Revista De Castro

Notícias / 7 de outubro de 2026

Eu fui checar

A apuração para presidente parou 58 minutos na tela. O que o TSE explicou e o que falta explicar

Na noite de 4 de outubro, o número nacional de presidente ficou travado em 64,81% das 19h06 às 20h04. Eu baixei os arquivos do próprio TSE e refiz a noite minuto a minuto. A soma dos votos andou até as 19h32 e depois ficou parada por meia hora, para presidente, governador e senador ao mesmo tempo. Flávio Bolsonaro já vinha caindo antes da pausa, no mesmo ritmo, e terminou na frente. Aqui estão a linha do tempo, a frase de Kassio Nunes Marques, a nota oficial, o que disse a OEA, os precedentes de 2014, 2018, 2020 e 2022, sete perguntas que seguem abertas e o passo a passo para você conferir a sua urna no dia 25.

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7 de outubro de 2026
Atualizado
7 de outubro de 2026
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Kassio Nunes Marques na posse como presidente do TSE, em 12 de maio de 2026. Foto: TSE, via Wikimedia Commons, domínio público
Kassio Nunes Marques na posse como presidente do TSE, em 12 de maio de 2026. Foto: TSE, via Wikimedia Commons, domínio público

Esta revista é de direita e cobra transparência de quem conta voto. Esta matéria mostra fatos e faz perguntas. Eu não encontrei prova de alteração de votos, e digo isso logo aqui para ninguém ler o que eu não escrevi. O que é opinião minha aparece marcado como "Minha opinião". O que eu não consegui confirmar está dito com todas as letras.

Na noite de domingo, 4 de outubro de 2026, o número nacional da eleição para presidente ficou parado em 64,81% das seções das 19h06 às 20h04. Foram 58 minutos sem atualizar. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, chamou o caso de "congestionamento de dados". A soma dos boletins de urna que o próprio TSE publica dá o mesmo resultado oficial: Flávio Bolsonaro (PL) com 47,03% e Lula (PT) com 45,16%.

Eu fui atrás dos arquivos. O TSE publicou dois que deixam refazer a noite: um painel com a soma dos votos a cada 5 minutos e os 499.206 boletins de urna, cada um com a hora em que foi recebido. Baixei os dois e conferi.

Achei três coisas. A tela parou, mas a soma continuou por mais 26 minutos. Depois a soma também parou, por cerca de meia hora, para todos os cargos. E a queda de Flávio durante a pausa segue o mesmo desenho de antes e de depois.

Telão com a apuração no TSE, em Brasília, na noite de 4 de outubro de 2026. Foto: Agência Senado, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O que aconteceu, minuto a minuto?

Três palavras ajudam a ler a tabela. Apuração é a conta que cada urna faz sozinha, às 17h, e imprime no boletim de urna. Totalização é a soma dos boletins de todas as urnas. Divulgação é a tela: o site e o aplicativo que mostram a soma ao público.

Horário de BrasíliaO que aconteceuFonte
17h00As urnas fecham no país inteiroTSE
17h08Primeira soma: 4 seçõesPainel do TSE
18h0013,14% somadas. Flávio 51,09%, Lula 40,73%Painel do TSE
18h5553,64% somadas. Flávio 50,01%, Lula 41,82%Painel do TSE
19h06min33Último número da tela nacional: 64,81%, com 323.539 seçõesNotisul e Jornal de Brasília
19h14Hora em que o TSE diz que o volume de dados aumentouNota do TSE
19h32min21Última soma antes da parada: 84,94%, com 424.078 seçõesPainel do TSE
19h45min15Soma em 84,96%. Em 13 minutos entraram 75 seçõesPainel do TSE
20h04A tela nacional volta, segundo o TSENota do TSE
20h0585,66% somadas. Flávio 48,43%, Lula 43,53%Painel do TSE
21h0098,20% somadas. Flávio 47,33%, Lula 44,81%. Kassio dá entrevistaPainel do TSE e OEA
23h1599,99% somadasPainel do TSE
2h58 de segunda100%. Flávio 47,03%, Lula 45,16%Painel do TSE

Os percentuais de Flávio e Lula são de votos válidos, que deixam de fora brancos e nulos.

