Eu não conheci o Bruno Avelar pelo noticiário. Conheci numa cadeira do Coliseu do Porto, em 13 de abril de 2024, com um livro dele na mão. Era a primeira edição do evento dele na Europa, nove horas de imersão, e dava para ver o quanto aquele homem estava feliz no palco.
Um ano e meio depois, ele morreu na serra catarinense, no mesmo helicóptero do cantor Rick. E embaixo do vídeo em que ele diz que dinheiro não compra tempo, os comentários mais curtidos foram estes: "a ganância matou vocês" e "usar as pessoas para fazer dinheiro para desfrutar com quem ama, macabro".
Então eu fui ver quem ele era. Com fonte.
O tamanho, antes da história
Ele tinha 650 mil seguidores no Instagram. Criou um evento que teve 23 edições em quatro continentes e que os organizadores dizem ter reunido mais de 200 mil pessoas. Subia no palco com o Neymar. Era conselheiro da campanha do Augusto Cury à Presidência. Almoçou com o Pablo Marçal na sexta, três dias antes de morrer.
Famoso onde importa. Desconhecido de quem nunca pagou ingresso.
A avó
Ele cresceu na casa da avó, Dona Carlota Lima de Souza, na região metropolitana de Belo Horizonte. A casa vivia cheia: parente, vizinho, gente pedindo ajuda. Ficou lá até os 18, quando ela morreu.
Cinco dias antes do acidente, num podcast gravado em 16 de setembro, ele resumiu a origem de tudo numa frase: "Eu aprendi networking com a minha avó, vendo aquilo."
De baixo
Os primeiros empregos foram office boy e o setor administrativo de um hospital. Aos 14, maquiador em Santa Luzia. Saiu do Brasil ainda jovem: Portugal, Espanha, Inglaterra. Na Europa foi garçom e copeiro. Nos Estados Unidos, vendedor, segurança e pedreiro. Somou mais de vinte anos fora do país.
Tem uma cena que ele contava e que está no livro Página 67, de 2022. Ele e a Cláudia, recém-casados, dividindo um quarto com outras duas pessoas. O colchão em que dormiam, os dois pegaram na rua.
O livro que virou a chave
Em 2008, em Portugal, servindo mesa, ele leu 3 Minutos para o Sucesso, de Ricardo Bellino, a história dos três minutos que um brasileiro teve para apresentar um projeto ao Donald Trump. Nas palavras dele, a leitura expandiu a visão e o fez acreditar que tudo era possível com a atitude certa.
No mesmo ano entrou na Mica Beauty como gerente de logística e administrativo.
2014: o primeiro dinheiro grande
Ele trouxe a marca de cosméticos para o Brasil e a vendeu. O valor nunca foi publicado, e esta matéria não estima. O que está registrado é a frase dele: "eu acredito que meu sucesso veio em 2014, quando vendi a marca". Ele tinha 29 anos.
2015: o país que disse não
Mudou para os Estados Unidos a pedido da Cláudia. E o país disse não: três pedidos de imigração negados e uma carta de expulsão, por causa de um advogado fraudulento. A família recorreu, esclareceu o caso e entrou no processo EB-2. Anos depois, o mesmo país deu a ele o green card na categoria de habilidade extraordinária e interesse nacional.
O Poder do Network | Nossa Gente, Estado de Minas, Portal BH
O negócio
O Poder do Network nasceu em Orlando com 1.400 pessoas pagando para ficar oito horas numa sala. Virou três coisas: eventos premium, clubes fechados com anuidade que, segundo o Estado de Minas, pode passar de seis dígitos, e mentoria individual. Ele vendia o acesso às pessoas certas.
Pelo palco dele passaram Tiago Brunet, Thiago Nigro, Paulo e Camila Vieira, Maíra Cardi, André Valadão, Kaká Diniz, Leandro Hassum, João Kepler, Patrícia Maldonado. Na plateia, gente do UFC e da Globo.
Os registros públicos mostram nove empresas, seis ativas, entre elas três holdings abertas em 2025 e 2026 e uma administradora de aeronaves com capital de quase R$ 14 milhões. O patrimônio total, diz o Diário do Pará, não pode ser estimado com segurança.
O Rolex
Em 2023, no leilão beneficente do Instituto Neymar Jr., ele subiu ao palco para vender 250 bonés e arrecadou R$ 620 mil. Não bastou. Propôs juntar o blazer do Neymar, um pingente de diamante e o próprio Rolex, de cerca de R$ 300 mil. O lote saiu por R$ 1,2 milhão, o maior lance da história do evento até então. Virou o apresentador oficial do leilão de 2024.
