Revista De Castro

Bem-estar / 26 de setembro de 2026

Eu fui checar

Solidão rouba até seis anos de vida saudável. A frase pronta do Setembro Amarelo não devolve nenhum

Um estudo com 277 mil adultos mediu quanto tempo de vida sem doença a solidão tira de cada pessoa. O homem perde mais saúde mental que a mulher, e academia com salada não compensa o que falta de gente. Enquanto isso, o brasileiro foi ao Google procurar frase pronta para imprimir. Eu fui ler o estudo, os números da OMS e o que os dois temas do mês dizem.

Publicado
26 de setembro de 2026
Atualizado
26 de setembro de 2026
Editoria
Bem-estar
Leitura
6 min
Fontes
9 citadas
Shixart1985 / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
Shixart1985 / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

No dia 4 de setembro, uma busca subiu 3.950% no Google brasileiro: "frases setembro amarelo para imprimir pdf".

Duas semanas antes, uma universidade americana tinha publicado a conta de quanto a solidão custa em anos de vida. O número chega a seis.

As duas coisas cabem no mesmo mês. E dizem coisas opostas sobre o que protege uma pessoa.

O fato central

A pesquisa é da Universidade Tulane, nos Estados Unidos, e saiu em agosto de 2026 na revista Nature Communications, segundo o comunicado da própria universidade.

Os pesquisadores acompanharam 277.489 adultos do UK Biobank, o grande banco de dados de saúde do Reino Unido. Todos tinham entre 40 e 69 anos e começaram o estudo sem nenhuma de sete doenças crônicas graves.

A pergunta era simples: quantos anos de vida sem doença a pessoa perde quando vive sozinha, se sente sozinha, ou as duas coisas?

A resposta, para quem tinha as duas:

QuemAnos perdidos sem doença físicaAnos perdidos sem transtorno mental
Mulheres2,43,7
Homens1,75,8

O coordenador, Lu Qi, resumiu assim no comunicado: "o isolamento social e a solidão podem ter um impacto significativo na expectativa de vida livre de doenças" (tradução livre).

Solidão e isolamento são duas coisas

O estudo separa os dois conceitos, e essa separação é o que mais importa para quem quer ajudar alguém.

Isolamento é objetivo: poucos contatos, pouca convivência, morar sozinho, não ver ninguém.

Solidão é subjetiva: a pessoa pode ter família em volta e sentir que ninguém a enxerga.

Uma casa cheia pode abrigar alguém solitário. Um eremita satisfeito pode estar isolado e em paz.

A virada: academia não substitui gente

Aqui está o dado que ficou fora das manchetes que eu li.

Os pesquisadores testaram se um estilo de vida saudável amortecia o estrago. Dieta boa, exercício, sono em dia, não fumar.

Para o isolamento, amorteceu. Quem vivia isolado, mas cuidava do corpo, perdeu menos anos saudáveis.

Para a solidão, não houve redução significativa. O risco ligado a se sentir sozinho continuou ali, com ou sem salada e academia.

A leitura que o estudo permite é esta: o corpo bem cuidado protege contra parte do que a falta de convivência faz. Contra o sentimento de não ter com quem contar, ele não bastou.

O homem perde mais

A tabela tem uma assimetria que salta aos olhos. O homem solitário e isolado perde 5,8 anos sem transtorno mental. A mulher, 3,7.

O estudo mede, não explica o porquê. Qualquer razão que eu desse aqui seria palpite, e palpite não entra.

O que dá para dizer com número é que, entre as pessoas do estudo, a solidão cobrou mais da saúde mental dos homens.

Os números do mundo

A OMS publicou em junho de 2025 o relatório da sua Comissão sobre Conexão Social. Os números:

  • cerca de 871 mil mortes por ano ligadas à solidão;
  • 1 em cada 6 pessoas no mundo se sente sozinha;
  • entre 13 e 29 anos, de 17% a 21% relatam solidão;
  • nos países de baixa renda, 24%; nos de alta renda, 11%.

Na ficha sobre suicídio, atualizada em 28 de agosto de 2026, a OMS contabiliza mais de 727 mil mortes por ano. É a terceira causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, e 73% dos casos acontecem em países de renda baixa ou média, como o Brasil.

