Zilda Arns Neumann, a pediatra que fundou a Pastoral da Criança, fez a mortalidade infantil de Florestópolis, no Paraná, cair de 127 para 28 mortes por mil nascidos em um ano, ensinando mães pobres a fazer soro caseiro. Ela morreu no terremoto do Haiti, em 12 de janeiro de 2010, aos 75 anos, dentro de uma igreja de Porto Príncipe, logo depois de apresentar esse trabalho.
O fato que quase ninguém conta vem antes de tudo isso. Em 1978, o marido dela, Aloysio Neumann, morreu afogado ao tirar uma menina do mar revolto. Zilda ficou viúva com os filhos para criar. Quatro anos depois, aceitou a missão que virou a Pastoral.
Eu fui ler a palestra que ela preparou para o Haiti, com os números que levou na mala. A história inteira é esta.
Quem foi Zilda Arns?
Zilda nasceu em 25 de agosto de 1934, em Forquilhinha (SC), a 13ª dos 16 filhos de Gabriel Arns e Helene Steiner, segundo o Senado. Um dos irmãos era Paulo Evaristo Arns, que viria a ser cardeal e arcebispo de São Paulo.
Formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Paraná em 1959, ano em que se casou com Aloysio Bruno Neumann. Especializou-se em pediatria e saúde pública e trabalhou em postos da periferia de Curitiba. Teve seis filhos. Marcelo morreu dias depois de nascer, e Silvia morreu num acidente de carro em 2003, conta a Aleteia.
A morte de Aloysio, em 1978, aparece em duas versões de detalhe. A World Mission Magazine diz que ele se afogou ao resgatar uma menina no mar agitado. A Aleteia diz que a menina era a filha adotiva do casal. As duas fontes concordam no essencial: ele morreu salvando uma criança.

Como o soro caseiro virou a Pastoral da Criança?
Em 1982, numa reunião da ONU, sugeriram ao cardeal Paulo Evaristo Arns que a Igreja ajudasse a reduzir a mortalidade infantil no Brasil, registra a World Mission Magazine. O caminho era ensinar mães pobres a evitar a morte por desidratação. O cardeal levou a ideia à irmã médica.
O soro caseiro é água, açúcar e sal na medida certa. O que Zilda inventou foi o jeito de levar isso a cada casa: uma líder voluntária da própria comunidade visitando as famílias vizinhas todo mês, com orientação sobre amamentação, vacina, soro caseiro e controle do peso da criança.
A Pastoral da Criança nasceu em 1983, com um projeto piloto em Florestópolis, no norte do Paraná, segundo o Senado. Em um ano, a mortalidade infantil da cidade caiu de 127 para 28 mortes por mil nascidos, registram a Aleteia e a World Mission Magazine.
Ela contou de onde veio a força para começar: "Senti que Deus estava me chamando para assumir a missão da minha vida. Se fizéssemos direito, poderíamos salvar milhões de vidas", disse à World Mission Magazine.
Quanto a Pastoral cresceu?
Na palestra que levou ao Haiti em 2010, publicada pela Vida Pastoral, Zilda apresentou os números da obra.
| O que | Número |
|---|---|
| Voluntários | 260 mil (92% mulheres) |
| Comunidades pobres | 42 mil |
| Paróquias e dioceses | 7 mil paróquias em 272 dioceses |
| Crianças acompanhadas | 1.985.347 |
| Gestantes acompanhadas | 108.342 |
| Famílias | 1.553.717 |
| Países com a Pastoral | 20 |
| Mortalidade infantil nas comunidades da Pastoral | 13 por mil nascidos vivos |
| Mortalidade infantil no Brasil em 1982 | 82,8 por mil nascidos vivos |
Fonte: palestra de Zilda Arns, reproduzida pela Vida Pastoral.
Ela foi indicada ao Nobel da Paz em 2001, segundo o Senado. A Aleteia fala em três indicações. Depois da Pastoral da Criança, criou também a Pastoral da Pessoa Idosa.
O que aconteceu no Haiti?
Zilda chegou a Porto Príncipe para apresentar a Pastoral da Criança a religiosos haitianos. Em 12 de janeiro de 2010, às 16h53, um terremoto de magnitude 7,0 atingiu a capital. Ela estava na igreja do Sagrado Coração, segundo a Aleteia, e foi atingida por escombros do teto, registra a Wikipedia.
A última pessoa a vê-la com vida foi o padre haitiano William Smarth, de 76 anos, diretor da Escola de Teologia de Porto Príncipe. O relato dele está no site da Pastoral: "Eu me dei conta do terremoto quando algo saiu do teto e caiu na minha cabeça e a Dra. Zilda, quando viu isso, saiu e se foi para a sacada. Aí, o piso caiu."

