Católicos e evangélicos concordam que Maria é a mãe de Jesus, que ela o concebeu virgem pelo Espírito Santo e que é exemplo de fé. Eles se separam em dois pontos: os católicos creem em quatro dogmas sobre Maria e pedem que ela interceda por eles; a maioria dos evangélicos não reza a Maria e só aceita o que lê de forma explícita na Bíblia.
A diferença tem mais de 500 anos. Voltou ao centro do debate nesta eleição por causa de um boato falso sobre Nossa Senhora Aparecida, que a revista já checou em detalhe: quem disse o quê na briga da padroeira e quem é o verdadeiro autor do projeto de 2007.
O que os católicos creem sobre Maria?
O Catecismo da Igreja Católica, publicado pelo Vaticano, reúne a fé católica sobre Maria em quatro dogmas. Dogma é uma verdade que a Igreja declara revelada por Deus e que o fiel católico precisa aceitar.
| Dogma | O que afirma | Quando foi definido |
|---|---|---|
| Mãe de Deus (Theotokos) | Maria é mãe de Jesus, que é Deus | Concílio de Éfeso, 431 |
| Virgindade perpétua | Maria foi virgem antes, durante e depois do parto | Fé antiga, registrada no Catecismo (§ 499) |
| Imaculada Conceição | Maria foi concebida sem o pecado original | Papa Pio IX, 1854 |
| Assunção | Maria foi levada ao céu em corpo e alma | Papa Pio XII, 1950 |
O parágrafo 495 do Catecismo diz: "Maria é, verdadeiramente, Mãe de Deus". O título não quer dizer que Maria veio antes de Deus. Quer dizer que o filho que ela gerou é, para a fé cristã, Deus feito homem.
A Assunção foi o último dogma. Em 1º de novembro de 1950, na constituição Munificentissimus Deus, Pio XII definiu que Maria, "terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".
Católico adora Maria?
Pela doutrina, não. O parágrafo 971 do Catecismo afirma que a devoção a Maria, "embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração", que é dado só a Deus. A palavra usada é veneração: a honra que se dá a alguém que Deus escolheu, e o pedido para que essa pessoa reze junto.
O Vaticano mexeu nesse limite há menos de um ano. Em 4 de novembro de 2025, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou a nota Mater Populi Fidelis, aprovada pelo papa Francisco em 7 de outubro daquele ano. O texto chama de "sempre inoportuno" o título de "Corredentora" para Maria, porque ele pode esconder que só Cristo salva. O Vaticano citou razões dogmáticas, pastorais e ecumênicas, ou seja, também o diálogo com os protestantes, segundo o Vatican News.
O que os evangélicos creem sobre Maria?
Os evangélicos saíram da Reforma Protestante, que Martinho Lutero começou em 31 de outubro de 1517. Duas regras da Reforma explicam quase toda a diferença.
A primeira é a Sola Scriptura: só a Bíblia é regra de fé. O que não está escrito nela de forma clara não pode ser exigido do fiel. A Imaculada Conceição e a Assunção, por esse critério, ficam de fora.
A segunda é a de um único mediador. Na primeira carta a Timóteo, capítulo 2, versículo 5, Paulo escreve que há "um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem". Para a maioria dos evangélicos, pedir a Maria que interceda coloca alguém entre o fiel e Cristo.
"A controvérsia parte da reforma protestante quando o ponto era especificamente a invocação de oração a Maria", disse o teólogo evangélico Gutierres Fernandes Siqueira à BBC News Brasil, em reportagem de 29 de setembro de 2026.
Lutero rejeitava Maria?
Lutero honrava Maria. Chamava Maria de Mãe de Deus e acreditou a vida inteira que ela permaneceu virgem, segundo o verbete da Wikipédia sobre a teologia dele. Em 1521, escreveu um comentário inteiro sobre o Magnificat, o cântico de Maria no Evangelho de Lucas. O que ele recusava era rezar a ela pedindo intercessão.
A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil mantém essa linha. "Os luteranos não prestam culto a Maria, mas tributam todo o respeito a ela como Mãe de Jesus Cristo", disse o pastor Geraldo Graf ao portal A12, do Santuário Nacional de Aparecida.
O afastamento maior veio depois. "O distanciamento mais radical foi ocorrendo nas gerações que se sucederam a de Lutero", disse o linguista evangélico Lucas Nascimento, da Universidade Estadual de Feira de Santana, à BBC News Brasil.
