Esta é uma série feita em colaboração com o personagem. O que é relato dele vem marcado como "ele conta" ou entre aspas. O que é fato de terceiros vem com a fonte. A série não afirma que ele é inocente nem que é culpado, e não defende a depredação daquele dia: ele próprio diz que também não concorda com ela.
Ontem, 4 de outubro, 125,3 milhões de brasileiros foram às urnas, segundo o TSE. João Lucas Vale Giffoni não foi um deles. A condenação dele transitou em julgado em maio de 2024, e a Constituição, no artigo 15, suspende os direitos políticos de quem tem condenação criminal definitiva enquanto durarem os efeitos. Ele também não poderia entrar no país para votar: há um despacho do STF mandando efetivar a extradição. Esta é a história de como um psicólogo de Brasília chegou a isso.
João Lucas Vale Giffoni nasceu em Brasília em 1997. Psicólogo, especialista em neuropsicologia, trabalhava de segunda a sábado entre a clínica, um instituto de saúde mental e escolas. Domingo era o único dia de folga. Em 8 de janeiro de 2023 ele tinha 25 anos.
O que ele conta do dia 8
Ele conta que estacionou perto da Esplanada por volta das três da tarde e foi a pé até o gramado do Congresso. Os pais acompanhavam pela transmissão ao vivo e acharam que estava calmo. O que ele diz ter visto: bandeiras, famílias fazendo piquenique, crianças, gente tirando selfie, grupos de louvor, um vendedor de pipoca e um de algodão doce. Os dois vendedores, segundo ele, foram presos depois.
O barulho começou e ele achou que era fogo de artifício. Só depois entendeu que eram bombas. Viu gente entrando no prédio e foi atrás. Ele conta que havia policiais na porta dizendo "entra, entra", e que tem vídeos disso. Esse ponto é relato dele e tese da defesa dele. A versão oficial, registrada na denúncia e na condenação, é a de que ele integrou o grupo que invadiu o Congresso.
No alto da escada, um lado dava para a Câmara, onde havia barreira e confronto, e o outro para o Senado, livre. Ele foi para o lado livre e entrou no plenário do Senado. Os policiais, ele conta, mandaram o grupo ficar ali porque era o lugar seguro.

O terço
Ele é católico. Sentou numa bancada e ficou rezando o terço, ao lado de idosos e de um pastor que conduzia uma oração. Existe uma foto do terço sobre a mesa de um senador. Uma deputada publicou essa foto num story chamando o terço de "a arma que João Lucas portava no dia 8/1".
Por volta das seis da tarde, ele conta, o discurso dos policiais mudou: iam retirar o grupo em segurança, de cinco em cinco. Quando chegou a vez dele, em vez da saída, foi levado ao subsolo do Congresso. Lá estavam todos os que ele achava que tinham ido embora. Passou cerca de vinte horas ali embaixo.
Os 38
Este número não é dele. A Polícia Legislativa do Senado, primeira força a efetuar prisões naquele dia, registrou 38 presos no plenário do Senado. O dado é do próprio Senado. João Giffoni é um dos 38.

A nota de culpa e a acusação
Ele afirma que a lista de crimes já estava pronta quando chegou à delegacia do subsolo, antes de qualquer depoimento, e que precisou assinar a nota de culpa para sair de lá. Sem advogado, não falou nada na oitiva. O processo, segundo ele, só começou um mês depois, com ele preso.
A acusação, registrada na AP 1109 do STF, lista danos a vidraças, espelhos, portas de vidro, móveis, lixeiras, computadores, obras de arte e carpete, a queima de um tapete e o emprego de substância inflamável. Ele nega item por item e diz que a mesma lista valeu para todos os presos, sem dizer quem fez o quê. Essa é a tese da defesa. Na condenação, o STF registrou que ele foi preso no plenário do Senado e integrava o grupo que a denúncia chama de "Patriotas". A tese apresentada pela defesa no julgamento, segundo a Agência Brasil, foi a de que ele entrou no prédio para fugir do gás lacrimogêneo.
Os 18 minutos
Ele conta que o advogado enviou o vídeo de defesa, de 20 minutos, às 23h47. Às 00h05, o voto que o condenava, com mais de 100 páginas, já estava publicado. Em menos de uma hora, a imprensa noticiava a condenação. Este relato é dele; o que está no registro público é a data do julgamento, 3 de outubro de 2023, e a pena.
Os 14 anos
O STF condenou João Giffoni a 14 anos: 12 anos e 6 meses de reclusão e 1 ano e 6 meses de detenção, mais o pagamento solidário de R$ 30 milhões pelos danos, segundo o ND Mais. O placar não foi unânime: Fux, Mendonça, Barroso e Nunes Marques votaram com ressalvas ou divergência em pontos da pena.
Dos 14 anos ele cumpriu sete meses, na Papuda. Saiu em 9 de agosto de 2023, com tornozeleira eletrônica. E faz questão de dizer, em toda entrevista, que também não concorda com a depredação daquele dia.

