O caminho mais comum no Brasil é do catolicismo para as igrejas evangélicas. Segundo o Pew Research Center, 13% dos brasileiros adultos foram criados católicos e hoje são protestantes, enquanto só 1% fez o caminho inverso. A pesquisa do Iser com a Quaest, de 2026, chega a uma proporção menor, de cerca de 3 para 1. Nos dois sentidos, o motivo mais citado é a convicção: 36% falam em afinidade com as crenças e práticas da nova fé.
Eu fui ler as tabelas, o Censo e as histórias de quem atravessou a rua de uma igreja para outra. A revista já explicou onde católicos e evangélicos concordam e discordam sobre Maria. Aqui o assunto é outro: as pessoas que trocaram de lado.
O que o Censo mostra?
Uma troca lenta e grande. No Censo 2022 do IBGE, os católicos caíram de 65,1% para 56,7% das pessoas com 10 anos ou mais, em relação a 2010. Os evangélicos subiram de 21,6% para 26,9%, segundo a CNN Brasil.
| Censo | Católicos | Evangélicos |
|---|---|---|
| 2010 | 65,1% (105,4 milhões) | 21,6% (35 milhões) |
| 2022 | 56,7% (100,2 milhões) | 26,9% (47,4 milhões) |
Fonte: IBGE, via CNN Brasil.
O Censo não diz quem veio de onde. Para isso, o Pew e o Iser perguntaram às pessoas qual era a fé de antes.
Quantos mudaram de lado, segundo o Pew?
O Pew Research Center ouviu adultos em 24 países na primavera de 2024 (no Hemisfério Norte) e publicou as tabelas em abril de 2026. Entre os 24 países, o Brasil tem a maior parcela de ex-católicos que viraram protestantes: 13% de todos os adultos. Aqui, quem deixa o catolicismo vai mais para as igrejas evangélicas do que para a falta de religião (7%), como também acontece no Peru, no Quênia, em Gana, na Nigéria e nas Filipinas, segundo as tabelas do Pew e a Angelus News.
| No Brasil, % de todos os adultos | Católicos | Protestantes |
|---|---|---|
| Foram criados nessa fé | 69% | 20% |
| Saíram dela | 25% | 6% |
| Entraram nela vindos de fora | 2% | 15% |
| São hoje | 46% | 29% |
Fonte: Pew Research Center, Spring 2024 Global Attitudes Survey.
O detalhe mais revelador está em quem saiu. Dos 25% que deixaram o catolicismo, 13% viraram protestantes. Dos 6% que deixaram o protestantismo, 1% virou católico, 4% ficaram sem religião e 1% foi para outra fé. Por isso a conta de 13 para 1.
E segundo a pesquisa brasileira?
A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, do Iser com a Quaest, ouviu 15 mil pessoas em 412 municípios entre janeiro e fevereiro de 2026, com margem de 1 ponto, segundo a Agência Brasil. Pelos dados publicados pelo O Globo e reproduzidos pela Exibir Gospel:
- 29% dos evangélicos já foram católicos, quase 10% de toda a população;
- 3% dos entrevistados são católicos que já foram evangélicos;
- 23% já mudaram de religião ao menos uma vez;
- 31% não seguem a religião dos pais.
As duas pesquisas apontam a mesma direção, com tamanhos diferentes. Elas fazem perguntas diferentes: o Pew pergunta em que religião a pessoa foi criada; o Iser pergunta se ela já teve outra. Quem frequentou uma igreja evangélica por um tempo e voltou ao catolicismo pode aparecer no Iser e sumir no Pew.
"Hoje nós temos famílias plurirreligiosas no Brasil. E a pesquisa mostra que o trânsito entre religiões tomou diversas direções", disse a antropóloga Lívia Reis, coordenadora da pesquisa, segundo a Gospel Mais.

Por que as pessoas mudam?
Segundo o Iser/Quaest, 36% citam maior afinidade com as crenças e práticas da nova fé. Outros 21% falam em valores morais e éticos e 16%, em discordância com autoridades religiosas. Só 5% mudaram por discordância política.
Na minha opinião, esse número desmonta uma explicação que ouvimos em plena campanha. Em 16 de setembro, num encontro com pastores no Planalto, Lula disse: "Enquanto a Igreja Católica não acabar com celibato e permitir que mulheres possam ser bispos, padres, a gente vai ver Igreja Católica passando dificuldade." Entre os motivos que os próprios fiéis apontam na pesquisa, nada disso aparece entre os principais. Quem muda fala de fé, e não de regra de clero.
Quem foi de evangélico para católico?
Eduardo Faria, de Juiz de Fora (MG), foi protestante por 22 anos e ordenado pastor presbiteriano em 30 de outubro de 2010. Segundo a Vatican News, boa parte da pregação dele envolvia críticas à Igreja Católica. A virada veio de um caso pastoral, no fim de 2018: uma senhora que queria entrar na igreja dele recusou um novo batismo, porque já era batizada na Igreja Católica. Ele foi estudar e descobriu que a Igreja Católica reconhece como válido o batismo presbiteriano, luterano, metodista e batista.
