Quinta-feira, 24 de setembro. Policiais federais entraram no gabinete de um desembargador do TRF-1, em Brasília, cumprindo ordem do corregedor nacional de Justiça.
Um dia antes, o mesmo corregedor cancelara 16 precatórios que somam R$ 4,7 bilhões.
No mesmo 24 de setembro, Gilmar Mendes levou ao plenário do Supremo a ação que está por trás de tudo isso, e Flávio Dino mandou a Polícia Federal investigar por que a CVM engavetou, em 2022, uma denúncia sobre o Banco Master.
Três decisões em um dia. Separo aqui o que está documentado do que é suspeita.
O que aconteceu, em ordem
A busca no gabinete foi determinada por Benedito Gonçalves, ministro do STJ e corregedor nacional de Justiça. O alvo é o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
Ele não foi afastado e segue no exercício do cargo. Chamou o procedimento de correição de "natural e regular" e disse estar à disposição "para prestar todos os esclarecimentos necessários".
Newton Ramos foi juiz auxiliar de Kassio Nunes Marques entre 2018 e 2020, quando o hoje ministro do STF era vice-presidente do TRF-1.
O que é a "Turma do KN"
A expressão apareceu em mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, pela Polícia Federal e enviadas ao STF. O Metrópoles publicou primeiro, em 21 de setembro, e a CNN confirmou.
"KN" é lido pelos investigadores como referência a Kassio Nunes Marques. A "turma" seria Newton Ramos e a mulher dele, a advogada Camilla Ramos.
O que as mensagens mostram, segundo as reportagens: o escritório de Camilla, o Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos, firmou contrato com o Banco Master para atuar em 12 processos do setor sucroalcooleiro.
Os honorários eram de 5% sobre o que o banco efetivamente recebesse. Como as ações podiam liberar até R$ 8,5 bilhões em precatórios, o teto do contrato chegava a R$ 427 milhões.
Não havia pagamento na assinatura. Era êxito puro. O escritório afirma que, até agora, "não recebeu nenhum pagamento a título de honorários ou de êxito".
Os trechos publicados
Reproduzo o que os veículos publicaram. Não tive acesso ao material original.
Camilla comemorando um resultado: "É um excelente voto do Min. Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização."
E pedidos feitos em nome do ministro: "Fasano Itaim essa sexta a sábado para KN." E: "Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional no Fasano." Resposta: "Pode botar na minha conta."
A mesma coluna lista outros pedidos que aparecem no material: mansão no Joá no Carnaval de 2025, a R$ 1,45 milhão por semana, passeios de helicóptero, camarotes e jato particular para um aniversário em Maceió.
A Revista Fórum publicou em 23 de setembro que a PF vê ali indícios de tráfico de influência.
Indício não é denúncia. Até 25 de setembro, o Ministério Público não denunciou ninguém por esses fatos.
A negativa de Nunes Marques, na íntegra
Ele não é alvo da operação do CNJ. E nega tudo. A nota dele, reproduzida pelo Metrópoles:
"O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master, nunca trocou mensagens com o banqueiro e nem pediu nada a ele. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele. São irresponsáveis quaisquer tentativas de relacionar a atuação do Ministro com os serviços prestados pelo filho ou quaisquer terceiros. Em relação ao processo citado sobre a usina, o ministro Kassio Nunes Marques estava impedido por anotação da Secretaria porque decidiu o caso como vice-presidente do TRF-1. Posteriormente compreendeu que tecnicamente não estava impedido, por se tratar de tese ampla, pediu retificação à Secretaria e acabou votando. Votou diversas vezes no mesmo sentido enquanto estava no TRF-1. Embora na mensagem eles estivessem comemorando o resultado, não se tratava de ação sobre o Master, era uma tese que se aplicaria a diversas empresas."
A negativa de Newton Ramos
O desembargador afirma que nunca julgou nenhum caso de interesse do Banco Master, que a relação com Vorcaro é pessoal, envolvendo imóveis e transporte por meio de participação em uma empresa privada, e que a mulher atua exclusivamente em causas cíveis, nenhuma no STF.
A briga de R$ 103,4 bilhões que explica tudo
Entre junho de 1989 e maio de 1994, o extinto Instituto do Açúcar e do Álcool tabelou os preços do setor sucroalcooleiro. As usinas processaram a União pedindo indenização pela diferença.
Mais de trinta anos depois, a conta chegou. A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 registra impacto de até R$ 103,4 bilhões para os cofres públicos nessas ações.
Em 2020, o STF fixou no Tema 826 que a indenização exige prova individual do prejuízo. A discussão agora é se cada usina precisa de perícia própria ou se basta o critério já fixado em decisão judicial.
