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Política / 4 de setembro de 2026

Eu fui checar

Cury passou o Lula entre os independentes. Para chegar ao segundo turno ele precisa de +20 pontos em 30 dias, e isso já aconteceu duas vezes

A Quaest divulgada em 2 de setembro colocou Augusto Cury em 24% entre os eleitores independentes, à frente de Lula (21%) e de Flávio Bolsonaro (9%). Eu fui checar a pesquisa inteira, corrigi um número errado que a imprensa publicou, e fui atrás da conta que ninguém está fazendo: quanto ele precisa crescer, quem já cresceu assim, e quem despencou exatamente nesta mesma janela do calendário.

Publicado
4 de setembro de 2026
Atualizado
5 de setembro de 2026
Editoria
Política
Leitura
11 min
Fontes
11 citadas
Foto de Augusto Cury, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0
Foto de Augusto Cury, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0

A manchete que rodou o Brasil nesta quarta-feira é verdadeira: entre os eleitores independentes, Augusto Cury tem 24% e está à frente de Lula, com 21%, e de Flávio Bolsonaro, com 9%.

Eu torço por ele e não escondo isso de ninguém. Justamente por isso, aqui não tem número inventado. Eu li a pesquisa inteira, achei um erro que saiu na imprensa, e fui atrás da única conta que decide se essa onda vira eleição ou vira lembrança.

Antes de tudo, o aviso que precisa vir junto com a manchete.

Ele está na frente do Lula em um lugar só

Independente é quem responde que não se considera nem de um lado nem do outro. Nesse grupo, Cury lidera. No cenário geral, ele não está na frente de ninguém.

Cenário estimulado, primeiro turno%
Lula37
Flávio Bolsonaro30
Augusto Cury10
Renan Santos3
Outros candidatos1 cada
Branco, nulo ou não vai votar7
Não sabem10

Quem publicar "Cury passou o Lula" sem a palavra independentes na mesma frase está enganando o leitor, e o primeiro comentário vai desmontar.

O número errado que circulou hoje, e como eu sei que está errado

Vale registrar, porque foi para muita gente. Pelo menos um veículo grande publicou o cenário geral da Quaest com "Flávio Bolsonaro 39%". O número correto é 30%.

Dá para provar sem depender de ninguém, só somando. Com Flávio em 39, a soma dos candidatos daria 91%, e sobrariam 9% para branco, nulo, não vai votar e indeciso, tudo junto. Isso não existe em pesquisa presidencial brasileira. Com 30, a soma dos candidatos dá 81%, e os 19% restantes batem exatamente com os 7% de branco, nulo ou não vota mais os 10% que não sabem, mais o arredondamento.

A ficha da pesquisa, para você conferir

ItemDado
InstitutoQuaest
Entrevistas2.004, presenciais
Campo30 de agosto a 1º de setembro de 2026
Margem de erro2 pontos percentuais
Confiança95%
Registro no tribunal eleitoralBR-07065/2026

De onde veio o voto dele, e por que isso é raro

Este é o dado mais forte da semana, e quase ninguém está mostrando. Na rodada da BTG/Nexus entre 24 e 31 de agosto:

Candidato24 de agosto31 de agostoVariação
Lula4139caiu 2
Flávio Bolsonaro3733caiu 4
Augusto Cury211subiu 9

Candidato costuma crescer tirando voto de um lado só. Ele tirou dos dois na mesma semana. Quem tira dos dois lados ao mesmo tempo não está disputando um pedaço do eleitorado, está disputando o meio do tabuleiro.

O teste que mede se o voto tem lastro

Agora o número que eu não vi em lugar nenhum, e que é o mais revelador da pesquisa toda.

Toda pesquisa tem duas perguntas. Na estimulada, o entrevistador mostra a lista de nomes. Na espontânea, ele não mostra nada e a pessoa tem que lembrar sozinha. A diferença entre as duas mede uma coisa só: se o eleitor sabe o nome do seu candidato de cabeça.

Na mesma Quaest, o espontâneo ficou assim: Lula 28, Flávio 20, Cury 4.

Quanto do voto sobrevive quando ninguém mostra a lista de nomes

Lula76
Flávio Bolsonaro67
Augusto Cury40

Em % do resultado estimulado. Fonte: Quaest, campo de 30/08 a 01/09/2026

Traduzindo: de cada 10 pessoas que dizem votar em Lula quando veem a lista, quase 8 dizem o nome dele sem lista nenhuma. No caso de Cury, são 4 em cada 10.