O que a Bíblia diz sobre Maria?
Os dois lados leem os mesmos versículos. O que muda é a leitura.
- Lucas 1, 28: o anjo saúda Maria como "agraciada" (na tradução católica, "cheia de graça"). Para o Catecismo (§ 490), a saudação aponta para uma graça única desde o início. Para os evangélicos, mostra o favor de Deus, sem falar de concepção sem pecado.
- Lucas 1, 48: Maria diz que "todas as gerações me chamarão bem-aventurada". É o versículo que o Catecismo usa para abrir o parágrafo sobre a devoção mariana.
- Marcos 6, 3: os vizinhos chamam Jesus de "filho de Maria, e irmão de Tiago", e citam também irmãs. Muitos evangélicos leem ali outros filhos de Maria e José. O Catecismo (§ 500) responde que se trata de "parentes próximos de Jesus", uso comum do termo no Antigo Testamento.
- João 2, 5: nas bodas de Caná, Maria diz aos serventes "Fazei tudo quanto ele vos disser". Os dois lados citam a frase: católicos como prova de que ela leva a Jesus, evangélicos como prova de que ela aponta para ele, e não para si.
- João 19, 27 e Atos 1, 14: Jesus entrega Maria ao discípulo amado, e depois ela aparece rezando com os apóstolos. Os católicos veem aí a maternidade espiritual de Maria sobre a Igreja (§ 501 e § 964).
Quantos católicos e evangélicos há no Brasil?
O Censo 2022 do IBGE, divulgado em junho de 2025, perguntou a religião de todas as pessoas com 10 anos ou mais.
| Grupo | 2010 | 2022 |
|---|---|---|
| Católicos | 65,0% | 56,7% |
| Evangélicos | 21,7% | 26,9% |
| Sem religião | 7,9% | 9,3% |
| Umbanda e candomblé | 0,3% | 1,0% |
Fonte: IBGE, resultados preliminares da amostra; a linha dos sem religião vem da CNN Brasil, que usa os mesmos dados. A CNN arredonda os números de 2010 para 65,1% e 21,6%. Em números absolutos, o Brasil tem 100,2 milhões de católicos e 47,4 milhões de evangélicos, segundo a CNN Brasil. Os evangélicos ganharam 12 milhões de fiéis em 12 anos. A revista já mostrou o que esses números pesam na campanha.
Os evangélicos têm maior presença no Norte (36,8%) e no Centro-Oeste (31,4%). Os católicos seguem maioria em todas as regiões, com o maior peso no Nordeste (63,9%).
O que joga contra, e entra
"Católico adora imagem de Maria." A doutrina oficial diz o contrário. O Catecismo separa adoração, que é só de Deus, de veneração. Um evangélico pode achar que, na prática, alguns fiéis passam do limite. Aí a crítica mira o comportamento de parte dos fiéis, e o ensino oficial fica de pé.
"Evangélico odeia Maria." Também não se sustenta. Lutero escreveu um livro sobre o cântico dela. A Igreja Luterana diz ter por Maria "todo o respeito". O que os evangélicos recusam é a oração dirigida a ela.
"Os irmãos de Jesus provam que Maria teve outros filhos." A Bíblia usa a palavra "irmãos", mas o termo tem mais de um sentido nas línguas da época. Católicos e ortodoxos leem como parentes, e o próprio Lutero acreditava na virgindade perpétua. Muitos evangélicos de hoje leem como irmãos de sangue. O texto sozinho não encerra a discussão.
"Isso é briga de eleição." A divergência é de 1517. Na campanha, ela virou munição por causa de um boato falso sobre a padroeira, que o TSE mandou remover, como a revista mostrou em a cronologia da decisão.
Então, por que Maria é vista de forma diferente?
Porque católicos e evangélicos usam réguas diferentes para medir a fé. Os católicos somam a Bíblia à Tradição da Igreja e aos dogmas definidos pelos papas. A maioria dos evangélicos aceita só o que está escrito na Bíblia e não admite outro intercessor além de Cristo. Os dois chamam Maria de bem-aventurada, como ela mesma disse que seria chamada. A diferença está no que se faz depois disso: rezar com ela ou rezar a ela.
Na minha opinião, conhecer a doutrina do outro é o que desarma o boato. Quem sabe o que o vizinho crê fica mais difícil de enganar.







