Brasília, 1975. Um menino de 15 anos está deitado numa cama e não pode levantar.
Ele tem três pinos de platina na bacia. Vai passar seis meses assim. Depois, seis meses numa cadeira de rodas. Depois, seis meses de muletas.
O nome dele é Renato Manfredini Júnior. Quando voltar a andar, vai se chamar outra coisa.
A doença tem nome
O diagnóstico foi epifisiólise, uma doença que ataca a cartilagem de crescimento do osso. No caso dele, o quadril. Houve cirurgia e os três pinos.
A conta de recuperação, contada na biografia Renato Russo: o Trovador Solitário, de Arthur Dapieve, é a de cima: cerca de 18 meses no total, divididos em três blocos de seis. Eu não tive o livro em mãos para conferir a página, e algumas fontes descrevem o período de outro jeito, falando em mais de seis meses de internação. Registro assim.
O que nenhuma fonte contradiz é o efeito.
Preso no quarto, ele leu e ouviu música de um jeito que só quem não tem mais nada para fazer consegue. Anos depois resumiu numa frase: "foi nesse período que fiz minha formação musical."
De onde veio o "Russo"
Nesse ano parado ele inventou um personagem para si mesmo.
O personagem se chamava Eric Russell e tinha uma banda que só existia na cabeça dele, a 42nd Street Band.
O sobrenome veio da estante. Bertrand Russell, o filósofo e matemático britânico. Jean-Jacques Rousseau, o filósofo suíço. E Henri Rousseau, o pintor francês.
De Russell e Rousseau saiu Russo.
Ou seja: o nome artístico mais conhecido do rock brasileiro não veio de origem eslava, de cabelo claro ou de apelido de escola. Veio de dois filósofos lidos por um adolescente que não conseguia sair da cama.
O menino que já tinha morado em Nova York
Ele nasceu em 27 de março de 1960, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.
Em 1967, aos 6 anos, a família se mudou para Forest Hills, no Queens, em Nova York, porque o pai foi transferido pelo Banco do Brasil. Voltaram ao Brasil em 1969. Em 1973 se fixaram em Brasília.
Então, quando a doença chegou, ele já era um garoto bilíngue que tinha visto o rock de fora. Dois anos de Nova York e uma estante inteira em inglês entraram naquele quarto com ele.
Depois de voltar a andar, deu aula na Cultura Inglesa e foi locutor de rádio em Brasília, apresentando programas de jazz e Beatles.
Duas bandas saíram do mesmo quarto
Em 1978 ele montou o Aborto Elétrico com Fê Lemos e Flávio Lemos. Punk de Brasília, tocado em festa de quadra.
A banda acabou entre 1981 e 1982, e do racha saíram duas coisas ao mesmo tempo: a Legião Urbana, com Renato, e o Capital Inicial, com os irmãos Lemos.
A Legião nasceu em 1982, em Brasília, com Renato Russo no vocal, Marcelo Bonfá na bateria e Dado Villa-Lobos na guitarra. Renato Rocha entrou no baixo em 1984 e saiu em 1989.
Os discos
| Ano | Disco |
|---|---|
| 1985 | Legião Urbana |
| 1986 | Dois |
| 1987 | Que País É Este 1978/1987 |
| 1989 | As Quatro Estações |
| 1991 | V |
| 1993 | O Descobrimento do Brasil |
| 1996 | A Tempestade ou O Livro dos Dias |
| 1997 | Uma Outra Estação (póstumo) |
Fora da banda, ele lançou dois discos solo em vida. The Stonewall Celebration Concert, de 1994, com covers em inglês de Madonna, Bob Dylan, Nick Drake e Billy Joel, vendeu cerca de 250 mil cópias no primeiro ano. O título é referência direta à revolta de Stonewall, em Nova York, em 1969, marco da luta por direitos de pessoas LGBT. Equilíbrio Distante, de dezembro de 1995, tem 13 canções em italiano e vendeu cerca de 200 mil.
O número de discos que ninguém sabe
Aqui eu preciso ser chato, porque a internet não é.
Você vai achar em um lugar que a Legião vendeu 14 milhões de discos. Em outro, 20 milhões. Em outro, 25. Em outro, mais de 30.
