Revista De Castro

Música / 25 de setembro de 2026

A história inteira

Lavava carro de madrugada em Ipanema. E tinha fundado a Mangueira

Cartola fundou a Estação Primeira de Mangueira em 1928, vendeu sambas para Francisco Alves e sumiu. Nos anos 1950 estava lavando carro de madrugada num estacionamento de Ipanema, e muita gente do meio o dava por morto. Um jornalista o reconheceu. Só que o primeiro disco com o nome dele na capa ainda levaria quase vinte anos para sair.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
Editoria
Música
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5 min
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15 citadas
Autoria não identificada, 1970 / Wikimedia Commons, domínio público
Autoria não identificada, 1970 / Wikimedia Commons, domínio público

Um homem de macacão encharcado lava carros de madrugada num estacionamento de Ipanema.

Cheiro de gasolina e de sabão. Ninguém sabe quem ele é.

Vinte e poucos anos antes, aquele mesmo homem tinha reunido sete amigos no morro da Mangueira e fundado uma escola de samba. Ele escolheu as cores: verde e rosa.

No meio musical do Rio, muita gente o dava por morto.

O menino que o cartório errou

Ele nasceu em 11 de outubro de 1908, no Catete, no Rio de Janeiro. O nome deveria ser Agenor. O cartório escreveu com um "n" a mais, e ele ficou Angenor de Oliveira pelo resto da vida.

Era o mais velho de oito filhos de Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira.

Em 1919, com 11 anos, a família apertou e subiu o morro da Mangueira. Aos 17, ele perdeu a mãe.

Foi trabalhar de auxiliar de pedreiro. Vaidoso, usava um chapéu-coco para o cimento não cair no cabelo. Os colegas de obra riam e diziam que aquilo parecia uma cartolinha.

O apelido pegou. E era como Cartola que ele ia entrar na história.

28 de abril de 1928

Ele já tinha criado, em 1925, o Bloco dos Arengueiros. Três anos depois, em 28 de abril de 1928, Cartola e mais sete amigos, entre eles Heitor dos Prazeres, fundaram a Estação Primeira de Mangueira.

Foi dele a sugestão do verde e rosa.

Nos anos seguintes, as músicas começaram a circular. Francisco Alves gravou "Que Infeliz Sorte!" em 1929 e depois "Divina Dama". Carmen Miranda gravou composições dele. Noel Rosa frequentava a casa dele no morro. Em 1940, participou de uma gravação conduzida pelo maestro americano Leopold Stokowski.

Naquela época o compositor de morro vendia o samba por dinheiro à vista, sem direito autoral. Quem ficou com a renda dos sucessos dos anos 1930 não foi Cartola.

O desaparecimento

Em 1946, aos 38 anos, ele teve meningite. Ficou um bom tempo sem condição de trabalhar.

No ano seguinte à cura, morreu Deolinda, a companheira que o sustentava.

Foi ali que ele saiu do mapa. Cerca de dez anos fora do samba. Trabalhou como vigia. Trabalhou como lavador de carros na madrugada, inclusive na Garagem Oceânica, em Ipanema.

Aqui vale desmontar um exagero que circula muito. Costuma-se dizer que ele passou vinte anos esquecido. O sumiço durou cerca de uma década. O que levou quase vinte anos foi outra coisa, e ela vem no fim desta matéria.

"Você não é o Cartola da Mangueira?"

Em meados dos anos 1950, o jornalista Sérgio Porto o reconheceu.

Porto era um dos nomes mais lidos do Rio. Assinava crônica com o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. Segundo a Revista Bula, a frase dele foi direta: "Você não é o Cartola da Mangueira?"

Porto escreveu sobre o reencontro no Diário Carioca e tratou de devolver o compositor à circulação: programas de rádio, convites, gravações novas.

Sobre a data, as fontes divergem. A Wikipédia em inglês e o Dicionário Cravo Albin dizem 1956. A Wikipédia em português diz 1957. O Museu Brasileiro de Rádio e Televisão fala em "por volta de 1950". Eu fui checar e não existe consenso, então fica meados dos anos 1950.

O Zicartola

Em 1952 ele conheceu Euzébia Silva do Nascimento, a dona Zica. Casaram oficialmente em 1964.

Em 1963 os dois abriram uma casa na Rua da Carioca, 53, no centro do Rio. Chamava Zicartola. Zica cuidava da cozinha, Cartola da programação musical.

