Revista De Castro

Magazine / 30 de setembro de 2026

Eu fui checar

Por que Maria, mãe de Jesus, é vista de forma diferente por católicos e evangélicos

Católicos chamam Maria de Mãe de Deus, creem em quatro dogmas sobre ela e pedem a sua intercessão. A maioria dos evangélicos a honra como mãe de Jesus e exemplo de fé, mas não reza a ela. Eu fui ler o Catecismo, os documentos do Vaticano, a Bíblia e o Censo do IBGE para explicar onde os dois lados concordam e onde se separam.

Publicado
30 de setembro de 2026
Atualizado
30 de setembro de 2026
Editoria
Magazine
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7 min
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12 citadas

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A Anunciação, de Fra Angelico, século 15, Museu do Prado. Domínio público, via Wikimedia Commons
A Anunciação, de Fra Angelico, século 15, Museu do Prado. Domínio público, via Wikimedia Commons

Católicos e evangélicos concordam que Maria é a mãe de Jesus, que ela o concebeu virgem pelo Espírito Santo e que é exemplo de fé. Eles se separam em dois pontos: os católicos creem em quatro dogmas sobre Maria e pedem que ela interceda por eles; a maioria dos evangélicos não reza a Maria e só aceita o que lê de forma explícita na Bíblia.

A diferença tem mais de 500 anos. Voltou ao centro do debate nesta eleição por causa de um boato falso sobre Nossa Senhora Aparecida, que a revista já checou em detalhe: quem disse o quê na briga da padroeira e quem é o verdadeiro autor do projeto de 2007.

O que os católicos creem sobre Maria?

O Catecismo da Igreja Católica, publicado pelo Vaticano, reúne a fé católica sobre Maria em quatro dogmas. Dogma é uma verdade que a Igreja declara revelada por Deus e que o fiel católico precisa aceitar.

DogmaO que afirmaQuando foi definido
Mãe de Deus (Theotokos)Maria é mãe de Jesus, que é DeusConcílio de Éfeso, 431
Virgindade perpétuaMaria foi virgem antes, durante e depois do partoFé antiga, registrada no Catecismo (§ 499)
Imaculada ConceiçãoMaria foi concebida sem o pecado originalPapa Pio IX, 1854
AssunçãoMaria foi levada ao céu em corpo e almaPapa Pio XII, 1950

O parágrafo 495 do Catecismo diz: "Maria é, verdadeiramente, Mãe de Deus". O título não quer dizer que Maria veio antes de Deus. Quer dizer que o filho que ela gerou é, para a fé cristã, Deus feito homem.

A Assunção foi o último dogma. Em 1º de novembro de 1950, na constituição Munificentissimus Deus, Pio XII definiu que Maria, "terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".

Católico adora Maria?

Pela doutrina, não. O parágrafo 971 do Catecismo afirma que a devoção a Maria, "embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração", que é dado só a Deus. A palavra usada é veneração: a honra que se dá a alguém que Deus escolheu, e o pedido para que essa pessoa reze junto.

O Vaticano mexeu nesse limite há menos de um ano. Em 4 de novembro de 2025, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou a nota Mater Populi Fidelis, aprovada pelo papa Francisco em 7 de outubro daquele ano. O texto chama de "sempre inoportuno" o título de "Corredentora" para Maria, porque ele pode esconder que só Cristo salva. O Vaticano citou razões dogmáticas, pastorais e ecumênicas, ou seja, também o diálogo com os protestantes, segundo o Vatican News.

O que os evangélicos creem sobre Maria?

Os evangélicos saíram da Reforma Protestante, que Martinho Lutero começou em 31 de outubro de 1517. Duas regras da Reforma explicam quase toda a diferença.

A primeira é a Sola Scriptura: só a Bíblia é regra de fé. O que não está escrito nela de forma clara não pode ser exigido do fiel. A Imaculada Conceição e a Assunção, por esse critério, ficam de fora.

A segunda é a de um único mediador. Na primeira carta a Timóteo, capítulo 2, versículo 5, Paulo escreve que há "um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem". Para a maioria dos evangélicos, pedir a Maria que interceda coloca alguém entre o fiel e Cristo.

"A controvérsia parte da reforma protestante quando o ponto era especificamente a invocação de oração a Maria", disse o teólogo evangélico Gutierres Fernandes Siqueira à BBC News Brasil, em reportagem de 29 de setembro de 2026.

Lutero rejeitava Maria?

Lutero honrava Maria. Chamava Maria de Mãe de Deus e acreditou a vida inteira que ela permaneceu virgem, segundo o verbete da Wikipédia sobre a teologia dele. Em 1521, escreveu um comentário inteiro sobre o Magnificat, o cântico de Maria no Evangelho de Lucas. O que ele recusava era rezar a ela pedindo intercessão.

A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil mantém essa linha. "Os luteranos não prestam culto a Maria, mas tributam todo o respeito a ela como Mãe de Jesus Cristo", disse o pastor Geraldo Graf ao portal A12, do Santuário Nacional de Aparecida.

O afastamento maior veio depois. "O distanciamento mais radical foi ocorrendo nas gerações que se sucederam a de Lutero", disse o linguista evangélico Lucas Nascimento, da Universidade Estadual de Feira de Santana, à BBC News Brasil.

O que a Bíblia diz sobre Maria?

