Série especial · 8 de Janeiro · Episódio 2 de 7. Conteúdo em parceria com João Giffoni. O que é relato dele vem marcado como "ele conta" ou entre aspas. O que é fato de terceiros vem com a fonte. A série não afirma que ele é inocente nem que é culpado, e não defende a depredação daquele dia: ele próprio diz que não concorda com ela.
Ver o papel das 2h37 inteiro →A nota de culpa que João assinou no subsolo, em alta, com os dados pessoais e os nomes dos policiais tampados.
João Giffoni passou vinte horas preso no subsolo do Congresso Nacional, entre a noite de 8 e a tarde de 9 de janeiro de 2023. Na cela, encontrou Cleriston Pereira da Cunha, o Clezão, que morreria dentro da Papuda dez meses depois, sem nunca ter sido julgado. Às 2h37, João recebeu um papel do Senado com o crime já escrito. Ele guarda esse papel até hoje.
Se você chegou agora: João é psicólogo, nasceu em Brasília em 1997 e tinha 25 anos naquele domingo. Entrou no plenário do Senado rezando o terço. Às 19h36, policiais disseram que iam levá-lo até a saída. Levaram para o subsolo. O episódio 1 conta o domingo inteiro.
Onde fica o subsolo
A delegacia da Polícia do Senado fica no subsolo do Anexo II, ao lado do hall dos elevadores, segundo a página oficial do Senado. João descreve o lugar no livro: uma cela, salas para os policiais, uma copa, e um estacionamento colado.
Em nota de 9 de janeiro de 2023, a Agência Senado informou que a Polícia Legislativa do Senado prendeu em flagrante 38 pessoas, 20 homens e 18 mulheres. Elas passaram a noite sob custódia da Coordenação de Polícia de Investigação. A cronologia oficial, divulgada em 17 de janeiro, diz que as detenções foram feitas "após negociação" com quem estava no plenário e que o último preso foi entregue à polícia do Distrito Federal às 15h30 do dia 9. Das 19h36 às 15h30 são quase vinte horas.

A cadeira
Ele conta que a maioria do grupo ficou no chão do estacionamento, idosos também. Uma senhora com problema na coluna pediu uma cadeira. No livro, ele registra a resposta do policial: "Vou trazer cadeira para quê? Para vocês depredarem?"
O homem que não parava de sorrir
João e mais um preso foram os últimos a chegar e foram postos na cela, que tinha um banco. Lá dentro já estava um homem que se apresentou como Clezão. Ele estava doente, e por isso estava na cela e não no asfalto do estacionamento.
"Ele parecia esquecer totalmente de si e de suas dores para conseguir tirar um sorriso da gente", escreve João. "Não permitia que ninguém ficasse triste."
Ainda naquela noite, conta João, Clezão passou muito mal. Os policiais chamaram os bombeiros, ele foi levado às pressas a um hospital e depois trazido de volta. O próprio Cleriston contou a mesma cena no interrogatório por videoconferência de 31 de julho de 2023, segundo a Folhapress: "desmaiei, inclusive fiz xixi até na roupa, sem ver, me levaram para uma UPA". No mesmo depoimento, disse que tinha vasculite e já tinha ficado 33 dias internado.

