Revista De Castro

Magazine / 25 de setembro de 2026

A história inteira

Einstein deu o dinheiro do Nobel para a ex-mulher. E assinou antes de ganhar

Em junho de 1918 ele pôs no acordo de divórcio uma cláusula sobre um prêmio que ainda não tinha. Quatro anos depois, as 121.572 coroas suecas foram para Mileva Marić. E tem mais: o Nobel de 1921 não foi pela relatividade, e Einstein não estava na cerimônia. Eu separei fato de lenda em cada ponto, inclusive na história de que ele foi reprovado em matemática.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
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Magazine
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7 min
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Herman Mishkin / Wikimedia Commons, domínio público
Herman Mishkin / Wikimedia Commons, domínio público

Em janeiro de 1918, um professor de 38 anos escreveu para a mulher de quem estava separado e ofereceu, como parte da proposta de divórcio, o dinheiro de um prêmio que ele ainda não tinha ganhado.

A frase dele, na correspondência, é direta: o Nobel seria cedido a ela integralmente, de antemão.

Quatro anos depois, o prêmio veio. E o dinheiro foi embora, exatamente como estava escrito.

A cláusula, palavra por palavra

O acordo formal de divórcio entre Albert Einstein e Mileva Marić foi fechado em 12 de junho de 1918. Nele está esta passagem, reproduzida a partir dos Collected Papers of Albert Einstein, o arquivo editado por Princeton:

"O Prof. Einstein determinará, em caso de divórcio e caso receba o Prêmio Nobel, que o dinheiro do prêmio passe a ser propriedade da sra. Mileva Einstein e depositará esse capital em custódia num banco suíço."

Havia uma condição extra: se Mileva morresse ou se casasse de novo, o dinheiro passaria aos dois filhos do casal.

O divórcio foi concedido em 14 de fevereiro de 1919, em Zurique. Três meses e meio depois, em 2 de junho, Einstein se casou com a prima, Elsa.

O Nobel de Física de 1921 só foi votado pela Real Academia Sueca de Ciências em 9 de novembro de 1922. O valor era de 121.572,54 coroas suecas, cerca de 180 mil francos suíços ou 31 mil dólares da época.

Mileva recebeu.

O que ela fez com o dinheiro

Ela não deixou parado. Comprou três prédios de apartamentos no Zürichberg, bairro caro de Zurique. O primeiro foi o da Huttenstrasse 62, em 1924, por 45 mil francos suíços. Os outros dois vieram em 1930.

A conta não fechou. A crise econômica derrubou o valor dos imóveis, e o filho mais novo, Eduard, teve um colapso por volta de 1930 e recebeu diagnóstico de esquizofrenia. Ela vendeu dois prédios para pagar o tratamento.

Em 1947, o prédio da Huttenstrasse saiu por 235 mil francos. Mileva morreu em Zurique em 4 de agosto de 1948, aos 72 anos, com cerca de 87 mil francos. Aos filhos chegaram por volta de 70 mil.

Hoje existe uma placa na parede daquele prédio com o nome dela e a informação de que a casa foi comprada com o dinheiro do Nobel de Einstein.

Por que o prêmio não foi pela relatividade

Aqui está a parte que quase ninguém conta.

A citação oficial do Nobel de Física de 1921, no site da Fundação Nobel, diz: "pelos seus serviços à física teórica e, em especial, pela sua descoberta da lei do efeito fotoelétrico".

A relatividade não aparece. E isso foi decidido de propósito.

Em 1920, o químico Svante Arrhenius, membro do comitê, escreveu um parecer de sete páginas contra a relatividade. Ele citou a literatura alemã anti-Einstein de Ernst Gehrcke e Philipp Lenard, chegou a citar jornais ultranacionalistas, declarou pouco confiáveis os dados do eclipse britânico de 1919 e rejeitou o desvio para o vermelho medido no Sol. Não mencionou que Max von Laue já havia refutado os argumentos de Gehrcke.

Em 1921 e 1922, quem assumiu a tarefa foi Allvar Gullstrand, Nobel de Medicina de 1911. Ele produziu um parecer de cerca de 50 páginas construído sobre uma premissa: a de que Einstein não pode estar certo. Chamou os dados do eclipse de inúteis e concluiu que as teorias eram "destituídas de qualquer conteúdo real" e não tinham "a significância para a física" exigida por um Nobel. Em conversas privadas, dizia que Einstein nunca deveria receber o prêmio. Recusou-se a consultar especialistas estrangeiros.

Resultado: em 1921, o comitê declarou que nenhuma indicação daquele ano atendia ao critério do testamento de Alfred Nobel. Pelo estatuto da Fundação, o prêmio ficou reservado para o ano seguinte.

Quem destravou foi o físico teórico Carl Wilhelm Oseen, que entrou no comitê em 1922 como membro extraordinário. A jogada dele foi cirúrgica: em vez de indicar Einstein pela relatividade, indicou pela descoberta da lei do efeito fotoelétrico. Separou a descoberta, comprovada em laboratório, da teoria, que estava em disputa. E argumentou que o físico experimental, tipo dominante na Academia, veria ali uma nova lei fundamental da natureza.

Funcionou. Na votação de 9 de novembro de 1922, ainda houve discussão sobre a redação. Venceu a proposta conservadora do ex-primeiro-ministro Hjalmar Hammarskjöld: a relatividade não seria mencionada. A Academia depois deixou explícito que ela não deveria aparecer no diploma nem em nenhum documento oficial.

