Nenhuma carne cultivada em laboratório foi aprovada para venda no Brasil. A regra que permite pedir essa aprovação existe desde 16 de março de 2024, quando entrou em vigor a RDC 839/2023 da Anvisa, e em dois anos e meio nenhum produto passou por ela.
Enquanto isso, a JBS tem fábrica desse produto na Espanha, e Singapura aprovou em agosto o primeiro bife cultivado fora de Israel. Eu fui ler o que é fato e o que é barulho.
O que é carne cultivada?
É carne feita de célula animal, sem abater o animal inteiro. O Jornal de Brasília, em reportagem sobre o trabalho da Embrapa, descreve assim o começo: "A produção começa com a retirada de uma pequena amostra de células de animais vivos, equivalente a uma biópsia."
Depois, essas células vão para um líquido com oxigênio, glicose, aminoácidos e sais minerais, e se multiplicam. Pense numa cervejaria: em vez de levedura, o tanque de aço cria células de boi, frango ou peixe.
Existe um detalhe que pouca gente conhece. O líquido mais usado em laboratório para as células crescerem é o soro fetal bovino. A Revista Pesquisa FAPESP explica de onde ele vem: "A substância é extraída do sangue de fetos de vacas prenhas enviados para abate." Segundo a engenheira de alimentos Rosana Goldbeck, da Unicamp, esse soro corresponde a 95% do custo de produção. A equipe dela testa proteína de soja, amendoim e girassol para substituir parte dele.
O que a Anvisa aprovou, afinal?
A Anvisa aprovou uma regra, e só. A RDC 839/2023, datada de 14 de dezembro de 2023, colocou os alimentos obtidos de cultivo de células na lista de "novos alimentos". Cada empresa precisa entregar dados de segurança: linhagem das células, processo, composição do meio de cultivo e valor nutricional do produto final.
Em 2023, sites do agro publicaram que a carne de laboratório tinha sido "aprovada no Brasil". Foi aprovado o caminho, e produto nenhum.
Falta ainda a parte do Ministério da Agricultura. Segundo o GFI Brasil, o ministério precisa definir registro, rótulo e fiscalização da fábrica antes de alguém produzir aqui.
E existe uma tentativa de fechar a porta. O deputado Tião Medeiros (PP-PR) apresentou em 4 de março de 2024 o PDL 27/2024, que derruba a resolução. A justificativa cita "suspeitas sobre seu potencial cancerígeno". Desde 25 de fevereiro de 2025, o projeto está parado na Comissão de Saúde da Câmara, sem relator.
Quem no Brasil está nisso?
Embrapa. A Embrapa Suínos e Aves, de Concórdia (SC), e o laboratório de nanobiotecnologia da Embrapa em Brasília já fizeram protótipos de filé de peito de frango. Segundo o biólogo Luciano Paulino da Silva, ouvido pelo Jornal de Brasília em 14 de junho, o protótipo deve ficar pronto em 2027.
JBS. Em novembro de 2021, a JBS comprou 51% da espanhola BioTech Foods, de San Sebastián. Em 2023, anunciou lá uma fábrica de US$ 41 milhões para mais de mil toneladas por ano, e em Florianópolis um centro de pesquisa de US$ 62 milhões, previsto para o fim de 2024. O centro, a JBS Biotech, só abriu em 1º de abril de 2026: 4 mil metros quadrados, mais de 20 laboratórios, cerca de R$ 200 milhões, comandado pela engenheira química Fernanda Berti.
A virada está no discurso da inauguração. A cobertura falou de "superproteínas", nutrição de precisão e saúde animal. A carne cultivada quase não apareceu. E a CNN Brasil registrou em abril que a produção comercial da JBS deve ser "inicialmente fora do Brasil". Só que a União Europeia também não aprovou nenhuma carne cultivada até agora.
BRF. Em 2021, a BRF colocou US$ 2,5 milhões na israelense Aleph Farms, com acordo para trazer carne bovina cultivada ao Brasil em 2024. Não chegou: não há aprovação da Anvisa.
A FAPESP contou, em 2024, três startups brasileiras, os grupos JBS e BRF e 21 equipes de pesquisa no país.
Onde já dá para comprar?
| Onde | Empresa | Produto | Quando |
|---|---|---|---|
| Singapura | Good Meat | frango | dezembro de 2020 |
| Estados Unidos | Upside Foods e Good Meat | frango | junho de 2023 |
| Israel | Aleph Farms | boi | janeiro de 2024 |
| Estados Unidos | Wildtype | salmão | 2025 |
| Estados Unidos | Mission Barns | gordura de porco | 2025 |
| Singapura | Parima | pato | abril de 2026 |
| Singapura | Aleph Farms | bife fino | 4 de agosto de 2026 |
Aprovar é diferente de vender. Um balanço publicado pela revista vegconomist em 31 de agosto conta perto de uma dúzia de aprovações no mundo e nenhum produto vendido em escala comercial. O bife de Singapura só chega aos restaurantes no primeiro semestre de 2027. E ele mistura células de uma vaca Black Angus com proteína de soja e trigo.
