Eu vou escrever isso com o nome certo, porque faz cinco anos que esse país aprendeu um vocabulário e agora finge que esqueceu.
Na terça-feira, 8 de setembro, o homem que coordena a campanha de reeleição do presidente da República pediu, em público, que ele convocasse o órgão que a Constituição criou para tratar de intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio.
A 26 dias do primeiro turno. Vinte e quatro horas depois de uma pesquisa mostrar o presidente perdendo ou empatando em todos os cenários de segundo turno.
Chamaram de sugestão.
Eu vou te mostrar por que essa palavra não cobre o que aconteceu. E vou te mostrar com data, artigo da Constituição e fonte, para você conferir sozinho e não precisar acreditar em mim.
Primeiro os fatos, na ordem
Na terça-feira, o ministro André Mendonça afastou preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.
O motivo, nas palavras do ministro, foi a "superlativa gravidade" da produção de relatórios de inteligência da PF que acompanhavam a atuação dele e a do advogado-geral da União, Jorge Messias. Relatórios de inteligência da polícia monitorando um ministro do Supremo e o advogado do governo.
Andrei saiu. William Marcel Murad, o número dois, assumiu interinamente. Onze diretores da PF divulgaram nota de apoio e colocaram os cargos à disposição.
E aí, poucas horas depois, o advogado Marco Aurélio de Carvalho foi a público pedir duas coisas: que Lula recorresse ao plenário do Supremo antes de cumprir a decisão, e que convocasse o Conselho da República com urgência.
Quem é o homem que deu a sugestão
Essa é a parte que a cobertura amassou.
Marco Aurélio de Carvalho não é um advogado qualquer que deu uma opinião num grupo de WhatsApp. Ele é coordenador do grupo Prerrogativas, o núcleo jurídico que sustentou a volta do Lula à disputa, e é coordenador da campanha de Lula à reeleição no estado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.
Ele fala de dentro. Ele fala com crachá.
A frase dele foi: "O Brasil está mergulhando em uma crise institucional sem precedentes na história do país. Poderes e órgãos da República avocando prerrogativas constitucionais que não lhe foram atribuídas."
Traduzindo: o Supremo não pode mandar em mim.
Por que "sugestão" não resolve
Horas depois, com o barulho crescendo, ele recuou meio passo e disse ao colunista Igor Gadelha, do Metrópoles: "Foi apenas e tão somente uma sugestão feita por mim. Ainda pretendo levar para ele, mas ainda não conversei com o presidente."
Guarde essa frase inteira, porque ela é pior do que parece. Ele não disse que estava errado. Ele disse que ainda pretende levar ao presidente.
E é aqui que eu vou dizer o que penso, com todas as letras:
quando o coordenador da campanha do presidente sugere publicamente convocar o conselho do estado de sítio, isso não é opinião pessoal. É balão de ensaio. É a maneira mais velha da política brasileira de colocar uma ideia na rua sem assinar embaixo: você põe um auxiliar para falar, mede o estrago, e depois decide se abraça ou se desmente.
Se o país tivesse aceitado numa boa, aquilo não seria mais sugestão. Seria pauta.
Agora o órgão. E por que a escolha dele diz tudo
O Conselho da República está nos artigos 89 e 90 da Constituição, regulamentado pela Lei 8.041, de 5 de junho de 1990. Quem preside e quem convoca é o presidente da República.
E ele tem exatamente duas competências:
- pronunciar-se sobre intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio;
- pronunciar-se sobre questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas.
É isso. Não tem uma terceira.
Existiam outros caminhos na mesa. Recurso da AGU. Reclamação no plenário. Pedido de suspeição. Conversa com o presidente do Supremo. Nota pública. Todos existiam, todos estavam disponíveis, e alguns deles o próprio governo acabou usando.
Ele escolheu justamente o que tem estado de sítio escrito na competência. Num país que saiu de um julgamento sobre tentativa de golpe.
Isso não é acidente de vocabulário. Quem coordena campanha presidencial sabe exatamente o peso de cada palavra que solta, e sabe que essa ia virar manchete. Virou.
O que só o Conselho da República faz, e nenhum outro caminho
O que aconteceu 24 horas antes
Agora junte com o calendário, porque golpe não nasce de raiva. Nasce de conta.
