Revista De Castro

Saúde / 26 de setembro de 2026

Eu fui checar

Seis em cada dez brasileiros se acham saudáveis. Dois em cada três estão acima do peso

Duas pesquisas saíram na mesma semana. Uma, na série Carga Global de Doenças, mostra que a obesidade no Brasil triplicou em 30 anos. A outra, do A.C.Camargo, mostra que o brasileiro não se enxerga nesse número. Eu coloquei lado a lado as três réguas oficiais da obesidade, expliquei por que elas não batem e achei o dado do álcool que ninguém esperava.

Publicado
26 de setembro de 2026
Atualizado
26 de setembro de 2026
Editoria
Saúde
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5 min
Fontes
8 citadas
Balança. Imagem ilustrativa. Foto: Frank C. Müller / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Balança. Imagem ilustrativa. Foto: Frank C. Müller / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Seis em cada dez brasileiros dizem que a própria saúde está ótima ou boa. Na mesma pesquisa, 63% estão acima do peso e 42% não fazem nenhuma atividade física.

Os dois números vieram juntos, em 24 de setembro. Um dia antes, a série Carga Global de Doenças tinha publicado a curva de 30 anos da obesidade no Brasil.

Eu juntei as duas pesquisas e o levantamento oficial do governo. Os três contam a mesma história por caminhos diferentes.

O fato central

A pesquisa "A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos" foi feita pelo A.C.Camargo Cancer Center com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados. Foram 2.015 entrevistas face a face, com pessoas a partir de 16 anos, nas 27 unidades da federação.

O resultado, segundo a Agência Brasil e O Tempo:

  • 60% avaliam a própria saúde como ótima ou boa
  • 63% estão acima do peso
  • 26% têm obesidade pelo critério da OMS
  • 42% não fazem atividade física
  • entre os que fazem, a média é de 2,4 dias por semana

A reportagem do JR traz o mesmo estudo com 59% para a boa avaliação da saúde. A diferença de um ponto aparece entre os veículos; a Agência Brasil e O Tempo publicam 60%.

O dado do álcool

A pesquisa perguntou sobre bebida. 58% não bebem, 30% bebem de um a dois dias por semana e 5% bebem de cinco a sete dias.

Entre quem bebe de cinco a sete dias por semana, 64% dizem ter saúde ótima ou boa. Entre quem não bebe, 58%.

Quem bebe quase todo dia se acha mais saudável do que quem não bebe.

O CEO do A.C.Camargo, Victor Piana, explicou o achado ao JR: "A socialização e o relaxamento associados ao consumo frequente de álcool fazem com que a pessoa confunda sentir-se bem com estar saudável."

A curva de 30 anos

A série Carga Global de Doenças, publicada na revista Lancet, mediu o Brasil entre 1990 e 2023. Os números, segundo a Agência Brasil:

  • obesidade: de 7,8% para 27,7%
  • excesso de peso: de 40,3% para 66,8%

É a conta dos dois em cada três. E o Brasil foi, nas palavras da reportagem, "o país que apresentou maior crescimento entre os 17 países latino-americanos pesquisados".

A epidemiologista Deborah Carvalho Malta, da UFMG, apontou uma causa à Agência Brasil: a "substituição dos alimentos saudáveis pelos alimentos não saudáveis, como os ultraprocessados. Porque são mais baratos, tem um marketing muito grande".

Três réguas para a mesma obesidade

Existe uma terceira fonte, a do próprio governo: o Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde feito nas capitais. O relatório 2006-2024 diz que a obesidade em adultos subiu de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. O excesso de peso foi de 42,6% para 62,6%.

RéguaMétodoAnoObesidadeExcesso de peso
Carga Global de Doenças (Lancet)estimativa por modelo, país inteiro202327,7%66,8%
Vigitel (Ministério da Saúde)entrevista por telefone, capitais202425,7%62,6%
A.C.Camargo e Nexusentrevista presencial, 27 UFs202626%63%

Os números não batem porque cada régua mede de um jeito. Uma estima o país inteiro por modelo estatístico. Outra liga para telefones nas capitais. A terceira bate na porta em todos os estados. Os anos também são diferentes.

O que chama atenção é o contrário: com três métodos, o resultado fica entre 25,7% e 27,7% de obesidade. É um adulto em cada quatro.

A régua entra na política

O número do Vigitel foi parar no pedido que o Ministério da Saúde protocolou na Conitec em 24 de setembro, para levar canetas de emagrecer ao SUS. O ministério cita a alta de 11,8% para 25,7% como argumento.

Para a OMS, excesso de peso em adulto é índice de massa corporal (IMC) igual ou maior que 25. Obesidade é IMC igual ou maior que 30.

No mundo, a OMS contava em 2022 43% dos adultos com excesso de peso e 16% com obesidade. O Brasil está acima da média mundial nas duas contas, com a ressalva de que ano e método são diferentes.

O que atrapalha comer melhor

A pesquisa do A.C.Camargo perguntou por que as pessoas não comem como gostariam. 29% citam o preço de carne fresca, fruta e verdura. 21% citam falta de tempo e cansaço.

O corte por renda muda a resposta, segundo o JR. Entre quem ganha até um salário mínimo, 40% relatam dificuldade para se alimentar bem. Acima de cinco salários, são 10%, e o obstáculo principal passa a ser o tempo.

66% dizem comer alimentos frescos seis dias ou mais por semana.

O que joga contra, e entra

"IMC não mede saúde de ninguém." O IMC é a régua que a OMS usa para definir excesso de peso e obesidade em adultos. Serve para comparar populações. O diagnóstico de cada pessoa é do médico.

"Pesquisa de hospital de câncer puxa para o câncer." A metodologia está publicada: 2.015 entrevistas presenciais, 27 estados. E os números de peso batem com o Vigitel, que é do governo, e com a Carga Global de Doenças.

"Os números são diferentes, então alguém errou." Não necessariamente. São três métodos, três anos e três recortes. A diferença entre eles é de dois pontos, e todos apontam para um adulto em cada quatro com obesidade.

"Então basta cada um fazer dieta." Este texto não dá receita. A própria pesquisa mostra que preço e tempo pesam, e que o peso muda com a renda. Quem tem dúvida sobre a própria saúde deve procurar um profissional.

A resposta

O brasileiro se acha mais saudável do que os números dizem. Seis em cada dez avaliam a saúde como boa, e dois em cada três estão acima do peso pela conta da Carga Global de Doenças.

A curva triplicou em 30 anos. Três réguas diferentes chegam ao mesmo lugar: um adulto em cada quatro com obesidade.

E o dado mais estranho da semana ficou com o álcool: quem bebe quase todo dia é quem mais se acha saudável.

Fontes desta materia

  1. Agência Brasil, Em 30 anos, obesidade triplica e atinge 1/4 da população adulta (23/09/2026)
  2. Agência Brasil, Brasileiros se sentem mais saudáveis do que são, diz pesquisa (24/09/2026)
  3. O Tempo, Brasileiros se consideram saudáveis, mas maioria está acima do peso e não se exercita (26/09/2026)
  4. JR, Brasileiros se sentem mais saudáveis do que são, diz pesquisa (25/09/2026)
  5. Ministério da Saúde, Vigitel Brasil 2006-2024 (relatório em PDF)
  6. Ministério da Saúde, página das publicações do Vigitel
  7. Ministério da Saúde, pedido à Conitec com o dado de obesidade (24/09/2026)
  8. Organização Mundial da Saúde, Obesity and overweight, fact sheet