Benjamin Netanyahu subiu à tribuna da Assembleia Geral da ONU na quinta-feira, 24 de setembro, e viu mais de 100 delegados se levantarem e sair.
A primeira frase que ele disse não foi sobre Gaza, nem sobre o Irã.
Foi esta: "Senhor presidente, antes de começar, um aviso rápido. Se houver outros covardes morais que ainda não deixaram este salão, por favor, saiam agora."
O plenário que sobrou aplaudiu de pé.
O que este texto é, e o que não é
Aviso logo, porque o assunto é minado.
Esta matéria não julga a guerra, não define quem tem razão e não usa a palavra genocídio por conta própria. Quando ela aparece, é entre aspas, com o nome de quem disse.
O que eu vim analisar é outra coisa: como um político transforma uma humilhação pública visível em material de campanha, e o que essa técnica ensina a quem precisa falar em público. É estudo de posicionamento.
A cena, com número
Foi a 81ª sessão da Assembleia Geral, em Nova York.
Mais de 100 delegados deixaram os assentos quando Netanyahu se aproximou do púlpito, segundo a Foreign Policy e a Fox News. O Times of Israel registra que muitas eram delegações árabes e de maioria muçulmana. Nenhum veículo publicou lista completa de países.
Um detalhe que muda o enquadramento: o plenário não ficou vazio, ficou esvaziado. Delegações permaneceram. E os convidados da galeria, esses deram ovação de pé e vaiaram os diplomatas que saíam. Apoiadores gritaram "Am Yisrael Chai".
O discurso estava previsto para cerca de 40 minutos, tempo incomum para a Assembleia Geral, segundo a Al Jazeera.
No dia anterior, Mahmoud Abbas tinha discursado por vídeo, depois de ter o visto negado pelos Estados Unidos, e foi aplaudido.
Lá fora, 103 detidos
Enquanto isso, na Primeira Avenida, a poucos quarteirões da sede da ONU, manifestantes fizeram um sit-in.
A polícia de Nova York deteve 103 pessoas, segundo a CNN. Entre elas, a atriz Susan Sarandon e a atriz e comediante Hannah Einbinder, de Hacks. Vídeos mostraram as duas com as mãos presas por abraçadeiras, conduzidas a um ônibus da NYPD.
Einbinder escreveu num story: "Se as fotos dos meus amigos e minhas sendo presos em protesto contra a visita vergonhosa de Netanyahu a Nova York chamarem atenção para alguma coisa, que seja para a devastadora guerra genocida que está sendo travada contra o povo da Palestina e do Sul do Líbano."
A CBS registra ainda a candidata democrata Darializa Avila Chevalier entre os detidos.
A escolha do inimigo, que é o coração da técnica
Aqui está a parte que interessa a quem estuda comunicação.
Netanyahu tinha o mundo inteiro disponível como alvo. Escolheu um prefeito.
Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, foi nomeado da tribuna da ONU e chamado de antissemita.
As frases: "Senhor Mamdani, você tentou me impedir de vir aqui. Você tentou me silenciar. Bem, você não pode me silenciar." E depois: "Que vergonha. Que vergonha por distorcer os fatos. Que vergonha por inverter vítima e agressor." E ainda: "Desde que você foi eleito prefeito desta cidade, muitos judeus não se sentem mais seguros em Nova York."
Ele citou também o streamer Hasan Piker, descrito como amigo de Mamdani, dizendo que ele "acredita que a América mereceu o 11 de setembro".
Por que um prefeito, e não um chefe de Estado?
Porque um prefeito de Nova York é reconhecível, local e específico. Chefe de Estado é abstrato. Prefeito tem rosto, nome curto e uma cidade que a plateia conhece. É o adversário de melhor custo-benefício narrativo que existia naquela sala.
Mamdani respondeu, e o combate ficou completo
O prefeito emitiu nota: "Como tem feito repetidamente, o primeiro-ministro Netanyahu usou seu discurso para repetir mentiras infundadas destinadas a higienizar seu genocídio de palestinos. Ainda assim, nenhuma mentira muda o fato de que ele continua sendo alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e crimes contra a humanidade."
Mamdani já havia dito que mandaria a NYPD prender Netanyahu se ele visitasse a cidade, com base no mandado do TPI, que os Estados Unidos não reconhecem formalmente.
