O manuscrito tinha três mil páginas escritas à mão.
Nenhuma editora quis.
A revista já publicou 22 matérias sobre Augusto Cury nesta campanha: o que ele disse sobre Moraes, o vínculo com a USP, os R$ 31 milhões na Fictor, cada pesquisa. Nenhuma delas conta a vida dele. Esta conta.
Ele faz 68 anos em 2 de outubro, dois dias antes da eleição.
Colina, 1958
Nasceu em 2 de outubro de 1958 em Colina, interior de São Paulo, cidade pequena perto de Barretos. O pai, Salomão Jorge Cury, era fazendeiro e advogado. A mãe, Ana Regina Brait Cury. Seis filhos, dos quais um viraria juiz federal.
Um perfil publicado pela revista Trip em 2010 registra duas coisas sobre esse começo: a família tinha condições relativamente modestas, e ele teve dificuldades escolares durante parte da infância e da adolescência.
Aqui eu paro e sou honesto com você. Não existe entrevista em que ele detalhe o que eram essas dificuldades. Não achei nenhum relato dele dizendo que repetiu de ano ou que era o pior da turma. O que existe é o registro de um perfil de 2010, e é só isso que eu afirmo.
O menino com dificuldade na escola entrou na faculdade de Medicina.
O terceiro ano, e o que ele chama de estopim
Começo dos anos 1980. Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, hoje Famerp.
Foi ali que a vida dele virou, e não foi por uma boa notícia.
Ele conta que passou por uma crise emocional e um episódio depressivo entre o segundo e o terceiro ano do curso. A frase dele situa o marco: foi "quando passei pelos vales de uma crise emocional, do segundo para o terceiro ano da faculdade de medicina".
A pergunta que ficou depois é a que organizou o resto da vida dele: por que eu tenho tão pouco controle sobre as minhas próprias emoções?
Segundo o relato dele, essa depressão foi o estopim de toda a trajetória. Ele se transformou em objeto de pesquisa de si mesmo e passou os anos seguintes tentando entender o que chamaria de mecanismos de construção do pensamento.
Do diagnóstico, do tratamento e da duração não existe registro público. Não invento.
Formou-se em 1984 e virou psiquiatra e psicoterapeuta.
Os anos de "não"
Aqui está a parte da história que quase não aparece nas manchetes.
Entre a formatura e o primeiro livro, passaram-se quinze anos.
Nesse intervalo ele acumulou milhares de páginas manuscritas e bateu em porta de editora. A frase dele sobre esse período é curta:
"Por anos, fui rejeitado por dezenas de editoras."
Quantas exatamente, ele não diz, e nenhuma fonte traz o número. Fica como ele contou: dezenas.
Quando alguém finalmente aceitou, veio a segunda parte do problema. O manuscrito de Inteligência Multifocal tinha cerca de três mil páginas. Para virar livro em 1999, teve de ser cortado para quatrocentas, com a linguagem reescrita em metáforas e siglas que qualquer pessoa entendesse.
Ele cortou 2.600 páginas para ser publicado. Foi esse corte que fez o resto acontecer.
A obra, com os números que não batem
Aqui a matéria não escolhe a versão mais bonita.
| Fonte | Livros | Exemplares |
|---|---|---|
| Registro de 2011 | 28 obras | cerca de 11 milhões |
| Registro de 2016 | 27 milhões no Brasil | |
| Registro de 2017 | mais de 50 | mais de 30 milhões |
| Terra, setembro de 2026 | mais de 70 | cerca de 35 milhões |
| Site oficial e campanha, 2026 | mais de 70 | mais de 40 milhões |
| Levantamentos independentes | 25 a 30 milhões |
O que dá para afirmar sem exagero: mais de 70 livros, publicados em mais de 70 países, com vendas estimadas entre 25 e mais de 40 milhões de exemplares, dependendo de quem faz a conta.
Alguns números de título isolado são mais firmes. Ansiedade: Como Enfrentar o Mal do Século passou cerca de 180 semanas não consecutivas nas listas de mais vendidos da Veja. O Vendedor de Sonhos, de 2008, passou de 2,5 milhões de exemplares, virou peça e virou filme. Nunca Desista de Seus Sonhos passou de 2,3 milhões.
Em 2009 ele ganhou um prêmio de ficção na China.
A empresa que virou R$ 480 milhões
Em 2010 nasceu a Escola da Inteligência, em Ribeirão Preto: um pacote pedagógico para escolas, montado sobre a teoria dele.
Em 28 de agosto de 2020, a Arco Educação anunciou a compra de 60% por R$ 288 milhões, o que avaliava a empresa em R$ 480 milhões. A família Cury ficou com os outros 40%.
No momento da operação, a Escola da Inteligência atendia 330 mil alunos em 900 escolas.
A empresa editora era da família: a mulher, Suleima, médica, e as filhas Camila, Carolina e Cláudia, mais o genro. Augusto Cury constava como autor.