A tela parou às 19h06 e voltou às 20h04. A soma andou até as 19h32. Gráfico: Revista De Castro, com dados do TSE

No momento em que a tela travou, Flávio aparecia com 49,58% e Lula com 42,25%, segundo o registro do blog Coelho Fatos e Notícias. A minha conta pelos boletins, parando na seção de número 323.539, dá 49,56% e 42,27%. Quando a tela voltou, mostrava 84,96%, segundo o Jornal de Brasília. Com esse total, a soma do TSE dava 48,47% para Flávio e 43,49% para Lula.

Quanto tempo durou a pausa?

Depende do que se mede. São três relógios.

O que parouDe quando a quandoDuração
A tela nacional de presidente19h06min33 às 20h0458 minutos
A soma dos votos (todos os cargos)19h32min21 até perto das 20h03cerca de 31 minutos
A hora de recebimento dos boletins19h31min50 às 19h59min2227 minutos e 32 segundos

O TSE fala em 50 minutos, contando a partir das 19h14. O último número que o público viu é das 19h06min33. Por isso eu uso 58.

Quanto tempo cada coisa ficou parada, em minutos

A tela nacional de presidente58 min
A soma dos votos31 min
A hora de recebimento dos boletins27,5 min

Fontes: nota do TSE, painel do TSE e boletins de urna. Conta da Revista De Castro

Kassio Nunes Marques em sessão do TSE, em 20 de fevereiro de 2025. Foto: Alejandro Zambrana / Secom / TSE, via Wikimedia Commons, domínio público

O que Kassio Nunes Marques disse?

O ministro falou na noite do próprio domingo, em entrevista coletiva no TSE. A missão da OEA registrou a entrevista às 21h.

A frase central está na Agência Brasil: "O que ocorreu foi um congestionamento de dados. A cada eleição, nós somos surpreendidos com alguma intercorrência, o que é natural para quem lida com sistemas complexos e tão variados".

Ele admitiu que a causa ainda não estava fechada: "A princípio, não se sabe se isso foi derivado de outro problema. O que a nossa TI constatou foi um fluxo [de dados] superior ao normal, e esse congestionamento gerou um atraso".

E descreveu o conserto, segundo o SBT News: "E para que permitamos que esse fluxo se desfaça, há necessidade de se isolar os outros sistemas, permitir o fluxo de dados e depois religar todo o sistema. Foi o que ocorreu".

Kassio disse também que o tribunal tinha "absoluto controle da situação" (CNN Brasil) e que não houve alerta de interferência de fora. "Antes da rapidez e da eficiência, prezamos pela segurança", afirmou, segundo o Notisul.

O que diz a nota oficial do TSE?

A nota saiu na terça, 6 de outubro, dois dias depois. O Poder360 publicou a íntegra. Os pontos são estes:

  1. Uma "contenção no processamento de dados" travou um dos programas que geram os arquivos da tela. Contenção, aqui, é fila: tarefa demais esperando a mesma máquina.
  2. O problema "afetou somente a visualização 'Brasil'", que mostra o resultado nacional de presidente.
  3. O programa "pausou inesperadamente em razão do aumento no volume de dados ocorrido por volta de 19:14".
  4. A tela dos estados "não foi afetada" e seguiu mostrando presidente estado por estado.
  5. Os boletins "continuaram a ser transmitidos, recebidos, processados e publicados na internet".
  6. A soma "continuou normalmente, exceto por um breve momento em que foi suspenso, conforme o protocolo de segurança, que exige a verificação individual dos sistemas".
  7. "Nova rotina técnica está em desenvolvimento para evitar interrupções."

A CNN Brasil informou que a Secretaria de Tecnologia da Informação do TSE ainda apura a causa. Eu não encontrei relatório técnico publicado, nem o nome do técnico responsável pela explicação.

Na noite da mesma terça, às 22h09, o TSE pôs no ar o Painel da evolução da totalização. É dele que saem os horários desta matéria.

Os outros cargos andaram enquanto presidente estava parado?

Na tela, sim. Na soma, os três cargos andaram juntos e pararam juntos.

