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Checagem / 6 de setembro de 2026

Eu fui checar

"Votar no Cury é jogar voto fora?" Eu fiz a conta: 1 ponto vale 1,2 milhão de votos e 32,7 milhões não foram votar

A frase apareceu 40 vezes nos comentários esta semana. Fui checar as cinco pesquisas, a regra do artigo 77 da Constituição, a matemática do voto válido e a história das seis eleições com segundo turno desde 1989. A resposta tem duas partes, e a segunda contraria quem repete a frase: 29% dos eleitores dele votariam branco ou nulo num Lula contra Flávio. Esses nunca foram do Flávio.

Publicado
6 de setembro de 2026
Atualizado
6 de setembro de 2026
Editoria
Checagem
Leitura
10 min
Fontes
14 citadas
Urna eletrônica. Foto do Tribunal Superior Eleitoral, domínio público
Urna eletrônica. Foto do Tribunal Superior Eleitoral, domínio público

Eu li essa frase quarenta vezes nos comentários esta semana. "Votar no Cury é jogar o voto fora."

Fui fazer a conta. E a conta tem duas metades: uma dá razão a quem diz a frase, a outra desmonta ela. Vou dar as duas, com o número na mão.

Primeiro a regra, porque ela sozinha já responde metade

Voto perdido não existe na Constituição brasileira. Está no artigo 77, e cabe em dois parágrafos:

Será considerado eleito Presidente o candidato que obtiver a maioria absoluta de votos, não computados os em branco e os nulos.

E se ninguém alcança essa maioria:

Far-se-á nova eleição em até vinte dias após a proclamação do resultado, concorrendo os dois candidatos mais votados.

Traduzindo para a vida real: se ninguém passa de metade dos votos válidos em 4 de outubro, os dois primeiros disputam de novo em 25 de outubro, e você vota outra vez, em quem quiser.

Repare no detalhe do "votos válidos": branco e nulo não entram no denominador. Eles não ajudam ninguém a ganhar nem a evitar segundo turno. Quem anula acha que está protestando contra os dois; na matemática, está apenas saindo da conta.

Agora a metade que dá razão à frase

Onde ele está, nas cinco pesquisas da semana. Todas registradas no tribunal, como manda a lei.

InstitutoCampoEntrevistasRegistroLulaFlávioCury
Datafolha1 a 3 de setembro2.002BR-03669/202638%33%8%
PoderData30 de agosto a 2 de setembro3.000BR-07561/202637%34%10%
Genial/Quaest30 de agosto a 1º de setembro2.004BR-07065/202637%30%10%
BTG/Nexus28 a 30 de agosto2.005BR-08900/202639%33%11%
Real Time Big Data27 a 31 de agosto2.000BR-03490/202638%29%10%

Ele está entre 8% e 11%, e o segundo colocado está entre 29% e 34%. A distância para a vaga do segundo turno vai de 19 a 25 pontos.

Nisso, quem diz a frase tem razão: é muita coisa.

Quanto vale um ponto

Aqui a conta fica concreta, e quase ninguém faz.

DadoNúmero
Eleitores aptos em 2026158,7 milhões
Votos válidos no primeiro turno de 2022cerca de 118,2 milhões
Quanto vale 1 ponto percentualcerca de 1,2 milhão de votos

Não adianta suavizar: é muito. Quem diz que "é só o povo acordar" está ignorando a aritmética.

Agora a metade que a frase esquece

Três dados, e o terceiro é o que mais incomoda quem repete a frase.

1. O reservatório que ninguém mede

No primeiro turno de 2022, 32.770.982 eleitores não foram votar, uma abstenção de 20,95%. E o segundo turno daquele ano foi decidido por 2.139.645 votos, uma diferença de 1,80 ponto.

O tamanho do que ficou de fora, em milhões de votos

Quem não foi votar no 1º turno32,8
Diferença que decidiu o 2º turno2,1

Fonte: TSE, apuração oficial de 2022

Quem ficou em casa era quinze vezes a diferença que decidiu a eleição. E pesquisa mede mal esse grupo, porque quem não pretende votar tende a não responder, ou responde e não aparece. Escrevi sobre esse grupo inteiro na matéria dos 37,9 milhões.

