Quarta-feira, 16 de setembro, Palácio do Planalto. Lula recebe pastores dos Estados Unidos e pastores brasileiros da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. As fotos oficiais do encontro estão publicadas com essa descrição.
Lula se declarou católico. Segundo o ND+, disse também que evita fazer discurso político dentro de templos. E então falou da própria Igreja.
O que Lula disse
A frase circulou com pequenas diferenças de transcrição entre os veículos. A versão reproduzida pela Frente Parlamentar Católica e pelo Midiamax é esta:
"Enquanto a Igreja Católica não acabar com celibato e permitir que mulheres possam ser bispos, padres, a gente vai ver Igreja Católica passando dificuldade. Esta é uma vantagem que a igreja evangélica tem."
Segundo a ACI Digital, ele contou que já tinha falado sobre o assunto com o papa Francisco.
Um cuidado com a data: parte da imprensa publicou a fala em 19 de setembro. O encontro foi no dia 16, segundo o ND+, a ACI Digital, a Revista Oeste e as fotos oficiais do Planalto.
Por que a plateia importa
Era um encontro com pastores, na reta final de uma eleição em que o voto religioso está dividido.
O Datafolha de 24 de setembro, citado pela BBC News Brasil, mostra o tamanho dessa divisão:
| Eleitorado | Lula | Flávio Bolsonaro |
|---|---|---|
| Católicos | 45% | 33% |
| Evangélicos | 27% | 47% |
Entre os católicos, Lula lidera. Entre os evangélicos, quem lidera é Flávio. A frase foi dita na tentativa de conversar com o segundo grupo e foi ouvida pelo primeiro.
O que diz o Censo
A frase de Lula parte de um fato: a Igreja Católica encolhe no Brasil há décadas. O Censo 2022 do IBGE, divulgado em 2025, mostra o ritmo:
| Religião | 2010 | 2022 |
|---|---|---|
| Católicos | 65,1% | 56,7% |
| Evangélicos | 21,6% | 26,9% |
| Sem religião | 7,9% | 9,3% |
O que o Censo não diz é o motivo. Nenhum dado do IBGE liga a queda ao celibato ou à falta de mulheres no sacerdócio. Essa é a leitura do presidente.
Lula recebe o núncio apostólico, dom Giambattista Diquattro, e dom Jaime Spengler no Planalto, em 19/06/2023. Palácio do Planalto / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
A primeira reação veio dos bispos
No sábado, 19 de setembro, dois bispos gravaram vídeos no Instagram, segundo a Revista Oeste e a Ric.
Dom Devair Araújo da Fonseca, bispo de Piracicaba (SP), disse que estamos vendo políticos que tentam dizer o que a Igreja precisa fazer. Dom Adair José Guimarães, bispo de Formosa (GO): "Essa declaração do presidente Lula não me assusta."
Depois, a Frente Parlamentar Católica
A frente divulgou nota de repúdio assinada pelo presidente dela, o deputado federal Luiz Gastão. As datas publicadas variam entre 18 e 20 de setembro. Um trecho, segundo o Midiamax:
"O Estado brasileiro é laico e que o diálogo entre o poder público e as tradições religiosas deve ser pautado pelo respeito."
O argumento central da nota: celibato e ordenação são decisões internas da Igreja, e a autoridade pública deve reconhecer essa autonomia.
E então a CNBB
Em 23 de setembro, o cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, falou à CNN. As frases, segundo a ACI Digital:
"Causou, sim, um desconforto, porque o discurso fez uma comparação entre um aspecto, eu diria assim, religioso e outro."
"Nesse momento em que nós estamos vivendo, esse tipo de discurso não nos ajuda."
E a mais reveladora: "Fomos duramente cobrados por alguns setores também internos da Igreja Católica."
Ele chamou a fala de "inapropriada nesse momento que estamos vivendo". Segundo a CNN, lembrou que, quando política e religião se misturaram demais, o resultado não foi positivo.
O primeiro vice-presidente da CNBB, dom João Justino, foi na mesma linha. Segundo a CNN, alertou contra apresentar candidatos como "escolhidos de Deus" e chamou isso de muito grave.
E o governo?
Até a publicação desta matéria, não encontrei resposta do Planalto às críticas da CNBB. A CNN também não registra resposta.
O que joga contra, e entra
"Lula só disse a verdade: a Igreja está encolhendo." O encolhimento é dado do IBGE. A causa que ele apontou, celibato e sacerdócio só masculino, é opinião dele, sem dado que a sustente.
"A CNBB está fazendo campanha contra Lula." O presidente da CNBB criticou a mistura de religião e política em geral. Dom João Justino alertou contra candidato apresentado como escolhido de Deus, o que não se refere a um lado só.
"Foi uma frase solta, sem importância." Três grupos diferentes reagiram em uma semana: bispos, deputados católicos e a direção da CNBB. E o cardeal disse que os bispos foram cobrados por dentro da Igreja.
"Presidente pode opinar sobre a Igreja?" Pode. A crítica da Frente Parlamentar Católica é sobre respeito à autonomia de decisões internas, e não sobre o direito de falar.
A resposta
Lula fez a frase para uma plateia evangélica, onde Flávio lidera por 20 pontos. Quem reagiu foram os católicos, grupo em que ele próprio lidera por 12.
A Igreja respondeu em três camadas: bispos no Instagram, uma frente de deputados e, por fim, a direção da CNBB, que falou em desconforto.
A parte que continuou depois dessa semana está na matéria sobre os bispos da soberania. A do boato sobre a padroeira está em a decisão do TSE.







