Revista De Castro

Notícias / 25 de setembro de 2026

Eu fui checar

O pedido entrou às 9h49. A desistência, às 12h21. E dois advogados saíram do caso no mesmo dia

A defesa de Jair Bolsonaro pediu ao ministro Nunes Marques a suspensão imediata da pena de 27 anos e 3 meses. Duas horas e 32 minutos depois, retirou o pedido sem dar motivo. Nunes Marques não chegou a decidir nada, e esse detalhe está saindo errado em muito lugar. Eu separei o pedido, a ausência de decisão e o recuo, com o horário de cada peça, o nome de quem assinou, o que a defesa disse publicamente e o que um veículo apurou nos bastidores.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
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Notícias
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5 min
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18 citadas
Senado Federal / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Senado Federal / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Quinta-feira, 24 de setembro de 2026.

Às 9h49, dois advogados protocolaram no STF um pedido para suspender imediatamente a pena de 27 anos e 3 meses de Jair Bolsonaro.

Às 12h21, os mesmos advogados retiraram o pedido, sem escrever o motivo.

Menos de três horas depois, deixaram o caso.

Entre uma coisa e outra, o ministro Kassio Nunes Marques não decidiu nada. E é exatamente aí que a maior parte do noticiário escorregou.

As três palavras que não são sinônimos

Está circulando "o STF negou a soltura de Bolsonaro". Está circulando "o STF ia soltar e voltou atrás".

Nenhuma das duas está certa. Separando:

Pedido. Houve. Liminar protocolada às 9h49 na revisão criminal, endereçada a Nunes Marques, relator do caso na Segunda Turma.

Decisão. Não houve. O ministro não chegou a se manifestar. Não existe despacho concedendo nem negando.

Recuo. Houve. Petição de desistência às 12h21, retirando apenas o pedido de suspensão da pena.

Intervalo exato entre uma peça e outra: 2 horas e 32 minutos.

Quem assinou cada peça

O pedido de liminar foi assinado por Marcelo Luiz Ávila de Bessa e Thiago Lôbo Fleury, do escritório Ávila de Bessa.

Eram os mesmos que tinham protocolado a revisão criminal quatro meses antes, em maio.

A petição de desistência não traz nome divulgado pelas reportagens. Presume-se a mesma defesa, e presunção não vira fato aqui.

No mesmo dia, o escritório Ávila de Bessa renunciou à condução da revisão criminal.

O que a defesa disse, com todas as letras

A nota pública que explicou a saída:

"Trata-se de uma reavaliação da estratégia da defesa. A partir deste momento, a condução do caso ficará integralmente a cargo dos advogados que atuaram na defesa durante a ação penal."

Nenhuma palavra sobre eleição. Nenhuma palavra sobre briga.

Quem fica com o caso

O registro no STF foi atualizado no mesmo dia. Luciana Lauria Lopes passou a constar como representante de Bolsonaro na revisão criminal.

Ela é sócia do escritório Lopes & Freitas, ao lado de João Henrique Nascimento de Freitas, assessor especial do ex-presidente.

Um dado que ajuda a entender o tamanho do atrito: Marcelo Bessa também atuava no jurídico da campanha de Flávio Bolsonaro.

O que o pedido dizia

Dois argumentos centrais.

O primeiro é de competência. A defesa sustenta que Bolsonaro tinha de ter sido julgado pelo Plenário do STF, com 11 ministros, e não pela Primeira Turma, com 5, porque os fatos se referem ao período em que ele ocupava o Palácio do Planalto. A defesa invoca o Regimento Interno da corte.

O segundo é de cerceamento de defesa. Os advogados dizem que receberam cerca de 40 terabytes de material apenas em meados de maio, pouco antes do julgamento, de forma desorganizada, sem tempo hábil de análise.

E fecham com a tese do dano irreparável: a execução da pena durante a tramitação da revisão "pode produzir dano irreparável", porque "a liberdade indevidamente suprimida não se recompõe".

A versão de bastidor, atribuída a quem a publicou

O Informe JB, do Jornal do Brasil, apurou que quem mandou retirar o pedido foi Flávio Bolsonaro.

O raciocínio da campanha, segundo o veículo: a notícia da soltura do pai "poderia afugentar os eleitores e dar munição à esquerda", a dez dias do primeiro turno.

O mesmo texto registra que o pedido "pegou todo mundo de surpresa" na cúpula da campanha, e que "teria havido bate boca de Flavio com os advogados".

Faço questão de marcar: isso é apuração de um veículo, com fontes não nomeadas. Não houve confirmação oficial da campanha nem dos advogados. A versão pública da defesa é "reavaliação de estratégia". As duas coisas estão no texto, cada uma com seu carimbo.

