Tem uma história de 1989 que quase ninguém conta inteira, e ela explica o que está acontecendo agora com Pablo Marçal.
Nela, o homem mais conhecido do Brasil entrou na disputa pela Presidência a quinze dias da eleição, chegou a cerca de 30% das intenções de voto, e foi retirado da urna por decisão unânime do Tribunal Superior Eleitoral seis dias antes da votação.
O nome dele era Silvio Santos.
Eu fui buscar a decisão daquele caso, os números do primeiro turno de São Paulo em 2024, as duas decisões que hoje separam o Marçal do palco, e transcrevi palavra por palavra o que ele disse a Augusto Cury no próprio podcast. Está tudo aqui embaixo, com fonte.
Parte 1: o que o Silvio Santos fez em 1989
Para entender o tamanho daquilo, é preciso lembrar como era 1989.
Era a primeira eleição direta para presidente depois de 29 anos. O país saía da ditadura militar e de uma inflação que corroía o salário entre a ida e a volta do supermercado. Vinte e dois candidatos disputavam. Fernando Collor liderava, com Lula e Leonel Brizola brigando pelo segundo lugar.
E aí, em 31 de outubro de 1989, faltando quinze dias para o primeiro turno, um partido pequeno chamado PMB trocou o candidato de última hora e colocou no lugar o dono do SBT.
O tamanho da entrada de Silvio Santos
Não havia programa de governo. Não havia estrutura. Não havia tempo de televisão a mais do que os outros. Havia o nome, e o nome de um homem que entrava na sala de estar de todo brasileiro, todo domingo, havia décadas.
Em poucos dias as pesquisas mostraram o apresentador com cerca de 30%. Collor, que era o favorito, viu o segundo turno virar risco real.
O que aconteceu seis dias antes da urna
Os adversários foram à Justiça Eleitoral. O argumento não era sobre Silvio Santos. Era sobre o papel.
Em 9 de novembro de 1989, seis dias antes da votação, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu por 7 votos a 0 extinguir os efeitos do registro provisório do PMB e declarar a inelegibilidade do candidato.
Foi unânime. Ministros indicados por governos diferentes votaram do mesmo jeito. Isso importa, e eu volto a esse ponto no fim.
Em 15 de novembro, Collor venceu o primeiro turno. Em 17 de dezembro, venceu o segundo, contra Lula. Três anos depois sofreu impeachment. Silvio Santos nunca mais tentou.
E ficou a pergunta que atravessou 37 anos: e se o registro estivesse em ordem? E se aqueles 30% tivessem virado voto?
O Brasil nunca soube.
Parte 2: o que Pablo Marçal fez em 2024
Corta para 6 de outubro de 2024, em São Paulo.
Foi o primeiro turno mais apertado que a cidade viu desde a redemocratização, em 1985.
| Candidato | Partido | Votos | Percentual |
|---|---|---|---|
| Ricardo Nunes | MDB | 1.801.139 | 29,48% |
| Guilherme Boulos | PSOL | 1.776.127 | 29,07% |
| Pablo Marçal | PRTB | 1.719.274 | 28,14% |
Ele tinha partido pequeno, não tinha prefeitura, não tinha máquina e não tinha imprensa a favor. Tinha o celular: a campanha foi feita de vídeo curto, cortado e espalhado por gente que ele remunerava para cortar.
Quase deu certo. E foi exatamente esse método que virou o problema jurídico dele dois anos depois.
Parte 3: o que aconteceu com o Marçal em 2026
Duas datas explicam a situação atual.
20 de agosto de 2026. O plenário do TSE decidiu, por unanimidade, seguindo a relatora Estela Aranha: Marçal fica sem recursos do fundo eleitoral, sem propaganda no rádio e na televisão e sem participar de debates.
4 de setembro de 2026. O mesmo tribunal homologou a candidatura dele, com o número 28 pelo PRTB, mas com um carimbo: "sub judice", que em português do dia a dia quer dizer que o caso ainda está sendo julgado.
O resultado é um estado esquisito, que eu detalhei em outra matéria sobre a situação jurídica dele: ele está na urna e não está no palco.