Isso não é defeito de candidato, é idade de candidatura. Ele existe na cabeça do eleitor há onze dias. Mas é a medida mais honesta do que a campanha ainda precisa construir, e ela bate com o outro dado da pesquisa: 48% de quem declara voto nele diz que ainda pode mudar.

Quatro institutos, quatro metodologias, a mesma direção

Isso importa porque descarta erro de amostra de um instituto só.

InstitutoOnde estavaOnde está
BTG/Nexus2%11%
AtlasIntel1,6%7,8%
Quaestnão pontuava10%
Real Time Big Datanão pontuava10%

Quando quatro medem de jeitos diferentes e os quatro apontam para cima, o movimento é real.

Os 35 segundos, e a regra que quase ninguém conhece

Aqui está o obstáculo maior dele, e ele é de lei, não de opinião.

O horário eleitoral gratuito começou em 28 de agosto e vai até 1º de outubro. A propaganda de presidente vai ao ar às terças, quintas e sábados, em blocos de 12 minutos e 30 segundos divididos entre todos os candidatos.

A divisão está no artigo 47 da Lei 9.504: 90% do tempo é repartido pelo tamanho da bancada de deputados federais de cada partido ou coligação, e só 10% é dividido igualmente. Como o Avante é um partido pequeno, sobra pouco.

Tempo diário de propaganda na TV, em segundos

Lula331
Flávio Bolsonaro260
Ronaldo Caiado122
Augusto Cury35

Fonte: distribuição do TSE para 2026, apurada por Congresso em Foco e Gazeta do Povo

Ele tem um nono do tempo do Lula e um sétimo do tempo do Flávio. Ser um dos quatro candidatos com tempo de TV já é um ativo, mas 35 segundos por dia é um megafone de bolso numa praça enorme.

E tem um detalhe de calendário que muda a leitura: a subida dele aconteceu antes do horário eleitoral começar. O debate da Band foi em 23 de agosto, o salto de seguidores foi em 27, e a propaganda na TV só estreou em 28. Ou seja, ele chegou a dois dígitos sem TV nenhuma.

Por que a comparação com o Collor não funciona

Todo mundo está lembrando de 1989, e a lembrança está errada pelo motivo mais importante.

Collor não subiu do nada com o megafone dos outros por acaso: a lei da época permitia que um candidato ocupasse o espaço inteiro de partidos pequenos, e ele fez isso três vezes, em programas de uma hora em horário nobre, em 30 de março, 27 de abril e 18 de maio de 1989.

Collor teve o megafone. Cury tem 35 segundos. É a mesma história com o motor trocado.

O precedente que serve de verdade

Para passar ao segundo turno, Cury não precisa alcançar Lula. Precisa passar Flávio Bolsonaro, que está em 30. Ele está em 10. Faltam 20 pontos em 30 dias, contando de hoje até 4 de outubro.

Isso é fantasia? Não. Aconteceu duas vezes nos últimos doze anos, e nas duas o candidato era o terceiro colocado.

QuemDe onde saiuOnde chegouEm quantos dias
Aécio Neves, 201415% em 29 de agosto33,55% na urna, em 5 de outubro37 dias, ganho de 18,5 pontos
Fernando Haddad, 201813% em 14 de setembro29,28% na urna, em 7 de outubro23 dias, ganho de 16,3 pontos

A diferença entre os dois casos e o dele é justamente o megafone. Aécio tinha o segundo maior tempo de TV de 2014. Haddad herdou a máquina inteira do PT. Cury tem 35 segundos e uma conta de Instagram.

O que joga a favor, com número

Duas coisas, e as duas são medidas, não impressão.

A primeira é a rejeição, que é quem diz que não votaria de jeito nenhum. Ela é o teto de crescimento de qualquer candidato.

Rejeição, em %

Augusto Cury18,5
Ronaldo Caiado28,5
Romeu Zema33,9
Pablo Marçal40,1
Flávio Bolsonaro41,3
Renan Santos43,1

Fonte: AtlasIntel, campo de 25 a 30 de agosto de 2026

A dele é a menor da mesa. Quanto menor a rejeição, mais alto o teto.

