Revista De Castro

Música / 25 de setembro de 2026

A história inteira

Tim Maia voltou dos Estados Unidos deportado, com a roupa do corpo

No fim de 1963 a polícia parou um carro roubado em Daytona Beach, na Flórida. Dentro estava um brasileiro de 21 anos que se apresentava como Jim. Ele passou cerca de seis meses preso e foi mandado de volta ao Brasil em 1964. Cinco anos depois estava vendendo 200 mil discos e inventando o soul brasileiro, e esta é a história inteira, sem piada.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
Editoria
Música
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6 min
Fontes
15 citadas
Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã, 1972 / Wikimedia Commons, domínio público
Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã, 1972 / Wikimedia Commons, domínio público

Daytona Beach, Flórida, fim de 1963.

A polícia para um carro com rapazes negros dentro. O carro é roubado. Há maconha no veículo.

Um dos presos é brasileiro, tem 21 anos e se apresenta como Jim. Nome de batismo: Sebastião Rodrigues Maia.

Ele passa cerca de seis meses preso e é posto num avião de volta ao Brasil em 1964, com a roupa do corpo.

O que está confirmado, e o que não está

Esse é o ponto em que a maioria das biografias fica vaga. Vale separar.

Está confirmado por Wikipédia em português e em inglês, pela eBiografia e pelo site La Parola, que reproduz a biografia escrita pelo amigo Nelson Motta: prisão no fim de 1963 em Daytona Beach, cerca de seis meses de cadeia e deportação.

As fontes brasileiras descrevem a acusação como roubo e porte de droga. As americanas falam em carro roubado e posse de maconha. A soma das passagens dele pela polícia americana nos cinco anos em que morou lá chega a cinco prisões.

Sobre o ano da deportação há divergência: a Wikipédia em inglês diz 1963, e as fontes brasileiras dizem 1964. Eu fui atrás do registro policial original em Daytona Beach e não localizei o processo. Fica assim: 1964, com a ressalva.

Ele não contou essa versão em casa. Segundo Nelson Motta, disse à família e aos amigos que tinha voltado para não ser convocado para o Vietnã.

O caçula da Tijuca

Ele nasceu em 28 de setembro de 1942, na Rua Afonso Pena, 24, na Tijuca, zona norte do Rio.

Aqui cabe uma correção que circula muito. Costuma-se dizer que era caçula de doze filhos. As duas Wikipédias registram outro número: penúltimo de dezenove. Os pais eram Altivo Maia e Maria Imaculada Nogueira.

A família tinha um pequeno restaurante. O menino entregava as marmitas. Ganhou o apelido que ia carregar pela vida no bairro: Tião Marmiteiro.

Aos 12 anos recebeu um violão do pai. Aos 14, montou um grupo de percussão, Os Tijucanos do Ritmo.

Em 1957, aos 15, fundou um conjunto vocal chamado The Sputniks. Ao lado dele cantava um rapaz da vizinhança que ele ensinava a tocar violão: Roberto Carlos. O outro aluno de violão do grupo se chamava Erasmo. Os Sputniks acabaram em briga.

Cinco anos como Jim

Em 1959 ele foi para os Estados Unidos. Tinha 16 anos. No mesmo ano morreu o pai.

Fixou-se em Tarrytown, a uns 40 quilômetros de Nova York. Virou Jim. Em 1961 mudou para a cidade de Nova York.

O Brasil que ele deixou cantava bossa nova em voz baixa. O país em que ele foi morar cantava gospel na igreja, rhythm and blues no rádio e estava inventando, naquele exato momento, o soul de Detroit e de Memphis.

Foi esse o curso que ele fez. Cinco anos, sem diploma, dentro de um ouvido.

O crime que veio depois

A parte incômoda da história não termina na deportação.

Em 1966, já de volta ao Rio, Tim Maia foi preso em flagrante furtando móveis de uma casa na Tijuca. Ficou 11 meses preso. Nelson Motta registra que foi ali, e não nos Estados Unidos, que ele apanhou da polícia pela primeira vez.

Quem conta a vida dele pulando esse parágrafo está editando.

A virada, em quatro anos

1968. Primeiro compacto, "Meu País" e "Sentimento". Eduardo Araújo grava "Você", composição dele, no disco A Onda é Boogaloo.

Dezembro de 1969. Roberto Carlos, o menino dos Sputniks, lança "Não Vou Ficar", escrita por Tim Maia. Vira sucesso nacional. O velho amigo abriu a porta do mercado.