Por que tiraram, sem rodeio
Dois motivos, os dois de tribunal:
- A condenação por uso indevido dos meios de comunicação na campanha de 2024, o chamado "concurso de cortes", em que ele remunerava pessoas para produzir e distribuir recortes de vídeos dele. O tribunal de São Paulo confirmou a condenação por unanimidade, e a pena o deixa sem poder se candidatar até 2032.
- O prazo de filiação partidária, que o Ministério Público Eleitoral sustenta que ele não cumpriu quando saiu do PRTB para o União Brasil e voltou.
O espelho entre 1989 e 2026, e onde ele quebra
O paralelo é forte e tem limite. Os dois merecem ser ditos.
| Silvio Santos, 1989 | Pablo Marçal, 2026 | |
|---|---|---|
| Veio de fora da política | sim | sim |
| Foi chamado de piada | sim | sim |
| Chegou perto | 30% nas pesquisas | 28,14% em São Paulo, em 2024 |
| Foi tirado do palco | sim, seis dias antes | sim, dos debates |
| O motivo | o registro do partido | uma condenação contra ele mesmo |
| A decisão foi unânime | sim, 7 a 0 | sim, no ponto dos debates |
É aqui que a comparação precisa de honestidade. Silvio Santos saiu por causa de um problema de papel de terceiro: o partido que o lançou não cumpria as exigências. Pablo Marçal está fora dos debates por causa de uma conduta atribuída a ele próprio, julgada e confirmada por sete juízes, ainda que sem decisão final.
Quem trata os dois casos como idênticos está fazendo militância, não análise. Quem finge que não há nenhuma semelhança está ignorando o que os dois têm em comum: em ambos, o palco fechou antes da urna, e a decisão veio de um tribunal, não do eleitor.
Parte 4: a frase que o Marçal disse sobre o Cury
Agora a parte que motivou esta matéria.
Em agosto de 2026, já candidato à Presidência, Pablo Marçal recebeu um adversário no próprio podcast: Augusto Cury, escritor com mais de 40 milhões de livros vendidos segundo o site dele, na primeira eleição da vida, aos 67 anos.
Eu ouvi o episódio inteiro e transcrevi o trecho. Ele começa assim:
"Publicamente, nesse mesmo palco, eu declarei meu apoio pro Flávio Bolsonaro. Aqui eu declaro que eu vou te ajudar no que você precisar, porque para mim você seria um sonho de presidente, alguém que não arrumou confusão com ninguém, tem uma conduta ilibada."
Repare na ordem. Ele abre reafirmando o apoio ao Flávio Bolsonaro, que declarou em 17 de dezembro de 2025, num evento em São Paulo, com a frase "não querendo magoar o Jair, mas esse é o Bolsonaro que a gente sempre quis".
E aí, no mesmo fôlego, vira para o Cury:
"Eu apoio você até onde você conseguir chegar. Espero que, se tiver a possibilidade de você ser presidente, você me deixar ser conselheiro seu de digital. Eu não quero cargo não, que eu não preciso, assim como você não precisa. (...) Se assim o Senhor quiser que você seja presidente, que seja você. (...) Só não desiste que eu vou ficar com raiva."
Um candidato à Presidência da República, no palco dele, dizendo isso de um adversário na mesma disputa.
Eu procurei outro caso assim numa campanha presidencial brasileira e não achei. Se você conhece um, me manda que eu publico aqui.
O que essa frase é e o que ela não é
Essa distinção é o coração da matéria, e é onde a maioria dos resumos que circulam erra.
O que ela é: um candidato que foi retirado do palco dizendo, em público, quem ele gostaria de ver naquele lugar. Dá para chamar de apoio pessoal. Dá para chamar de afeto. Não dá para chamar de indicação de voto, e quem publicar assim vai ser desmentido em uma hora por quem tiver o vídeo.
E o Augusto Cury, o que diz?
A campanha do Cury nega qualquer combinação.
Júlio Delgado, candidato a vice na chapa dele, disse em 2 de setembro que o apoio de pessoas ligadas ao Marçal nas redes é "orgânico e espontâneo", e que Marçal "não tem participado de forma ostensiva" da campanha. Segundo ele, o crescimento do Cury se explica porque "as pessoas estão saturadas da polarização entre Lula e Bolsonaro".
