Setembro de 1986. Um capitão de artilharia de 31 anos escreve um texto para a revista Veja, sem pedir autorização a ninguém, dizendo que o soldo do Exército está baixo.
O título do artigo era "O salário está baixo". A última frase era "Brasil acima de tudo".
Ele levou 15 dias de prisão num quartel do Rio de Janeiro.
A punição que criou o político
A justificativa disciplinar dizia que ele tinha ferido a ética e sido indiscreto ao tratar de assunto oficial.
O efeito foi o inverso do pretendido. A prisão de um capitão por pedir aumento para a tropa correu os quartéis. Mulheres de oficiais se organizaram, houve protestos, e cartas e telegramas de apoio chegaram de várias regiões do país.
Um militar anônimo virou nome conhecido dentro da caserna em questão de semanas. Dois anos depois ele estava eleito vereador do Rio.
Aqui vale desmontar uma versão que circula muito. Não é verdade que ele foi preso em 1987 por planejar um atentado. A Agência Lupa checou isso. A prisão foi em 1986, disciplinar, por causa do artigo.
O plano que a Veja publicou
O que aconteceu em 1987 foi outra coisa, e não foi prisão.
Em 27 de outubro daquele ano, a repórter Cássia Maria, da Veja, recebeu a informação sobre um plano chamado Beco sem Saída, atribuído a Bolsonaro e ao colega Fábio Passos, para explodir bombas em unidades militares do Rio como protesto pelos salários. A revista publicou. Ele negou e chamou o material de "fantasia".
Em 8 de dezembro de 1987 foi instaurado um Conselho de Justificação, por conduta irregular e por atos que afetavam a honra pessoal e o decoro da classe.
Em 25 de janeiro de 1988, o Conselho o considerou culpado. O texto falava em "grave desvio de personalidade", em "falta de coragem moral" e em ter mentido ao longo do processo.
Em 16 de junho de 1988, o Superior Tribunal Militar o absolveu, em sessão secreta, por falta de prova conclusiva. Quatro perícias grafotécnicas deram resultados que se contradiziam. O placar do julgamento aparece como 9 a 4 em um veículo e 8 a 4 em outro, e por isso esta reportagem não afirma nenhum dos dois.
O menino do córrego
Jair Messias Bolsonaro nasceu em 21 de março de 1955, em Glicério, no interior de São Paulo, filho de Percy Geraldo Bolsonaro e Olinda Bonturi.
Em 1966 a família se mudou para Eldorado, no Vale do Ribeira, região de bananal e quilombo no sul do estado. Ele viveu ali dos 11 aos 18 anos.
Pela reconstituição que o Terra publicou, o menino pescava, catava maracujá no mato para vender e descarregava caminhão de adubo. E procurava ouro em córrego, de madrugada, como quem brinca de achar tesouro. Isso é relato de reportagem e de biografia, não documento.
Aos 17 entrou na Escola Preparatória de Cadetes. Formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras em 1977. Serviu no Rio, depois em Nioaque, no Mato Grosso do Sul, fez a Escola de Educação Física do Exército e foi para o 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, em Deodoro.
Foi ali, paraquedista e capitão, que ele escreveu para a Veja.
Vinte e sete anos e dois projetos
Eleito vereador do Rio em 1988 pelo PDC, assumiu em 1989. Em 1990 se elegeu deputado federal. Ficou sete mandatos seguidos, de 1991 a 2019, passando por oito partidos: PDC, PPR, PPB, PTB, PFL, PP, PSC e PSL.
Nesses 27 anos ele apresentou cerca de 170 projetos. Dois viraram lei: um estendia a isenção de IPI para bens de informática, o outro autorizava o uso da fosfoetanolamina sintética, a chamada pílula do câncer.
Do total apresentado, ao menos 32 propostas eram voltadas a militares. Uma tratava de educação. Duas, de saúde.
A facada
6 de setembro de 2018, ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais. Ele é erguido pela multidão e leva uma facada no abdome, desferida por Adélio Bispo de Oliveira.
O golpe causou três lesões no intestino delgado e feriu uma veia abdominal. A hemorragia foi grave e ele chegou ao hospital em estado crítico. Passou por seis cirurgias desde então.
Adélio foi declarado inimputável por doença mental em 2019 e internado por tempo indeterminado. As investigações concluíram que ele agiu sozinho, por insatisfação política, sem mandante.
