Revista De Castro

Música / 25 de setembro de 2026

A história inteira

Um ano e meio sem andar. Foi ali que ele virou Russo

Trinta anos sem Renato Russo em 11 de outubro. Aos 15 anos, uma doença óssea o deixou seis meses na cama, seis numa cadeira de rodas e seis de muletas, em Brasília. Foi nesse ano parado que ele leu tudo, inventou uma banda imaginária e tirou de dois filósofos o sobrenome que o Brasil inteiro passaria a cantar. A história inteira, incluindo o show que acabou em tumulto, o diagnóstico que ele escondeu por seis anos e o número de discos que ninguém sabe direito.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
Editoria
Música
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7 min
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16 citadas
Ilustração original / Revista DE CASTRO
Ilustração original / Revista DE CASTRO

Brasília, 1975. Um menino de 15 anos está deitado numa cama e não pode levantar.

Ele tem três pinos de platina na bacia. Vai passar seis meses assim. Depois, seis meses numa cadeira de rodas. Depois, seis meses de muletas.

O nome dele é Renato Manfredini Júnior. Quando voltar a andar, vai se chamar outra coisa.

A doença tem nome

O diagnóstico foi epifisiólise, uma doença que ataca a cartilagem de crescimento do osso. No caso dele, o quadril. Houve cirurgia e os três pinos.

A conta de recuperação, contada na biografia Renato Russo: o Trovador Solitário, de Arthur Dapieve, é a de cima: cerca de 18 meses no total, divididos em três blocos de seis. Eu não tive o livro em mãos para conferir a página, e algumas fontes descrevem o período de outro jeito, falando em mais de seis meses de internação. Registro assim.

O que nenhuma fonte contradiz é o efeito.

Preso no quarto, ele leu e ouviu música de um jeito que só quem não tem mais nada para fazer consegue. Anos depois resumiu numa frase: "foi nesse período que fiz minha formação musical."

De onde veio o "Russo"

Nesse ano parado ele inventou um personagem para si mesmo.

O personagem se chamava Eric Russell e tinha uma banda que só existia na cabeça dele, a 42nd Street Band.

O sobrenome veio da estante. Bertrand Russell, o filósofo e matemático britânico. Jean-Jacques Rousseau, o filósofo suíço. E Henri Rousseau, o pintor francês.

De Russell e Rousseau saiu Russo.

Ou seja: o nome artístico mais conhecido do rock brasileiro não veio de origem eslava, de cabelo claro ou de apelido de escola. Veio de dois filósofos lidos por um adolescente que não conseguia sair da cama.

O menino que já tinha morado em Nova York

Ele nasceu em 27 de março de 1960, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.

Em 1967, aos 6 anos, a família se mudou para Forest Hills, no Queens, em Nova York, porque o pai foi transferido pelo Banco do Brasil. Voltaram ao Brasil em 1969. Em 1973 se fixaram em Brasília.

Então, quando a doença chegou, ele já era um garoto bilíngue que tinha visto o rock de fora. Dois anos de Nova York e uma estante inteira em inglês entraram naquele quarto com ele.

Depois de voltar a andar, deu aula na Cultura Inglesa e foi locutor de rádio em Brasília, apresentando programas de jazz e Beatles.

Duas bandas saíram do mesmo quarto

Em 1978 ele montou o Aborto Elétrico com Fê Lemos e Flávio Lemos. Punk de Brasília, tocado em festa de quadra.

A banda acabou entre 1981 e 1982, e do racha saíram duas coisas ao mesmo tempo: a Legião Urbana, com Renato, e o Capital Inicial, com os irmãos Lemos.

A Legião nasceu em 1982, em Brasília, com Renato Russo no vocal, Marcelo Bonfá na bateria e Dado Villa-Lobos na guitarra. Renato Rocha entrou no baixo em 1984 e saiu em 1989.

Os discos

AnoDisco
1985Legião Urbana
1986Dois
1987Que País É Este 1978/1987
1989As Quatro Estações
1991V
1993O Descobrimento do Brasil
1996A Tempestade ou O Livro dos Dias
1997Uma Outra Estação (póstumo)

Fora da banda, ele lançou dois discos solo em vida. The Stonewall Celebration Concert, de 1994, com covers em inglês de Madonna, Bob Dylan, Nick Drake e Billy Joel, vendeu cerca de 250 mil cópias no primeiro ano. O título é referência direta à revolta de Stonewall, em Nova York, em 1969, marco da luta por direitos de pessoas LGBT. Equilíbrio Distante, de dezembro de 1995, tem 13 canções em italiano e vendeu cerca de 200 mil.

O número de discos que ninguém sabe

Aqui eu preciso ser chato, porque a internet não é.

Você vai achar em um lugar que a Legião vendeu 14 milhões de discos. Em outro, 20 milhões. Em outro, 25. Em outro, mais de 30.

Todos esses números existem, e nenhum vem de certificação auditada:

FonteNúmeroQuando
Rolling Stone Brasilcerca de 14 milhões2022
Wikipédia e Museu Brasileiro de Rádio e Televisãomais de 20 milhõessem data clara
O Estado de S. Paulomais de 25 milhões2015
Agência de Notícias do CEUBmais de 30 milhões2020

O que dá para dizer com segurança é menos bonito e mais sólido: a Legião Urbana é o terceiro grupo que mais vende catálogo na antiga EMI-Odeon, e Renato Russo é citado como o único roqueiro brasileiro a ultrapassar 10 milhões de discos. O resto é estimativa.