O policial bonzinho
João é psicólogo, e o capítulo da delegacia é também uma observação de comportamento. Ele conta que havia um policial que gritava ("É sim, senhor e não, senhor") e outro que falava baixo, pedia desculpas e negava água, comida e banheiro. "O policial bonzinho foi ainda pior que o malvado", escreve. A explicação dele: o educado fazia o preso quase agradecer pela recusa.
Duas da manhã
Os interrogatórios entraram pela madrugada. João só foi chamado depois das 2h. Ele conta que pediu a presença do advogado, que o pedido foi negado e que ficou em silêncio, como o grupo tinha combinado entre si.
Depois disso, deixaram que ele ligasse para os pais com uma condição: só podia dizer que seria levado ao IML "em poucos minutos". Não podia dizer onde estava. Ele só saiu dali por volta das 15h, cerca de 13 horas depois da ligação. Os pais, conta, rodaram Brasília atrás do filho até descobrir onde ele estava.
Isto não é versão dele
Duas semanas depois, a Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Distrito Federal fecharam um relatório conjunto sobre as prisões de 8 e 9 de janeiro, assinado em 23 de janeiro de 2023. Sobre o contato com as famílias, o texto diz: "não se constatou o respeito ao direito constitucional de comunicação do preso com familiar ou pessoa por ele indicada". Sobre o prazo para levar o preso ao juiz, diz que "não foi observado o prazo de 24 horas", com "casos de pessoas apresentadas em juízo cerca de 06 (seis) dias depois da prisão".
Numa visita à Papuda em 10 de janeiro, as defensoras e os defensores anotaram que "o maior pleito dos custodiados era o contato familiar".

2h37: o papel
Depois da ligação, o policial entregou a João uma nota de culpa. É o documento que a lei manda entregar a todo preso em flagrante em até 24 horas, com o motivo da prisão (artigo 306 do Código de Processo Penal). A dele diz que ele estava preso pelos artigos 163 e 359-M do Código Penal: dano ao patrimônio público e golpe de Estado, descrito no papel como "deposição de governo legitimamente eleito".
João tinha ficado calado no interrogatório. "Como já estava tudo pronto?", escreve. Ele conta que o texto era o mesmo para todos, só com o nome trocado, e que o policial avisou que ele não sairia dali sem assinar.

Ele assinou. A linha que leva a assinatura dele diz: "Recebi um original desta Nota de Culpa, em 09 de janeiro de 2023, às 02h37". É um recibo. Assinar aquele papel não é confessar nada.

O que joga contra, e entra
A acusação não mudou de lado depois daquela noite. Em 16 de janeiro de 2023, a Procuradoria-Geral da República denunciou ao STF os presos dentro do Senado por associação criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. João foi condenado a 14 anos em outubro de 2023. A Polícia do Senado sustenta que agiu dentro da lei e que os agentes filmados conversando com o grupo no plenário usavam "técnicas de negociação". Os detalhes da delegacia que João conta (a cadeira, o advogado negado, a ligação) não aparecem nos registros oficiais e seguem como relato dele, marcados assim nesta matéria.
A madrugada de louvor
O que o grupo fez a noite inteira no chão do estacionamento? Cantou. "Por mais que tentassem, os policiais não conseguiram abafar a nossa força espiritual", escreve João. "Evangélicos, católicos e espíritas, unidos em oração e no mesmo propósito para a nação." Ele passou a madrugada com o terço nas mãos e só o entregou na Papuda, junto com as roupas.

A fresta
No dia 9, um dos presos tinha conseguido esconder o celular e avisou o próprio advogado. Há uma fresta entre a calçada e o subsolo, e quem se agacha do lado de fora consegue ver o estacionamento. O advogado se agachou, achou o grupo e começou a filmar. Os presos abriram os braços para a câmera. Os policiais levaram todos para uma sala mais escondida, mas, por volta das 13h, o advogado entrou de carro no estacionamento e distribuiu marmitas quentes.
A caixa de ferro
Quando o advogado foi embora, chegaram dois camburões. Homens de um lado, mulheres do outro, casais separados. "Andar de camburão foi a experiência mais terrível que eu já tive na vida", escreve João. Ele conta que a luz e a ventilação ficaram desligadas e que, no escuro, não conseguia parar de imaginar a mãe num caixão. Primeiro, o IML. Depois, a Papuda.

