Revista De Castro

Notícias / 25 de setembro de 2026

Eu fui checar

Mais de 100 delegados saíram antes de Netanyahu falar. E foi exatamente isso que ele queria

Quinta-feira, 24 de setembro, Assembleia Geral da ONU. O plenário esvaziou quando ele subiu à tribuna, e a primeira frase do discurso foi um convite para que os outros covardes morais saíssem também. Lá fora, a polícia de Nova York deteve 103 pessoas, entre elas Susan Sarandon e Hannah Einbinder. Esta matéria não é sobre quem tem razão na guerra. É sobre a técnica de comunicação que transformou uma derrota diplomática visível em peça de campanha, e sobre o que ela ensina a qualquer pessoa que fale em público.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
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Notícias
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18 citadas
U.S. Secretary of Defense / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
U.S. Secretary of Defense / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Benjamin Netanyahu subiu à tribuna da Assembleia Geral da ONU na quinta-feira, 24 de setembro, e viu mais de 100 delegados se levantarem e sair.

A primeira frase que ele disse não foi sobre Gaza, nem sobre o Irã.

Foi esta: "Senhor presidente, antes de começar, um aviso rápido. Se houver outros covardes morais que ainda não deixaram este salão, por favor, saiam agora."

O plenário que sobrou aplaudiu de pé.

O que este texto é, e o que não é

Aviso logo, porque o assunto é minado.

Esta matéria não julga a guerra, não define quem tem razão e não usa a palavra genocídio por conta própria. Quando ela aparece, é entre aspas, com o nome de quem disse.

O que eu vim analisar é outra coisa: como um político transforma uma humilhação pública visível em material de campanha, e o que essa técnica ensina a quem precisa falar em público. É estudo de posicionamento.

A cena, com número

Foi a 81ª sessão da Assembleia Geral, em Nova York.

Mais de 100 delegados deixaram os assentos quando Netanyahu se aproximou do púlpito, segundo a Foreign Policy e a Fox News. O Times of Israel registra que muitas eram delegações árabes e de maioria muçulmana. Nenhum veículo publicou lista completa de países.

Um detalhe que muda o enquadramento: o plenário não ficou vazio, ficou esvaziado. Delegações permaneceram. E os convidados da galeria, esses deram ovação de pé e vaiaram os diplomatas que saíam. Apoiadores gritaram "Am Yisrael Chai".

O discurso estava previsto para cerca de 40 minutos, tempo incomum para a Assembleia Geral, segundo a Al Jazeera.

No dia anterior, Mahmoud Abbas tinha discursado por vídeo, depois de ter o visto negado pelos Estados Unidos, e foi aplaudido.

Lá fora, 103 detidos

Enquanto isso, na Primeira Avenida, a poucos quarteirões da sede da ONU, manifestantes fizeram um sit-in.

A polícia de Nova York deteve 103 pessoas, segundo a CNN. Entre elas, a atriz Susan Sarandon e a atriz e comediante Hannah Einbinder, de Hacks. Vídeos mostraram as duas com as mãos presas por abraçadeiras, conduzidas a um ônibus da NYPD.

Einbinder escreveu num story: "Se as fotos dos meus amigos e minhas sendo presos em protesto contra a visita vergonhosa de Netanyahu a Nova York chamarem atenção para alguma coisa, que seja para a devastadora guerra genocida que está sendo travada contra o povo da Palestina e do Sul do Líbano."

A CBS registra ainda a candidata democrata Darializa Avila Chevalier entre os detidos.

A escolha do inimigo, que é o coração da técnica

Aqui está a parte que interessa a quem estuda comunicação.

Netanyahu tinha o mundo inteiro disponível como alvo. Escolheu um prefeito.

Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, foi nomeado da tribuna da ONU e chamado de antissemita.

As frases: "Senhor Mamdani, você tentou me impedir de vir aqui. Você tentou me silenciar. Bem, você não pode me silenciar." E depois: "Que vergonha. Que vergonha por distorcer os fatos. Que vergonha por inverter vítima e agressor." E ainda: "Desde que você foi eleito prefeito desta cidade, muitos judeus não se sentem mais seguros em Nova York."

Ele citou também o streamer Hasan Piker, descrito como amigo de Mamdani, dizendo que ele "acredita que a América mereceu o 11 de setembro".

Por que um prefeito, e não um chefe de Estado?

Porque um prefeito de Nova York é reconhecível, local e específico. Chefe de Estado é abstrato. Prefeito tem rosto, nome curto e uma cidade que a plateia conhece. É o adversário de melhor custo-benefício narrativo que existia naquela sala.

Mamdani respondeu, e o combate ficou completo

O prefeito emitiu nota: "Como tem feito repetidamente, o primeiro-ministro Netanyahu usou seu discurso para repetir mentiras infundadas destinadas a higienizar seu genocídio de palestinos. Ainda assim, nenhuma mentira muda o fato de que ele continua sendo alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e crimes contra a humanidade."

Mamdani já havia dito que mandaria a NYPD prender Netanyahu se ele visitasse a cidade, com base no mandado do TPI, que os Estados Unidos não reconhecem formalmente.

Repare no mecanismo: os dois precisam um do outro para existir na manchete daquele dia. Quem escolhe o inimigo escolhe também a companhia.

Os outros alvos, em ordem de tamanho

Netanyahu não parou no prefeito.

Sobre o Catar: acusou o país de gastar bilhões em universidades americanas e na Al Jazeera para "lavar cérebros jovens para odiar Israel, odiar a América e odiar o Ocidente".

Sobre a Turquia: chamou Erdoğan de "tirano", acusou-o de hospedar chefes do Hamas e de matar civis curdos.