"Quando eu descobri que a Igreja católica acreditava que o Batismo protestante era válido aquilo para mim foi um clamor por unidade que me atraiu de maneira muito forte", disse à Vatican News. No Domingo de Ramos de 2021, fez a profissão de fé diante do arcebispo de Juiz de Fora, Dom Gil Antônio Moreira. "Sou católico porque somente na Igreja católica eu me encontro com Cristo Eucarístico, com Jesus sacramentado."
Scott Hahn, americano, foi ordenado pastor presbiteriano em 1982 e chegou a acreditar que o papa era o Anticristo, segundo a Minha Biblioteca Católica. O que o fez mudar foi a Eucaristia. "Depois de muita oração e de muito estudo, acabei por reconhecer que Jesus não podia estar a falar simbolicamente quando nos convidou a comer a Sua carne e a beber o Seu sangue", escreveu no livro "Todos os caminhos levam a Roma". Entrou na Igreja Católica na Páscoa de 1986. A esposa, Kimberly, só o seguiu em 1990. Hoje é autor de dezenas de livros católicos, e um dos filhos foi ordenado padre em 2021.
As duas histórias têm a mesma porta de entrada: a Eucaristia e a ideia de uma Igreja contínua desde os apóstolos.
Quem foi para as igrejas evangélicas?
Três casos conhecidos no Brasil:
Rodolfo Abrantes, vocalista dos Raimundos, converteu-se ao protestantismo e deixou a banda em junho de 2001, por considerar as letras incompatíveis com a nova fé, segundo a Wikipédia. Hoje ministra cultos e é missionário itinerante.
Baby do Brasil, a cantora dos Novos Baianos, batizou-se no fim dos anos 1990, tornou-se evangélica e, em 2000, fundou o próprio ministério, onde é pastora.
Dedé Santana, dos Trapalhões, converteu-se em 1995. "Eu debochava de crente... as coisas foram acontecendo devagar comigo", contou, segundo a Brasil Paralelo.
As fontes que eu li não dizem em que igreja esses três foram criados. O que elas mostram é o motivo que o Iser também encontrou: a vida mudou, e a nova fé deu forma a essa mudança.

Como fica a família?
Muitas vezes, dividida na fé. Entre os evangélicos, 41% têm pelo menos um filho que segue outra religião; entre os católicos, 20%. Entre os evangélicos, 39% disseram que os pais são católicos e 32% disseram que a mãe é católica, segundo o Iser/Quaest, via O Globo.
Um exemplo público está na eleição. O senador Flávio Bolsonaro é evangélico e frequenta a Igreja Batista. O pai, Jair Bolsonaro, se declara católico, e continuou católico depois de ser batizado no rio Jordão, em 2016, pelo pastor Everaldo. O vice de Flávio, Alfredo Gaspar, é "católico fervoroso", nas palavras do candidato, segundo o Estadão Conteúdo. A revista mostrou como essa família de duas fés terminou a semana com Flávio erguendo Nossa Senhora Aparecida no Brás.
O que joga contra, e entra
"Isso é proselitismo, um lado roubando fiel do outro." O motivo mais citado por quem muda é a afinidade de crença e prática (36%), e só 5% mudam por política. Eduardo Faria conta que foi atraído por um "clamor por unidade", e não por uma campanha.
"Os evangélicos vão passar os católicos amanhã." Ainda não. No Censo 2022, os católicos são 56,7% e os evangélicos, 26,9%. No Pew, 46% e 29%. Os católicos seguem maioria em todas as regiões do país, segundo a CNN Brasil.
"Ninguém vira católico." Vira, mas é raro. O Pew mede 1% dos adultos brasileiros saindo do protestantismo para o catolicismo; o Iser mede 3% de católicos que já foram evangélicos. Num país do tamanho do Brasil, é muita gente.
E a resposta?
O Brasil está trocando de fé dentro da mesma família cristã, e quase sempre na mesma direção: do catolicismo para as igrejas evangélicas, numa proporção que vai de 3 para 1 a 13 para 1, conforme a pesquisa. O caminho inverso é menor, e quem o faz costuma citar a Eucaristia e a continuidade da Igreja. Nos dois sentidos, as pessoas contam a mesma coisa: mudaram porque encontraram, na outra porta, uma fé que fez mais sentido para elas.
Perguntas que chegam nos comentários
Quantos evangélicos já foram católicos no Brasil?
29% dos evangélicos, ou quase 10% da população, segundo a pesquisa Iser/Quaest de 2026. Pelo Pew Research Center, 13% dos adultos brasileiros foram criados católicos e hoje são protestantes.
Quantos brasileiros saíram de igreja evangélica e viraram católicos?
1% dos adultos, segundo o Pew. Na pesquisa Iser/Quaest, 3% dos entrevistados são católicos que já foram evangélicos.
Por que as pessoas mudam de religião?
36% citam afinidade com as crenças e práticas da nova fé, 21% valores morais e éticos e 16% discordância com autoridades religiosas, segundo o Iser/Quaest. Só 5% citam política.







