No dia 4 de setembro, uma busca subiu 3.950% no Google brasileiro: "frases setembro amarelo para imprimir pdf".
Duas semanas antes, uma universidade americana tinha publicado a conta de quanto a solidão custa em anos de vida. O número chega a seis.
As duas coisas cabem no mesmo mês. E dizem coisas opostas sobre o que protege uma pessoa.
O fato central
A pesquisa é da Universidade Tulane, nos Estados Unidos, e saiu em agosto de 2026 na revista Nature Communications, segundo o comunicado da própria universidade.
Os pesquisadores acompanharam 277.489 adultos do UK Biobank, o grande banco de dados de saúde do Reino Unido. Todos tinham entre 40 e 69 anos e começaram o estudo sem nenhuma de sete doenças crônicas graves.
A pergunta era simples: quantos anos de vida sem doença a pessoa perde quando vive sozinha, se sente sozinha, ou as duas coisas?
A resposta, para quem tinha as duas:
| Quem | Anos perdidos sem doença física | Anos perdidos sem transtorno mental |
|---|---|---|
| Mulheres | 2,4 | 3,7 |
| Homens | 1,7 | 5,8 |
O coordenador, Lu Qi, resumiu assim no comunicado: "o isolamento social e a solidão podem ter um impacto significativo na expectativa de vida livre de doenças" (tradução livre).
Solidão e isolamento são duas coisas
O estudo separa os dois conceitos, e essa separação é o que mais importa para quem quer ajudar alguém.
Isolamento é objetivo: poucos contatos, pouca convivência, morar sozinho, não ver ninguém.
Solidão é subjetiva: a pessoa pode ter família em volta e sentir que ninguém a enxerga.
Uma casa cheia pode abrigar alguém solitário. Um eremita satisfeito pode estar isolado e em paz.
A virada: academia não substitui gente
Aqui está o dado que ficou fora das manchetes que eu li.
Os pesquisadores testaram se um estilo de vida saudável amortecia o estrago. Dieta boa, exercício, sono em dia, não fumar.
Para o isolamento, amorteceu. Quem vivia isolado, mas cuidava do corpo, perdeu menos anos saudáveis.
Para a solidão, não houve redução significativa. O risco ligado a se sentir sozinho continuou ali, com ou sem salada e academia.
A leitura que o estudo permite é esta: o corpo bem cuidado protege contra parte do que a falta de convivência faz. Contra o sentimento de não ter com quem contar, ele não bastou.
O homem perde mais
A tabela tem uma assimetria que salta aos olhos. O homem solitário e isolado perde 5,8 anos sem transtorno mental. A mulher, 3,7.
O estudo mede, não explica o porquê. Qualquer razão que eu desse aqui seria palpite, e palpite não entra.
O que dá para dizer com número é que, entre as pessoas do estudo, a solidão cobrou mais da saúde mental dos homens.
Os números do mundo
A OMS publicou em junho de 2025 o relatório da sua Comissão sobre Conexão Social. Os números:
- cerca de 871 mil mortes por ano ligadas à solidão;
- 1 em cada 6 pessoas no mundo se sente sozinha;
- entre 13 e 29 anos, de 17% a 21% relatam solidão;
- nos países de baixa renda, 24%; nos de alta renda, 11%.
Na ficha sobre suicídio, atualizada em 28 de agosto de 2026, a OMS contabiliza mais de 727 mil mortes por ano. É a terceira causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, e 73% dos casos acontecem em países de renda baixa ou média, como o Brasil.
A campanha Setembro Amarelo, da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina, fala em cerca de 14 mil casos por ano no país, o equivalente a 38 por dia.
Os jovens entraram na conta
Durante anos, a ciência da felicidade repetiu que o pior momento da vida era a meia-idade.
Em fevereiro de 2025, a psicóloga Jean Twenge e o economista David Blanchflower publicaram no NBER, o escritório nacional de pesquisa econômica dos EUA, que esse padrão sumiu em seis países de língua inglesa. Hoje, nesses países, quem relata menos satisfação com a vida são os jovens adultos.
Junte isso com os 17% a 21% de solidão entre 13 e 29 anos medidos pela OMS e o retrato fica claro: a solidão deixou de ser assunto de idoso.
O que o Brasil procurou
A VIVA publicou em 4 de setembro dados exclusivos do Google Trends. As buscas por "Setembro Amarelo" subiram 220% de uma quarta para uma quinta-feira.
Entre as dez buscas mais comuns estavam textos, frases, mensagens, desenhos e trabalhos escolares sobre o tema. E a que mais cresceu foi a das frases prontas para imprimir.
O psiquiatra Ciro Jorge do Nascimento disse à VIVA que ninguém precisa achar a frase perfeita para tirar o sofrimento de alguém. O que precisa é criar condições para que a pessoa não enfrente aquilo sozinha.
O Centro de Valorização da Vida escolheu como tema de 2026 exatamente isso: "Escutar é estar presente". A ABP e o CFM foram pelo outro lado da mesma ponte: "Se precisar, peça ajuda!".
Um tema fala com quem pode ouvir. O outro, com quem precisa ser ouvido.
Também tem trabalho no meio
O Estado de Minas publicou em 24 de setembro, com dados do Ministério da Previdência Social, que os afastamentos por esgotamento profissional foram de 823 em 2021 para 7.595 em 2025.
E a solidão e o sofrimento psicológico não ficam só na cabeça. Um estudo do Imperial College London divulgado em 21 de setembro, com quase 480 mil britânicos, ligou sofrimento psicológico e desvantagem social a inflamação crônica no sangue e a mudanças no formato do coração.
O que joga contra, e entra
"É estudo com inglês, não serve para o Brasil." O UK Biobank é britânico e majoritariamente branco, entre 40 e 69 anos. O número exato de anos não pode ser transposto para cá. A direção do achado, que solidão e isolamento cobram saúde, aparece também nos dados globais da OMS, que incluem países como o nosso.
"Correlação não é causa." Correto, e os próprios autores dizem isso. É um estudo observacional. Pode ser que parte das pessoas já estivesse adoecendo e, por isso, se afastasse. A Tulane informa que o próximo passo é testar causalidade com ensaios clínicos.
"Então exercício não adianta nada?" Adianta. Ele reduziu o estrago do isolamento. O que o estudo não encontrou foi efeito dele sobre o risco ligado à solidão.
"Frase pronta ao menos ajuda a abrir a conversa." Pode ajudar. O ponto dos especialistas ouvidos pela VIVA é que ela não substitui a conversa. Imprimir a frase é o começo, e o que protege é o que vem depois dela.
A resposta
A solidão tira anos de vida saudável, e o estudo da Tulane pôs número nisso: até 5,8 anos de saúde mental para o homem, 3,7 para a mulher.
Não existe cartaz que devolva esses anos. O que os dados sugerem é mais trabalhoso e mais barato: estar perto, perguntar, ouvir até o fim.
Se você está passando por um momento difícil, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br. Se alguém perto de você está, ligue antes de imprimir qualquer coisa.








