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Política / 10 de setembro de 2026

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Afastaram o chefe da Polícia Federal, reintegraram e anularam tudo em 48 horas. O que está por trás da crise no Supremo

Dia 8, André Mendonça afastou o diretor-geral da PF a pedido do partido Novo. Dia 9, Flávio Dino mandou os dois de volta e perguntou se o colega pode ser juiz de si mesmo. Ainda no dia 9, Fachin anulou as duas decisões. O plenário decide dia 15. Aqui está a linha do tempo completa, o que dizem os relatórios de inteligência que ninguém leu, a acusação que cada um faz contra o outro, o encontro com Vorcaro que Dino citou, e por que o vídeo do bate-boca que está viralizando é de maio de 2025 e não de agora.

Publicado
10 de setembro de 2026
Atualizado
10 de setembro de 2026
Editoria
Política
Leitura
8 min
Fontes
10 citadas
André Mendonça e Flávio Dino em sessão do STF, imagem de arquivo da TV Justiça
André Mendonça e Flávio Dino em sessão do STF, imagem de arquivo da TV Justiça

Em 48 horas, o homem que comanda a Polícia Federal do Brasil foi afastado do cargo, recolocado no cargo e teve as duas decisões anuladas.

Nenhuma delas veio do presidente da República, que o nomeou. Todas vieram de ministros do Supremo Tribunal Federal, e cada um decidiu sozinho.

Se você abriu o celular nesta semana e não entendeu nada, o problema não é seu. Aqui está a história inteira, na ordem.

A linha do tempo

QuandoQuemO que decidiu
8 de setembroAndré MendonçaAfastou Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Leandro Almada, diretor de Inteligência. Mandou suspender a produção dos relatórios de inteligência e determinou apuração criminal e administrativa sobre eles
9 de setembroFlávio DinoReintegrou os dois e devolveu todas as atribuições. Questionou se Mendonça pode ser "juiz de si mesmo"
9 de setembroEdson FachinSuspendeu as duas decisões e também a tramitação do caso sob a relatoria de Mendonça
15 de setembro, 10hPlenário do STFDecide. Até lá, Andrei Rodrigues continua no cargo

O resultado prático, no fim das 48 horas, é o mesmo do começo: o diretor da PF está onde estava.

Onde tudo começou: o pedido do partido Novo

O afastamento não nasceu de uma iniciativa espontânea do ministro. Ele atendeu a um pedido.

O partido Novo apresentou dois requerimentos contra Andrei Rodrigues: a prisão preventiva e o afastamento cautelar, com abertura de inquérito, por causa da atuação dele no caso do Banco Master. E o relator do caso Banco Master no Supremo é justamente André Mendonça.

O partido sustenta que os relatórios de inteligência da PF mencionavam encontros de Mendonça com investigadores e advogados, e pergunta como o conteúdo desses encontros teria chegado ao conhecimento da corporação.

O que dizem os relatórios que quase ninguém leu

Este é o coração da crise, e ele tem dois lados que precisam ser lidos juntos.

A versão de Mendonça. Segundo ele, os relatórios revelam um monitoramento sistemático e ilegal, por mais de trinta dias, das ações dele e de outras autoridades, entre elas o advogado-geral da União, Jorge Messias. Na leitura dele, uma estrutura de inteligência do Estado estaria acompanhando os passos de um ministro do Supremo.

O que os relatórios dizem sobre ele. Em um dos documentos há a indicação de que Mendonça estaria conduzindo delações de forma irregular, interferindo na estrutura administrativa da Polícia Federal e escolhendo alvos por razões pessoais ou políticas.

Repare no desenho: o ministro afastou os responsáveis pelos relatórios que apontam suspeitas contra ele próprio.

É exatamente sobre esse desenho que a briga se instalou.

O argumento de Dino

Ao reintegrar os dois delegados, Dino fez uma pergunta que resume a objeção dele:

Pode uma parte ser juiz de si mesma e antecipar juízos de valor sobre relatórios da Polícia Federal que a mencionam expressamente?

O raciocínio tem três apoios:

  1. Fachin, como presidente, já havia instaurado um procedimento para apurar os fatos ligados aos relatórios, e nesse procedimento Mendonça teria de se manifestar. Ou seja, ele já era parte.
  2. A decisão de Mendonça, na leitura de Dino, atropelou esse procedimento e também o plenário.
  3. Dino citou ainda um encontro reservado entre Mendonça e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, hoje preso.

Dino não disse que Mendonça não pode questionar os relatórios. Disse que ele deveria fazer isso pelos canais institucionais, e não com uma decisão que produz efeito sobre investigações que envolvem o próprio nome.

O argumento de Mendonça

Do outro lado, a defesa é igualmente direta: se um órgão do Estado monta um monitoramento de trinta dias sobre um ministro do Supremo, alguém precisa mandar parar, e mandar parar imediatamente.

Nessa leitura, esperar o rito normal enquanto o monitoramento continua seria permitir que a irregularidade se prolongue. E a suspeita levantada contra ele estaria justamente sendo fabricada por quem ele tinha o dever de fiscalizar.

O que Fachin fez, e por que isso importa

Fachin não deu razão a nenhum dos dois. Ele suspendeu as duas decisões e, além disso, suspendeu a tramitação do caso sob a relatoria de Mendonça.

Essa segunda parte é a mais significativa e passou quase despercebida. Suspender a relatoria é dizer, na prática, que a definição de quem conduz o caso também está em disputa.