O Jornal de Brasília registrou às 20h27 de domingo que governador, Senado e Câmara "seguiram sendo atualizados" enquanto presidente não saía do lugar. Os dados confirmam isso para os primeiros 26 minutos: entre 19h05 e 19h30, a soma de governador avançou nos 26 estados e no Distrito Federal.

Depois das 19h32, a soma parou para todo mundo.

HorárioPresidenteGovernadorSenador
19h05315.679 seções (63,23%)315.030 (63,27%)315.030 (63,27%)
19h30420.799 (84,29%)419.859 (84,33%)419.859 (84,33%)
19h35424.078 (84,94%)423.158 (84,99%)423.158 (84,99%)
20h00424.153 (84,96%)423.231 (85,00%)423.231 (85,00%)
20h05427.656 (85,66%)426.586 (85,68%)426.586 (85,68%)

Fonte: TSE, Painel da evolução da totalização. Soma dos estados feita por mim. Presidente tem 1.351 seções a mais porque o exterior só vota para presidente.

Entre 19h35 e 20h00, a soma de presidente ganhou 75 seções. A de governador ganhou 73. Em uma hora normal daquela noite, entravam mais de 20 mil a cada 5 minutos.

Então a diferença que o eleitor viu estava só na tela. A soma dos votos para presidente nunca andou atrás da soma dos outros cargos.

Mesário opera o terminal da urna eletrônica no 1º turno, em 4 de outubro de 2026. Foto: Agência Senado, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Como o voto sai da urna e chega à tela?

O caminho tem quatro passos. Eu resumo o que está no relatório do Parlasul (o parlamento do Mercosul), que acompanhou a soma dentro do TSE, e na nota do tribunal.

  1. A urna conta. Às 17h, cada urna soma os próprios votos e imprime o boletim de urna, em cinco vias. O boletim é um só e traz todos os cargos: presidente, governador, senador e deputados.
  2. O boletim viaja. O arquivo vai do ponto de transmissão para o centro de dados do Tribunal Regional Eleitoral do estado, que confere a assinatura digital.
  3. O TSE soma. O arquivo segue para Brasília e entra no sistema de totalização. A soma é "centralizada pelo TSE", nas palavras do Parlasul. É assim desde 2020. Antes, cada um dos 27 tribunais regionais somava o seu estado (A Gazeta).
  4. Um programa monta a tela. Outro sistema pega a soma e gera os arquivos que alimentam o site e o aplicativo.

A missão da OEA escreveu que soma e tela "são separados, estabelecendo uma medida de segurança e boa prática".

Isso responde a uma dúvida comum. Presidente não é somado em um lugar e governador em outro: os dois são somados em Brasília. O que existe são arquivos de tela diferentes. No sistema do TSE, presidente é a eleição de código 6257 e os cargos estaduais são a de código 6259. Um arquivo pode travar e os outros seguirem.

A pausa mudou a tendência?

Os números dizem que não. Flávio começou a cair às 18h05, uma hora antes de a tela travar, e seguiu caindo no mesmo passo.

Flávio e Lula a cada 5 minutos, na soma do TSE. Gráfico: Revista De Castro, com dados do TSE

Vantagem de Flávio sobre Lula ao longo da noite, em pontos percentuais

18h0010,36 pontos
19h05, um minuto antes de a tela travar7,43 pontos
19h35, soma parada4,98 pontos
20h05, tela de volta4,90 pontos
21h002,52 pontos
Resultado final1,87 ponto

Fonte: TSE, Painel da evolução da totalização

A razão é a ordem de chegada. O Sul e o Centro-Oeste entregam os boletins cedo. O Nordeste e parte do Sudeste entregam tarde.

Boletins já recebidos às 19h06, por região, em % das seções

Sul87,8%
Centro-Oeste86,2%
Norte75,4%
Sudeste64,4%
Nordeste55,2%

Fonte: TSE, boletins de urna. Conta da Revista De Castro

Eu separei os boletins pela hora em que chegaram. Cada lote é mais favorável a Lula do que o anterior, do começo ao fim da noite.