Onde Bolsonaro está, e desde quando

ItemDado
Condenaçãosetembro de 2025
Pena27 anos e 3 meses
Crimesorganização criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado
Início do cumprimento25 de novembro de 2025, quando se esgotou o prazo de recursos
Regime atualprisão domiciliar humanitária, concedida em março de 2026 por razões de saúde
Endereçoresidência no Jardim Botânico, em Brasília
Condiçõestornozeleira eletrônica, restrição de visitas e proibição de atividade político-eleitoral
Revisão criminalprotocolada em maio de 2026, distribuída a Nunes Marques, ainda não julgada
Posição da PGRcontrária à revisão criminal

Depois da desistência, a execução da pena segue normalmente.

O que muda até outubro

Pouca coisa, e essa é a resposta honesta.

A revisão criminal continua de pé. Não foi retirada. O que caiu foi só o pedido de urgência.

Não há data marcada para Nunes Marques julgar. A PGR já se manifestou contra. E o relator sozinho não decide uma revisão criminal: ela vai a colegiado.

O que mudou de concreto em 24 de setembro foi a composição da banca de advogados. Dois saíram, uma entrou.

O que joga contra, e entra

"Isso prova que o pedido era ilegal." Não prova nada disso. Pedido retirado não é pedido rejeitado. A tese da competência do Plenário é discutível e já foi apresentada antes. Ela continua viva dentro da revisão criminal.

"Isso prova que a família manda no processo." A única fonte para isso é a apuração do Jornal do Brasil, com fontes não identificadas. A defesa nega implicitamente ao falar em reavaliação de estratégia. Quem quiser afirmar precisa de mais que um informe.

"A defesa é amadora." Dois escritórios, duas teses, uma troca de comando registrada formalmente no STF no mesmo dia. Isso é divergência de estratégia, e ela tem custo. Chamar de amadorismo é economizar apuração.

"Se ele é candidato a nada, por que isso importa?" Porque o filho é candidato à Presidência e disputa o primeiro turno em dez dias. A pergunta "o que acontece com o pai se o filho ganhar" é a pergunta eleitoral mais concreta que existe nesta campanha.

"Cadê a hashtag que ficou nos trends?" Procurei registro de "Solta o Bolsonaro" nos assuntos mais comentados do X naquele dia e não encontrei fonte que confirme. Por isso o dado não está nesta matéria. Prefiro parecer incompleto a parecer inventado.

A resposta

Duas horas e 32 minutos é pouco tempo para um cálculo jurídico mudar.

É tempo de sobra para um cálculo eleitoral mudar.

Não tenho a prova documental de que foi isso, e não vou fingir que tenho. O que tenho são os horários, os nomes nas assinaturas, a ausência de decisão do relator, uma nota que fala em estratégia, uma apuração que fala em ordem da campanha, e dois advogados que largaram o caso antes do fim do expediente.

Dia 4 de outubro tem primeiro turno. O processo do pai continua exatamente onde estava na quarta-feira.

Fontes desta materia

  1. Agência Brasil, STF: defesa de Bolsonaro pede suspensão do cumprimento da pena
  2. Agência Brasil, Trama golpista: defesa de Bolsonaro desiste de suspensão da pena
  3. Diário do Grande ABC, Bolsonaro desiste de suspender pena 2h após recorrer a Nunes Marques
  4. O Tempo, Advogados deixam defesa de Bolsonaro em revisão criminal após controvérsia em liminar
  5. O Tempo, Bolsonaro recua e desiste de liminar para suspender execução da pena por golpe de Estado
  6. Jornal do Brasil, Campanha de Flávio manda defesa de Jair Bolsonaro recuar de pedido de suspensão da pena
  7. Jornal de Brasília, Pedido de suspensão de pena racha equipe de defesa, e advogado deixa o caso
  8. CNN Brasil, Defesa de Bolsonaro pede a Kassio suspensão de pena por trama golpista
  9. Poder360, Defesa de Bolsonaro pede a Nunes Marques suspensão da pena
  10. Poder360, Defesa de Jair Bolsonaro desiste de pedido para suspensão de pena
  11. CartaCapital, Defesa de Bolsonaro pede suspensão da prisão a Nunes Marques
  12. STF, Ex-presidente Bolsonaro apresenta revisão criminal contra condenação por tentativa de golpe de Estado
  13. STF, STF concede prisão domiciliar temporária ao ex-presidente Jair Bolsonaro
  14. Jornal Opção, Defesa recua de pedido para suspender pena, mas mantém tentativa de anular condenação no STF
  15. Diário do Centro do Mundo, Advogado deixa defesa de Bolsonaro após recuo em pedido para suspender pena
  16. Midiamax, Defesa de Bolsonaro volta atrás e desiste do pedido de suspensão de pena
  17. Gazeta do Paraná, Bolsonaro passa 7 de Setembro em prisão domiciliar em Brasília
  18. Repórter Maceió, Defesa de Bolsonaro desiste de suspensão da pena de 27 anos