Revista De Castro

Magazine / 26 de setembro de 2026

A história inteira

O bebê ficou 61 minutos sem pulso. A Igreja diz que o milagre é de um bispo que ganhou um Emmy

James Engstrom nasceu sem batimento em setembro de 2010 e voltou quando os médicos iam declarar a morte. Dezesseis anos depois, foi ele quem levou a relíquia na beatificação de Fulton Sheen, o bispo que falava para 30 milhões de pessoas pela TV. A história inteira, da audiência recorde à briga pelo corpo que travou a causa por cinco anos.

Publicado
26 de setembro de 2026
Atualizado
26 de setembro de 2026
Editoria
Magazine
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6 min
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10 citadas
Harris & Ewing / Library of Congress, via Wikimedia Commons, domínio público
Harris & Ewing / Library of Congress, via Wikimedia Commons, domínio público

Em 16 de setembro de 2010, nos Estados Unidos, um menino nasceu sem pulso.

Os pais, Bonnie e Travis Engstrom, começaram a rezar. Os médicos tentaram reanimar. O tempo foi passando. Aos 61 minutos, quando a equipe se preparava para declarar a morte, o coração voltou a bater.

O menino se chama James Fulton Engstrom. O nome do meio já dizia a quem a mãe rezava.

Na quinta-feira, 24 de setembro de 2026, esse menino, agora com 16 anos, entrou num estádio de St. Louis, nos Estados Unidos, carregando um relicário. Dentro dele estava a mandíbula de um bispo morto em 1979.

O que aconteceu em St. Louis

A missa foi no The Dome at America's Center, um estádio coberto. Segundo a OSV News, agência católica americana, foram cerca de 50 mil pessoas, perto de 90 bispos, mil padres, 1.600 religiosos e 250 diáconos. O St. Louis Review contou gente de mais de 10 países e de pelo menos 49 estados.

Quem presidiu foi o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, como delegado do papa Leão XIV. A carta apostólica que declarou o bispo "beato" foi lida em latim e depois em inglês. A cerimônia durou quase três horas.

No palco, de acordo com a America Magazine, havia uma réplica do estúdio de televisão onde o bispo gravava: o quadro-negro, as estantes, as plantas e a imagem de Nossa Senhora.

A escolha da mandíbula como relíquia tem motivo. O homem foi, antes de tudo, uma voz.

O bispo que virou fenômeno de TV

Fulton John Sheen nasceu Peter John Sheen, em 8 de maio de 1895, em El Paso, uma cidadezinha de Illinois.

Em 1930 começou a pregar no rádio, no programa "The Catholic Hour". O Vatican News calcula a audiência em cerca de 4 milhões de ouvintes.

Em 12 de fevereiro de 1952 estreou na TV. O programa se chamava "Life Is Worth Living" (a vida vale a pena ser vivida) e foi ao ar até 1957. Era um homem de batina, sozinho, falando para a câmera com um giz na mão. No auge, chegou a cerca de 30 milhões de espectadores por semana.

Ele disputava horário com Milton Berle, o humorista mais popular da televisão americana. Berle resolveu a rivalidade com uma piada: se era para perder audiência para alguém, que fosse para "Aquele de quem o bispo fala".

No mesmo ano de 1952, Sheen ganhou um Emmy. No palco, agradeceu assim:

"Sinto que é hora de prestar homenagem aos meus quatro roteiristas: Mateus, Marcos, Lucas e João."

Em 14 de abril de 1952, estava na capa da revista Time, que o chamou de primeiro "televangelista".

Morreu em 9 de dezembro de 1979, em Nova York. Foi sepultado na Catedral de São Patrício. E foi ali que a história travou.

A briga pelo corpo

A causa de beatificação foi aberta em 2002 pela Diocese de Peoria, onde Sheen nasceu, foi ordenado e começou a vida de padre.

Em 28 de junho de 2012, o papa Bento XVI o declarou "venerável", o primeiro degrau. Em 2014, uma junta de peritos médicos aprovou o caso do bebê Engstrom como inexplicável pela medicina.

Faltava pouco. Aí veio o problema.

Peoria queria o corpo. A Arquidiocese de Nova York não queria entregar. A disputa foi parar na Justiça, e em 3 de setembro de 2014 a causa foi suspensa por causa dela.

Foram quase cinco anos de processo. Só em junho de 2019 os restos mortais saíram de Nova York e foram levados para Peoria. Em julho de 2019, o papa Francisco aprovou o milagre. A beatificação foi marcada para dezembro.

A segunda trava

Em 3 de dezembro de 2019, duas semanas antes da cerimônia, tudo parou de novo.