A campanha Setembro Amarelo, da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina, fala em cerca de 14 mil casos por ano no país, o equivalente a 38 por dia.

Os jovens entraram na conta

Durante anos, a ciência da felicidade repetiu que o pior momento da vida era a meia-idade.

Em fevereiro de 2025, a psicóloga Jean Twenge e o economista David Blanchflower publicaram no NBER, o escritório nacional de pesquisa econômica dos EUA, que esse padrão sumiu em seis países de língua inglesa. Hoje, nesses países, quem relata menos satisfação com a vida são os jovens adultos.

Junte isso com os 17% a 21% de solidão entre 13 e 29 anos medidos pela OMS e o retrato fica claro: a solidão deixou de ser assunto de idoso.

O que o Brasil procurou

A VIVA publicou em 4 de setembro dados exclusivos do Google Trends. As buscas por "Setembro Amarelo" subiram 220% de uma quarta para uma quinta-feira.

Entre as dez buscas mais comuns estavam textos, frases, mensagens, desenhos e trabalhos escolares sobre o tema. E a que mais cresceu foi a das frases prontas para imprimir.

O psiquiatra Ciro Jorge do Nascimento disse à VIVA que ninguém precisa achar a frase perfeita para tirar o sofrimento de alguém. O que precisa é criar condições para que a pessoa não enfrente aquilo sozinha.

O Centro de Valorização da Vida escolheu como tema de 2026 exatamente isso: "Escutar é estar presente". A ABP e o CFM foram pelo outro lado da mesma ponte: "Se precisar, peça ajuda!".

Um tema fala com quem pode ouvir. O outro, com quem precisa ser ouvido.

Também tem trabalho no meio

O Estado de Minas publicou em 24 de setembro, com dados do Ministério da Previdência Social, que os afastamentos por esgotamento profissional foram de 823 em 2021 para 7.595 em 2025.

E a solidão e o sofrimento psicológico não ficam só na cabeça. Um estudo do Imperial College London divulgado em 21 de setembro, com quase 480 mil britânicos, ligou sofrimento psicológico e desvantagem social a inflamação crônica no sangue e a mudanças no formato do coração.

O que joga contra, e entra

"É estudo com inglês, não serve para o Brasil." O UK Biobank é britânico e majoritariamente branco, entre 40 e 69 anos. O número exato de anos não pode ser transposto para cá. A direção do achado, que solidão e isolamento cobram saúde, aparece também nos dados globais da OMS, que incluem países como o nosso.

"Correlação não é causa." Correto, e os próprios autores dizem isso. É um estudo observacional. Pode ser que parte das pessoas já estivesse adoecendo e, por isso, se afastasse. A Tulane informa que o próximo passo é testar causalidade com ensaios clínicos.

"Então exercício não adianta nada?" Adianta. Ele reduziu o estrago do isolamento. O que o estudo não encontrou foi efeito dele sobre o risco ligado à solidão.

"Frase pronta ao menos ajuda a abrir a conversa." Pode ajudar. O ponto dos especialistas ouvidos pela VIVA é que ela não substitui a conversa. Imprimir a frase é o começo, e o que protege é o que vem depois dela.

A resposta

A solidão tira anos de vida saudável, e o estudo da Tulane pôs número nisso: até 5,8 anos de saúde mental para o homem, 3,7 para a mulher.

Não existe cartaz que devolva esses anos. O que os dados sugerem é mais trabalhoso e mais barato: estar perto, perguntar, ouvir até o fim.

Se você está passando por um momento difícil, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br. Se alguém perto de você está, ligue antes de imprimir qualquer coisa.

Fontes desta materia

  1. EurekAlert (Universidade Tulane), Lonely? Socially isolated? It may cost you six healthy years of life
  2. VIVA, Setembro Amarelo: buscas no Google disparam 220% em apenas um dia
  3. Organização Mundial da Saúde, ficha Suicide
  4. Organização Mundial da Saúde, relatório da Comissão sobre Conexão Social
  5. CVV, Centro de Valorização da Vida
  6. ABP e CFM, campanha Setembro Amarelo
  7. NBER, Twenge e Blanchflower, Declining Life Satisfaction and Happiness Among Young Adults
  8. Estado de Minas, Setembro Amarelo reforça debate sobre saúde mental
  9. ScienceDaily, Chronic stress may be quietly reshaping your heart