São Gonçalo, 24 de setembro. A nove dias da eleição, Lula subiu o tom mais do que em qualquer momento da campanha.
"Da mesma forma que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, no Palácio do Planalto não cabe a representação de miliciano lá dentro."
Ele não citou nome. Mas a frase tem endereço, e tem um documento por trás: uma emenda parlamentar de R$ 199.999,79.
Fui ler o que a Polícia Federal afirma, o que o Tribunal de Contas da União apontou, e o que o gabinete do senador responde.
A emenda, linha por linha
| Item | Dado |
|---|---|
| Valor | R$ 199.999,79 |
| Autor | senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) |
| Beneficiária | Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o Ifop |
| Projeto | "Jogadores do Futuro", futebol para crianças em Taquara, Jacarepaguá |
| Ministério | Esporte |
| Negociação | outubro e novembro de 2023 |
| Pagamento | novembro de 2023 |
Quem pediu a emenda foi Robson Calixto Fonseca, conhecido como "Peixe".
A CNN registra que os investigadores examinaram também cerca de R$ 400 mil enviados ao município de Barra do Piraí, somando R$ 599.128,00 no conjunto analisado.
Quem é Peixe, com precisão
Ex-policial militar, foi assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio.
Em fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal o condenou por organização criminosa armada, pela integração à estrutura de milícia liderada pelos irmãos Brazão. Pena: 9 anos.
Segundo a delação do assassino confesso Ronnie Lessa, foi Peixe quem o apresentou aos mandantes e quem providenciou a submetralhadora HK MP5 usada nos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. A PF o descreve como o principal intermediário entre os mandantes e os executores.
Faço aqui uma distinção que boa parte da cobertura perde: a condenação de fevereiro foi por organização criminosa armada, com pena de nove anos. Vários veículos escrevem "condenado pelo assassinato de Marielle". Quando os textos divergem, fico com a formulação mais específica.
As mensagens
Extraídas do celular de Peixe pela Polícia Federal e reproduzidas pelo Estado de Minas. O interlocutor no gabinete era Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar de Flávio no Senado.
24 de outubro de 2023, Peixe: "Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar."
Resposta dela: "Manda a solicitação meu amigo. Um e-mail ou um ofício."
30 de outubro, ele pergunta se há "notícias boas".
6 de novembro: "Bom dia, amiga não esquece do IFOP não, vê se o Senador consegue nos agraciar."
O contato da assessora estava salvo no celular dele como "Fafá Flávio Bolsonaro".
Segundo a mesma reportagem, houve pedidos posteriores de vantagens, entre eles ingressos para o Carnaval em janeiro de 2024.
O que a PF diz, e o que ela não diz
Esta é a parte que importa mais que a frase de palanque.
A PF afirma: que encontrou no celular de Peixe conversas com pedido direto de recursos ligado ao gabinete; que a assessora aparece como interlocutora direta do miliciano; que investiga se emendas destinadas a entidades ligadas ao grupo dos Brazão foram desviadas. A apuração foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes.
A PF não afirma: que Flávio Bolsonaro sabia quem era Robson Calixto quando a emenda foi destinada. Não há denúncia do Ministério Público contra o senador por esses fatos. E não existe acusação formal de que ele integre milícia.
A palavra "miliciano", no discurso de Lula, descreve quem pediu a emenda. Não quem a destinou. Quem lê precisa dessa distinção para julgar sozinho.
O que o TCU apontou
Relatório técnico do Tribunal de Contas da União, de 2025, indicou indícios de irregularidade na aplicação do dinheiro.
O principal: o Ifop contratou a Romulo Alves Sociedade Individual de Advocacia para coordenar um projeto esportivo. A empresa presta serviços de advocacia. E o presidente do Ifop era o responsável pela empresa contratada, o que configura possível conflito de interesse.
Indício não é conclusão. O relatório aponta, não condena.
A resposta do senador
Pelo gabinete:
"A destinação dos recursos seguiu a legislação vigente e os critérios técnicos do Ministério do Esporte."
Flávio Bolsonaro acrescenta que a responsabilidade pela execução do dinheiro é da entidade beneficiária, que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, e que a entidade executora apresentou notas fiscais e devolveu os recursos não utilizados.
Por que o Rio, e por que São Gonçalo
Um comício é escolha de mapa. Aqui estão os números que explicam este.
O estado. O Rio tem mais de 12,8 milhões de eleitores. A capital concentra 4.950.429. São Gonçalo é o segundo maior município do estado, com 653.494 eleitores.
A casa do adversário. Flávio Bolsonaro é senador pelo Rio. O caso Marielle é um caso do Rio.
