IMC é a régua que a OMS usa para definir excesso de peso e obesidade em adultos. Serve para comparar populações. O diagnóstico de cada pessoa é do médico.
"Pesquisa de hospital de câncer puxa para o câncer." A metodologia está publicada: 2.015 entrevistas presenciais, 27 estados. E os números de peso batem com o Vigitel, que é do governo, e com a Carga Global de Doenças.
"Os números são diferentes, então alguém errou." Não necessariamente. São três métodos, três anos e três recortes. A diferença entre eles é de dois pontos, e todos apontam para um adulto em cada quatro com obesidade.
"Então basta cada um fazer dieta." Este texto não dá receita. A própria pesquisa mostra que preço e tempo pesam, e que o peso muda com a renda. Quem tem dúvida sobre a própria saúde deve procurar um profissional.
A resposta
O brasileiro se acha mais saudável do que os números dizem. Seis em cada dez avaliam a saúde como boa, e dois em cada três estão acima do peso pela conta da Carga Global de Doenças.
A curva triplicou em 30 anos. Três réguas diferentes chegam ao mesmo lugar: um adulto em cada quatro com obesidade.
E o dado mais estranho da semana ficou com o álcool: quem bebe quase todo dia é quem mais se acha saudável.








