Atualização de 8 de setembro: perguntaram na CNN e ele recusou os dois lados
Numa sabatina da CNN Brasil, o candidato foi colocado diante do cenário direto: se o segundo turno for Lula contra Flávio Bolsonaro, quem você apoia?
Ele não escolheu nenhum dos dois. Respondeu que eles é que teriam de escolher, porque ele pretende estar lá. Em seguida repetiu que quer disputar o segundo turno com Lula e fechou dizendo que ninguém é dono do cargo, porque o cargo pertence ao Brasil.
Na mesma resposta ele citou dois números, e eu fui conferir os dois:
| O que ele disse | O que a fonte diz |
|---|---|
| Uma mulher é morta a cada cinco ou seis horas | Confere. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 399 vítimas de feminicídio entre janeiro e março de 2026, alta de 7,5%, o que dá uma morte a cada cinco horas. Em 2025 foram 1.571 |
| 82% das famílias estão endividadas | Confere. A Peic, da CNC, apontou 82% em julho de 2026, o maior percentual de toda a série histórica, com projeção de 82,6% em setembro |
Os dois números estão corretos e são recentes. Isso não torna o diagnóstico dele automaticamente certo, mas afasta a acusação, comum nos comentários, de que ele fala em números inventados.
Na sexta-feira, 4 de setembro, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Augusto Cury falou com jornalistas e disse uma frase curta que vale a matéria inteira:
Há margem para eu subir mais. Eu já elegi meu adversário no segundo turno: Lula.
Augusto Cury, a jornalistas em São José do Rio Preto, 4 de setembro de 2026.
Ele disse isso no dia em que voltou à Famerp, a faculdade de medicina onde ele mesmo se formou médico, e depois de um encontro com empresários da região.
A frase é boa de manchete. Mas ela carrega uma conta que ninguém está fazendo, e é essa conta que decide se a frase é estratégia ou é vontade.
Para escolher o adversário, primeiro ele precisa passar pelo outro
Cury não disputa o segundo turno com Lula. Ele disputa uma vaga no segundo turno, e a vaga está com Flávio Bolsonaro.
Ou seja: dizer "meu adversário é o Lula" é, na prática, dizer "eu vou passar o Flávio". E aí o número aparece.
| Pesquisa | Flávio Bolsonaro | Augusto Cury | Distância |
|---|---|---|---|
| Datafolha, campo de 1 a 3 de setembro | 33% | 8% | 25 pontos |
| Quaest, campo de 30 de agosto a 1º de setembro | 30% | 10% | 20 pontos |
As duas pesquisas discordam, e isso importa
Vale abrir, porque a diferença entre elas é maior que a margem de erro.
| Datafolha | Quaest | |
|---|---|---|
| Campo | 1 a 3 de setembro | 30 de agosto a 1º de setembro |
| Entrevistas | 2.002 | 2.004 |
| Margem de erro | 2 pontos | 2 pontos |
| Registro no tribunal | BR-03669/2026 | BR-07065/2026 |
| Lula | 38% | 37% |
| Flávio Bolsonaro | 33% | 30% |
| Augusto Cury | 8% | 10% |
Dois pontos de diferença em Cury, com campos que quase se encostam. Registro que um detalhamento de cenário alternativo do Datafolha trouxe 7% para ele; a divulgação principal, reproduzida pela Gazeta do Povo e pela cobertura geral, traz 8%, e é esse o número que eu uso.
Isso é relevante porque a Quaest é a pesquisa que criou a narrativa da onda. O Datafolha, três dias depois, mostra um número menor. Ou a onda desacelerou, ou os dois institutos estão medindo coisas um pouco diferentes. Nas próximas rodadas dá para saber. Hoje, não dá.
Agora o dado incômodo, e ele está na mesma pesquisa
Aqui está o que a frase dele não resolve, e é o ponto mais duro desta matéria.
A Quaest foi a primeira a testar Cury num segundo turno. E testou os dois cenários.
Diferença para o Lula no segundo turno testado, em pontos
Fonte: Quaest, campo de 30/08 a 01/09/2026. Quanto menor a barra, mais competitivo
Lula 42, Flávio 41. Lula 40, Cury 34.