Em 8 de setembro, o mesmo dia, saiu a pesquisa BTG/Nexus, registro BR-06790/2026. Ela testou cinco cenários de segundo turno. Em todos, o presidente aparece empatado ou atrás dos dois primeiros colocados.
E a leitura interna, segundo a CNN Brasil, foi essa mesma: auxiliares avaliam que a crise com o Supremo vai dominar a reta final e passaram a defender uma resposta "mais incisiva".
Vinte e cinco dias para a urna. O favorito de ontem empatando. E a palavra estado de sítio entrando na conversa pela porta de um auxiliar do presidente.
Você acredita em coincidência? Eu não.
Um governo que está confortável nas pesquisas não precisa lembrar do artigo 89.
O pacote inteiro, que ninguém publicou junto
E não veio sozinho. A convocação do conselho é o item um de uma lista de cinco que auxiliares do presidente passaram a defender. Olhe a lista completa e veja o desenho:
| A proposta | O que ela ataca |
|---|---|
| Convocar o Conselho da República | O órgão de intervenção, estado de defesa e estado de sítio |
| Investigar Alexandre de Moraes | Um ministro do Supremo |
| Tirar André Mendonça dos casos | O relator do Master e do INSS, que afastou o chefe da PF |
| Encerrar o inquérito das fake news | O inquérito do próprio tribunal |
| Mandato para ministros do STF | A composição futura da Corte |
Cinco itens. Os cinco mexem no Supremo. Nenhum deles é sobre economia, saúde, segurança ou qualquer coisa que apareça na vida de quem vai votar.
É um pacote de poder, montado a 25 dias da eleição, por gente que está perdendo.
Setembro de 2021. A mesma frase, o outro crachá
Agora a parte que eu não vou deixar ninguém esquecer.
Em 7 de setembro de 2021, do palanque da Esplanada, Jair Bolsonaro anunciou que convocaria o Conselho da República. Disse que estaria lá no dia seguinte "junto com ministros, junto com o presidente da Câmara, do Senado e do Supremo".
Mesmo órgão. Mesma crise com o mesmo tribunal. Mesmo argumento de instabilidade institucional.
A reunião nunca aconteceu.
E a reação foi essa:
- Marcelo Freixo, então deputado, falou em ameaça de intervenção militar e de fechamento do Congresso.
- Jean Paul Prates, senador do PT, disse que seu conselho ao presidente seria renunciar.
- Fabiano Contarato, senador, chamou de cortina de fumaça para ameaçar os poderes.
A imprensa tratou como peça de tentativa de golpe. E aquilo ficou. Virou capítulo, virou processo, virou condenação.
Cinco anos depois, o coordenador da campanha do presidente pede exatamente o mesmo gesto e a manchete escreve "sugestão".
E olhe a diferença que joga contra o governo, não a favor: em 2021 quem falou foi o presidente, num palanque, na cara do país, e nunca convocou. Em 2026 quem falou foi o coordenador da campanha, com o presidente calado, e disse que ainda vai levar a ideia adiante.
Um foi grito. O outro foi sussurro. Sussurro em política é pior, porque é o que se diz quando ainda se pretende fazer.
O que eles vão te responder, e o que eu respondo
Vão dizer que o conselho é consultivo e não decreta nada. É verdade. Ele opina. Para chegar a um estado de sítio seria preciso ainda o Conselho de Defesa Nacional, o pedido ao Congresso e a maioria absoluta das duas casas, e só nas hipóteses do artigo 137, que são comoção grave de repercussão nacional ou guerra.
Eu sei disso. Eu coloquei tudo aqui embaixo, com artigo e prazo, para você conferir.
Mas essa defesa vale exatamente igual para 2021. Também era consultivo lá. Também não decretava nada lá. Também precisaria do Congresso lá. E ninguém aceitou esse argumento.
Quem hoje explica que é só um órgão de consulta precisa explicar por que cinco anos atrás o mesmo órgão de consulta era prova de golpe.
Eu tenho a minha resposta: não era sobre o poder do conselho. Era sobre a intenção de quem chamava. Valia então e vale agora.