Os dois lados leem os mesmos versículos. O que muda é a leitura.

  • Lucas 1, 28: o anjo saúda Maria como "agraciada" (na tradução católica, "cheia de graça"). Para o Catecismo (§ 490), a saudação aponta para uma graça única desde o início. Para os evangélicos, mostra o favor de Deus, sem falar de concepção sem pecado.
  • Lucas 1, 48: Maria diz que "todas as gerações me chamarão bem-aventurada". É o versículo que o Catecismo usa para abrir o parágrafo sobre a devoção mariana.
  • Marcos 6, 3: os vizinhos chamam Jesus de "filho de Maria, e irmão de Tiago", e citam também irmãs. Muitos evangélicos leem ali outros filhos de Maria e José. O Catecismo (§ 500) responde que se trata de "parentes próximos de Jesus", uso comum do termo no Antigo Testamento.
  • João 2, 5: nas bodas de Caná, Maria diz aos serventes "Fazei tudo quanto ele vos disser". Os dois lados citam a frase: católicos como prova de que ela leva a Jesus, evangélicos como prova de que ela aponta para ele, e não para si.
  • João 19, 27 e Atos 1, 14: Jesus entrega Maria ao discípulo amado, e depois ela aparece rezando com os apóstolos. Os católicos veem aí a maternidade espiritual de Maria sobre a Igreja (§ 501 e § 964).

Quantos católicos e evangélicos há no Brasil?

O Censo 2022 do IBGE, divulgado em junho de 2025, perguntou a religião de todas as pessoas com 10 anos ou mais.

Grupo20102022
Católicos65,0%56,7%
Evangélicos21,7%26,9%
Sem religião7,9%9,3%
Umbanda e candomblé0,3%1,0%

Fonte: IBGE, resultados preliminares da amostra; a linha dos sem religião vem da CNN Brasil, que usa os mesmos dados. A CNN arredonda os números de 2010 para 65,1% e 21,6%. Em números absolutos, o Brasil tem 100,2 milhões de católicos e 47,4 milhões de evangélicos, segundo a CNN Brasil. Os evangélicos ganharam 12 milhões de fiéis em 12 anos. A revista já mostrou o que esses números pesam na campanha.

Os evangélicos têm maior presença no Norte (36,8%) e no Centro-Oeste (31,4%). Os católicos seguem maioria em todas as regiões, com o maior peso no Nordeste (63,9%).

O que joga contra, e entra

"Católico adora imagem de Maria." A doutrina oficial diz o contrário. O Catecismo separa adoração, que é só de Deus, de veneração. Um evangélico pode achar que, na prática, alguns fiéis passam do limite. Aí a crítica mira o comportamento de parte dos fiéis, e o ensino oficial fica de pé.

"Evangélico odeia Maria." Também não se sustenta. Lutero escreveu um livro sobre o cântico dela. A Igreja Luterana diz ter por Maria "todo o respeito". O que os evangélicos recusam é a oração dirigida a ela.

"Os irmãos de Jesus provam que Maria teve outros filhos." A Bíblia usa a palavra "irmãos", mas o termo tem mais de um sentido nas línguas da época. Católicos e ortodoxos leem como parentes, e o próprio Lutero acreditava na virgindade perpétua. Muitos evangélicos de hoje leem como irmãos de sangue. O texto sozinho não encerra a discussão.

"Isso é briga de eleição." A divergência é de 1517. Na campanha, ela virou munição por causa de um boato falso sobre a padroeira, que o TSE mandou remover, como a revista mostrou em a cronologia da decisão.

Então, por que Maria é vista de forma diferente?

Porque católicos e evangélicos usam réguas diferentes para medir a fé. Os católicos somam a Bíblia à Tradição da Igreja e aos dogmas definidos pelos papas. A maioria dos evangélicos aceita só o que está escrito na Bíblia e não admite outro intercessor além de Cristo. Os dois chamam Maria de bem-aventurada, como ela mesma disse que seria chamada. A diferença está no que se faz depois disso: rezar com ela ou rezar a ela.

Na minha opinião, conhecer a doutrina do outro é o que desarma o boato. Quem sabe o que o vizinho crê fica mais difícil de enganar.

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Fontes desta materia

  1. Vaticano, Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 487 a 507 (Maria, Mãe de Deus e virgem)
  2. Vaticano, Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 963 a 971 (Maria, Mãe da Igreja)
  3. Vaticano, Pio XII, constituição apostólica Munificentissimus Deus (1950)
  4. Vatican News, Nota doutrinal sobre os títulos marianos: Mãe do povo fiel, não corredentora
  5. BBC News Brasil via Correio Braziliense, Por que Maria, mãe de Jesus, é tratada de forma diferente por católicos e evangélicos
  6. A12 (Santuário Nacional), Maria segundo a Igreja Luterana
  7. Wikipédia, Teologia de Lutero sobre Maria
  8. IBGE, Censo Demográfico 2022, Religiões: resultados preliminares da amostra
  9. CNN Brasil, Brasil tem recorde de evangélicos e menor número de católicos da história
  10. Bíblia Online (Almeida Corrigida Fiel), Lucas 1
  11. Bíblia Online (Almeida Corrigida Fiel), Marcos 6
  12. Bíblia Online (Almeida Corrigida Fiel), 1 Timóteo 2