Revista De Castro Apareça na revistaRevista

Economia / 24 de setembro de 2026

Edição especial

Bruno Avelar virou famoso só agora? Eu estava na plateia dele em Portugal. Aqui está quem ele era

O empresário mineiro morreu aos 41 anos no mesmo helicóptero do cantor Rick, e nos comentários apareceu a acusação: ganância, e um nome que ninguém conhecia até a tragédia. Eu fui ver. Ele cresceu na casa da avó, foi office boy, maquiador, garçom e pedreiro, dormiu num colchão pego na rua, leu um livro em 2008 que mudou a cabeça dele, vendeu uma marca em 2014, levou uma carta de expulsão dos Estados Unidos e voltou com green card. Criou o maior evento de networking brasileiro do mundo, subiu no palco com o Neymar, aconselhava um candidato a presidente e almoçou com o Pablo Marçal três dias antes de morrer. Tudo com fonte, inclusive o que joga contra.

Publicado
24 de setembro de 2026
Atualizado
24 de setembro de 2026
Editoria
Economia
Leitura
8 min
Fontes
20 citadas
Bruno Avelar, em setembro de 2026. Reprodução/Instagram @brunoavelar
Bruno Avelar, em setembro de 2026. Reprodução/Instagram @brunoavelar

Eu não conheci o Bruno Avelar pelo noticiário. Conheci numa cadeira do Coliseu do Porto, em 13 de abril de 2024, com um livro dele na mão. Era a primeira edição do evento dele na Europa, nove horas de imersão, e dava para ver o quanto aquele homem estava feliz no palco.

Um ano e meio depois, ele morreu na serra catarinense, no mesmo helicóptero do cantor Rick. E embaixo do vídeo em que ele diz que dinheiro não compra tempo, os comentários mais curtidos foram estes: "a ganância matou vocês" e "usar as pessoas para fazer dinheiro para desfrutar com quem ama, macabro".

Então eu fui ver quem ele era. Com fonte.

O tamanho, antes da história

Ele tinha 650 mil seguidores no Instagram. Criou um evento que teve 23 edições em quatro continentes e que os organizadores dizem ter reunido mais de 200 mil pessoas. Subia no palco com o Neymar. Era conselheiro da campanha do Augusto Cury à Presidência. Almoçou com o Pablo Marçal na sexta, três dias antes de morrer.

Famoso onde importa. Desconhecido de quem nunca pagou ingresso.

A avó

Ele cresceu na casa da avó, Dona Carlota Lima de Souza, na região metropolitana de Belo Horizonte. A casa vivia cheia: parente, vizinho, gente pedindo ajuda. Ficou lá até os 18, quando ela morreu.

Cinco dias antes do acidente, num podcast gravado em 16 de setembro, ele resumiu a origem de tudo numa frase: "Eu aprendi networking com a minha avó, vendo aquilo."

De baixo

Os primeiros empregos foram office boy e o setor administrativo de um hospital. Aos 14, maquiador em Santa Luzia. Saiu do Brasil ainda jovem: Portugal, Espanha, Inglaterra. Na Europa foi garçom e copeiro. Nos Estados Unidos, vendedor, segurança e pedreiro. Somou mais de vinte anos fora do país.

Tem uma cena que ele contava e que está no livro Página 67, de 2022. Ele e a Cláudia, recém-casados, dividindo um quarto com outras duas pessoas. O colchão em que dormiam, os dois pegaram na rua.

O livro que virou a chave

Em 2008, em Portugal, servindo mesa, ele leu 3 Minutos para o Sucesso, de Ricardo Bellino, a história dos três minutos que um brasileiro teve para apresentar um projeto ao Donald Trump. Nas palavras dele, a leitura expandiu a visão e o fez acreditar que tudo era possível com a atitude certa.

No mesmo ano entrou na Mica Beauty como gerente de logística e administrativo.

2014: o primeiro dinheiro grande

Ele trouxe a marca de cosméticos para o Brasil e a vendeu. O valor nunca foi publicado, e esta matéria não estima. O que está registrado é a frase dele: "eu acredito que meu sucesso veio em 2014, quando vendi a marca". Ele tinha 29 anos.