Em junho de 2025, a Segunda Turma julgou a controvérsia em outro processo e o placar foi 3 a 2. Nunes Marques e Edson Fachin ficaram de um lado, Gilmar Mendes e André Mendonça do outro. Registro aqui uma divergência que não consegui resolver: CNN e Metrópoles publicam versões opostas sobre como votou Dias Toffoli e sobre qual lado venceu.
Agora Gilmar levou a questão ao plenário, em processo que opõe a União à Raízen Energia. A sessão virtual começou em 25 de setembro e vai até 2 de outubro.
O argumento dele: "sem prova pericial que aponte o prejuízo concreto sofrido pela usina, esses créditos são indevidos." E uma condenação que "ultrapassa a casa dos R$ 100 bilhões" mexe nas escolhas orçamentárias do país.
O que o CNJ cancelou
Em 23 de setembro, a pedido da AGU, Benedito Gonçalves mandou cancelar 16 precatórios do setor sucroalcooleiro, no total de R$ 4,7 bilhões.
O problema apontado: os precatórios foram expedidos antes do trânsito em julgado das ações. O dinheiro estava parado em conta judicial desde dezembro de 2023.
A decisão manda devolver os valores, com rendimentos, à Conta Única do Tesouro, dá cinco dias ao tribunal para executar e bloqueia levantamentos, alvarás e pagamentos de honorários ligados a esses precatórios. As usinas citadas: Companhia Açucareira Usina Capricho, Una Agroindustrial e Companhia Açucareira Vale do Ceará Mirim.
Detalhe que muita cobertura confunde: R$ 8,5 bilhões é o potencial das 12 ações do contrato. R$ 4,7 bilhões é o que o CNJ cancelou. São recortes diferentes.
O braço da CVM
No mesmo 24 de setembro, Flávio Dino mandou a PF investigar a Comissão de Valores Mobiliários.
Em 2022, o Fundo Garantidor de Créditos apresentou denúncia formal à CVM sobre o Banco Master. Segundo a decisão, o FGC apontava que cerca de R$ 3 bilhões, de R$ 5 bilhões cobertos pelo fundo, estavam alocados em ativos ilíquidos ou de baixa qualidade.
A área técnica da CVM classificou aquilo como denúncia anônima sem elementos suficientes e arquivou, sem abrir processo sancionador. Só em fevereiro de 2026 a autarquia criou um grupo de trabalho sobre o caso.
Dino escreveu que há indícios que configuram "o dever legal de apurar eventuais crimes relacionados à conduta de agentes públicos da CVM", e que elementos indicam "possível participação de pessoas submetidas à jurisdição criminal originária desta Corte". Prazo inicial para o relatório da PF: 60 dias.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, com rombo estimado em cerca de R$ 52 bilhões. Vorcaro está preso desde 4 de março de 2026, com a preventiva mantida por unanimidade pela Segunda Turma do STF em 20 de março.
Os números, em uma tabela
| Item | Valor |
|---|---|
| Teto do contrato de honorários | R$ 427 milhões |
| Percentual | 5% do que o banco recebesse |
| Processos cobertos | 12 |
| Precatórios potenciais nessas ações | R$ 8,5 bilhões |
| Precatórios cancelados pelo CNJ | 16, somando R$ 4,7 bilhões |
| Impacto total do tema pela LDO 2026 | R$ 103,4 bilhões |
| Denúncia do FGC à CVM em 2022 | cerca de R$ 3 bilhões em ativos ilíquidos |
| Rombo estimado do Banco Master | cerca de R$ 52 bilhões |
O que joga contra, e entra
"Então o ministro do STF está sendo investigado." Não. Nunes Marques não é alvo da operação do CNJ. A busca foi no gabinete de um desembargador do TRF-1.
"Busca e apreensão é prova de culpa." Não é. É diligência de coleta em procedimento administrativo de correição. O próprio desembargador chamou o procedimento de regular.
"O escritório embolsou R$ 427 milhões." Não. O valor era teto de êxito, e o escritório afirma não ter recebido nada até agora.
"As usinas são golpistas." A ação nasce de um tabelamento de preços feito pelo Estado entre 1989 e 1994, e já teve decisões favoráveis a elas. O que o STF discute é o critério de cálculo, não a existência do direito.
A resposta
A "Turma do KN" é, até aqui, uma expressão que aparece em mensagens apreendidas no celular de um banqueiro preso. Ela dá nome a um contrato de honorários de êxito de até R$ 427 milhões, ligado a processos que podem custar R$ 103,4 bilhões à União.
Há busca e apreensão. Há correição do CNJ. Há indício de tráfico de influência apontado pela PF. Não há, até 25 de setembro, denúncia formal contra ninguém, nem afastamento, nem condenação.
Todos os citados negam. As negativas estão aí em cima, com nome e palavra.
O que separa suspeita de crime, nesse caso, é uma perícia, um parecer do Ministério Público e um julgamento. Nenhum dos três aconteceu ainda.








