Ontem eu publiquei um carrossel sobre Enéas Carneiro, o médico que disputou a Presidência três vezes nos anos 90 e virou piada nacional por causa de 15 segundos de TV e uma barba.
Eu esperava nostalgia. O que apareceu foi outra coisa: gente que votou nele há 30 anos, saindo do armário eleitoral nos meus comentários. E todos indo para o mesmo lugar.
Os cinco comentários, como chegaram
O primeiro chegou sete horas depois do post, sem eu pedir nada:
"Eu votei #eneaspresidente e voto #augustocury."
Duas hashtags, trinta anos de distância, e a mesma pessoa. O segundo:
"O único candidato que votei na vida foi o Enéas. Agora eu vou votar no 70! Esse post é necessário pra acordar o povo. Agora temos alguma esperança!"
Trinta anos sem entrar numa urna com vontade. Isso não é militância, é saudade de acreditar. O terceiro, de quem já viu esse filme:
"Enéas também foi desacreditado por muitos que preferiram continuar apostando no 'conhecido'. Talvez o Brasil tenha perdido a oportunidade de descobrir até onde ele poderia ter chegado. E estamos vendo um ciclo se repetindo."
O medo dele não é perder. É nunca saber o que teria acontecido. O quarto achou a diferença entre 1994 e agora:
"Só tem uma diferença, no tempo do Enéas não tinha a tecnologia e muito menos as redes sociais. Hoje temos."
E o quinto resume o que eu ando lendo o dia inteiro:
"Enéas era muito mais à frente do tempo. Creio que a melhor opção é acreditar. Cury 70."
Ninguém aí está prometendo vitória. Estão dizendo que vale a pena acreditar de novo.
Quem é essa gente
Não é militante. É gente comum que sumiu do debate. Votou num médico em 1994, viu o país transformar esse voto em piada, e passou 30 anos sem confiar em mais ninguém. Tem um nome para isso, e ele é técnico: órfão político. Eleitor com convicção e sem candidato.
O tamanho desse eleitorado
O Enéas nunca ganhou uma eleição presidencial. Mas olha o tamanho da gente que ele juntou:
TSE e Câmara dos Deputados
Essa gente não sumiu do país. Envelheceu, votou calada, esperou.
A conta que ninguém fez
Augusto Cury saltou para 11% na BTG/Nexus e virou o terceiro colocado. Cada ponto percentual vale cerca de 1,2 milhão de votos.
A diferença entre 1994 e 2026, com número
O quarto comentário tinha razão, e eu fui medir.
| O que | Enéas em 1994 | Cury em 2026 |
|---|---|---|
| Tempo de TV por dia | 1 minuto e 17 segundos | 35 segundos |
| Alcance fora da TV | nenhum | 10,8 milhões de seguidores no pico |
| Debates nacionais | poucos, e ele era tratado como figurante | três antes do primeiro turno |
| Resultado | 7,4%, terceiro | 8 a 11%, terceiro |
Olha o paradoxo: Cury tem menos tempo de TV do que o Enéas tinha há 32 anos. E chegou ao mesmo lugar. A diferença é a tela na mão do eleitor.
O que eu tirei, e por quê
- Comparar Cury a Enéas em ideias. Não fiz. São projetos, épocas e biografias diferentes. A comparação aqui é de eleitorado e de estrutura, e só.
- Dizer quantos dos 4,6 milhões vão votar em Cury. Não dá para medir. Dou o teto e a conta, e deixo a projeção para quem tiver pesquisa.
- Os comentários com nome e foto. Estão publicados com avatar e arroba borrados. O texto é o original.
Perguntas que chegam nos comentários
Quantos votos Enéas Carneiro teve em 1994?
4,67 milhões, ou 7,4% dos votos válidos, terceiro lugar, com 1 minuto e 17 segundos de TV por bloco.
Enéas foi o deputado mais votado da história?
Sim. Em 2002 fez 1,57 milhão de votos para deputado federal por São Paulo, recorde que durou até 2018.
Quem são os órfãos políticos?
Eleitores que votaram em candidatos de fora do sistema, como Enéas, e não se sentem representados por nenhum dos dois campos atuais. Nos comentários, muitos dizem que agora votam em Cury.
Cury e Enéas são parecidos?
A comparação da matéria é de eleitorado e de estrutura, os dois médicos, de partido pequeno e com pouco tempo de TV. Não é comparação de ideias.
Quanto tempo de TV Cury tem contra o que Enéas tinha?
35 segundos por dia em 2026. Enéas teve 15 segundos em 1989 e 1 minuto e 17 segundos em 1994.
A pergunta que fica
O Brasil riu de um médico em 1994 e nunca soube o que teria acontecido. Trinta anos depois, os eleitores dele estão de volta, e a pergunta deles é uma só:
Dessa vez o país vai ouvir antes de rir?
Eu volto a cada passo, com fonte.






