Começo pelo que esta matéria não diz.
Trocar mensagem carinhosa com um amigo não é crime. Davi Alcolumbre não foi denunciado nem condenado por causa dessas conversas. Não há, até aqui, procedimento aberto contra ele por elas.
Dito isso, aqui está o que a Polícia Federal encontrou.
O que foi publicado
Em 24 de setembro, a revista Veja, em reportagem de Robson Bonin e Laryssa Borges, publicou mensagens extraídas pela PF do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, no âmbito da investigação sobre o banco.
A troca principal é do dia 1º de fevereiro de 2025, data em que Alcolumbre foi eleito presidente do Senado.
Vorcaro: "Parabéns, meu amigo! Que venham seus melhores anos!"
Alcolumbre: "Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Gratidão!"
Alcolumbre: "Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!"
Vorcaro: "E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer."
Uma observação de apuração: a maior parte dos veículos data as quatro mensagens em 1º de fevereiro de 2025. O Metrópoles datou a resposta em 2 de fevereiro e a frase "Sou seu irmão" em 30 de março. Sem acesso ao material original, registro a divergência.
O grupo chamado Macallan
As mensagens também mostram um grupo de WhatsApp batizado com o nome de um uísque escocês, reunindo Vorcaro, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e outros, usado para organizar eventos privados.
Em outubro de 2023, Faria escreve no grupo, falando de Alcolumbre: "Foda que o Davi aprendeu a falar pelo Google tradutor." E, em outra mensagem: "Davi falou q está com dança nova."
Em 28 de março de 2024, tratando de um encontro em Londres, Faria propõe: "Fazemos um pacto com Davi q só pode falar pro careca." Vorcaro responde: "To achando que não vai dar pra fazer off."
Quem é "careca" não está estabelecido. Dois veículos atribuem o apelido a uma autoridade específica. Sem o material original, não reproduzo a identificação.
A noite de Londres, com preço
Em 25 de abril de 2024, houve uma degustação de uísque Macallan no George Club, em Mayfair, Londres, à margem do 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias.
Custo aproximado: US$ 640.831,88, cerca de R$ 3,2 milhões pelo câmbio da época. Patrocínio do Banco Master.
Fábio Faria enviou nota à Veja negando que as mensagens sobre reserva de suítes em Londres tivessem relação com o presidente do Senado ou com festas privadas. Segundo ele, a conversa sobre suítes tratava de uma viagem com quatro empresários que avaliavam participação no clube inglês Queens Park Rangers.
A mensagem de julho de 2025
Esta é a que mais interessa a quem olha instituição, e não fofoca.
Em julho de 2025, no período em que o Banco Central analisava a venda do Banco Master ao BRB, Hugo Motta, presidente da Câmara, escreve a Vorcaro:
"Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião."
Gabriel Galípolo preside o Banco Central. A venda acabou vetada pela autoridade monetária.
A mensagem relata uma intenção. Não localizei confirmação de que o encontro aconteceu, nem manifestação de Motta ou de Galípolo sobre ela.
A resposta de Alcolumbre, inteira
A assessoria do presidente do Congresso divulgou nota no mesmo 24 de setembro.
A nota diz que a revista promove um "injusto ataque", usando "supostas mensagens de teor pessoal" que "não indicam ilegalidade alguma".
Classifica a publicação como "sensacionalismo barato, movido por interesses ilegítimos", afirma que a revista não checou as informações nem pediu direito de resposta, e anuncia medidas judiciais para "reparação dos danos" e "reposição da verdade".
A defesa de Vorcaro, nas investigações do Banco Master, sustenta que as apurações se fundam em fato inexistente. Não localizei manifestação dele sobre estas mensagens.
Por que isso pesa, mesmo sem crime
Aqui está o nó institucional, e ele não depende de nenhuma das mensagens acima ser ilegal.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. O Fundo Garantidor de Créditos já pagou R$ 32,5 bilhões a credores. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025, solto em 29 de novembro e detido de novo em 4 de março de 2026.
Em 3 de fevereiro de 2026, um pedido de CPMI do Banco Master foi protocolado com 42 senadores e 238 deputados, muito acima do mínimo. Pela Constituição, artigo 58, parágrafo 3º, uma comissão com assinaturas suficientes é de criação automática.
Na prática, ela depende de um ato: alguém precisa ler o requerimento em sessão do Congresso. Esse alguém é o presidente do Congresso, que é o presidente do Senado.
Que é Davi Alcolumbre.
A revista já contou esse capítulo em setembro: a CPMI passou de 217 dias esperando uma leitura de dois minutos.
O que já existia antes
Em 11 de junho de 2026, Alcolumbre negou ter recebido US$ 30 milhões, cerca de R$ 155 milhões à época, de Vorcaro, em operação que teria sido intermediada por Augusto Lima. Na ocasião também disse que iria à Justiça.
As mensagens de agora não provam aquele repasse. Elas fazem outra coisa: estabelecem proximidade onde antes havia versões contraditórias sobre o grau de conhecimento entre os dois.
O que joga contra, e entra
"Mandar 'meu amor' não é crime." Não é mesmo, e esta matéria não diz que é. O problema é de outra ordem: quem decide se a CPMI do banco sai do papel é a mesma pessoa que chamava o dono do banco de irmão para a vida toda.
"É vazamento seletivo, em ano eleitoral." Crítica legítima, e é exatamente o que diz a nota de Alcolumbre, reproduzida acima na íntegra. Quem vazou, e por quê, é pergunta aberta.
"Ele já negou, acabou." A negativa está registrada. O que a nota faz é chamar as mensagens de "supostas" e classificá-las como pessoais. Ela não desmente nenhuma frase específica.
"Isso derruba o presidente do Senado?" Nada indica isso. Não há processo em curso por causa das conversas, e o Conselho de Ética do Senado está inativo desde 2024.
"O Thiago está atrás do Alcolumbre." Estou atrás da CPMI. São 42 senadores e 238 deputados pedindo, R$ 32,5 bilhões pagos pelo fundo garantidor, e uma leitura de dois minutos que não acontece.
A resposta
O que as mensagens dizem: o presidente do Senado e o dono do Banco Master tinham relação próxima, afetuosa, com contato social organizado por terceiros, e com pelo menos uma conversa que envolve o presidente do Banco Central em julho de 2025.
O que as mensagens não dizem: que houve crime, propina ou favor ilegal. Ninguém afirmou isso, e eu não vou afirmar.
O que sobra é uma pergunta que independe de inquérito: uma pessoa que escreve "sou seu irmão, pra vida toda" para um banqueiro deveria ser a mesma que decide, sozinha, se o Congresso vai investigar o banco dele?
A resposta não está na PF. Está no Regimento, e na consciência de quem segura o papel.
Matéria completa · euthiagodecastro.com.br