O bispo de Rochester, Salvatore Matano, pediu o adiamento. Segundo o Catholic Herald, o motivo foram preocupações ligadas a um relatório do procurador-geral de Nova York. Sheen tinha sido bispo de Rochester no fim dos anos 1960.

A beatificação ficou suspensa sem data. A nova data só foi anunciada em 2026, e a Diocese de Peoria marcou a missa para 24 de setembro, às 14h no horário local.

Da morte ao altar, passaram 47 anos.

O menino, hoje

James fez 16 anos em 16 de setembro, oito dias antes da beatificação. A família mora em Washington, Illinois, e viajou para St. Louis com os oito filhos.

A mãe, Bonnie, contou ao jornal The Dialog por que chamou por Sheen naquela hora:

"Foi uma coisa muito natural naquele momento (a hora mais difícil da minha vida até hoje) a gente recorrer ao pedido de ajuda daquele homem."

Ela já rezava pedindo a intercessão dele durante a gravidez.

Ao site Aleteia, Bonnie descreveu o filho como "um rapaz encantador" e "um menino muito reservado". A paróquia protege a privacidade dele. E ela contou uma frase que ele repete às vezes: "Eu estava rezando e sinto que Deus disse isso, e sinto que o bispo Sheen está meio que me apontando nessa direção."

O The Dialog o descreve como "um adolescente saudável e típico".

Os números

DataO que aconteceu
8/5/1895Nasce em El Paso, Illinois
1930Estreia no rádio, com cerca de 4 milhões de ouvintes
12/2/1952Estreia "Life Is Worth Living" na TV
1952Ganha o Emmy e sai na capa da Time
9/12/1979Morre em Nova York
2002Aberta a causa de beatificação
16/9/2010James Engstrom nasce e fica 61 minutos sem pulso
2012Declarado venerável por Bento XVI
3/9/2014Causa suspensa pela disputa do corpo
junho de 2019Corpo transferido para Peoria
3/12/2019Beatificação adiada a pedido do bispo de Rochester
24/9/2026Beatificado em St. Louis

O que joga contra, e entra

"Milagre" é palavra da Igreja, não do laudo. O que existe de documentado é um bebê sem pulso por 61 minutos que se recuperou sem sequela, e uma junta médica do Vaticano que concluiu, em 2014, que a medicina não explica a recuperação. A atribuição a Sheen é um juízo de fé, feito pela Igreja. Quem não crê tem todo o direito de ler só a primeira metade.

O adiamento de 2019 teve a ver com abuso? O que as fontes abertas dizem é que o bispo de Rochester citou preocupações ligadas a um relatório do procurador-geral de Nova York. Não encontrei nenhuma acusação formal, processo ou conclusão pública contra o próprio Sheen. A Igreja retomou a causa e o beatificou. Registro o fato do adiamento e não vou além do que está documentado.

Cinco anos brigando por um corpo não é pouco para santidade? A disputa foi entre duas dioceses, não dele. Mas travou a causa de 2014 a 2019, e isso está nos registros.

Uma crítica de dentro. A própria America Magazine, revista dos jesuítas, publicou que o autor contou "talvez nas duas mãos" o número de afro-americanos que viu no estádio. A festa foi enorme, mas não foi unânime.

Beato ainda não é santo. A beatificação é o degrau anterior à canonização, que não tem data. A festa litúrgica dele, a partir de agora, é 9 de dezembro.

A resposta

Quem salvou o bebê?

A resposta depende da fé de quem lê. O que está nos documentos é isto: um menino ficou 61 minutos sem pulso em 2010, voltou, cresceu saudável e, aos 16 anos, levou a relíquia de um bispo que a mãe chamou na hora mais difícil da vida dela.

A Igreja diz que o milagre é de Fulton Sheen, o padre que ganhou um Emmy agradecendo a quatro evangelistas. Levou 47 anos, duas travas e uma briga na Justiça para ela dizer isso em voz alta.

Fontes desta materia

  1. OSV News, Archbishop Fulton J. Sheen declared Blessed at Mass in St. Louis
  2. St. Louis Review, Archbishop Fulton J. Sheen declared blessed at Mass in St. Louis
  3. The Dialog, James Engstrom, whose 61-minute revival was attributed to Fulton Sheen's intercession, turns 16
  4. Aleteia, Fulton Sheen miracle baby: where is he now?
  5. The Catholic Herald, Fulton Sheen beatified in St Louis after decades-long cause
  6. America Magazine, Fulton Sheen's beatification: an event as simple as a peasant dress
  7. Vatican News, Venerable Fulton Sheen to be beatified in St. Louis on 24 September
  8. Archbishop Fulton J. Sheen Foundation, Statement regarding beatification details
  9. Wikipedia, Fulton J. Sheen
  10. Wikipédia, Fulton J. Sheen