Hoje, contra o Lula, o Flávio é mais competitivo do que o Cury. E o Datafolha reforça: mediu Lula 46 a 44 contra Flávio, empate técnico, e nem chegou a testar um cenário com Cury.
Então a frase "eu já elegi meu adversário" tem uma segunda leitura desconfortável: do ponto de vista de quem só quer derrotar o Lula, os números de hoje dizem que o Flávio faz isso melhor.
O que joga a favor dele, e é um número forte
Não é opinião, é medida: rejeição. Rejeição é quem diz que não votaria de jeito nenhum, e ela funciona como o teto de crescimento de um candidato.
Rejeição, em %
Fonte: AtlasIntel, campo de 25 a 30 de agosto de 2026
Flávio tem mais que o dobro da rejeição de Cury. Traduzindo: o Flávio já está perto do teto dele, e o Cury tem muito espaço vazio acima da cabeça.
É esse número que sustenta a aposta. A tese de Cury é que, num segundo turno, quem tem 18,5% de rejeição recebe mais voto de quem sobrou do que quem tem 41,3%. A tese é razoável. Ela só ainda não foi confirmada por pesquisa nenhuma, porque a única que testou deu o contrário.
O que a frase realmente faz
Esta parte é leitura minha, e eu marco como leitura minha.
Dizer "meu adversário é o Lula" não é previsão. É movimento. Quando um terceiro colocado anuncia contra quem vai disputar a final, ele está dizendo ao eleitor que quer derrotar o presidente uma coisa só: o candidato da vez sou eu, não o outro.
É uma jogada para o voto do Flávio, feita sem citar o nome do Flávio. E ela tem lógica, porque a matemática dele depende exatamente disso: dos 32% que estão com o Flávio hoje, ele precisa de uma parte grande.
O detalhe é que essa jogada foi feita falando com jornalistas na rua, e não na televisão. Na TV ele tem 35 segundos por dia, contra 4 minutos e 20 do Flávio. É por isso que cada frase dele precisa render manchete: manchete é o megafone que sobrou.
O que eu tirei por não passar na checagem
- "Cury já está no segundo turno." Não está. Ele é terceiro nas duas pesquisas, e a distância para a vaga é de 20 a 25 pontos.
- O número de 7% no Datafolha. Apareceu num detalhamento de cenário alternativo. A divulgação principal traz 8%. Dou os dois e digo qual eu usei.
- "Ele venceria o Lula no segundo turno." Nenhuma pesquisa mostra isso. A única que testou mostra o contrário.
Perguntas que chegam nos comentários
O que Augusto Cury disse sobre o segundo turno?
Em São José do Rio Preto, em 4 de setembro de 2026, disse a jornalistas: "Há margem para eu subir mais. Eu já elegi meu adversário no segundo turno: Lula."
Cury está na frente de Flávio Bolsonaro?
Não. Nas duas pesquisas mais recentes, Flávio tem 30% a 33% e Cury tem 8% a 10%. A distância para a vaga no segundo turno é de 20 a 25 pontos.
Cury venceria Lula no segundo turno?
Na única pesquisa que testou, a Quaest, não: Lula 40, Cury 34. No mesmo levantamento, Flávio Bolsonaro perde por apenas um ponto, 42 a 41.
Qual é a rejeição de Augusto Cury?
18,5%, a menor entre os candidatos, segundo a AtlasIntel de 25 a 30 de agosto. A de Flávio Bolsonaro é 41,3%.
Quando são os debates presidenciais de 2026?
14 de setembro, 27 de setembro e 1º de outubro. O primeiro turno é em 4 de outubro.
O que decide, e quando
4 de outubro é o primeiro turno. Até lá, três coisas mexem no número dele: os debates de 14 e 27 de setembro e 1º de outubro, as próximas rodadas de pesquisa, e os 9% que ainda estão em branco, nulo ou indecisos no Datafolha.
Eu volto a cada rodada, com o instituto, a data e o número de registro. Inclusive quando o número for ruim.