O dia em que a cidade dele virou as costas

18 de junho de 1988. Estádio Mané Garrincha, Brasília, cerca de 50 mil pessoas. A banda voltava para casa depois de Que País É Este.

Um homem subiu ao palco e chegou perto de Renato. O show acabou ali, depois de 58 minutos e oito músicas.

O tumulto saiu do estádio e tomou o Eixo Monumental. Cerca de 400 pessoas foram atendidas e 14 ônibus foram apedrejados.

No dia seguinte apareceu pichado na cidade: "Legião não voltem nunca mais."

A Legião Urbana nunca mais tocou em Brasília.

O que ele carregava

Em 1990 ele descobriu que era soropositivo. Ficaram sabendo a banda, o empresário e a família próxima. Mais ninguém.

Em 1992, perguntado em público se tinha aids, respondeu: "não estou com Aids, que pergunta idiota."

Em abril e maio de 1993 ele se internou por vontade própria na clínica Vila Serena para tratar dependência de cocaína, heroína e álcool. As fontes falam em 28 ou 29 dias. Antes disso, escapou de três overdoses.

O último show dele com a Legião foi em 14 de janeiro de 1995, em Santos.

Em 20 de setembro de 1996 saiu A Tempestade ou O Livro dos Dias, gravado com ele já muito debilitado.

Vinte e um dias depois ele morreu.

11 de outubro de 1996

Renato Russo morreu no Rio de Janeiro, aos 36 anos.

O atestado de óbito registra doença pulmonar obstrutiva crônica, septicemia e infecção urinária, consequências da aids.

Escrevo com a palavra inteira, porque é isso que o documento diz e porque eufemismo aqui não protege ninguém. Ele viveu seis anos com o diagnóstico e trabalhou nesses seis anos.

Meses antes de morrer, segundo Paulo Ricardo, parou de tomar o coquetel por decisão própria: "ele decidiu parar de tomar o coquetel AZT. Difícil… bem difícil."

Foi cremado, e as cinzas foram lançadas no Sítio Roberto Burle Marx. Deixou um filho, Giuliano Manfredini, de 7 anos.

O que joga contra, e entra

"Ele mentiu sobre a doença." Negou em 1992 saber que era soropositivo desde 1990. É fato, e merece contexto em vez de julgamento. Em 1992, no Brasil, um artista que admitisse ser soropositivo perdia contrato, perdia show e era tratado como ameaça pública. O silêncio dele foi uma decisão tomada dentro desse país, não fora dele.

"Era um mito construído." Parte da reverência a Renato Russo vem de idolatria de fã, que o transformou em guru de geração. Isso atrapalha a leitura da obra e infla a biografia. Ele não era oráculo. Era um compositor muito bom e um homem com problemas graves de dependência química.

"O show de 1988." Não dá para contar a história dele só pela parte bonita. Aquela noite deixou 400 atendimentos e 14 ônibus apedrejados, e custou a ele a própria cidade.

"As drogas atrapalharam a banda." Dado Villa-Lobos já disse publicamente que o consumo dele aumentou ao longo da trajetória e chegou a prejudicar apresentações.

E hoje

Trinta anos depois, a Legião não existe mais como banda. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocaram juntos o repertório por oito anos e encerraram a parceria. Dado está confirmado no Rock in Rio 2026 com o Capital Inicial, num show que deve celebrar o legado dele. Ou seja: as duas bandas que saíram do mesmo racha em 1982 voltam ao mesmo palco por causa do mesmo sujeito.

Em Brasília, o prédio da 508 Sul leva o nome dele.

A resposta

Um menino de 15 anos ficou um ano e meio sem andar.

Com a cama, a cadeira de rodas e as muletas, ele ganhou a única coisa que a maioria dos adolescentes não tem: tempo parado com uma estante ao lado.

Leu Bertrand Russell. Leu Rousseau. Inventou um personagem chamado Eric Russell e uma banda que não existia.

Quando voltou a andar, montou uma banda que existia, e usou o sobrenome do personagem.

A doença que o tirou do mundo por dezoito meses é a mesma que lhe deu o nome.

Fontes desta materia

  1. Terra, O Russo de Renato Russo nasceu de uma doença que o deixou meses sem andar
  2. Wikipédia, verbete de Renato Russo
  3. Museu Brasileiro de Rádio e Televisão, biografia de Renato Russo
  4. ISTOÉ, 20 anos sem Renato Russo: 12 curiosidades sobre o vocalista da Legião Urbana
  5. Igor Miranda, Os últimos anos e a morte de Renato Russo
  6. Rolling Stone Brasil, 26 anos sem Renato Russo: relembre sua trajetória
  7. Correio Braziliense, Há 30 anos, fãs da Legião Urbana provocaram um badernaço no Mané Garrincha
  8. Agência de Notícias CEUB, 30 anos do show que nunca acabou
  9. Wikipedia, The Stonewall Celebration Concert
  10. Wikipedia, Equilíbrio Distante
  11. Wikipedia, A Tempestade ou O Livro dos Dias
  12. Wikipédia, Discografia de Legião Urbana
  13. Whiplash, Renato Russo parou com coquetel contra aids antes de morrer, diz Paulo Ricardo
  14. Correio Braziliense, Roteiro detalha os principais pontos da Brasília de Renato Russo
  15. CNN Brasil, Dado e Bonfá anunciam últimas datas de turnê com músicas da Legião Urbana
  16. Renato Russo Oficial, carreira solo