E o Clezão?
Cleriston Pereira da Cunha tinha 46 anos, era empresário, nascido na Bahia e morador do Distrito Federal havia mais de vinte anos. Foi preso no plenário do Senado, segundo a CartaCapital, e respondia aos mesmos crimes do grupo. A defesa pediu a soltura várias vezes por causa da saúde.
Em 1º de setembro de 2023, a própria PGR deu parecer favorável à liberdade provisória dele com tornozeleira, segundo a CNN Brasil. O ministro Alexandre de Moraes, relator, não chegou a decidir. Em 7 de novembro, a defesa voltou a pedir.
Em 20 de novembro de 2023, por volta das 10h, Clezão passou mal no banho de sol do Centro de Detenção Provisória II da Papuda. O óbito foi registrado às 10h58. Ele não tinha sido julgado. Dois dias depois, em 22 de novembro, Moraes mandou soltar quatro presos do 8 de janeiro que também tinham parecer favorável da PGR, segundo o SBT News.
Em julho de 2026, a Câmara Municipal de Belo Horizonte promulgou a lei que dá o nome dele a uma rua. Em abril, a Assembleia Legislativa da Bahia tinha entregado a ele, depois da morte, a Comenda 2 de Julho.

O bilhete
Em outubro de 2023, um mês antes de morrer, Clezão escreveu um bilhete a um amigo de prisão num pedaço de caixinha de suco aberta, o mesmo papel em que João escreveu o livro. O texto diz: "A honra é do Senhor e todos nós vamos sair juntos e cantando o hino da vitória em nome de Jesus. Abraços do seu amigo Clezão".
Ele não saiu.

A madrugada, hora por hora
| Hora | O que aconteceu | Fonte |
|---|---|---|
| 8/1, 18h | Policiais dizem que podem levar o grupo até a saída, de cinco em cinco | relato de João e cronologia do Senado |
| 8/1, 19h36 | João é retirado do plenário e levado ao subsolo | câmera de segurança reproduzida no livro |
| 8/1, noite | Clezão passa mal, é levado a um hospital e trazido de volta | relato de João e depoimento de Cleriston em 31/7/2023 |
| 9/1, depois das 2h | Interrogatório; João pede advogado e fica em silêncio | relato de João |
| 9/1, 2h37 | João assina o recibo da nota de culpa | documento |
| 9/1, madrugada | O grupo canta e reza no chão do estacionamento | relato de João |
| 9/1, cerca de 13h | O advogado acha o grupo pela fresta e leva marmitas | relato de João |
| 9/1, cerca de 15h | Dois camburões; IML; Papuda e Colmeia | relato de João |
| 9/1, 15h30 | O último preso é entregue à polícia do DF | cronologia do Senado |
No episódio 3: sete meses sem ver a cor verde
Depois do IML, o camburão parou num bloco da Papuda novinho, recém-pintado e vazio. Parecia esperar por eles. O próximo episódio conta a Papuda por dentro.
Siga o João no Instagram, em @psi.joaogiffoni, e acompanhe a página da série.
Ver o papel das 2h37 inteiro →Em alta, com os dados pessoais e os nomes dos policiais tampados.
Perguntas que chegam nos comentários
Quem foi o Clezão?
Cleriston Pereira da Cunha, empresário baiano de 46 anos, preso no plenário do Senado em 8 de janeiro de 2023. Morreu na Papuda em 20 de novembro de 2023, sem ter sido julgado. A PGR tinha dado parecer favorável à soltura dele em 1º de setembro.
O que é a nota de culpa que João assinou?
É o documento que a lei manda entregar a todo preso em flagrante, com o motivo da prisão. A dele cita dano ao patrimônio público e golpe de Estado. A assinatura dele está na linha "Recebi um original desta Nota de Culpa": é um recibo, não uma confissão.
Quantas pessoas foram presas dentro do Senado?
38, sendo 20 homens e 18 mulheres, segundo a Agência Senado. Elas passaram a noite na delegacia da Polícia do Senado, no subsolo do Anexo II, e o último preso foi entregue às 15h30 do dia 9.
As famílias foram avisadas?
O relatório da Defensoria Pública da União e da Defensoria do DF, de 23 de janeiro de 2023, diz que "não se constatou o respeito ao direito constitucional de comunicação do preso com familiar".
Quantos episódios a série tem?
Sete. Este é o segundo. O terceiro conta a Papuda por dentro.







