A urna eletrônica brasileira completa 30 anos neste sábado, 3 de outubro de 2026. Ela foi usada pela primeira vez em 3 de outubro de 1996, nas eleições municipais, em 57 cidades. Amanhã, domingo, 158 milhões de eleitores aptos votam nela em todo o país, segundo o TSE, e quase 89% deles vão se identificar pela digital.
Eu fui ler a história inteira, do primeiro modelo com impressora acoplada à auditoria que começa hoje de manhã nos tribunais regionais. Esta matéria não toma partido: cada lado da discussão sobre a urna aparece com a sua fonte.
Como a urna chegou às 57 cidades de 1996?
Devagar. O Código Eleitoral de 1932 já previa "máquinas de votar", segundo a Wikipédia. A primeira contagem eletrônica de votos aconteceu em 1982, em Santa Catarina, e em 1989 Brusque (SC) fez a primeira votação eletrônica válida.
A urna que o país conhece foi desenvolvida em 1996 pelas empresas Unisys, Omnitech e Microbase. O modelo UE1996 teve 70 mil unidades, com impressora acoplada; foi descartado em 2008.

Em 2000, veio a primeira eleição 100% eletrônica do país. Segundo a Wikipédia em inglês, o Brasil continua, até 2023, o único país do mundo a fazer a eleição inteira por voto eletrônico.
A linha do tempo em uma tabela
| Ano | O que aconteceu | Fonte |
|---|---|---|
| 1996 | Estreia em 57 cidades; modelo UE1996, 70 mil urnas | Wikipédia, ABCD News |
| 2000 | Primeira eleição totalmente eletrônica | Wikipédia |
| 2002 | Teste de voto impresso com cerca de 7 milhões de eleitores (Sergipe, DF e 73 municípios) | Wikipédia |
| 2003 | Lei 10.740 revoga o voto impresso | Wikipédia |
| 2008 | Sistema migra para Linux; biometria testada em 3 cidades | Wikipédia, InvestNews |
| 2009 | Primeiro teste público de segurança: 20 especialistas, 9 equipes | Wikipédia |
| 2018 | STF suspende o voto impresso da Lei 13.165/2015 | Wikipédia |
| 2020 | Modelo UE2020: 206 mil unidades, fabricadas pela Positivo | Wikipédia |
| 2021 | Câmara rejeita a PEC 135/2019, do voto impresso | Wikipédia |
| 2026 | 158 milhões de eleitores; 88,78% com biometria | Agência Brasil |

O que é a biometria e quantos eleitores têm?
A digital do eleitor, cadastrada no cartório eleitoral, serve para a urna confirmar que quem está na cabine é o dono do título. O primeiro teste aconteceu em 2008, em três municípios: São João Batista (SC), Fátima do Sul (MS) e Colorado do Oeste (RO), segundo a InvestNews.
Em 7 de maio de 2026, no fechamento do cadastro, o TSE informou 158 milhões de eleitores aptos e 88,78% com biometria, cerca de 140 milhões de pessoas. "Em 2024, nós tínhamos 82% dos eleitores com biometria. Hoje, nós temos 88,78% de eleitores biometrizados, um aumento de 6%, equivalente a mais de 9 milhões de novos eleitores com biometria", disse o corregedor-geral eleitoral, ministro Antonio Carlos Ferreira, segundo a Agência Brasil. A InvestNews, com dados de julho, fala em 141.321.545 eleitores com biometria, 89,01% de 158.765.543.
Quem não tem biometria vota do mesmo jeito, com documento oficial com foto. A urna faz até quatro tentativas de leitura da digital; se não reconhecer, o mesário libera o voto por outro procedimento, segundo a NSC Total.

Como funciona a auditoria que começa hoje?
Em duas etapas, hoje e amanhã.
Hoje, sábado, das 7h às 12h, cada tribunal regional faz a cerimônia pública de sorteio das seções eleitorais cujas urnas vão ser auditadas, segundo a Infopebas. A partir das 12h, vem a verificação da integridade e da autenticidade dos sistemas de transmissão e totalização.
Amanhã, domingo, é o teste de integridade. As urnas sorteadas, já prontas para o uso, são retiradas das seções e levadas ao tribunal, onde recebem uma votação paralela: pessoas preenchem cédulas de papel, digitam o mesmo voto na urna, e no fim o resultado eletrônico é comparado com a contagem das cédulas. Tudo filmado e acompanhado por fiscais externos, segundo a Gazeta de São Paulo. Em Pernambuco, por exemplo, serão 25 urnas, duas delas em teste com identificação biométrica, das 7h às 17h, com transmissão no YouTube do TRE-PE, segundo o Portal de Prefeitura e o Diário de Pernambuco.
Uma frase da Gazeta de São Paulo resume o histórico dos testes: desde 1996, "nenhuma divergência entre o voto de papel e o eletrônico foi encontrada".
Antes de a votação começar, ainda nas seções sorteadas, há o teste de autenticidade, que confere se o programa instalado na urna é o mesmo que a Justiça Eleitoral assinou digitalmente e lacrou.