A milícia não é assunto abstrato ali. O TRE-RJ mudou 268 locais de votação em relação a 2024. Mais de 202 mil eleitores tiveram o local transferido por influência de facções e milícias. São Gonçalo está entre os municípios com pontos de votação em área de presença do Comando Vermelho, junto com a capital, Niterói e Itaboraí.
A conta do Senado
Lula falou com todas as letras:
"A gente não pode permitir que a direita faça maioria no Senado, senão eles vão transformar esse país num inferno."
A matemática por trás disso: em 2026 estão em disputa 54 das 81 cadeiras, dois terços do Senado.
Dos 27 senadores que seguem com mandato até 2031, 17 são ligados à direita e 7 ao governo. Para ter maioria, a direita precisa eleger 24 das 54 vagas. O campo de Lula precisa de 34.
Por isso ele pediu o voto duplo, com nome e ordem:
"Quem votar na Bendita, o segundo voto é em Pedro Paulo."
E por que o pedido era urgente
Quaest do Rio, 1.302 entrevistados de 19 a 22 de setembro, margem de 3 pontos.
| Candidato ao Senado | Partido | % |
|---|---|---|
| Benedita da Silva | PT | 15% |
| Carlos Jordy | PL | 10% |
| Carlos Portinho | PL | 10% |
| Marcelo Crivella | Republicanos | 7% |
| Pedro Paulo | PSD | 6% |
| Monica Benício | PSOL | 4% |
| Waguinho | Republicanos | 3% |
São duas vagas. Benedita lidera com folga. A segunda está embolada entre quatro nomes, e 42% do eleitorado ainda está indeciso, em branco ou nulo.
E no plano nacional o Datafolha de 1º a 3 de setembro deu Lula 38% e Flávio 32% no primeiro turno, com empate técnico em segundo turno, 46% a 44%.
Empate técnico nacional, segunda vaga do Senado do Rio em aberto. O palanque de São Gonçalo é cálculo, não acaso.
Os dois lados no TSE
Em 23 de setembro, a coligação de Lula protocolou cinco ações contra Flávio Bolsonaro e o Partido Liberal por propaganda em rádio e TV.
O que foi questionado: uma peça de rádio que intercalava declarações de Lula com a palavra "Mentira!" repetida e terminava com "Cuidado, nessa eleição ele vai mentir de novo"; uma peça de TV que falava em "recorde de brasileiros endividados" e em "rombos nas estatais" sem dizer quais; e a omissão do vice nas peças.
O argumento da petição: a propaganda "procura criar a impressão de que declarações do petista teriam sido comprovadamente desmentidas" sem apresentar contrapontos factuais.
A coligação citou um precedente do próprio TSE contra a chapa de Lula e pediu o mesmo tratamento para o adversário.
O que joga contra, e entra
"Lula chamou Flávio de miliciano." Ele disse que no Planalto "não cabe a representação de miliciano", sem citar nome naquela frase. A diferença entre "representação de" e "ser" muda o que se pode afirmar.
"A emenda prova ligação com milícia." Prova que um miliciano condenado pediu a emenda ao gabinete e que a emenda saiu. Se houve conhecimento e se houve desvio está sob investigação, sem denúncia até agora.
"R$ 200 mil é dinheiro pequeno demais para escândalo." É pequeno, e é justamente por isso que uma emenda desse tamanho passa sem chamar atenção. O que pesa aqui é quem pediu.
"O TCU já concluiu que houve desvio." Não concluiu. Apontou indícios, o principal deles a contratação de um escritório de advocacia para coordenar projeto de futebol.
"Isso é só palanque." Também é. E as cinco ações no TSE mostram que os dois lados estão usando a Justiça Eleitoral como peça da campanha.
O que não entrou
Circulou que as hashtags "Flávio candidato do crime" e "Aqui todo mundo é Silva" ficaram 13 horas entre os assuntos mais comentados do X. Procurei fonte que confirmasse alcance e duração. Não achei. Por isso o dado não está nesta matéria.
A resposta
A frase de Lula é discurso de campanha, e como tal deve ser lida.
O que existe de documento embaixo dela: uma emenda de R$ 199.999,79 pedida por um homem condenado a nove anos por organização criminosa armada, mensagens apreendidas pela PF em que ele chama o parlamentar de "nosso Senador", um relatório do TCU de 2025 com indícios de má aplicação, e uma investigação aberta com autorização do STF.
O que não existe: denúncia, acusação formal ou condenação contra o senador por esses fatos. Ele nega irregularidade e diz que a responsabilidade pela execução é da entidade.
Entre o documento e a frase há uma distância. Ela cabe inteira no voto de quem lê. Por isso eu preferi mostrar os dois.