Todos esses números existem, e nenhum vem de certificação auditada:
| Fonte | Número | Quando |
|---|---|---|
| Rolling Stone Brasil | cerca de 14 milhões | 2022 |
| Wikipédia e Museu Brasileiro de Rádio e Televisão | mais de 20 milhões | sem data clara |
| O Estado de S. Paulo | mais de 25 milhões | 2015 |
| Agência de Notícias do CEUB | mais de 30 milhões | 2020 |
O que dá para dizer com segurança é menos bonito e mais sólido: a Legião Urbana é o terceiro grupo que mais vende catálogo na antiga EMI-Odeon, e Renato Russo é citado como o único roqueiro brasileiro a ultrapassar 10 milhões de discos. O resto é estimativa.
O dia em que a cidade dele virou as costas
18 de junho de 1988. Estádio Mané Garrincha, Brasília, cerca de 50 mil pessoas. A banda voltava para casa depois de Que País É Este.
Um homem subiu ao palco e chegou perto de Renato. O show acabou ali, depois de 58 minutos e oito músicas.
O tumulto saiu do estádio e tomou o Eixo Monumental. Cerca de 400 pessoas foram atendidas e 14 ônibus foram apedrejados.
No dia seguinte apareceu pichado na cidade: "Legião não voltem nunca mais."
A Legião Urbana nunca mais tocou em Brasília.
O que ele carregava
Em 1990 ele descobriu que era soropositivo. Ficaram sabendo a banda, o empresário e a família próxima. Mais ninguém.
Em 1992, perguntado em público se tinha aids, respondeu: "não estou com Aids, que pergunta idiota."
Em abril e maio de 1993 ele se internou por vontade própria na clínica Vila Serena para tratar dependência de cocaína, heroína e álcool. As fontes falam em 28 ou 29 dias. Antes disso, escapou de três overdoses.
O último show dele com a Legião foi em 14 de janeiro de 1995, em Santos.
Em 20 de setembro de 1996 saiu A Tempestade ou O Livro dos Dias, gravado com ele já muito debilitado.
Vinte e um dias depois ele morreu.
11 de outubro de 1996
Renato Russo morreu no Rio de Janeiro, aos 36 anos.
O atestado de óbito registra doença pulmonar obstrutiva crônica, septicemia e infecção urinária, consequências da aids.
Escrevo com a palavra inteira, porque é isso que o documento diz e porque eufemismo aqui não protege ninguém. Ele viveu seis anos com o diagnóstico e trabalhou nesses seis anos.
Meses antes de morrer, segundo Paulo Ricardo, parou de tomar o coquetel por decisão própria: "ele decidiu parar de tomar o coquetel AZT. Difícil… bem difícil."
Foi cremado, e as cinzas foram lançadas no Sítio Roberto Burle Marx. Deixou um filho, Giuliano Manfredini, de 7 anos.
O que joga contra, e entra
"Ele mentiu sobre a doença." Negou em 1992 saber que era soropositivo desde 1990. É fato, e merece contexto em vez de julgamento. Em 1992, no Brasil, um artista que admitisse ser soropositivo perdia contrato, perdia show e era tratado como ameaça pública. O silêncio dele foi uma decisão tomada dentro desse país, não fora dele.
"Era um mito construído." Parte da reverência a Renato Russo vem de idolatria de fã, que o transformou em guru de geração. Isso atrapalha a leitura da obra e infla a biografia. Ele não era oráculo. Era um compositor muito bom e um homem com problemas graves de dependência química.
"O show de 1988." Não dá para contar a história dele só pela parte bonita. Aquela noite deixou 400 atendimentos e 14 ônibus apedrejados, e custou a ele a própria cidade.
"As drogas atrapalharam a banda." Dado Villa-Lobos já disse publicamente que o consumo dele aumentou ao longo da trajetória e chegou a prejudicar apresentações.
E hoje
Trinta anos depois, a Legião não existe mais como banda. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocaram juntos o repertório por oito anos e encerraram a parceria. Dado está confirmado no Rock in Rio 2026 com o Capital Inicial, num show que deve celebrar o legado dele. Ou seja: as duas bandas que saíram do mesmo racha em 1982 voltam ao mesmo palco por causa do mesmo sujeito.
Em Brasília, o prédio da 508 Sul leva o nome dele.
A resposta
Um menino de 15 anos ficou um ano e meio sem andar.
Com a cama, a cadeira de rodas e as muletas, ele ganhou a única coisa que a maioria dos adolescentes não tem: tempo parado com uma estante ao lado.
Leu Bertrand Russell. Leu Rousseau. Inventou um personagem chamado Eric Russell e uma banda que não existia.
Quando voltou a andar, montou uma banda que existia, e usou o sobrenome do personagem.
A doença que o tirou do mundo por dezoito meses é a mesma que lhe deu o nome.