O Clezão
Cleriston Pereira da Cunha, 46 anos, foi preso no mesmo plenário. Tinha diabetes e hipertensão. A Procuradoria-Geral da República já havia se manifestado a favor da soltura dele. Não tinha sido julgado. Passou mal no pátio da Papuda e morreu em 20 de novembro de 2023. Isto não é versão de ninguém: está em CNN Brasil, Correio Braziliense e CartaCapital. O acervo de João guarda o bilhete que Clezão deixou, identificado como a última mensagem dele.

O livro nas caixinhas de suco
Na cela não havia caderno nem folha. Ele passou a recolher embalagens de suco vazias, abrir, alisar e escrever no verso. Quando saiu, transcreveu tudo. Virou o livro "Cruzando a Tempestade do 8 de Janeiro", lançado em julho de 2026 pela Editora Kankei, com prefácio de Cristina Graeml, a R$ 59, com o primeiro estoque esgotado, segundo Gazeta do Povo e ND Mais.


A carta acima é de maio de 2023, escrita da Papuda para os alunos de um projeto de educação. Ele escolhe contar o que vive como se fosse o Will Byers, o menino de Stranger Things preso no Mundo Invertido. No fim larga a brincadeira e escreve sobre propósito, citando Viktor Frankl: "quem tem um porquê suporta quase qualquer como". A carta diz, com todas as letras, que ele escrevia "em papéis de caixinha de suco" exercícios de educação emocional e distribuía pelas celas.
O psicólogo da Papuda
Entre esses papéis estão fichas de comunicação não violenta escritas à mão: observação, sentimento, necessidade, pessoa A e pessoa B. Ele distribuía as fichas para resolver briga sem briga. Pela contagem dele, confirmada por Gazeta do Povo e ND Mais a partir do relato, atendeu cerca de 300 pessoas na prisão como psicólogo voluntário, entre manifestantes e presos comuns. "Lá dentro eu conheci as melhores pessoas da minha vida", disse ao ND Mais.

Onde ele está hoje
A condenação transitou em julgado em 30 de maio de 2024. Por volta de abril daquele ano, com os recursos se esgotando, ele saiu do Brasil de madrugada, sem avisar ninguém, direto para a Argentina, onde entrou legalmente e pediu refúgio. Tem, segundo ele, um documento de refugiado provisório renovado a cada três meses, sem decisão definitiva. Em 17 de outubro de 2024, o ministro Alexandre de Moraes intimou a Advocacia-Geral da União a tomar as providências para a extradição dele. Vive lá há mais de dois anos, longe da família. A mãe, Theresa Vale, cobrou duas vezes o presidente da Câmara, Hugo Motta, pela votação da anistia, em março e agosto de 2025.

O que vem no episódio 2
O dia 9: o galpão, o camburão, a chegada à Papuda e a primeira noite em que, como ele escreveu, "a noite era mais clara que o dia", porque a luz da cela nunca apagava.
Perguntas que chegam nos comentários
Quem é João Giffoni?
Psicólogo de Brasília, nascido em 1997, preso no plenário do Senado em 8 de janeiro de 2023, condenado pelo STF a 14 anos na AP 1109. Cumpriu sete meses na Papuda e hoje vive na Argentina.
Ele foi condenado por quê?
Pelos crimes imputados ao grupo que invadiu o Congresso: a acusação lista danos ao patrimônio, incluindo emprego de substância inflamável. Ele nega item por item; essa é a tese da defesa.
Ele é foragido?
Há um despacho do STF de 17 de outubro de 2024 mandando a AGU efetivar a extradição. Ele diz que entrou legalmente na Argentina e tem refúgio provisório. O nome dele não aparece em nenhuma lista pública de extradição.
Como ele escreveu o livro na prisão?
No verso de embalagens de suco vazias, abertas e alisadas, porque não havia caderno. Transcreveu tudo depois de solto. O livro saiu em julho de 2026 pela Editora Kankei.
Esta série defende o 8 de janeiro?
Não. Ela conta o que aconteceu com um homem que entrou rezando e saiu preso, marcando o que é relato dele e o que é fato. Ele próprio diz que não concorda com a depredação.