A morte foi confirmada no dia seguinte pelo gabinete do senador Flávio Arns, sobrinho dela, registrou o Congresso em Foco. As primeiras notícias diziam que ela caminhava pela rua. O relato do padre Smarth, publicado depois pela Pastoral, a coloca dentro do prédio da igreja.

A Pastoral pediu que, no lugar de coroas de flores, as pessoas doassem. Vieram 457 doações, R$ 77.573,85, o bastante para acompanhar 4 mil crianças por um ano, segundo a própria Pastoral.
Ela vai virar santa?
O primeiro passo foi dado em 10 de janeiro de 2015, na Arena da Baixada, em Curitiba. Cerca de 40 mil pessoas acompanharam a entrega de uma moção com mais de 130 mil assinaturas pedindo a abertura do processo de beatificação, numa missa presidida pelo cardeal Raymundo Damasceno, então presidente da CNBB. O filho Nelson Arns disse na ocasião que o trabalho da mãe "foi marcado pelo altruísmo".
Em abril de 2023, o nome dela foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, segundo a Wikipedia. Eu não encontrei decisão do Vaticano sobre a causa: o processo não tem prazo.

O que joga contra, e entra
"Soro caseiro qualquer um faz, não é descoberta dela." Não é, e ela nunca disse que era. O soro era conhecido. O que a Pastoral fez foi chegar a quase 2 milhões de crianças por meio de 260 mil voluntários, e medir o resultado mês a mês.
"127 para 28 em um ano é número de propaganda." É o número de Florestópolis, a cidade do projeto piloto, citado pela Aleteia e pela World Mission Magazine. Não é a média do Brasil. Para o país, a palestra dela compara 82,8 por mil em 1982 com 13 por mil nas comunidades acompanhadas.
"Ela era a irmã do cardeal, por isso cresceu." O irmão levou a ideia até ela em 1982. As 42 mil comunidades da Pastoral foram atendidas por voluntárias, quase todas mulheres das próprias comunidades.
"Foi indicada três vezes ao Nobel." O Senado registra a indicação de 2001. A Aleteia fala em três. Eu deixo as duas versões.
E a resposta?
A viúva que perdeu o marido para o mar e dois filhos ao longo da vida passou 27 anos ensinando mães a não perder os delas. Morreu a trabalho, em outro país, depois de explicar como se faz. Na minha opinião, nenhum número da tabela diz mais do que a última decisão da família: trocar as flores do velório por um ano de acompanhamento para 4 mil crianças.
A revista contou também a história de Santa Dulce dos Pobres, outra brasileira que cuidou de quem ninguém cuidava, e a de dom Pedro Fedalto, arcebispo de Curitiba, a cidade do memorial dela.
Perguntas que chegam nos comentários
Como Zilda Arns morreu?
No terremoto de magnitude 7,0 que atingiu Porto Príncipe, no Haiti, em 12 de janeiro de 2010. Ela estava numa igreja onde tinha ido apresentar a Pastoral da Criança e foi atingida por escombros. Tinha 75 anos.
O que é a Pastoral da Criança?
É o trabalho de voluntárias que acompanham gestantes e crianças pobres nas próprias comunidades, criado por Zilda Arns em 1983, em Florestópolis (PR), ligado à CNBB.
Qual foi o resultado em Florestópolis?
A mortalidade infantil caiu de 127 para 28 mortes por mil nascidos em um ano, segundo a Aleteia e a World Mission Magazine.
Zilda Arns era irmã de dom Paulo Evaristo Arns?
Sim. Ela era a 13ª de 16 filhos de Gabriel Arns e Helene Steiner. O irmão foi cardeal e arcebispo de São Paulo.
Zilda Arns vai ser beatificada?
O pedido foi entregue em 10 de janeiro de 2015, em Curitiba, com mais de 130 mil assinaturas. Até hoje não há decisão do Vaticano.







