André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal desde dezembro de 2021, queria ser pastor antes de ser advogado. Fez Direito porque o pai pediu, perdeu esse pai aos 19 anos e hoje é o ministro no centro da maior briga que o STF já viveu.
Eu fui atrás da história inteira. Nada aqui é condenação de ninguém, e cada frase tem dono e data.
Quem é André Mendonça?
André Luiz de Almeida Mendonça nasceu em Santos (SP), em 27 de dezembro de 1972. O pai trabalhava no Banespa, e a família mudava de cidade a cada quatro anos, segundo entrevista dele à Instituição Toledo de Ensino, em 2018.
O pai era presbiteriano. A mãe, católica. Aos 16 anos, ele já sabia o que queria. Contou isso numa pregação em 2020, reproduzida pelo Jornal de Brasília: "Com 16 anos, minha ideia era ir para o seminário." O pai respondeu: "Primeiro você vai fazer a sua faculdade, para depois ir para o seminário."
Ele obedeceu e foi estudar Direito em Bauru. No meio do curso, o pai morreu. "Perdi meu pai quando estava no meio do curso", disse à faculdade. Ele tinha 19 anos.
O porão e o sapato furado
Formado em 1993, começou num escritório montado num porão, em Bauru, segundo a Gazeta do Povo. Para descrever essa fase, ele costuma citar o verso de um hino: "Eu só tinha um terno e um sapato furado."
Em fevereiro de 2000, passou no concurso da Advocacia-Geral da União e pediu para ir para Londrina, no Paraná. O motivo: lá ficava a Faculdade Teológica Sul Americana. Contou: "Eu dizia que provavelmente não iria crescer na instituição. Porque estou focado no seminário."
O padreco que ninguém levava a sério
Em 2008, o então advogado-geral da União, Dias Toffoli, chamou Mendonça para dirigir um departamento novo, o de combate à improbidade. Ele conta o que um amigo disse a outro: "O André? O André não tem expressão. Aquele padreco?"
Três anos depois, o padreco ganhou o Prêmio Innovare, o mais conhecido da Justiça brasileira. O grupo que ele coordenava recuperou R$ 491 milhões em três anos, segundo a ConJur.
Depois vieram mestrado e doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha. A tese saiu em 2018 com nota máxima.
"Terrivelmente evangélico"
Em novembro de 2018, Jair Bolsonaro o escolheu para comandar a AGU. Em 10 de julho de 2019, num culto na Câmara, o presidente fez a promessa que marcaria a carreira dele: "poderei indicar dois ministros para o Supremo Tribunal Federal; um deles será terrivelmente evangélico."

Em abril de 2020, com a saída de Sergio Moro, virou ministro da Justiça. É a fase mais criticada da carreira dele, e ela está inteira mais abaixo.
A frase que ele disse antes de perder
Em 7 de abril de 2021, de volta à AGU, Mendonça subiu à tribuna do STF para defender a abertura de igrejas na pandemia. Disse: "os verdadeiros cristãos não estão dispostos, jamais, a matar por sua fé, mas estão sempre dispostos a morrer para garantir a liberdade de religião e de culto", segundo a Migalhas.
No dia seguinte, perdeu. O Supremo decidiu por 9 a 2 que estados e municípios podiam proibir cultos presenciais.
Cinco meses de espera, seis votos de folga
Bolsonaro o indicou ao Supremo em 13 de julho de 2021. A sabatina só aconteceu em 1º de dezembro: quase cinco meses de espera, segundo a Agência Senado.

Foram cerca de oito horas de perguntas. A frase que ficou foi esta: "na vida, a Bíblia; no Supremo, a Constituição." Passou na CCJ por 18 a 9. No plenário, por 47 a 32. Precisava de 41. Sobraram seis votos.
A manchete do Correio Braziliense naquela noite trazia a frase atribuída a ele: "É um passo para um homem e um salto para os evangélicos."