A frase dele sobre isso: "As pessoas querem resultado sem pagar o preço. Eu paguei o preço primeiro."
Você pode não conhecer ele. Mas os famosos que você conhece, conheciam
Augusto Cury o tinha como conselheiro de campanha, e a relação era anterior: Cury era palestrante contratado dos eventos dele. Quando o helicóptero sumiu, o candidato pediu orações. Quando confirmaram, chorou.
Pablo Marçal almoçou com ele na sexta, dia 18. Escreveu que perdeu alguém "mais chegado que irmão". Carlinhos Maia o recebeu no Rancho do Maia em agosto para falar de liderança com os participantes. O Instituto Neymar Jr. soltou nota agradecendo "a parceria e a contribuição em momentos importantes da nossa trajetória".
O helicóptero, aliás, não era do Neymar nem dele: pertence à JTA Empreendimentos, de Santa Catarina, e foi emprestado para a viagem.
As duas listas
O que ele pregava era o contrário do que acusam. Ele dividia a vida em duas listas. Na do destino: esposa, filhos, pais, irmãos, sócios e os melhores amigos. Na da agenda: ganhar o que for preciso para desfrutar com quem está na outra lista.
No podcast de 16 de setembro, disse que o dinheiro tinha virado "troféu" e que a prioridade era a família. E deixou uma frase que agora pesa: "eu gostaria de ter buscado conhecimento mais cedo".
Três semanas antes
Um amigo corretor de seguros, Paulo Henriques, contou ao Metrópoles que perguntou a ele, em casa: "se você tivesse uma bola de cristal e soubesse que vai morrer amanhã, você faria um seguro agora?". Bruno respondeu: "Na hora, né." Marcou a assinatura para o dia 30 de setembro.
A casa
Casou-se com a jornalista Lívia em 4 de agosto de 2026, pouco mais de um mês antes. Ela escreveu: "você foi o meu maior presente e mesmo em pouco tempo nós vivemos os melhores dias das nossas vidas". E, sobre a viúva do Rick: "Eu e Ge estaremos juntas aqui."
Cláudia, a do colchão, esteve 17 anos com ele e é mãe dos dois filhos, Kevin e Kai. A carta dela: "Quando nos conhecemos, eu tinha 21 e você 22. Crescemos juntos." E o fecho: "Prometo continuar honrando a nossa história, a sua história, que agora viverá para sempre nos nossos filhos."
Segunda-feira, 6 da manhã
Antes de sair de casa, ele pegou um pouco de massinha do filho e montou um boneco. Gravou um story: "vou deixar aqui um recadinho pra ele no boneco dele, fiz uma carinha. Acho que ele vai curtir."
Foi a última coisa que publicou. Às 10h30, o helicóptero decolou de Porto Belo. O velório foi na quinta, dia 24, no Cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte, aberto ao público.
O que eu tiro disso
Ele não virou famoso agora. Você é que não estava na plateia.
Perguntas que chegam nos comentários
Quem era Bruno Avelar?
Empresário, palestrante e escritor mineiro, 41 anos, fundador do evento O Poder do Network, apresentador dos leilões beneficentes do Instituto Neymar Jr. e conselheiro da campanha presidencial de Augusto Cury. Morreu em 21 de setembro de 2026 na queda de um helicóptero em Urubici, Santa Catarina.
O helicóptero era do Neymar?
Não. A aeronave, um Bell 430 de prefixo PP-MGR, pertence à JTA Empreendimentos, de Santa Catarina, e foi emprestada para a viagem. Ela levava a marca Neymar Jr. Ecosystem.
Como ele ganhou dinheiro?
Começou aos 14 em cosméticos, foi gerente na Mica Beauty a partir de 2008, trouxe a marca ao Brasil e a vendeu em 2014. Depois criou O Poder do Network, com eventos, clubes de anuidade alta e mentorias.
Ele tinha alguma polêmica?
Intermediou a aproximação entre a EQR Capital e o Santos, num patrocínio que depois virou cobrança judicial e cuja empresa é citada em inquérito da PF. Ele não é acusado de nada.
Quantos livros ele escreveu?
Quatro: Página 67 (2022), Descubra seu Nível de Maturidade, O Poder do Network e Conectando Almas (2025).
Quem é a família?
A esposa Lívia, com quem se casou em 4 de agosto de 2026, e os filhos Kevin e Kai, do casamento de 17 anos com Cláudia Guimarães.