Quem pode olhar o código-fonte?
Partidos, universidades e órgãos públicos, meses antes da eleição. Segundo a Wikipédia em inglês, o código fica fechado ao público em geral, mas aberto periodicamente para inspeção de entidades, universidades e todos os partidos políticos.
Outro ponto de verificação é o boletim de urna, impresso no fim da votação em cada seção, com o total de cada candidato. A urna também não tem Wi-Fi nem Bluetooth, o que, segundo a Gazeta de São Paulo, a deixa imune a ataque remoto.
O que os críticos pedem?
Um registro em papel que o eleitor possa ver. É a ideia do voto impresso, que já virou lei três vezes.
A Lei 10.408/2002 criou o voto impresso e ele foi testado naquele ano com cerca de 7 milhões de eleitores; a Lei 10.740/2003 revogou. A Lei 12.034/2009 previa o voto impresso a partir de 2014 e foi considerada inconstitucional em 2011. A Lei 13.165/2015 trouxe a obrigação de volta, e em junho de 2018 o STF suspendeu a implantação, por risco ao sigilo do voto, segundo a Wikipédia.
A última tentativa foi a PEC 135/2019, rejeitada pelo plenário da Câmara em 2021.
A crítica acadêmica, ainda segundo a Wikipédia, aponta três faltas: a impressão física, a auditoria por amostragem com limite de risco e a independência do software. Em 2012, uma equipe da UnB encontrou uma vulnerabilidade no embaralhamento dos votos, e o TSE corrigiu a rotina. Em 2016, o teste público achou uma falha no código verificador do boletim de urna, e o TSE mudou o cálculo.

O que o TSE responde?
Que o sistema já é seguro e que o papel traria mais risco, não menos. A posição do tribunal, resumida pela Wikipédia, é que o custo é alto (o TSE estimou R$ 1,8 bilhão em 2018; o STF citou R$ 2 bilhões) e que a intervenção humana na contagem aumentaria a chance de fraude, em vez de diminuir.
Em 2020, o TSE autorizou auditoria por CNJ, TCU, Forças Armadas e universidades. Em 2022, as Forças Armadas fizeram testes entre 2 e 19 de agosto; o relatório apontou "possível risco à segurança" durante a compilação do código-fonte, segundo a Wikipédia, sem apontar fraude. Depois da eleição daquele ano, o PL pediu ao TSE a anulação dos votos de urnas sem número de identificação; o tribunal negou e multou o partido em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé, segundo a Wikipedia.
A urna em números
| Número | O que é | Fonte |
|---|---|---|
| 57 | cidades que estrearam a urna em 1996 | Wikipédia |
| 70 mil | urnas do modelo UE1996 | Wikipédia |
| 206 mil | urnas do modelo UE2020 | Wikipédia |
| 158 milhões | eleitores aptos em 2026 | Agência Brasil |
| 88,78% | eleitores com biometria (maio de 2026) | Agência Brasil |
| 25 | urnas no teste de integridade de Pernambuco | Portal de Prefeitura |
O que joga contra, e entra
"A urna nunca foi testada de verdade." Foi, em público, desde 2009: 20 especialistas de 9 equipes no primeiro teste, e falhas achadas em 2012 e 2016 foram corrigidas, segundo a Wikipédia. Os críticos respondem que teste público não substitui registro em papel.
"O voto impresso é só um pedido político." Ele foi lei em 2002, 2009 e 2015, e cada vez caiu por revogação ou decisão judicial. Há argumento técnico dos dois lados: auditabilidade de um lado, sigilo e custo do outro.
"As Forças Armadas acharam fraude em 2022." Não é o que o relatório diz. Ele apontou "possível risco" num ponto do processo de compilação, segundo a Wikipédia. O pedido de anulação feito depois foi negado pelo TSE.
Os números de biometria divergem. A Agência Brasil, em maio, fala em 88,78%; a InvestNews, em julho, em 89,01%. A diferença é de data de corte.
Trinta anos depois
A urna de 1996 tinha impressora e rodava num sistema parecido com o MS-DOS. A de amanhã roda Linux, lê digital e será conferida contra cédulas de papel em cada estado, com câmera ligada. O que não mudou é a discussão: quem vota quer ter certeza de que o voto chegou inteiro. A auditoria de hoje e de amanhã é a resposta da Justiça Eleitoral; o voto impresso é a que parte dos críticos ainda pede. As duas estão aqui com fonte.
Perguntas que chegam nos comentários
Quando a urna eletrônica foi usada pela primeira vez?
Em 3 de outubro de 1996, nas eleições municipais, em 57 cidades. A primeira eleição 100% eletrônica foi em 2000.
Como é feita a auditoria da urna?
No sábado, os tribunais sorteiam seções em cerimônia pública. No domingo, as urnas sorteadas recebem uma votação paralela com cédulas de papel, e o resultado eletrônico é comparado com a contagem manual, com filmagem e fiscais.
Preciso ter biometria para votar amanhã?
Não. Quem tem o título regular vota com documento oficial com foto. A urna tenta ler a digital até quatro vezes e, se não reconhecer, o mesário libera o voto.
O voto impresso é proibido?
Ele foi lei em 2002, 2009 e 2015 e caiu por revogação ou decisão do STF. A PEC 135/2019, que o traria de volta, foi rejeitada pela Câmara em 2021.
Quantos eleitores votam em 2026?
158 milhões de eleitores aptos, segundo o TSE, com 88,78% deles com biometria cadastrada em maio.