Em 7 de outubro de 2018, primeiro turno, Bolsonaro teve 46,03% dos votos válidos. Em 28 de outubro, 55,13%. Aos 63 anos, o capitão punido em 1986 assumiu a Presidência.
A queda, em cinco datas
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 20/10/2021 | A CPI da Pandemia aprova por 7 a 4 um relatório que pede o indiciamento dele por nove crimes. Foram 603 mil mortes contabilizadas no Brasil até ali |
| 30/10/2022 | Perde o segundo turno para Lula: 49,10% contra 50,90% dos votos válidos |
| 30/06/2023 | O TSE o declara inelegível por oito anos, até 2030, por 5 votos a 2 |
| set/2025 | A Primeira Turma do STF o condena a 27 anos e 3 meses em regime inicial fechado, mais multa de R$ 376 mil, por 4 votos a 1 |
| 22/11/2025 | Prisão preventiva, por risco de fuga, depois de uma tentativa de violar a tornozeleira eletrônica |
Onde ele está hoje
Isso precisa ser dito com data, porque as versões divergem.
Em janeiro de 2026 ele foi transferido para a chamada Papudinha, o 19º Batalhão da Polícia Militar, dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
Em 24 de março de 2026, o ministro Alexandre de Moraes concedeu prisão domiciliar humanitária por 90 dias, depois de uma broncopneumonia aspirativa. Ele foi para casa, no condomínio Solar de Brasília, com tornozeleira eletrônica.
Em 3 de julho de 2026, Moraes prorrogou a domiciliar por prazo indeterminado. Na decisão, citou a melhora clínica, mas listou esofagite erosiva, gastrite crônica, refluxo, má digestão e crises de soluço. Na mesma canetada revogou o registro de colecionador, atirador e caçador e mandou apreender dez armas em 48 horas.
Em 7 de setembro de 2026 ele passou o feriado em casa, com tornozeleira, enquanto o filho Flávio, candidato a presidente, comandava o ato na Avenida Paulista. Essa é a informação mais recente que consegui confirmar até o fechamento desta edição. Não localizei decisão publicada depois dessa data alterando o regime.
As visitas são restritas. Em 17 de julho elas foram suspensas por 30 dias, com exceção de médicos e advogados. Em 21 de agosto, Moraes liberou os filhos Carlos e Jair Renan, desde que os encontros não tivessem finalidade político-eleitoral. Flávio segue proibido de visitar o pai até 11 de outubro, restrição ligada à eleição de 4 de outubro.
O que joga contra, e entra
Esta parte a revista não pula, e ela vale igual para todo mundo que aparece nesta edição.
"Ele foi condenado por tentar um golpe de Estado." Verdade. Setembro de 2025, Primeira Turma do STF, 27 anos e 3 meses em regime inicial fechado, multa de R$ 376 mil, por 4 votos a 1, por liderar organização criminosa armada. Ele nega e chama o processo de perseguição.
"O julgamento foi numa turma de cinco, não no Plenário." Também verdade, e a defesa dele usa isso. O voto vencido foi o de Luiz Fux, que pedia a anulação do processo e não via provados os crimes de organização criminosa e dano qualificado.
"Ele já era inelegível antes disso." Sim. O TSE o declarou inelegível por oito anos em 30 de junho de 2023, por 5 votos a 2, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores estrangeiros de 18 de julho de 2022.
"A pandemia." O relatório da CPI do Senado pediu o indiciamento dele por nove crimes, com 603 mil mortes contabilizadas em outubro de 2021. É preciso dizer o que é: pedido de indiciamento de CPI não é denúncia nem condenação.
"Vinte e sete anos de Câmara e dois projetos aprovados." Verdade, e é o dado que a oposição a ele mais repete.
"Prisão domiciliar é privilégio." O fundamento está escrito na decisão e é médico. Moraes registrou que qualquer violação das regras leva à revogação e ao retorno imediato ao regime fechado, e na mesma decisão apertou o cerco das armas.
A resposta
Em 1986, um capitão foi preso 15 dias por escrever numa revista que o salário do Exército estava baixo. A punição o transformou num nome conhecido, e aquele nome virou vereador, virou deputado por 27 anos, virou presidente do Brasil.
Quarenta anos depois, ele está preso de novo. Desta vez por uma sentença de 27 anos e 3 meses, cumprida dentro de casa por razão de saúde, com tornozeleira eletrônica. A eleição de outubro acontece do lado de fora, com o sobrenome dele na cédula e outra pessoa carregando.
A primeira prisão fez a carreira. A última encerrou.