2. A velocidade da curva

Ele não está parado em 10%. Ele chegou lá em uma semana.

O que aconteceu em sete dias de fim de agosto

Cury na PoderData, de 4% para10
Cury na BTG/Nexus, de 2% para11
Queda do Flávio no período, em pontos-4
Queda do Lula no período, em pontos-2

Fontes: PoderData e BTG/Nexus, campos de 24 a 31 de agosto

Na mesma semana em que ele subiu, os dois primeiros caíram. Isso é raro, e é o que sustenta a discussão. Fiz a conta inteira disso na matéria sobre "ele veio dividir a direita".

3. O dado que vira a frase do avesso

Este é o mais importante, e quase não circulou.

A BTG/Nexus perguntou para quem vota em Cury o que ele faria num segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro:

Para onde vai o eleitor de Cury num 2º turno Lula x Flávio, em %

Vota em Flávio Bolsonaro46
Vota branco ou nulo29
Vota em Lula23
Não sabe2

Fonte: BTG/Nexus, 31 de agosto de 2026

Leia os 29% de novo. Quase um terço do eleitorado dele não vota em nenhum dos dois. Esses votos nunca foram do Flávio, e não seriam dele mesmo que Cury não existisse: iriam para o branco, para o nulo ou para o sofá.

Ou seja: dos 10% de Cury, cerca de 4,6 pontos poderiam ir para o Flávio, e cerca de 2,9 não iriam para ninguém. A candidatura dele trouxe para a urna gente que ia ficar em casa. Isso é o oposto de jogar voto fora.

O que a história diz, e eu não vou escolher a versão que me convém

Aqui a resposta depende de como se conta, então vou dar as duas contagens.

Desde 1989 houve seis eleições presidenciais que foram a segundo turno. Em quantas o terceiro colocado chegou à final?

AnoTerceiro nas pesquisas a ~30 diasOnde terminou
1989Lula, atrás de Brizola até setembro2º lugar, 17,19% contra 16,51% de Brizola
2002Ciro Gomes chegou a liderar e caiu para 12%4º lugar
2010Marina Silva com cerca de 10%3º lugar, 19,33%
2014Aécio Neves com 14% em 3 de setembro2º lugar, 33,55%
2018Haddad com 9% em 10 de setembro2º lugar, 29,28%, mas por substituição de candidatura
2022Simone Tebet3º lugar, 4,16%

A contagem restritiva: só em 1989 um terceiro colocado nas pesquisas terminou em segundo, e por 0,68 ponto. Foi assim que o Metrópoles resumiu: só uma vez a terceira via desbancou os favoritos.

A contagem ampla: contando 2014, quando Aécio estava em terceiro no início de setembro e terminou em segundo com 33,55%, são dois casos em seis.

Escolha a régua que preferir. O que nenhuma das duas sustenta é o extremo: nem "nunca acontece", nem "vai acontecer". Aconteceu uma ou duas vezes em seis. É pouco, e não é zero.

O argumento sério do voto útil, que eu não vou esconder

Se eu parasse aqui, isto viraria panfleto. Então vai o melhor argumento de quem diz a frase.

Nos segundos turnos testados esta semana, o Flávio Bolsonaro disputa melhor contra o Lula do que o Cury:

Cenário testadoResultadoInstituto
Lula x Flávio46 a 44Datafolha
Lula x Flávio44 a 45, com Flávio na frentePoderData
Lula x Flávio47,1 a 42,6AtlasIntel
Lula x Flávio42 a 41Quaest
Lula x Cury40 a 34Quaest, a única que testou

Quem quer só derrotar o Lula tem um argumento numérico de verdade: hoje o Flávio chega mais perto, e o Cury perde por mais. Detalhei esse cenário na matéria do 34 a 40.

A resposta, em duas frases

Se você acha que ele não chega ao segundo turno, votar nele no primeiro turno não muda o resultado, porque você vota de novo três semanas depois. O voto não se perde: ele volta para a sua mão em 25 de outubro.