No mesmo dia 2, o próprio Cury publicou um vídeo cutucando três adversários ao mesmo tempo: Lula, Flávio Bolsonaro e o Marçal. Sobre o Marçal, a peça lembrava que ele havia dito que votaria nulo em 2024.
Um se aproxima. O outro se afasta. Os dois em público, no mesmo dia.
O que os três têm em comum
Silvio Santos, Pablo Marçal e Augusto Cury vieram de fora da política. Os três foram chamados de piada por quem já estava dentro.
E com dois deles aconteceu a mesma coisa, em datas separadas por 37 anos: o palco fechou antes da urna. Em 1989, por causa do registro de um partido. Em 2024, por 56 mil votos. Em 2026, por um tribunal e uma cadeira vazia no debate.
Minha opinião, e eu aviso que é opinião: quem vem de fora incomoda antes de ganhar. E incomodar não é ganhar. O incômodo aparece nas pesquisas e nos processos muito antes de aparecer na urna, e é exatamente por isso que a história de 1989 continua sendo contada.
Perguntas que chegam nos comentários
Silvio Santos foi mesmo candidato a presidente?
Foi. Entrou pelo PMB em 31 de outubro de 1989, quinze dias antes do primeiro turno, e chegou a cerca de 30% das intenções de voto antes de ser barrado.
Por que o TSE barrou o Silvio Santos?
Por causa do registro do partido. Em 9 de novembro de 1989, seis dias antes da eleição, o tribunal decidiu por 7 votos a 0 extinguir os efeitos do registro provisório do PMB. A decisão foi sobre o partido, não sobre a pessoa dele.
Por quanto Pablo Marçal ficou fora do segundo turno em 2024?
Por 56.854 votos, ou 0,93 ponto percentual, para Guilherme Boulos. Foi o primeiro turno mais apertado de São Paulo desde 1985.
Pablo Marçal pode ser votado em 2026?
Pode. A candidatura foi homologada em 4 de setembro de 2026, com o número 28, na condição de sub judice. Ele pode fazer campanha e o nome está na urna, mas está proibido de participar de debates, de usar o fundo eleitoral e de aparecer no rádio e na TV.
O Marçal declarou apoio ao Augusto Cury?
Não da forma como circula. No podcast dele, em agosto de 2026, ele reafirmou o apoio a Flávio Bolsonaro e em seguida disse ao Cury "eu apoio você até onde você conseguir chegar" e "se assim o Senhor quiser que você seja presidente, que seja você". É apoio pessoal declarado em público, não é pedido de voto nem troca de candidatura.
O Cury confirmou alguma aliança com o Marçal?
Não. O vice dele, Júlio Delgado, disse que o apoio de pessoas ligadas ao Marçal nas redes é orgânico e espontâneo, e no mesmo dia o Cury publicou um vídeo criticando Lula, Flávio Bolsonaro e o próprio Marçal.
O que ficou de fora desta matéria, e por quê
- A data exata do episódio do podcast. As cópias que localizei no YouTube foram publicadas em 26 e 27 de agosto de 2026 por canais de cortes, o que situa o episódio em até 26 de agosto. Enquanto eu não confirmar no canal original, escrevo "agosto de 2026".
- Dizer que "o Marçal indicou o Cury". Não é o que a frase diz, e a matéria mostra por quê.
- Chamar a decisão sobre os debates de perseguição. É adjetivo. A crítica jurídica real está no bloco do que joga a favor dele, com o argumento e não com o rótulo.
- As outras impugnações à candidatura do Marçal, além da filiação. Elas existem, mas quem sustenta a decisão sobre os debates é a que está aqui.
A pergunta que fica
Em 1989, o Brasil merecia descobrir o que aqueles 30% queriam dizer, e não descobriu. A resposta veio de um papel de registro partidário, e não da urna.
Em 2026, a pergunta é outra e mais difícil: quando a regra tira alguém do palco, ela está protegendo a eleição ou decidindo por ela? Nos dois casos a decisão foi unânime, e nos dois casos existe gente séria sustentando que o tribunal fez o que tinha de fazer.
O que eu posso te entregar é a data, o placar, o motivo e a frase inteira, com o que joga contra no meio do texto e não escondido no rodapé.
Eu volto a cada decisão, com fonte.