Quando o boletim chegouSeçõesFlávioLula
Das 17h às 18h75.05851,15%40,72%
Das 18h às 19h06257.30749,02%42,81%
Das 19h06 às 19h32 (tela parada)92.70444,90%47,46%
Das 19h59 às 20h0419.73641,69%51,23%
Das 20h04 às 21h45.85339,81%53,57%
Depois das 21h8.54830,68%64,38%

Fonte: TSE, boletins de urna do 1º turno. Conta minha.

O lote que entrou com a tela parada tem 92.704 seções. Quase a metade é do Sudeste (45.691) e um terço é do Nordeste (29.811). É o lote que explica o salto de 64,81% para 84,96%.

E há o fato que pesa mais: Flávio terminou na frente. Liderou das 17h20 até o fim, com 2.224.965 votos de vantagem. O mapa dessa vitória está em 711 cidades trocaram Lula por Flávio.

Placas com os números das seções em local de votação no Distrito Federal, em 4 de outubro de 2026. Foto: Agência Senado, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O que foi dito e o que os arquivos mostram

Aqui está o centro da apuração. Cada linha compara uma frase oficial com o arquivo público do próprio TSE.

O que foi ditoQuem disseO que os arquivos do TSE mostram
A pausa durou 50 minutos, a partir das 19h14Nota do TSEO último número da tela é das 19h06min33. Até 20h04 são 58 minutos
Só a tela "Brasil" parou. A dos estados seguiuNota do TSEConfere até as 19h32. Depois, a soma parou para todos os cargos
A soma seguiu, "exceto por um breve momento"Nota do TSEA soma ficou parada das 19h32min21 até perto das 20h03. São cerca de 31 minutos
A totalização teve "funcionamento contínuo e permanente"Missão da OEAO mesmo intervalo de 31 minutos, com 75 seções somadas
Os boletins "continuaram a ser recebidos"Nota do TSE e OEANenhum boletim tem hora de recebimento entre 19h31min50 e 19h59min22
O volume de dados aumentou "por volta de 19:14"Nota do TSEO minuto com mais boletins foi 18h54, com 6.622. Às 19h14 foram 5.140
A pausa "não altera os resultados"Nota do TSEConfere. A soma dos 499.206 boletins dá o resultado oficial, voto por voto

Três avisos sobre essa tabela, para ninguém ler demais.

Primeiro: o campo que eu usei se chama DT_BU_RECEBIDO. O manual do arquivo define só como "data do boletim de urna recebido". Eu não sei em que ponto do caminho essa hora é carimbada. Pode ser na chegada a Brasília ou na entrada do boletim no sistema de soma. Só o TSE pode dizer.

Segundo: o ministro Kassio contou, no domingo, que foi preciso "isolar os outros sistemas" e "religar todo o sistema". Uma parada geral de meia hora combina com essa frase. A nota de terça é que encolheu o episódio para "um breve momento".

Terceiro: houve duas paradas menores antes, que ninguém notou porque a tela não travou.

Boletins de urna recebidos por minuto, com as três lacunas da noite. Gráfico: Revista De Castro, com dados do TSE

Das 18h01 às 18h08min47, nenhum boletim tem hora de recebimento: 7 minutos e 47 segundos. Das 18h49min47 às 18h53min59, outros 4 minutos e 12 segundos. A terceira lacuna, a grande, é a das 19h31min50.

O gráfico mostra outra coisa curiosa. Depois das 20h03, os boletins entram em degraus certinhos: cerca de 500 por minuto durante 40 minutos, depois cerca de 1.800 por minuto por mais 12. Parece fila liberada em ritmo controlado. Isso é leitura minha do desenho, e o TSE não explicou.

José Miguel Insulza (à esquerda), chefe da missão da OEA em 2026, com Sebastián Piñera, em 2010. Foto: Sebastián Piñera, via Wikimedia Commons, CC BY 2.0

O que disseram os observadores?

A missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) tinha 91 observadores, chefiados pelo chileno José Miguel Insulza. O relatório preliminar, de 6 de outubro, trata da pausa em dois parágrafos.

Ele registra que "às 19h06, o portal de divulgação (dos resultados da eleição presidencial) deixou de ser atualizado quando o painel de controle (dashboard) registrava 64,81% das atas apuradas". E afirma que os engenheiros da missão viram que o episódio "não comprometeu o processo de totalização dos votos, que manteve um funcionamento contínuo e permanente".