Se você acha que ele pode chegar, votar no "menos pior" agora é exatamente o que impede que ele chegue.

Nos dois casos, a frase "jogar voto fora" não descreve o que acontece com o seu voto. Ela descreve um medo. E medo não é conta.

Perguntas que chegam nos comentários

Votar em quem não vai ganhar é jogar voto fora?

Não. Pelo artigo 77 da Constituição, se ninguém tem maioria absoluta dos votos válidos, os dois mais votados disputam o segundo turno e o eleitor vota de novo, em quem quiser. Só não conta quem fica em casa, e o branco e o nulo, que são descontados da conta.

O que é voto válido?

É o total de votos menos os brancos e os nulos. É sobre esse total que se calcula a maioria absoluta de 50% mais um.

Quantos por cento tem Augusto Cury nas pesquisas?

Entre 8% e 11% nas cinco pesquisas da semana: Datafolha 8%, PoderData 10%, Quaest 10%, Nexus 11% e Real Time 10%. A AtlasIntel, com metodologia online, dá 3,3%.

Quanto vale um ponto percentual em votos?

Cerca de 1,2 milhão de votos, considerando os 158,7 milhões de eleitores aptos em 2026 e os cerca de 118 milhões de votos válidos de 2022.

Algum terceiro colocado já chegou ao segundo turno no Brasil?

Em 1989, Lula estava atrás de Brizola nas pesquisas até setembro e terminou em segundo, com 17,19% contra 16,51%. Em 2014, Aécio Neves aparecia em terceiro no início de setembro e terminou em segundo com 33,55%. São um ou dois casos em seis eleições com segundo turno, dependendo da régua.

Para onde vai o voto de Cury num segundo turno entre Lula e Flávio?

Segundo a BTG/Nexus, 46% votariam em Flávio Bolsonaro, 23% em Lula, 29% em branco ou nulo e 2% não sabem.

Quantas pessoas não votaram em 2022?

32.770.982 no primeiro turno, uma abstenção de 20,95%. O segundo turno foi decidido por 2.139.645 votos.

Quando é o segundo turno de 2026?

25 de outubro. O primeiro turno é em 4 de outubro e o horário eleitoral gratuito vai até 1º de outubro.

O que eu tirei por não passar na checagem

  1. "O terceiro colocado nunca chega." Falso. Aconteceu em 1989, e em 2014 se a régua for a posição nas pesquisas de início de setembro.
  2. "Ele vai virar." Não está em dado nenhum. É torcida, e torcida não entra como fato.
  3. A AtlasIntel fora da conta. Ela destoa muito, e a tentação era omitir. Está registrada acima.

Faltam 29 dias. Eu volto a cada pesquisa, com o instituto, a data e o número de registro. Inclusive quando o número for ruim.

Leia também: Cury escolheu o adversário do segundo turno e Cury lidera entre os independentes, 24 a 21.

Fontes desta materia

  1. Constituição Federal, artigo 77, parágrafos 2º e 3º, sobre maioria absoluta e votos válidos
  2. Gazeta do Povo, os números do Datafolha de setembro de 2026
  3. Gazeta do Povo, PoderData divulga nova pesquisa para presidente
  4. Gazeta do Povo, os números completos da Quaest de setembro de 2026
  5. Poder360, Lula tem 47,1% contra 42,6% de Flávio no segundo turno, diz AtlasIntel
  6. Money Times, BTG/Nexus de 31 de agosto
  7. TSE, mais de 158 milhões de eleitores aptos a votar em 2026
  8. TSE, Divulgação de Resultados, apuração oficial de 2022
  9. Metrópoles, só em 1989 a terceira via desbancou favoritos e foi ao segundo turno
  10. Gazeta do Povo, resultados de todas as eleições presidenciais desde 1989
  11. Wikipédia, eleição presidencial no Brasil em 1989
  12. Wikipédia, pesquisas de opinião para a eleição presidencial de 2026
  13. TSE, registro e consulta de pesquisas eleitorais
  14. TSE, calendário eleitoral de 2026