E ao levar tudo ao plenário no dia 15, Fachin fez o movimento que o Supremo vinha sendo cobrado a fazer há meses: tirar uma decisão do gabinete de uma pessoa só e colocá-la diante dos onze.

O vídeo que está viralizando é de 2025

Nesta semana voltou a circular um vídeo do bate-boca entre os dois ministros, em que Dino diz não admitir ser chamado de ladrão e Mendonça responde que ladrão é uma opinião.

Esse vídeo não é desta semana. Ele é de 7 de maio de 2025, e o assunto era outro: o julgamento sobre o aumento de pena em crimes contra a honra de servidor público. Quem presidia o tribunal na época era Luís Roberto Barroso, hoje aposentado.

O conteúdo do debate, no entanto, continua valendo a leitura, porque ele explica a distância entre os dois muito antes desta crise.

QuemO que disse
Mendonça"Ladrão é uma opinião, não um fato"
Dino"Não admito que me chamem de ladrão. Isso não é crítica, é uma ofensa gravíssima. Essa tese da moral flexível desmoraliza o Estado"
Dino"E ministro do Supremo pode ser chamado assim também?"
Barroso"Quando você diz que alguém é ladrão, está implícito crime"
Moraes"Liberdade de expressão é uma coisa. Acusar alguém de vender sentença é difamação"
ZaninA crítica é legítima, desde que não se torne ofensa criminal

A discussão jurídica ali é real e vale para qualquer cidadão: chamar alguém genericamente de ladrão tende a ser tratado como juízo de valor, o que aproxima da injúria. Imputar um crime específico e determinado a alguém é outra coisa, e aproxima da calúnia. A tese de Mendonça não significa que a palavra saia de graça: significa que ela cai numa gaveta diferente do Código Penal.

O que está realmente em jogo

Tire os nomes e olhe o mecanismo.

A Polícia Federal é o órgão que investiga crimes federais, incluindo os que envolvem autoridades. Quem manda nela, na prática, define quais investigações avançam e quais emperram.

Nesta semana, três ministros do Supremo deram três respostas diferentes, em 48 horas, para a pergunta de quem ocupa a cadeira principal dessa polícia. Nenhum deles precisou consultar os outros dez para decidir.

Esse é o ponto que sobrevive à briga pessoal: um tribunal em que qualquer um dos onze pode, sozinho, mexer no comando da Polícia Federal, e o seguinte pode desfazer no dia seguinte.

No dia 15, o plenário terá a chance de dizer se é assim que deve funcionar.

Perguntas que chegam nos comentários

Afinal, quem está no comando da Polícia Federal agora?

Andrei Rodrigues. Fachin suspendeu as decisões de Mendonça e de Dino, e até o julgamento do plenário, marcado para 15 de setembro, ele permanece no cargo.

Por que Mendonça afastou o diretor da PF?

Ele atendeu a um pedido do partido Novo e sustentou que relatórios de inteligência da PF faziam um monitoramento sistemático e ilegal, por mais de trinta dias, de suas ações e de outras autoridades.

E por que Dino mandou reintegrar?

Porque, na avaliação dele, Mendonça é mencionado nesses relatórios e estaria decidindo em causa própria, além de atropelar um procedimento já instaurado por Fachin.

O que Fachin decidiu?

Suspendeu as duas decisões e também a tramitação do caso sob a relatoria de Mendonça, levando tudo ao plenário no dia 15 de setembro.

O vídeo do "ladrão é uma opinião" é desta semana?

Não. É de 7 de maio de 2025, e o assunto era o aumento de pena em crimes contra a honra de servidor público. Ele voltou a circular agora por causa da nova crise entre os dois.

Chamar alguém de ladrão é crime?

Depende. Chamar genericamente costuma ser tratado como juízo de valor, o que aproxima da injúria. Imputar um crime específico a alguém aproxima da calúnia. Foi exatamente essa distinção que os ministros discutiram em 2025, e nem eles concordaram entre si.

O que o Banco Master tem a ver com isso?

O caso do banco é relatado por Mendonça, o pedido do partido Novo cita a atuação do diretor da PF nesse caso, e Dino mencionou um encontro reservado entre Mendonça e Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, hoje preso.

Fontes desta materia

  1. Consultor Jurídico, Mendonça afasta diretor-geral da PF e manda suspender relatórios dos quais foi alvo
  2. Poder360, Mendonça afasta Andrei Rodrigues do comando da PF
  3. CNN Brasil, Dino determina recondução de Andrei Rodrigues ao comando da PF
  4. Migalhas, ao reintegrar Andrei, Dino questiona se Mendonça pode ser juiz de si mesmo
  5. Poder360, Dino diz que Mendonça decidiu em causa própria ao afastar Andrei
  6. Correio Braziliense, Dino questiona se Mendonça pode ser juiz de si mesmo e cita encontro com Vorcaro
  7. Jornal do Comércio, Fachin revoga decisões de Mendonça e Dino sobre afastamento de diretor da PF
  8. CNN Brasil, Novo pede a Fachin a prisão preventiva de Andrei Rodrigues
  9. Estado de Minas, por que Dino diz que Mendonça não deveria ter julgado o caso da PF
  10. Diário Carioca, o bate-boca entre Dino e Mendonça sobre a palavra ladrão, em 7 de maio de 2025