A Transparência Eleitoral Brasil, missão nacional, estava dentro do TSE. Escreveu que o incidente "interrompeu por aproximadamente 40 minutos a atualização dos resultados" e fechou com uma linha que importa: "A TE Brasil segue acompanhando o tema para posterior informação".

O Carter Center elogiou o resultado sair "poucas horas depois do encerramento da votação". O Parlasul falou em "solidez técnica". Nos relatórios que eu li, nenhuma missão pede auditoria do episódio. A lista de quem veio observar está em Observadores internacionais na eleição de 2026.

E os partidos, as campanhas e a OAB?

Até a noite desta quarta, 7 de outubro, eu não encontrei:

  • nota do PL sobre a pausa;
  • declaração de Flávio Bolsonaro ou da campanha dele sobre a pausa;
  • declaração da campanha de Lula ou do PT sobre a pausa;
  • nota da OAB;
  • pedido de auditoria ou de informação protocolado no TSE por partido ou entidade;
  • análise assinada de especialista independente em segurança de sistemas.

Não achar é diferente de não existir. Se aparecer, eu atualizo esta matéria.

Quem cobrou em público foram colunistas. No Jornal da Cidade Online, Jayme Rizolli escreveu na segunda, 5: "Não é uma acusação de fraude". E pediu "uma cronologia: horários de recebimento, processamento e divulgação". O painel que o TSE publicou na terça entrega parte disso.

As agências Lupa e Boatos.org checaram vídeos que tratavam a pausa como prova de alteração de votos e classificaram a alegação como falsa. O TSE informou à Lupa que a tela de "logs de erro" de um desses vídeos não foi feita com dados da Justiça Eleitoral.

Fila em local de votação no Distrito Federal, em 4 de outubro de 2026. Foto: Agência Senado, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Isso já aconteceu antes?

Falha de sistema parecida, uma vez: em 2020. Nas outras eleições, presidente apareceu depois dos outros cargos por causa de regra de horário.

EleiçãoO que aconteceuExplicação da época
2014Presidente só foi divulgado a partir das 20h. Governador saiu a partir das 17h de cada estadoRegra. O Acre, com horário de verão, votava até as 20h de Brasília (Estado de Minas)
2018Presidente só a partir das 19h. Governador a partir das 17h locaisRegra. Resolução 23.554 do TSE esperava o Acre fechar (Tribuna do Paraná)
2020, 1º turno municipalAtraso de cerca de 3 horas na divulgaçãoFalha admitida. Um processador do supercomputador travou. Era a primeira soma centralizada no TSE (Money Times)
2022, 1º turnoSem pausa confirmada. Lula passou Bolsonaro depois das 20h. Os 100% só saíram às 10h27 de terçaOrdem de chegada dos boletins e dez seções com voto em papel (Comprova e Agência Brasil)
2026, 1º turnoTela nacional de presidente parada por 58 minutos. Soma parada por cerca de 31"Congestionamento de dados" (Kassio) e "contenção no processamento" (nota)

Sobre 2020, o então presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, explicou que o equipamento da Oracle chegou em agosto e não passou por todos os testes. Só dois dos cinco previstos foram feitos (Money Times).

Sobre 2002: eu procurei registro de problema na apuração de presidente e não dos outros cargos naquele ano e não achei. A memória de "presidente parado e governador andando" bate com 2014 e 2018. Nesses dois anos isso aconteceu de propósito, por causa do fuso do Acre. Desde 2022 o país inteiro vota no horário de Brasília, e a regra acabou.

Boletins de urna afixados em Feira de Santana (BA), em outubro de 2022. Imagem ilustrativa. Foto: Albertoleoncio, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O que qualquer pessoa pode conferir?

A conta do TSE pode ser refeita por fora. Foi o que eu fiz.

A soma. Baixei os 28 arquivos de boletins de urna do Portal de Dados Abertos, um por estado e um do exterior. São 499.206 boletins. Somei os votos de presidente. Deu 56.104.503 para Flávio e 53.879.538 para Lula. É o número oficial, sem um voto de diferença.