Uma vez em 36 anos
O conselho existe desde 1990. Ele foi convocado uma única vez: fevereiro de 2018, governo Temer, sobre a intervenção federal na segurança do Rio, e depois de a intervenção já ter sido decretada.
Trinta e seis anos. Uma reunião.
Agora esse mesmo órgão foi puxado para a mesa duas vezes em cinco anos. As duas em queda de braço com o Supremo. As duas com eleição no horizonte. As duas por quem estava perdendo alguma coisa.
Um instrumento feito para catástrofe nacional virou carta de baralho de campanha. Esse é o estrago, e ele é maior do que qualquer manchete de um dia.
Eu deixo tudo isso na mesa de propósito. Uma opinião que só sobrevive escondendo o outro lado não é opinião, é propaganda. Eu não preciso esconder nada para sustentar a minha, e você não precisa concordar comigo para usar os fatos daqui.
O que eu penso, em uma frase
Um governo que está ganhando defende voto. Um governo que está perdendo lembra do artigo 89.
O que aconteceu na terça-feira foi um teste. Puseram a palavra na rua pela boca de quem podia ser desmentido depois, para ver se o país reagia. O país reagiu. Por isso virou sugestão.
Se não tivesse reagido, você acha mesmo que ia parar de ser sugestão?
Eleição se ganha no voto. Está na frase do próprio advogado, e ele tem razão: "Eleições, em toda e qualquer Democracia, devem ser disputadas no voto."
Então dispute no voto. Dia 4 de outubro.
Perguntas frequentes
O Lula convocou o Conselho da República?
Não. Até a publicação desta matéria não houve convocação, reunião marcada nem data. A proposta foi feita publicamente por Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha dele em São Paulo, que depois disse que ainda não tinha conversado com o presidente e que ainda pretende levar a ideia a ele.
Quem é Marco Aurélio de Carvalho?
Advogado, coordenador do grupo Prerrogativas e coordenador da campanha de Lula à reeleição no estado de São Paulo. Não é um observador externo, é gente da campanha.
O que é o Conselho da República?
Órgão superior de consulta do presidente da República, previsto nos artigos 89 e 90 da Constituição e regulamentado pela Lei 8.041 de 1990. Tem duas competências: pronunciar-se sobre intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio, e sobre questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas.
O conselho pode decretar estado de sítio?
Não. Ele apenas opina. O presidente precisaria ouvir também o Conselho de Defesa Nacional, pedir autorização ao Congresso e obter maioria absoluta na Câmara e no Senado, e só nas hipóteses do artigo 137, que são comoção grave de repercussão nacional ou guerra. No caso do inciso I, o prazo máximo é de 30 dias.
Quem senta no Conselho da República?
Vice-presidente, presidentes da Câmara e do Senado, líderes da maioria e da minoria das duas casas, ministro da Justiça e seis cidadãos com mais de 35 anos, dois indicados pelo presidente e quatro escolhidos pelo Congresso.
Quantas vezes ele já foi convocado?
Uma, em fevereiro de 2018, no governo Temer, sobre a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, e depois de a intervenção já ter sido decretada.
Por que Andrei Rodrigues foi afastado?
Por decisão de André Mendonça, relator do caso Banco Master, em 8 de setembro de 2026. O ministro apontou a produção de relatórios de inteligência da PF que acompanhavam a atuação dele e a do advogado-geral da União. O diretor de Inteligência, Leandro Almada, também foi afastado. William Marcel Murad assumiu interinamente.
O Bolsonaro fez a mesma coisa em 2021?
Anunciou. Em 7 de setembro de 2021 disse que convocaria o Conselho da República no dia seguinte. A reunião nunca aconteceu. Na época, políticos da esquerda trataram o anúncio como parte de uma tentativa de golpe.
Isso aqui é notícia ou opinião?
É opinião, e está marcada como opinião. Os fatos, as datas, os artigos da Constituição e as falas citadas são verificáveis e estão com fonte no fim da página. A leitura deles é minha, e você é livre para discordar dela usando os mesmos dados.
Se você quer o começo desta história, ela tem dois capítulos anteriores: o pedido de investigação que Moraes protocolou contra Mendonça e o pedido de afastamento que Mendonça fez contra Moraes.