Tomou posse em 16 de dezembro de 2021. Na mesma noite, houve culto de ação de graças com o presidente.
Os números da trajetória
| Ano | Cargo ou marco |
|---|---|
| 2000 | Advogado da União, por concurso |
| 2018 | Doutorado em Salamanca, nota máxima |
| 2019 | Advogado-geral da União |
| 2020 | Ministro da Justiça |
| 2021 | Ministro do STF, aprovado por 47 a 32 |
| 2025 | Pastor-adjunto da Igreja Presbiteriana de Pinheiros (SP) |
| 2026 | Relator do caso Master e vice-presidente do TSE |
Como Mendonça chegou ao caso Master?
Em 12 de fevereiro de 2026, Toffoli deixou a relatoria do inquérito do Banco Master, depois que a PF encontrou menções a ele no celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Mendonça foi sorteado para o lugar, segundo o Brasil de Fato. O homem que o promoveu em 2008 foi o mesmo cuja saída lhe entregou o caso.
Em 1º de setembro, Mendonça tirou o sigilo do relatório da PF sobre mensagens atribuídas a Vorcaro e dirigidas a Moraes. Escreveu que o material deveria ser analisado "pelo plenário do STF, em sessão pública e presencial". Moraes nega ter recebido as mensagens, segundo o Congresso em Foco. Em uma semana, ganhou 1,3 milhão de seguidores no Instagram, de acordo com o Metrópoles.
O que Moraes diz, e o que Mendonça responde
Em 3 de setembro, com base em relatórios da Polícia Federal, Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que Mendonça fosse investigado. Segundo a ConJur, as acusações são três: acesso a provas brutas antes da triagem da PF, participação em negociação de delação e direcionamento contra autoridades. Moraes fala em indícios de "improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade".
Naquela mesma noite, Mendonça pediu a Fachin o afastamento de Moraes. Em 22 de setembro, respondeu por escrito: "Os vícios que o prolator imputou a este signatário são, na realidade e em verdade, aqueles verificados em seu próprio ato." Chamou os relatórios de papéis "sem qualquer identificação de autoria", segundo a Agência Brasil. A disputa sobre a PF está contada em 48 horas que sacudiram a Polícia Federal.
"Me respeite"
Na sessão de 15 de setembro, o ministro Gilmar Mendes falou em "leviandade" e "desfaçatez". Mendonça reagiu: "A desfaçatez de Vossa Excelência. Me respeite." Gilmar: "Pode chorar, pode chorar." O diálogo foi publicado pela Migalhas.
Estava 4 a 3 para julgar Moraes e Mendonça em separado quando Flávio Dino chamou a sessão de "desastrosa" e pediu vista. Dois dias depois, Fachin tirou de pauta o julgamento sobre a atuação de Mendonça: "A inclusão em pauta será oportunamente redesignada."
O que joga contra, e entra
O encontro com Vorcaro. Em 14 de março de 2025, ele recebeu o banqueiro na sede do Instituto Iter, em São Paulo. O gabinete confirmou: foi "em uma única ocasião", por menos de 30 minutos, e ele "limitou-se a ouvi-lo". Diz que o assunto foi um processo de precatórios e que decidiu contra o banqueiro. Em 15 de setembro de 2026, Dino mandou incluir o encontro na apuração sobre ele.
O instituto. O Iter, que ele criou em 2023, somava cerca de R$ 10,8 milhões em contratos com órgãos públicos de 14 unidades da federação, segundo a Agência Brasil. Em 3 de setembro, ele saiu da sociedade e disse nunca ter recebido lucro.
O Ministério da Justiça. Em julho de 2020, anunciou pedido de inquérito com base na Lei de Segurança Nacional contra o autor de um artigo intitulado "Por que torço para que Bolsonaro morra", segundo a Agência Brasil. No mesmo ano, o ministério produziu um dossiê sobre 579 servidores de segurança e três professores identificados como antifascistas. Em maio de 2022, o STF declarou esses atos inconstitucionais, por 8 a 1, segundo a ConJur. Mendonça, já ministro, ficou fora do julgamento.
A PF. Em 8 de setembro, ele afastou o diretor-geral da Polícia Federal, dizendo ter sido monitorado por mais de 30 dias. Dino reverteu no dia seguinte e escreveu, segundo a Migalhas: "uma parte pode ser juiz de si mesma e antecipar juízos de valor sobre relatórios da Polícia Federal que expressamente a mencionam?" Fachin suspendeu as duas decisões.
E agora?
Nada foi decidido. Dino tem 90 dias para devolver o processo. O julgamento sobre Mendonça não tem data. Ele segue ministro do STF e vice-presidente do TSE, a poucos dias do primeiro turno de 4 de outubro.
Em agosto, num sermão em Pinheiros, ele lembrou uma conversa com Bolsonaro, segundo a Gazeta do Povo: "Há momentos para ser um cordeiro. Em outros, é preciso agir como um leão." O garoto que queria o seminário virou o juiz que o país inteiro olha. Quem tem razão, só o plenário vai dizer. Eu volto a cada passo, com fonte.
Capítulos anteriores: Moraes pede investigação contra Mendonça e Mendonça pede o afastamento de Moraes.
Perguntas que chegam nos comentários
Onde André Mendonça nasceu?
Em Santos (SP), em 27 de dezembro de 1972. Estudou Direito em Bauru e se formou em 1993.
André Mendonça é pastor?
Sim, é pastor presbiteriano. Desde março de 2025 é pastor-adjunto da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo.
Quando André Mendonça entrou no STF?
Foi aprovado pelo Senado em 1º de dezembro de 2021, por 47 a 32, e tomou posse em 16 de dezembro de 2021, na vaga de Marco Aurélio Mello.
Por que Moraes pediu a investigação de Mendonça?
Em 3 de setembro de 2026, com base em relatórios da PF, Moraes apontou acesso a provas brutas, participação em negociação de delação e direcionamento contra autoridades. Mendonça diz que os relatórios não têm autoria e acusa Moraes de direcionar a investigação.
Mendonça foi afastado do caso Master?
Até 29 de setembro de 2026, não houve decisão do plenário. Fachin suspendeu em 9 de setembro a tramitação do processo sobre a PF e tirou de pauta, em 17 de setembro, o julgamento sobre a atuação dele, sem nova data.








