Revista De Castro

Notícias / 25 de setembro de 2026

Eu fui checar

Trump estendeu 30 metros de tapete vermelho para Xi. Quem paga a conta é o produtor brasileiro

Salva de 21 tiros, doze caças na pista, dois bombardeiros no céu e um jantar com Musk, Cook, Huang e três juízes da Suprema Corte. Por trás da encenação, uma trégua comercial prorrogada até 10 de janeiro e um compromisso chinês de comprar 25 milhões de toneladas de soja americana por ano. Eu fui atrás do que isso faz com a soja do Mato Grosso, e a resposta está numa diferença de dez pontos de tarifa.

Publicado
25 de setembro de 2026
Atualizado
25 de setembro de 2026
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Xi Jinping em Kazan, 2024. Press Service of the Head of Tatarstan / Wikimedia Commons, CC BY 4.0
Xi Jinping em Kazan, 2024. Press Service of the Head of Tatarstan / Wikimedia Commons, CC BY 4.0

Cem pés de tapete vermelho, cerca de 30 metros, estendidos na pista de Joint Base Andrews, em Maryland. No pé do tapete, Donald Trump e Melania esperando.

Xi Jinping desceu do avião na noite de 23 de setembro com a mulher, Peng Liyuan. Salva de 21 tiros de canhão. Cordão de honra com 21 militares. Duas guardas de cor com as bandeiras dos dois países. Seis F-16 e seis F-22 alinhados na pista. Dois bombardeiros B-1 Lancer cruzando o céu, tão alto que Trump fez careta com o barulho.

Nenhum presidente americano tinha ido buscar um líder estrangeiro naquela pista desde 1962, quando Kennedy recebeu o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan. O Axios registra outro marco: Obama foi buscar o papa Francisco ali mesmo, há 11 anos.

Enquanto isso acontecia, compradores chineses cortavam as compras de soja brasileira de 20 cargas por semana para menos de cinco.

O que aconteceu, por inteiro

A visita de Estado foi de 23 a 25 de setembro de 2026.

No dia 24, cerimônia militar na Casa Branca com quase 500 militares, guarda de honra com bandeiras no alto da colunata da Ala Oeste (descrito como altamente incomum), e revista de 15 minutos com o Old Guard Fife and Drum Corps, o Marine Corps Silent Rifle Team e a Banda dos Fuzileiros.

À noite, jantar de Estado no East Room, mais de 150 convidados. Na mesa: Elon Musk, Mark Zuckerberg, Tim Cook, Jensen Huang e Satya Nadella. Do mercado financeiro, Jamie Dimon, Larry Fink e Stephen Schwarzman. E três juízes da Suprema Corte: John Roberts, Amy Coney Barrett e Brett Kavanaugh.

O vinho escolhido foi o Schramsberg Blanc de Noir, o mesmo espumante do brinde de Nixon com Zhou Enlai em 1972. Quem monta uma mesa assim está escrevendo uma frase com a taça.

Melania Trump explicou o tamanho da recepção à Fox News: "He's coming on our soil, and we need to welcome them with the most respect."

O que foi de fato acordado

Menos do que o tapete sugere.

Trégua comercial prorrogada. O acordo de Busan venceria em 10 de novembro e foi estendido até 10 de janeiro, segundo o secretário do Tesouro Scott Bessent. Dois meses.

Diálogo sobre inteligência artificial, com proposta de notificação mútua de incidentes que ameacem a segurança nacional.

Cem mil jovens americanos convidados por Xi para estudar na China em cinco anos.

Dois pandas, Ping Ping e Fu Shuang, doados ao zoológico de Atlanta.

Taiwan: nada. Xi pressionou Trump a se opor à independência da ilha. Os Estados Unidos aprovaram um pacote de armas de US$ 11 bilhões em dezembro de 2025, e um segundo, de US$ 14 bilhões, segue parado.

Irã: nada. Trump quer apoio chinês ao isolamento econômico de Teerã. A China é a maior parceira comercial do Irã e resistiu.

Trump chamou de "great meeting" e falou em relação comercial mais equilibrada, com "novo acesso de mercado para fazendeiros e pecuaristas americanos". Essa frase é a que interessa ao Brasil.

Xi respondeu que a China "mantém a porta bem aberta" e que a competição entre os dois países "deveria ser uma corrida de alcançar um ao outro, não uma luta em que um ganha ou perde".

Agora a conta do produtor brasileiro

A China se comprometeu a comprar pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano entre 2026 e 2028, e pelo menos US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas americanos no mesmo período.

Para entender o tamanho disso, o retrato do Brasil nessa relação:

DadoNúmero
Soja brasileira exportada à China em 202580 milhões de toneladas
Produção brasileira total em 2025cerca de 180 milhões de toneladas
Vendas à China de janeiro a agosto de 202655,14 milhões de toneladas, alta de 5%
Importações chinesas de soja americana, janeiro a agosto de 2026queda de 34%
Safra brasileira 2025/26 já comercializada90%, contra média de 88%

Há dez anos, a China comprava metade do Brasil e metade dos Estados Unidos. Durante o primeiro governo Trump, a balança virou para o lado brasileiro e nunca voltou.

A diferença de dez pontos que segura tudo

Este é o número que ninguém coloca na manchete, e é o que decide.

A soja americana entra na China pagando 13%: 10 pontos de tarifa adicional mais 3 pontos de nação mais favorecida.

A soja brasileira entra pagando 3%.

Dez pontos de vantagem. Enquanto essa diferença existir, o produtor de Sorriso segue na frente do produtor de Iowa, mesmo com frete mais caro. Se a diferença cair numa próxima rodada de negociação, a competição fica direta.