As cidades. A soma cidade por cidade, que eu já tinha feito para outra matéria, dá o mesmo total.

O papel. Cada urna imprime cinco vias do boletim às 17h. Uma fica colada na porta da seção. Os fiscais de partido podem levar outra. Esse papel existe antes de qualquer transmissão. Se o número de uma seção fosse mudado no caminho, o papel na porta mostraria.

O teste de integridade. No dia da eleição, urnas sorteadas recebem votos conhecidos, diante de câmeras, e o resultado é comparado. No Distrito Federal foram 20 urnas. Acompanharam o teste o Tribunal de Contas da União, a Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União e a OAB, segundo o TSE.

O que a soma por fora não cobre: ela prova que o total oficial é a soma dos boletins publicados. Quem prova que o boletim publicado é igual ao papel da porta é quem vai até a seção e compara. Por isso a última parte desta matéria é um passo a passo. Como a urna funciona por dentro está em Urna eletrônica, 30 anos.

O que continua sem resposta?

Sete perguntas que eu faria ao TSE. Todas têm resposta técnica possível. Nenhuma delas é acusação.

  1. Por que a nota chama de "breve momento" uma parada de cerca de 31 minutos na soma? O painel do próprio tribunal mostra 75 seções somadas entre 19h32 e 20h00.
  2. Os boletins continuaram chegando nesse intervalo? A nota diz que sim. No arquivo público, nenhum boletim tem hora de recebimento entre 19h31min50 e 19h59min22. O que essa hora registra?
  3. Que volume aumentou às 19h14? O número de boletins por minuto era o mesmo da hora anterior. Foi acesso ao site? Outro tipo de dado?
  4. Por que travou só o arquivo nacional de presidente, e não os arquivos dos estados, que carregam mais candidatos?
  5. O que foram as duas paradas de 18h01 e 18h49, que não apareceram na tela?
  6. A fila em degraus depois das 20h03 foi controle manual? Quem decidiu o ritmo?
  7. Quando sai o relatório técnico, e as entidades fiscalizadoras vão receber os registros (os logs) daquela hora antes do dia 25?

O segundo turno é em 18 dias. A "nova rotina técnica" prometida ainda não foi descrita.

Minha opinião

Aqui falo eu, Thiago de Castro.

Eu olhei os números com vontade de achar problema, e o que achei foi uma explicação pela metade. O resultado fecha. A soma por fora bate com a oficial. A tendência não mudou durante a pausa. E quem liderava antes da pausa terminou em primeiro. Quem espalha que o voto foi mexido naquela hora está afirmando o que não consegue mostrar, e atrapalha quem cobra direito.

Só que a nota do TSE é menor do que o fato. Ela fala em 50 minutos, e a tela ficou 58 parada. Ela fala em "breve momento", e a soma ficou meia hora quase sem andar. Ela diz que os boletins seguiram chegando, e o arquivo do tribunal tem um buraco de 27 minutos nessa hora. Pode haver boa razão para tudo isso. Eu quero ler essa razão.

Ministro Kassio Nunes Marques, o senhor disse no domingo que a segurança vem antes da rapidez. Concordo. A transparência vem junto. Quem conta voto deve satisfação a quem votou: publique o relatório técnico, com horários, antes do dia 25.

O que joga contra, e entra

"A soma bate. Então acabou o assunto." Para o resultado, acabou. Para a explicação, falta. Um banco que fica uma hora fora do ar e devolve seu saldo certo ainda deve dizer o que houve.

"Você está alimentando desconfiança." Eu publiquei a soma que confirma o resultado oficial e a tabela que mostra a tendência igual antes e depois. Isso desarma o boato melhor do que um carimbo de "falso". As perguntas que ficam são sobre a nota do tribunal.

"O campo de recebimento pode marcar outra coisa." Pode, e eu escrevi isso acima. Se a hora for carimbada na entrada do sistema de soma, o buraco de 27 minutos é o mesmo fato visto de outro ângulo. A dúvida segue de pé: os boletins chegaram a Brasília naquele intervalo e esperaram na fila, ou ficaram no caminho?