O patrimônio declarado
Em agosto de 2026, ao registrar a candidatura, declarou ao TSE R$ 242,28 milhões. É o maior patrimônio entre os candidatos a presidente.
| Candidato | Declarado ao TSE |
|---|---|
| Augusto Cury (Avante) | R$ 242,28 milhões |
| Romeu Zema (Novo) | R$ 178,7 milhões |
| Wilson Grassi (Democratas) | R$ 50 milhões |
| Flávio Bolsonaro (PL) | R$ 8,1 milhões |
| Lula (PT) | R$ 4,7 milhões |
A maior linha da declaração não é fazenda nem imóvel: é um empréstimo de R$ 121,19 milhões concedido à empresa Filadélfia Nature Participações, mais R$ 15,61 milhões de participação societária nela. Depois vêm R$ 31,5 milhões na Fictor Invest, R$ 25,8 milhões em ações estrangeiras e R$ 7 milhões em Bradesco e Petrobras.
Há ainda fazendas com mogno africano, seringueira, eucalipto e fruticultura, dois apartamentos, dois prédios comerciais e um imóvel urbano, sem valor discriminado nas reportagens. Sobre quantas fazendas, as fontes divergem entre quatorze e dezessete. Registro a divergência e não escolho.
O menino de família modesta em Colina virou o candidato mais rico da eleição. Essa é a frase, e ela é verdadeira nos dois lados.
O que joga contra, e entra
Esta parte a revista não pula, e é a mais longa de propósito.
A teoria não tem validação científica. Em abril de 2026, a Folha de S.Paulo ouviu cinco psiquiatras. Todos disseram não conhecer validação científica que sustente a Teoria da Inteligência Multifocal, e nenhum a usa na clínica. Wagner Gattaz, professor da USP, foi o mais duro: "Cury não é pesquisador nem cientista." Cury respondeu que aspectos da teoria tiveram avaliação acadêmica em contexto educacional.
A Síndrome do Pensamento Acelerado não é um diagnóstico. A SPA não consta como transtorno independente nas classificações internacionais de doenças. Especialistas explicaram em 2022 que aceleração do pensamento aparece em várias condições, mas não forma uma síndrome clínica reconhecida.
O autismo. Um livro dele afirmou que resultados no tratamento de pacientes autistas teriam sido "resolvidos", e críticos leram isso como promessa de cura. Em 2026 ele esclareceu que nunca disse que autismo tem cura, e sim que houve evolução ou melhora em pacientes.
O doutorado. É de 2013, pela Florida Christian University, instituição sem credenciamento relevante no sistema americano. Ela obteve "Candidate Status" junto à ABHE em fevereiro de 2024, o que é pré-credenciamento, não credenciamento pleno. E há uma divergência entre os próprios documentos dele: o plano de governo cita doutorado em Psicologia Multifocal, o currículo Lattes registra doutorado em administração, pela mesma instituição.
A comparação com Jesus. Em Nunca Desista de Seus Sonhos, de 2015, ele se apresenta ao lado de Jesus, Abraham Lincoln e Martin Luther King como exemplos de sonhadores. O Estado de Minas publicou em 16 de setembro de 2026. Nem ele nem a campanha responderam na reportagem.
Os contratos públicos. A Revista Fórum apurou mais de R$ 30 milhões em 25 contratos com prefeituras e governos de 10 estados, entre 2017 e 2021, para a metodologia dele. A maior concentração é Itajaí, em Santa Catarina, onde cinco contratos somaram R$ 21,8 milhões, e o maior deles, de 2021, foi de R$ 7,64 milhões. Os documentos indicam contratação por inexigibilidade de licitação. Nem Cury nem a empresa responsável responderam à reportagem.
"Ele diz que não liga para dinheiro." Declarou R$ 242,28 milhões e prometeu doar o salário de presidente. Promessa só vira fato depois de eleito e cumprido.
"Nunca teve mandato." É verdade, e é a primeira eleição da vida dele. A revista já checou o que isso significa, ponto a ponto, em 10 razões para não votar em Augusto Cury.
Sobre a USP, o Banco Master e o posicionamento ideológico, a revista já apurou cada um em matéria própria: o vínculo com a USP, os R$ 31 milhões da Fictor e direita ou esquerda. Não reabro aqui.
A resposta
Duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é isso que torna a história interessante.
Um menino de família modesta, com dificuldade na escola, teve uma depressão no terceiro ano de Medicina, passou quinze anos escrevendo à mão, ouviu não de dezenas de editoras, cortou 2.600 páginas do próprio livro para ser publicado, e hoje tem mais de 70 títulos em mais de 70 países.
E a teoria que sustenta tudo isso não tem validação na psiquiatria, a empresa construída sobre ela foi vendida por R$ 288 milhões, e parte da receita veio de contrato público sem licitação.
Quem quer que ele seja herói recorta a primeira metade. Quem quer que ele seja vilão recorta a segunda.
A história inteira é as duas.
Em 2 de outubro ele faz 68 anos. Dois dias depois, o eleitor decide o que fazer com isso.