Ficou aberta até maio de 1965, e naqueles dois anos virou o ponto de encontro mais importante do samba brasileiro. Passaram por ali Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Pixinguinha, Nara Leão e um rapaz que recebeu no palco do Zicartola o primeiro cachê da vida: Paulinho da Viola.

Depois do golpe de 1964, as mesas do Zicartola viraram ponto de resistência cultural. Foi dali que saiu boa parte do espetáculo Opinião.

O primeiro disco, aos 65

Agora o número que explica esta matéria.

Cartola fundou a Mangueira em 1928. Teve música gravada por Francisco Alves em 1929 e por Carmen Miranda nos anos 1930. Foi redescoberto em meados dos anos 1950.

E só gravou o primeiro disco com o nome dele na capa em 1974.

Foram 46 anos entre a fundação da escola e o LP de estreia. Ele tinha 65 anos quando entrou no estúdio e completou 66 em outubro daquele ano.

O disco se chama Cartola, saiu pelo selo Discos Marcus Pereira, foi produzido por João Carlos Botezelli, o Pelão, com arranjos de Dino Sete Cordas. Doze faixas. Gravado em quatro dias.

Dois anos depois veio Cartola II, de 1976, com "O Mundo É um Moinho", "As Rosas Não Falam", "Sala de Recepção" e "Preciso Me Encontrar".

Ele gravou mais dois discos, em 1977 e 1979. Quatro discos solo na vida inteira, para mais de 500 composições.

O que joga contra, e entra

Esta parte a revista não pula.

"Ficou vinte anos esquecido." Não é o que as fontes mostram. Foram cerca de dez anos fora do samba, de 1946 a meados dos anos 1950. Quem quiser o número impressionante tem um melhor e verdadeiro: 46 anos entre fundar a Mangueira e gravar o primeiro disco.

"O mérito é do jornalista que o achou." Sérgio Porto devolveu a ele o acesso ao rádio e à imprensa, e isso mudou tudo. As canções já existiam desde os anos 1930, e já tinham sido gravadas pelos maiores intérpretes do país.

"Se era gênio, por que morreu pobre?" Porque vendia samba à vista, sem registro de direito autoral, como quase todo compositor de morro na época. O sistema pagava pela música uma vez e ficava com ela para sempre.

"Cartola é coisa de carnaval." Ele foi diretor de harmonia da Mangueira, e o que sobrou dele não é marchinha. "As Rosas Não Falam" e "O Mundo É um Moinho" são canção de câmara feita no morro.

"Ele sumiu porque quis." Ele teve meningite aos 38 anos e ficou viúvo logo depois. Foi lavar carro para comer.

O fim

Em 1979 descobriram o câncer. As fontes divergem sobre o órgão, e por isso esta matéria registra apenas o diagnóstico.

Ele morreu em 30 de novembro de 1980, às 22h45, na Clínica São Carlos, em Botafogo. Tinha 72 anos.

O corpo foi velado na quadra da escola que ele fundou 52 anos antes. O enterro foi no Cemitério do Caju.

A resposta

Um homem lavava carro de madrugada em Ipanema porque precisava comer.

Aquele mesmo homem tinha fundado a Estação Primeira de Mangueira, escolhido o verde e rosa e escrito canções que Francisco Alves e Carmen Miranda gravaram antes de ele completar 30 anos.

O talento estava inteiro durante todos os anos do estacionamento. O que faltava era alguém olhar para o rosto embaixo do boné.

Um jornalista olhou.

Quarenta e seis anos depois da fundação da Mangueira, o Brasil finalmente ouviu o disco.

Fontes desta materia

  1. Wikipédia, verbete de Cartola
  2. Wikipedia, Cartola
  3. Wikipedia, Cartola II
  4. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Cartola
  5. Revista Bula, Ele lavava carros na madrugada até que um jornalista o reconheceu
  6. Rádio Batuta, Instituto Moreira Salles, O primeiro disco de Cartola
  7. Museu Brasileiro de Rádio e Televisão, Cartola
  8. InfoEscola, Cartola
  9. PublishNews, A história do Zicartola
  10. Rádio Câmara, Especial Samba: a casa Zicartola
  11. Rádio Câmara, Hoje é 30 de novembro. Em 1980 morreu Cartola
  12. Vírus da Arte, Raízes da MPB: Cartola
  13. InfoEscola, Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta
  14. Itaú Cultural, Ocupação Cartola
  15. Wikipedia, Dona Zica