"A OEA disse que a soma não parou." Disse, e eu citei. O painel que o TSE publicou no mesmo dia mostra a parada. As duas coisas estão no site do tribunal. Cabe a ele dizer qual vale.

"Flávio caiu justamente quando ninguém via." Caiu no mesmo passo de antes. Entre 18h35 e 19h05, com a tela funcionando, perdeu 0,92 ponto. Entre 19h05 e 19h35, com a tela travada, perdeu 1,16. O lote era mais Sudeste e Nordeste, como acontece em toda eleição nesse horário.

"Em 2020 foi pior." Foi mais longo: três horas. Em 2020 a explicação veio em duas etapas: primeiro o processador, depois a inteligência artificial da máquina. Mais um motivo para o relatório de 2026 sair logo e completo.

Eleitor usa o leitor de biometria no 1º turno, em 4 de outubro de 2026. Foto: Agência Senado, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O que você pode fazer no dia 25

Quem aprende a conferir não depende da palavra de ninguém. Leva dez minutos.

  1. Anote a sua zona e a sua seção. Estão no e-Título e no título de papel.
  2. Volte à escola depois das 17h. Assim que a votação fecha, o mesário imprime o boletim de urna e cola uma via na porta da sala. Qualquer pessoa pode ler.
  3. Fotografe o boletim inteiro. Pegue os votos de cada candidato a presidente, os brancos, os nulos e o código QR, que é o quadrado de pontinhos no fim do papel.
  4. Leia o código QR. Abra o aplicativo Boletim na Mão ou a função de boletim dentro do e-Título e aponte a câmera. O celular guarda os números daquela urna.
  5. Compare com o site. No Portal Resultados do TSE, entre na área de arquivos de urna, escolha estado, cidade, zona e seção. Os números têm de ser iguais aos do papel.
  6. Se não bater, registre. Guarde a foto com data e hora. Avise o fiscal de partido que estiver no local e procure o cartório eleitoral da sua zona ou o Ministério Público Eleitoral.
  7. Quer ir além? Os boletins do país inteiro vão para o Portal de Dados Abertos do TSE nos dias seguintes. Dá para refazer a soma em casa. Eu fiz.

Se 500 leitores desta revista fizerem isso em 500 seções diferentes, é uma auditoria de verdade, feita por gente comum. As regras do dia estão em Segundo turno de 2026.

Urna eletrônica modelo UE2020. Foto: TSE, via Wikimedia Commons, domínio público

Afinal, a explicação fecha?

Fecha em parte. O que o TSE disse sobre o resultado confere com os arquivos: a pausa da tela não mudou voto nem tendência, e a soma pode ser refeita por qualquer pessoa. O que o TSE disse sobre a pausa em si está incompleto: a tela parou por 58 minutos, a soma parou por cerca de meia hora e o arquivo de boletins tem um vazio de 27 minutos que a nota não menciona. Falta o relatório. O prazo que interessa ao eleitor é 25 de outubro.

Perguntas que chegam nos comentários

A apuração para presidente parou mesmo no 1º turno de 2026?

A tela nacional de presidente parou em 64,81% das 19h06 às 20h04 de 4 de outubro de 2026. A soma dos votos seguiu até as 19h32 e ficou quase parada até perto das 20h03, segundo o painel do TSE.

Quanto tempo durou a pausa?

58 minutos na tela, contando do último número exibido. O TSE fala em 50 minutos, a partir das 19h14. A soma dos votos ficou parada por cerca de 31 minutos.

O que o TSE explicou?

O ministro Kassio Nunes Marques falou em "congestionamento de dados". A nota de 6 de outubro fala em "contenção no processamento de dados" em um programa que gera os arquivos da tela nacional.

A pausa mudou o resultado?

Não há prova disso. A soma dos 499.206 boletins de urna publicados pelo TSE dá 56.104.503 votos para Flávio Bolsonaro e 53.879.538 para Lula, igual ao resultado oficial.

Flávio caiu durante a pausa?

Flávio caía desde as 18h05, no mesmo ritmo, porque os boletins do Nordeste e de parte do Sudeste chegam mais tarde. Ele terminou em primeiro, com 47,03%.

Governador e senador continuaram andando?