Na cerimônia de dezembro de 1922, Arrhenius justificou a omissão dizendo que a relatividade pertencia essencialmente à epistemologia, e por isso vinha sendo debatida em círculos filosóficos. Era uma alusão às críticas do filósofo Henri Bergson, que na prática não tinha tido papel nenhum na decisão do comitê.

Einstein não ouviu nada disso. Estava no Japão.

A lenda de que ele foi reprovado em matemática

Essa é falsa, e a origem dela tem data.

O que aconteceu de verdade: em 1895, aos 16 anos, dois anos mais novo do que a idade normal dos candidatos, Einstein prestou o exame de admissão da Escola Politécnica Federal de Zurique. Ele não atingiu a nota exigida na parte geral da prova, com desempenho fraco em línguas e ciências biológicas, sobretudo francês e botânica.

Em física e matemática, foi com distinção.

O diretor da Politécnica mandou que terminasse o secundário e voltasse. Ele foi para a escola cantonal de Aarau e se formou em 1896 com nota 6, a máxima da escala suíça de 1 a 6, em história, física, álgebra, geometria e geometria descritiva. Em 1900 se formou pela Politécnica, habilitado a ensinar matemática e física.

O mito circulou assim mesmo. Em 1935, um rabino de Princeton levou a ele um recorte da coluna Ripley's Believe It or Not com a manchete de que o maior matemático vivo tinha sido reprovado em matemática.

Einstein riu e respondeu: "Eu nunca fui reprovado em matemática. Antes dos quinze eu já dominava cálculo diferencial e integral."

O ano de 1905, feito no expediente

Einstein entrou no Escritório Federal de Patentes de Berna como perito técnico de terceira classe em 19 de junho de 1902, com salário de 3.500 francos suíços por ano. Primeiro dia útil: 23 de junho.

A rotina dele era declarada assim: oito horas no escritório, oito horas de trabalho científico, oito horas de sono.

Em 1905 saíram os quatro artigos que mudaram a física do século, todos nos Annalen der Physik: o efeito fotoelétrico, o movimento browniano, a relatividade restrita e a equivalência entre massa e energia. Nenhum deles foi escrito numa universidade.

Só em 1º de abril de 1906 ele foi promovido a perito de segunda classe, com 4.500 francos. Saiu do escritório em 15 de outubro de 1909, para uma cátedra na Universidade de Zurique.

Ele chamava aquele emprego de claustro mundano, onde chocou as ideias mais bonitas. Aos amigos, dizia que era ofício de sapateiro.

O que joga contra, e entra

"Então ele foi generoso." Não necessariamente. O dinheiro era moeda de troca. Ele queria o divórcio para casar com Elsa, e a carta de janeiro de 1918 coloca o Nobel dentro da proposta.

"E o dinheiro foi mesmo todo para ela?" O que está documentado é a cláusula, a transferência em 1922 e a compra dos três prédios em Zurique. Existe uma versão, publicada em imprensa, de que ele teria aplicado boa parte do valor nos Estados Unidos e perdido na Depressão. Não consegui confirmar isso na fonte que li, e por isso registro como não confirmado.

"Mileva não era só a mulher dele." Ela nasceu em Titel, em 19 de dezembro de 1875, e entrou na Politécnica de Zurique no outono de 1896 como a única mulher num grupo de seis alunos. Foi reprovada duas vezes no exame final do diploma de professora, em 1900 e em 1901, a segunda vez grávida. Historiadores divergem, sem consenso, sobre qual foi a participação dela nos artigos de 1905. Esta revista não vai fingir que a disputa está resolvida.

"E a primeira filha?" Lieserl nasceu em janeiro de 1902 e teve escarlatina com um ano. As fontes divergem entre a morte em 1903 e uma adoção. O destino dela nunca foi estabelecido.

"O efeito fotoelétrico é prêmio menor." Não é. Foi ele que estabeleceu o quantum de luz e é a base física da célula solar, do sensor da sua câmera e do fotomultiplicador.

A resposta

A semana do Nobel de 2026 começa em 5 de outubro, e o nome de Einstein vai voltar a ser citado como sinônimo de gênio premiado.

Só que o prêmio dele foi dado por um trabalho que o público não sabe qual é, entregue com um ano de atraso, numa cerimônia em que ele não estava, com a teoria mais famosa da ciência moderna proibida de aparecer no diploma.

E o dinheiro nunca foi dele. Foi para uma física sérvia que não conseguiu se formar, comprou três prédios em Zurique, perdeu quase tudo numa crise e gastou o resto internando um filho.

A lenda é mais simples. A história inteira é melhor.

Fontes desta materia

  1. NobelPrize.org, Albert Einstein, Facts, Nobel Prize in Physics 1921
  2. NobelPrize.org, The Nobel Prize in Physics 1921, summary
  3. Wikipedia, Albert Einstein
  4. Wikipedia, Mileva Marić
  5. Einstein-website.de, What happened to the Nobel Prize money?
  6. Einstein-website.de, Albert Einstein and the Patent Office in Bern
  7. Advanced Science News, The dramatic story behind general relativity's Nobel Prize snub
  8. The Marginalian, Einstein's Divorce Agreement and the Nuanced Messiness of the Human Heart
  9. TIME, How Nobel Winners Spend Their Prize Money, Albert Einstein
  10. Princeton University Press, The Collected Papers of Albert Einstein, vol. 8
  11. Annalen der Physik (Wiley), The 100th Anniversary of Einstein's Nobel Prize: Facts and Fiction
  12. PIX11, Fact or fiction: Did Albert Einstein flunk math?
  13. HowStuffWorks, Did Einstein really fail math?