A segunda é o estoque de indeciso. No espontâneo da Quaest, quem não sabia dizer nome nenhum era 51% em 14 de agosto e passou a 42%. Nove pontos de gente decidindo lado em três semanas, e foi exatamente nessas três semanas que ele apareceu. Ainda restam 42%.

O gargalo é o primeiro turno, não o segundo

Essa é a conclusão que a pesquisa toda aponta.

No segundo turno testado contra Lula, ele perde por 40 a 34. Mas há 21% de branco, nulo ou não vota mais 5% que não sabem, o que dá 26 pontos em aberto contra 6 de diferença. Se ele chegar lá, a eleição fica genuinamente aberta, porque rejeição baixa mais indeciso alto é um combustível que nem Lula nem Flávio têm.

O problema é chegar. E o obstáculo não é a opinião pública, que está se movendo a favor dele. É a estrutura: 35 segundos de TV, um partido pequeno e dois terços dos independentes que ainda não sabem o nome dele.

Minha opinião, avisada como opinião

Em trinta anos acompanhando eleição, eu não me lembro de um candidato tirar voto dos dois lados na mesma semana, com 35 segundos de televisão, e chegar a dois dígitos em três semanas.

Ele pode não ganhar. Pode até desidratar como Marina desidratou. Mas é o único movimento real que esta eleição produziu até agora, e movimento real não se ignora.

Perguntas que chegam nos comentários

Cury está na frente de Lula?

Só entre os eleitores independentes: 24% contra 21%, na Quaest de 2 de setembro de 2026. No cenário geral, Lula tem 37%, Flávio Bolsonaro 30% e Cury 10%.

Quantos pontos Cury precisa para chegar ao segundo turno?

Cerca de 20, para passar Flávio Bolsonaro, em 30 dias. Aécio Neves ganhou 18,5 pontos em 37 dias em 2014 e Haddad 16,3 em 23 dias em 2018. Marina Silva perdeu 13 na mesma janela em 2014.

O voto de Cury é firme?

Ainda não. 48% de quem declara voto nele diz que pode mudar, e só 4 em cada 10 citam o nome dele sem ver a lista. 65% dos independentes não sabem quem ele é.

Qual é a rejeição de Cury?

18,5%, a menor entre os candidatos, segundo a AtlasIntel de fim de agosto. A de Flávio Bolsonaro é 41,3%.

A Quaest deu 39% para Flávio Bolsonaro?

Não. O número correto é 30%. Com 39%, a soma dos candidatos deixaria só 9% para brancos, nulos e indecisos, o que não fecha com os 17% da própria pesquisa.

Leia também: Cury escolheu o adversário do segundo turno e "Ele veio dividir a direita": a conta.

O que decide nos próximos 30 dias

  1. Os 65% que não o conhecem. Cada um que passa a conhecer é voto possível, e é aí que os 35 segundos pesam.
  2. Os debates. Foi o da Band, em 23 de agosto, que acendeu tudo. O próximo tem o mesmo potencial, para cima ou para baixo.
  3. Os 42% do espontâneo que ainda não têm nome na cabeça.

O primeiro turno é em 4 de outubro. O horário eleitoral vai até 1º de outubro.

A régua que vale para todo mundo

Pesquisa não é resultado. É uma fotografia de três dias, com margem de erro de dois pontos para cima e para baixo.

Eu volto a cada rodada, com o instituto, a data e o número de registro. Inclusive quando o número for ruim para o lado que eu torço.

Fontes desta materia

  1. Gazeta do Povo, números completos da Quaest de setembro de 2026
  2. Money Times, recorte dos eleitores independentes e o grau de conhecimento do candidato
  3. Gazeta do Povo, a primeira pesquisa a testar o segundo turno com Cury
  4. TSE, horário eleitoral gratuito de 2026 começou em 28 de agosto
  5. Senado Notícias, as regras do horário eleitoral gratuito em 2026
  6. Lei 9.504 de 1997, artigo 47, distribuição do tempo de propaganda
  7. Agência Brasil, Datafolha de 29 de agosto de 2014 com Dilma e Marina empatadas em 34%
  8. Resultado oficial do primeiro turno de 2014
  9. Gazeta do Povo, série do Datafolha de setembro de 2018 com a curva de Haddad
  10. Campanha presidencial de Fernando Collor em 1989 e o uso do tempo de TV de partidos pequenos
  11. TSE, calendário eleitoral de 2026