Nos Estados Unidos, a primeira venda em supermercado foi em novembro de 2025: almôndegas com gordura de porco cultivada, a US$ 13,99 a bandeja de 304 gramas, numa loja da Califórnia.

Quanto custa?
O primeiro hambúrguer, apresentado em Londres em 5 de agosto de 2013 pelo cientista holandês Mark Post, custou 250 mil euros. Quem pagou foi Sergey Brin, cofundador do Google.
Hoje, a consultoria Arthur D. Little estima cerca de 40 euros o quilo, com chance de chegar a 10 euros até o fim da década. Abaixo disso, parte dos produtos começaria a competir com a carne comum.
Quem proibiu?
A Itália foi o primeiro país: lei aprovada em novembro de 2023, com multas de 10 mil a 60 mil euros.
Nos Estados Unidos, sete estados proíbem produzir e vender: Alabama, Flórida, Indiana, Mississippi, Montana, Nebraska e Texas. A Dakota do Sul aprovou em março de 2026 uma proibição de cinco anos. A Louisiana tem lei em vigor desde 1º de agosto, que só pega depois de uma decisão da Suprema Corte americana. No Texas, a pena prevista vai até um ano de prisão, e duas empresas processam o estado. Tudo isso no país cujo governo federal já aprovou cinco produtos.

O que joga contra, e entra
"Dá câncer." Nenhuma agência de saúde encontrou isso. A FDA, dos Estados Unidos, afirmou que as células usadas "sequer têm capacidade para formar tumores", segundo reportagem da DW publicada pelo Metrópoles em 2023. O relatório da FAO e da OMS de abril de 2023 concluiu que a maior parte dos riscos é a mesma da comida comum: contaminação, alergênicos, resíduos. O mesmo relatório avisa que não dá para excluir riscos novos, porque é tecnologia nova.
"Ninguém sabe o efeito a longo prazo." Isso procede. A primeira venda do mundo foi em dezembro de 2020, e até hoje nada foi vendido em escala. Não existe gente comendo isso todo dia há anos para medir.
"Vai quebrar o pecuarista brasileiro." O Brasil fechou 2024 com 238,2 milhões de bois, mais bois que gente, e abate recorde de 39,7 milhões de cabeças, segundo o IBGE. A mesma JBS que abate esse gado investe em carne cultivada. Por enquanto, nenhum dos dois produtos tira o outro da prateleira, porque um deles nem está na prateleira.
"É mais sustentável." A BRF disse em 2021 que análises de ciclo de vida apontam mais de 90% menos terra e até 50% menos água. É número da empresa, e sem produção em escala ninguém mediu isso numa fábrica de verdade.
"Tem que estar no rótulo." Aqui os dois lados costumam concordar. No Brasil, o rótulo desse produto depende de norma do Ministério da Agricultura que ainda não existe. Em março, a Câmara aprovou projeto que reserva a palavra "carne" para produto de origem animal, pensado para o hambúrguer de soja. A carne cultivada vem de célula animal, e o texto não trata dela.
"Proibir protege a saúde." Onde se proibiu, o argumento oficial misturou saúde com emprego e tradição. O ministro da Agricultura da Itália, Francesco Lollobrigida, apresentou a lei em 2023 como defesa da saúde, do sistema produtivo, dos empregos e da cultura italiana.
"Querem me obrigar a comer." Nenhuma regra no mundo obriga ninguém. A briga real é se você pode escolher, e se vai saber o que escolheu.
Perguntas que chegam nos comentários
A carne de laboratório já é vendida no Brasil?
Não. A Anvisa tem regra desde 16 de março de 2024 (RDC 839/2023), mas nenhum produto foi aprovado até setembro de 2026.
A Anvisa aprovou a carne cultivada?
Aprovou o caminho para pedir a avaliação. Cada produto precisa de análise própria, e o Ministério da Agricultura ainda precisa definir registro e rótulo.
Carne cultivada causa câncer?
Nenhuma agência de saúde encontrou evidência disso. FAO e OMS dizem que a maior parte dos riscos é a mesma da comida comum e que riscos novos ainda precisam ser estudados.
Quando a Embrapa vai ter carne cultivada?
O protótipo está previsto para 2027, segundo o biólogo Luciano Paulino da Silva, da Embrapa. Protótipo ainda não é produto à venda.
Onde já se vende carne cultivada?
Houve vendas pontuais em Singapura e nos Estados Unidos. Israel também aprovou. Nenhum produto é vendido em escala comercial.
A resposta
A carne de laboratório no Brasil tem regra, tem dinheiro da JBS, tem pesquisa da Embrapa e tem um projeto na Câmara para derrubar tudo. Falta o principal: um produto aprovado.
O resto do mundo mostra que a aprovação vem antes da escala, e a escala ainda não veio para ninguém. A pergunta que vai chegar à sua mesa, talvez depois de 2027, é simples.
Você comeria?