2015: o país que disse não

Mudou para os Estados Unidos a pedido da Cláudia. E o país disse não: três pedidos de imigração negados e uma carta de expulsão, por causa de um advogado fraudulento. A família recorreu, esclareceu o caso e entrou no processo EB-2. Anos depois, o mesmo país deu a ele o green card na categoria de habilidade extraordinária e interesse nacional.

1.400pagantesna primeira edição, em Orlando, 15 de janeiro de 2022
23ediçõesem Estados Unidos, Portugal, Suíça, África e Brasil
200 milpessoasimpactadas, segundo a organização
R$ 800 milhõespor anoé quanto o mercado de networking movimenta no Brasil

O Poder do Network | Nossa Gente, Estado de Minas, Portal BH

O negócio

O Poder do Network nasceu em Orlando com 1.400 pessoas pagando para ficar oito horas numa sala. Virou três coisas: eventos premium, clubes fechados com anuidade que, segundo o Estado de Minas, pode passar de seis dígitos, e mentoria individual. Ele vendia o acesso às pessoas certas.

Pelo palco dele passaram Tiago Brunet, Thiago Nigro, Paulo e Camila Vieira, Maíra Cardi, André Valadão, Kaká Diniz, Leandro Hassum, João Kepler, Patrícia Maldonado. Na plateia, gente do UFC e da Globo.

Os registros públicos mostram nove empresas, seis ativas, entre elas três holdings abertas em 2025 e 2026 e uma administradora de aeronaves com capital de quase R$ 14 milhões. O patrimônio total, diz o Diário do Pará, não pode ser estimado com segurança.

O Rolex

Em 2023, no leilão beneficente do Instituto Neymar Jr., ele subiu ao palco para vender 250 bonés e arrecadou R$ 620 mil. Não bastou. Propôs juntar o blazer do Neymar, um pingente de diamante e o próprio Rolex, de cerca de R$ 300 mil. O lote saiu por R$ 1,2 milhão, o maior lance da história do evento até então. Virou o apresentador oficial do leilão de 2024.

A frase dele sobre isso: "As pessoas querem resultado sem pagar o preço. Eu paguei o preço primeiro."

Você pode não conhecer ele. Mas os famosos que você conhece, conheciam

Augusto Cury o tinha como conselheiro de campanha, e a relação era anterior: Cury era palestrante contratado dos eventos dele. Quando o helicóptero sumiu, o candidato pediu orações. Quando confirmaram, chorou.

Pablo Marçal almoçou com ele na sexta, dia 18. Escreveu que perdeu alguém "mais chegado que irmão". Carlinhos Maia o recebeu no Rancho do Maia em agosto para falar de liderança com os participantes. O Instituto Neymar Jr. soltou nota agradecendo "a parceria e a contribuição em momentos importantes da nossa trajetória".

O helicóptero, aliás, não era do Neymar nem dele: pertence à JTA Empreendimentos, de Santa Catarina, e foi emprestado para a viagem.

As duas listas

O que ele pregava era o contrário do que acusam. Ele dividia a vida em duas listas. Na do destino: esposa, filhos, pais, irmãos, sócios e os melhores amigos. Na da agenda: ganhar o que for preciso para desfrutar com quem está na outra lista.

No podcast de 16 de setembro, disse que o dinheiro tinha virado "troféu" e que a prioridade era a família. E deixou uma frase que agora pesa: "eu gostaria de ter buscado conhecimento mais cedo".

Três semanas antes

Um amigo corretor de seguros, Paulo Henriques, contou ao Metrópoles que perguntou a ele, em casa: "se você tivesse uma bola de cristal e soubesse que vai morrer amanhã, você faria um seguro agora?". Bruno respondeu: "Na hora, né." Marcou a assinatura para o dia 30 de setembro.

A casa

Casou-se com a jornalista Lívia em 4 de agosto de 2026, pouco mais de um mês antes. Ela escreveu: "você foi o meu maior presente e mesmo em pouco tempo nós vivemos os melhores dias das nossas vidas". E, sobre a viúva do Rick: "Eu e Ge estaremos juntas aqui."

Cláudia, a do colchão, esteve 17 anos com ele e é mãe dos dois filhos, Kevin e Kai. A carta dela: "Quando nos conhecemos, eu tinha 21 e você 22. Crescemos juntos." E o fecho: "Prometo continuar honrando a nossa história, a sua história, que agora viverá para sempre nos nossos filhos."