Repare no mecanismo: os dois precisam um do outro para existir na manchete daquele dia. Quem escolhe o inimigo escolhe também a companhia.
Os outros alvos, em ordem de tamanho
Netanyahu não parou no prefeito.
Sobre o Catar: acusou o país de gastar bilhões em universidades americanas e na Al Jazeera para "lavar cérebros jovens para odiar Israel, odiar a América e odiar o Ocidente".
Sobre a Turquia: chamou Erdoğan de "tirano", acusou-o de hospedar chefes do Hamas e de matar civis curdos.
Sobre o Irã: "Com nossos grandes amigos americanos, esmagamos o exército, a marinha, a força aérea e as instalações nucleares do Irã." E: "se não tivéssemos feito isso, estaríamos todos mortos".
Sobre a acusação de genocídio: "Israel não cometeu genocídio. Israel impediu um genocídio." Chamou a acusação de "a maior mentira do século".
Fechou com uma frase que atribuiu ao irmão Yonatan: "Vamos vencer. Não temos outra escolha."
Os dois objetos que ele levou à tribuna
Netanyahu ergueu um pager, lembrando os ataques de setembro de 2024 contra o Hezbollah.
E mostrou um terminal Starlink, dizendo que deixaria o aparelho para a delegação iraniana, para que contassem a própria história "quando inevitavelmente desertarem".
Objeto na mão em discurso não é vaidade cênica: é âncora de memória. A plateia esquece o parágrafo e lembra do que você segurou. Quem já viu um palestrante levantar uma fruta, uma nota amassada ou um tijolo sabe exatamente do que estou falando.
O público real não estava naquele salão
Este é o dado que explica tudo.
Israel tem eleição ainda em 2026, e pesquisas mostram queda de apoio ao Likud, como registrou a Al Jazeera.
Analistas ouvidos pela mesma Al Jazeera dizem que o público real do discurso é o eleitor israelense. Um deles descreve que Netanyahu transformou o evento em uma espécie de feriado nacional em Israel, com todo mundo sentado assistindo.
Se o público é a TV de casa em Tel Aviv, a saída de 100 delegados deixa de ser derrota e vira prova visual de uma tese. "O mundo está contra nós, e eu enfrento o mundo" é uma frase difícil de provar em tese. A câmera provou em quatro segundos.
O contexto, atribuído a quem o publicou
Segundo a UN News, o discurso aconteceu quase três anos depois dos ataques de 7 de outubro de 2023, que mataram mais de 1.200 israelenses, e das operações militares subsequentes em Gaza, com mais de 73 mil mortes palestinas registradas.
Registro os números como a ONU os publica. Não é a revista quem os produz.
O que joga contra, e entra
"Você está fazendo propaganda para ele." Descrever uma técnica não é endossá-la. A mesma mecânica é usada por gente de todos os lados, inclusive pelos manifestantes da Primeira Avenida, que escolheram atrizes conhecidas para dar rosto à causa. Os dois lados sabem produzir imagem.
"Você está minimizando a guerra." A guerra não é o tema desta matéria, e os números da ONU estão no texto, com fonte. Quem quiser a discussão do mérito vai encontrar em outro lugar, com quem tenha condição de apurar em campo.
"Plenário vazio é derrota, e ponto." No cálculo diplomático, é. No cálculo eleitoral doméstico, a Al Jazeera mostra que não. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é por isso que a cena vale análise.
"As atrizes só queriam aparecer." Podiam ter emitido nota. Sentaram no asfalto e foram algemadas. Isso tem custo real, e Einbinder assumiu publicamente logo depois.
"Mais de 100 delegados é exagero." É o número publicado por Foreign Policy e Fox News. Nenhuma lista oficial de países foi divulgada, e eu não invento a lista que não existe.
A resposta
Netanyahu perdeu o plenário e ganhou o dia.
A lição não é sobre ele, e não é sobre a guerra. É sobre uma engrenagem que funciona em qualquer escala, inclusive na sua.
Quem define o adversário define o assunto. Quem define o assunto define a manchete. E quando o adversário responde, ele carrega a manchete do outro nas costas, de graça.
Foi por isso que o primeiro-ministro de um país em guerra em várias frentes gastou tempo de tribuna da ONU com o prefeito da cidade onde estava falando.
Não foi descontrole. Foi escolha.