Não houve anúncio de corte dessa tarifa nesta cúpula. É o que eu tinha de apurar, e é o que a apuração sustenta.

O prêmio já está apertando

O efeito não é teórico, e apareceu antes da cúpula terminar.

Segundo o blog de agro da CNN Brasil, em 24 de setembro, o prêmio da soja brasileira com embarque em novembro pelo porto de Paranaguá estava em US$ 1,35 por bushel sobre Chicago. Em alguns embarques, a soja brasileira já saía mais cara que a americana posta no Golfo do México.

E as compras comerciais chinesas do Brasil caíram de uma média de 20 cargas por semana em agosto para menos de cinco nas duas semanas anteriores ao encontro.

Quando o grão brasileiro fica mais caro que o americano na porta do comprador, a única coisa que ainda segura a preferência chinesa é a tarifa. E tarifa é decisão política, não lei da natureza.

Quando a dor chega

O calendário explica por que o efeito não aparece amanhã.

A China compra do Brasil de fevereiro a agosto. Compra dos Estados Unidos de maio a dezembro. Um acordo fechado em setembro afeta a janela seguinte, não a que está terminando.

Some a isso os 90% da safra 2025/26 já comercializados. O produtor que vendeu já vendeu. Quem vai sentir é quem planta agora.

O que dizem os que vivem disso

André Nassar, presidente executivo da Abiove, foi o mais direto: "um eventual entendimento entre EUA e China, que levaria ao aumento das compras, não é bom para o Brasil".

Raphael Bulascoschi, da StoneX, observa que a China "segue comprando mesmo pagando mais caro pelo grão", num gesto de boa-fé para negociar questões geopolíticas maiores. Boa-fé é uma moeda que pode ser gasta.

Yedda Monteiro, da Biond Agro, resume o risco: mudanças tarifárias podem alterar a "distribuição das compras e afetar os nossos preços".

Marcos Jank, do Insper Agro Global, em análise anterior sobre o acordo de Busan, já tinha avisado que a eliminação da tarifa sobre a soja americana criaria "concorrência direta" com o fornecedor brasileiro.

O que joga contra, e entra

"Isso é só cerimônia, não muda nada." A cerimônia é a mensagem. Doze caças na pista e um vinho de 1972 não são detalhe de protocolo, são declaração de que a relação voltou a ser prioritária. E relação prioritária costuma vir acompanhada de compra.

"O Brasil está com 80 milhões de toneladas na China, não tem risco." Tem. Em 2016 a divisão era meio a meio. A posição atual é resultado de uma guerra comercial que agora está em trégua.

"Se a soja americana voltar, a China precisa das duas mesmo assim." Precisa. A China importa mais do que qualquer país sozinho produz para exportar. O que está em jogo não é sumir do mercado, é o prêmio. Quando o comprador tem duas ofertas, ele paga menos. É isso que cai primeiro.

"Torcer contra o acordo é torcer por guerra comercial." Não é uma escolha do Brasil. O ponto da matéria não é torcer, é dizer quanto custa. A conta existe independentemente de quem a gente prefira ver na Casa Branca.

"E se a tarifa não mudar?" Então o Brasil mantém a vantagem e a notícia é boa. Por isso o número a acompanhar não é o tapete, é a linha de 13% contra 3%.

A resposta

O tapete de 30 metros foi a parte barata da visita.

O que saiu de concreto cabe em pouco: dois meses a mais de trégua, um canal de conversa sobre inteligência artificial, cem mil bolsas de estudo e dois pandas. Taiwan e Irã continuam onde estavam.

Para o produtor brasileiro, a notícia é que a tarifa de 13% sobre a soja americana continua de pé, e ela é o que separa o Mato Grosso de Iowa no porto chinês.

Enquanto essa linha não mudar, o prêmio aperta mas o negócio fica. No dia em que ela mudar, o tapete vermelho vira fatura.

Fontes desta materia

  1. Wikipedia, 2026 state visit by Xi Jinping to the United States
  2. Al Jazeera, Trump-Xi summit: four key takeaways from the Washington DC meeting
  3. Al Jazeera, Trump-Xi summit: what is on the agenda and why it matters
  4. Al Jazeera, Trump welcomes Xi to Washington as US and China agree to extend trade truce
  5. CNN Brasil, blog Fernanda Pressinott, China reduz soja do Brasil e volta a abrir espaço para os EUA
  6. CNN Brasil, Agro pode se tornar moeda de troca no encontro de Xi Jinping e Donald Trump
  7. Exame, Acordo da soja de EUA e China afeta o Brasil? Só em 2026, dizem analistas
  8. Canal Rural, Com acordo entre EUA e China, soja brasileira corre risco de perder espaço
  9. Band, China amplia compra de soja dos EUA e acende alerta para o Brasil
  10. Axios, Trump greets China's Xi Jinping on tarmac for state visit
  11. Joint Base Andrews, PRC President Xi Jinping arrives at Joint Base Andrews for state visit
  12. The Hill, Trump kicks off Xi Jinping state visit with rare welcome at Joint Base Andrews
  13. Radio Free Asia, Photos: China's Xi Jinping receives rare welcome as Trump summit begins
  14. CNBC, Trump and Xi to talk Taiwan, AI, trade and Iran as DC summit kicks off
  15. NPR, Trump and Xi meet at moment of global consequence
  16. South China Morning Post, Rare honour: Trump will greet Xi at Andrews, not just White House
  17. CNN, Trump hosts Xi for US-China summit in Washington