Na tela, sim. Na soma, os três cargos andaram juntos até as 19h32 e pararam juntos até perto das 20h03.

Alguém pediu auditoria?

Até 7 de outubro de 2026, eu não encontrei pedido protocolado no TSE por partido ou entidade. As missões de observação não pediram.

Isso já aconteceu antes?

Em 2020, a divulgação do 1º turno municipal atrasou cerca de três horas por falha em um supercomputador. Em 2014 e 2018, presidente saía depois dos outros cargos por regra, para esperar o Acre.

Como eu confiro o voto da minha seção?

Depois das 17h, fotografe o boletim colado na porta da seção, leia o código QR no aplicativo Boletim na Mão ou no e-Título e compare com os arquivos de urna no Portal Resultados do TSE.

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Fontes desta materia

  1. Tribunal Superior Eleitoral, Painel da evolução da totalização, 1º turno de 2026, presidente, governador e senador, cortes de 5 minutos
  2. Tribunal Superior Eleitoral, Saiba como foi a totalização dos votos no 1º turno das Eleições 2026, 6 de outubro de 2026
  3. Tribunal Superior Eleitoral, Portal de Dados Abertos, Boletim de Urna do 1º turno de 2026, 28 arquivos por unidade da Federação gerados em 5 de outubro de 2026
  4. Poder360, Leia a íntegra da nota do TSE sobre interrupção de divulgação do 1º turno, 6 de outubro de 2026
  5. Agência Brasil, Congestionamento no sistema de dados gerou atraso na apuração, diz TSE, 4 de outubro de 2026
  6. SBT News, TSE atribui atraso na apuração a congestionamento de dados, 5 de outubro de 2026
  7. CNN Brasil, TSE registrou congestionamento no sistema de divulgação, diz Nunes Marques, 4 de outubro de 2026
  8. CNN Brasil, TSE desmente fraude e explica pausa na divulgação de votos por 50 minutos, 6 de outubro de 2026
  9. Jornal de Brasília, Sistema do TSE trava durante apuração presidencial e deixa resultados parados por mais de uma hora, 4 de outubro de 2026, 20h27
  10. Notisul, Resultado para presidente ficou cerca de uma hora sem atualização; TSE explica atraso, 5 de outubro de 2026
  11. Tribunal Superior Eleitoral, Missões de Observação Eleitoral destacam transparência e organização das Eleições 2026, 7 de outubro de 2026
  12. Missões de Observação Eleitoral, relatórios preliminares do 1º turno de 2026 (OEA, Parlasul, Carter Center, Transparência Eleitoral Brasil e outras), PDF de 85 páginas publicado pelo TSE
  13. Agência Lupa, É falso que a demora de divulgação dos resultados pelo TSE indique fraude nas eleições, 6 de outubro de 2026
  14. Boatos.org, checagem sobre o atraso na divulgação dos resultados do 1º turno, 5 de outubro de 2026
  15. Jornal da Cidade Online, A interrupção por mais de uma hora da apuração pelo TSE: o que aconteceu? Qual a explicação?, artigo de Jayme Rizolli, 5 de outubro de 2026
  16. Coelho Fatos e Notícias, TSE fica cerca de uma hora sem atualizar apuração, 5 de outubro de 2026
  17. Tribunal Superior Eleitoral, Teste de Integridade no TSE confirma correspondência entre cédulas e votos registrados nas urnas, 4 de outubro de 2026
  18. Money Times, TSE: problema em inteligência artificial causou lentidão em sistema, 16 de novembro de 2020
  19. A Gazeta, PF alegou ao TSE que centralizar divulgação de votos melhoraria segurança, novembro de 2020
  20. Estado de Minas, País viverá 30 minutos de tensão antes da divulgação do resultado da eleição, 24 de outubro de 2014
  21. Tribuna do Paraná, Apuração de votos para presidente começará às 19h do horário de Brasília, 28 de outubro de 2018
  22. A Gazeta (Projeto Comprova), É falso que totalização de votos a cada 12% indique fraude no 1º turno das eleições, 12 de outubro de 2022
  23. Agência Brasil, TSE conclui apuração dos votos do primeiro turno para presidente, outubro de 2022