1970. Sai o LP de estreia, Tim Maia, pela Polydor. Dentro dele, "Azul da Cor do Mar", "Primavera (Vai Chuva)", "Cristina" e "Eu Amo Você". Passa de 200 mil cópias e ganha disco de ouro. Fica 24 semanas no topo das paradas do Rio.

1970. Elis Regina regrava "These Are the Songs" em dueto com ele.

Do desembarque humilhante ao disco de ouro foram seis anos.

O ano em que largou tudo

Em julho de 1974, Tim Maia entrou para a Cultura Racional, doutrina criada nos anos 1930 por Manoel Jacinto Coelho a partir de uma série de livros chamada Universo em Desencanto.

Largou álcool, carne e sexo. Vestiu branco. Gravou dois discos inteiros sobre a doutrina, Racional Vol. 1 e Vol. 2, pelo próprio selo, a Seroma, e passou a distribuir os livros nos shows.

Saiu em 25 de setembro de 1975. Nelson Motta conta que ele acordou naquele dia com vontade de comer carne, beber e fumar maconha. Mandou destruir os discos que sobraram no estoque.

Trinta anos depois, aqueles dois álbuns viraram objeto de culto e foram relançados em 2005.

O que joga contra, e entra

Esta parte a revista não pula.

As prisões. Cinco passagens pela polícia americana, deportação em 1964, e 11 meses de cadeia no Brasil em 1966 por furto. Está tudo escrito acima.

A dependência química. Álcool e cocaína acompanharam a carreira inteira. Não há como contar a vida dele sem isso, e não há graça nenhuma nisso.

Os shows que ele não fez. Tim Maia sumia. Deixava plateia sentada, produtor no prejuízo e banda no palco. A fama de encrenqueiro não é injustiça de imprensa: é histórico.

"Ele só copiou os americanos." A base é americana e ele nunca escondeu. O que ele fez foi cantar aquilo em português, com letra de rua carioca, e abrir a porta para Cassiano, Hyldon, Gerson King Combo e uma geração inteira. É por isso que a crítica o chama de pai do soul brasileiro.

A caricatura. Ele virou personagem de anedota. Vale lembrar o que a anedota apagou: um homem com dependência química e obesidade grave, morto aos 55 anos.

O último show

8 de março de 1998, Teatro Municipal de Niterói. A gravação era para virar um disco acústico do Multishow.

Ele chegou atrasado, pálido, suando. Reclamou do som. Entrou no palco e, no meio de "Não Quero Dinheiro", levantou um braço e depois o outro, avisando que não estava bem.

A equipe perguntou ao microfone se havia médico na plateia. Havia: Drauzio Varella estava na sala, com a mulher.

Tim pesava 140 quilos. Deu entrada no Hospital Universitário Antônio Pedro às 23h daquela noite, com embolia pulmonar e parada cardiorrespiratória. Foi reanimado e posto em coma induzido.

Sete dias depois, em 15 de março de 1998, o coração parou de vez. Ele tinha 55 anos.

No dia seguinte, cerca de 500 pessoas acompanharam o enterro no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju. Aplaudiram e cantaram as músicas dele. Roberto Carlos e Erasmo Carlos foram ao velório.

A resposta

Um rapaz de 21 anos foi posto num avião de volta para casa porque tinha sido preso num carro roubado, com maconha, numa cidade de praia da Flórida.

Não havia nada naquele dia que anunciasse o que viria.

Seis anos depois ele tinha um disco de ouro. Vinte e oito anos depois, morreu com a rua cantando na porta do cemitério.

O que ele trouxe na bagagem, em 1964, não coube em mala nenhuma. Era um jeito de cantar que o Brasil ainda não conhecia.

Fontes desta materia

  1. Wikipédia, verbete de Tim Maia
  2. Wikipedia, Tim Maia
  3. Wikipédia, Morte de Tim Maia
  4. eBiografia, Biografia de Tim Maia
  5. La Parola, Tim Maia e a Polícia
  6. Wax Poetics, Tim Maia sparked the 70s soul movement in Brazil
  7. Igor Miranda, A história de Tim Maia Racional, a viagem místico-musical do cantor
  8. Igor Miranda, Quando Roberto Carlos e Tim Maia se ajudaram em Não Vou Ficar
  9. Aventuras na História, Cultura Racional: a seita que marcou a vida de Tim Maia
  10. Wikipédia, Tim Maia, álbum de 1970
  11. Wikipedia, Tim Maia Racional
  12. Agência Brasil, Tim Maia morria há 19 anos no Rio com legado para a MPB
  13. Vermelho, Há dez anos morria Tim Maia, reclamão até o último show
  14. Wikipedia, Tim Maia, filme de 2014
  15. Wikipédia, Não Vou Ficar