Segunda-feira, 6 da manhã

Antes de sair de casa, ele pegou um pouco de massinha do filho e montou um boneco. Gravou um story: "vou deixar aqui um recadinho pra ele no boneco dele, fiz uma carinha. Acho que ele vai curtir."

Foi a última coisa que publicou. Às 10h30, o helicóptero decolou de Porto Belo. O velório foi na quinta, dia 24, no Cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte, aberto ao público.

O que eu tiro disso

Ele não virou famoso agora. Você é que não estava na plateia.

Perguntas que chegam nos comentários

Quem era Bruno Avelar?

Empresário, palestrante e escritor mineiro, 41 anos, fundador do evento O Poder do Network, apresentador dos leilões beneficentes do Instituto Neymar Jr. e conselheiro da campanha presidencial de Augusto Cury. Morreu em 21 de setembro de 2026 na queda de um helicóptero em Urubici, Santa Catarina.

O helicóptero era do Neymar?

Não. A aeronave, um Bell 430 de prefixo PP-MGR, pertence à JTA Empreendimentos, de Santa Catarina, e foi emprestada para a viagem. Ela levava a marca Neymar Jr. Ecosystem.

Como ele ganhou dinheiro?

Começou aos 14 em cosméticos, foi gerente na Mica Beauty a partir de 2008, trouxe a marca ao Brasil e a vendeu em 2014. Depois criou O Poder do Network, com eventos, clubes de anuidade alta e mentorias.

Ele tinha alguma polêmica?

Intermediou a aproximação entre a EQR Capital e o Santos, num patrocínio que depois virou cobrança judicial e cuja empresa é citada em inquérito da PF. Ele não é acusado de nada.

Quantos livros ele escreveu?

Quatro: Página 67 (2022), Descubra seu Nível de Maturidade, O Poder do Network e Conectando Almas (2025).

Quem é a família?

A esposa Lívia, com quem se casou em 4 de agosto de 2026, e os filhos Kevin e Kai, do casamento de 17 anos com Cláudia Guimarães.

Fontes desta materia

  1. Estado de Minas, Bruno Avelar: como o empresário mineiro lucrou milhões com networking de luxo
  2. Estado de Minas, veja a trajetória do mineiro que virou referência em eventos para empresários
  3. Diário do Pará, quanto valia o patrimônio de Bruno Avelar: registros mostram rede de empresas e holdings
  4. O Tempo, quem é Bruno Avelar, empresário de BH desaparecido em helicóptero com cantor Rick
  5. SBT News, Pivotando entrevistou Bruno Avelar dias antes do acidente
  6. ND Mais, de copeiro a dono da maior plataforma de networking do Brasil: o livro sobre Trump que mudou a vida dele
  7. Alô Você Magazine, Bruno Avelar: caminhada de sucesso, julho de 2022
  8. Nossa Gente, a comunidade brasileira nos EUA se despede de Bruno Avelar
  9. ND Mais, Instituto Neymar Jr. lamenta morte de Bruno Avelar; empresário desafiou o craque durante leilão
  10. ND Mais, helicóptero não é de Neymar; aeronave é de empresa de SC
  11. InfoMoney, quem é Bruno Avelar, conselheiro de Cury, que morreu em acidente com cantor Rick
  12. CNN Brasil, Marçal se despede de empresário Bruno Avelar: mais chegado que irmão
  13. Jornal de Brasília, Bruno Avelar comparece em evento de Carlinhos Maia
  14. Agenda Cultural Porto, O Poder do Network no Coliseu Porto Ageas
  15. Metrópoles, amigo revela que Bruno Avelar falou sobre morte dias antes do acidente
  16. ND Mais, horas antes de helicóptero desaparecer, Bruno Avelar grava vídeo para o filho
  17. ND Mais, viúva de Bruno Avelar confirma velório em BH e faz desabafo
  18. Rádio Itatiaia, ex-esposa de Bruno Avelar posta carta de despedida
  19. O Bastidor, a desconfiança sobre a EQR
  20. Imirante, empresário que morreu no acidente tinha ligação com Neymar e projetos do Santos