Sobre o Irã: "Com nossos grandes amigos americanos, esmagamos o exército, a marinha, a força aérea e as instalações nucleares do Irã." E: "se não tivéssemos feito isso, estaríamos todos mortos".

Sobre a acusação de genocídio: "Israel não cometeu genocídio. Israel impediu um genocídio." Chamou a acusação de "a maior mentira do século".

Fechou com uma frase que atribuiu ao irmão Yonatan: "Vamos vencer. Não temos outra escolha."

Os dois objetos que ele levou à tribuna

Netanyahu ergueu um pager, lembrando os ataques de setembro de 2024 contra o Hezbollah.

E mostrou um terminal Starlink, dizendo que deixaria o aparelho para a delegação iraniana, para que contassem a própria história "quando inevitavelmente desertarem".

Objeto na mão em discurso não é vaidade cênica: é âncora de memória. A plateia esquece o parágrafo e lembra do que você segurou. Quem já viu um palestrante levantar uma fruta, uma nota amassada ou um tijolo sabe exatamente do que estou falando.

O público real não estava naquele salão

Este é o dado que explica tudo.

Israel tem eleição ainda em 2026, e pesquisas mostram queda de apoio ao Likud, como registrou a Al Jazeera.

Analistas ouvidos pela mesma Al Jazeera dizem que o público real do discurso é o eleitor israelense. Um deles descreve que Netanyahu transformou o evento em uma espécie de feriado nacional em Israel, com todo mundo sentado assistindo.

Se o público é a TV de casa em Tel Aviv, a saída de 100 delegados deixa de ser derrota e vira prova visual de uma tese. "O mundo está contra nós, e eu enfrento o mundo" é uma frase difícil de provar em tese. A câmera provou em quatro segundos.

O contexto, atribuído a quem o publicou

Segundo a UN News, o discurso aconteceu quase três anos depois dos ataques de 7 de outubro de 2023, que mataram mais de 1.200 israelenses, e das operações militares subsequentes em Gaza, com mais de 73 mil mortes palestinas registradas.

Registro os números como a ONU os publica. Não é a revista quem os produz.

O que joga contra, e entra

"Você está fazendo propaganda para ele." Descrever uma técnica não é endossá-la. A mesma mecânica é usada por gente de todos os lados, inclusive pelos manifestantes da Primeira Avenida, que escolheram atrizes conhecidas para dar rosto à causa. Os dois lados sabem produzir imagem.

"Você está minimizando a guerra." A guerra não é o tema desta matéria, e os números da ONU estão no texto, com fonte. Quem quiser a discussão do mérito vai encontrar em outro lugar, com quem tenha condição de apurar em campo.

"Plenário vazio é derrota, e ponto." No cálculo diplomático, é. No cálculo eleitoral doméstico, a Al Jazeera mostra que não. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é por isso que a cena vale análise.

"As atrizes só queriam aparecer." Podiam ter emitido nota. Sentaram no asfalto e foram algemadas. Isso tem custo real, e Einbinder assumiu publicamente logo depois.

"Mais de 100 delegados é exagero." É o número publicado por Foreign Policy e Fox News. Nenhuma lista oficial de países foi divulgada, e eu não invento a lista que não existe.

A resposta

Netanyahu perdeu o plenário e ganhou o dia.

A lição não é sobre ele, e não é sobre a guerra. É sobre uma engrenagem que funciona em qualquer escala, inclusive na sua.

Quem define o adversário define o assunto. Quem define o assunto define a manchete. E quando o adversário responde, ele carrega a manchete do outro nas costas, de graça.

Foi por isso que o primeiro-ministro de um país em guerra em várias frentes gastou tempo de tribuna da ONU com o prefeito da cidade onde estava falando.

Não foi descontrole. Foi escolha.

Fontes desta materia

  1. CBS News, Netanyahu UN speech, Israel criticism, Mamdani, protests
  2. Foreign Policy, U.N. Delegates Walk Out Ahead of Netanyahu's UNGA Speech
  3. Fox News, Netanyahu calls UN delegates moral cowards at UN General Assembly
  4. Times of Israel, In fiery UN speech, Netanyahu blasts Iran, Qatar, Turkey
  5. UN News, Israeli leader at UN: We're going to win, we have no other choice
  6. JTA, Netanyahu calls Mamdani an antisemite who endangers Jews in New York
  7. CNN, Susan Sarandon, Hannah Einbinder among more than 100 detained during anti-Netanyahu protest outside UN
  8. Variety, Hannah Einbinder and Susan Sarandon detained by police while protesting Netanyahu's speech
  9. Hollywood Reporter, Susan Sarandon, Hannah Einbinder arrested in Netanyahu protest
  10. Al Jazeera, Netanyahu takes UN stage with one eye on Israel's election
  11. Al Jazeera, Netanyahu attacks Israel's enemies and allies in UN speech
  12. The Hill, Netanyahu slams critics, Mamdani in defiant speech as UN delegates walk out
  13. Jewish Virtual Library, transcrição do discurso de Netanyahu na Assembleia Geral de 2026
  14. Mediaite, Netanyahu rips Mamdani as antisemitic mayor of New York
  15. NBC News, Netanyahu takes the U.N. stage facing global isolation and a fight for his political future
  16. PBS News, Watch: Israeli Prime Minister Netanyahu addresses 2026 UN General Assembly
  17. Metrópoles, Susan Sarandon e Hannah Einbinder são presas em protesto contra Netanyahu
  18. RTÉ, Dozens of envoys at UN walk out of Netanyahu speech