Ontem à noite, três números diferentes sobre o mesmo dia circularam na sua timeline.
Um dizia que o ato da Avenida Paulista teve 28.500 pessoas. Outro dizia 34.200. E um terceiro, sobre o desfile de Brasília, dizia 70 mil.
Ninguém está mentindo. O que muda é a régua. E, das três, só uma pode ser conferida por você.
Esta matéria é sobre isso: quem contou, como contou, e o que dá para concluir com honestidade sobre o 7 de Setembro de 2026.
Os três números, lado a lado
| Onde | Número | Quem contou | Como contou | A que horas |
|---|---|---|---|---|
| Avenida Paulista | 28.500 | Monitor do Debate Político, da USP com o Cebrap | 12 fotos aéreas de drone, sem sobreposição, lidas por um programa de computador que marca a cabeça de cada pessoa. Margem de erro publicada de 12% | 16h32 |
| Avenida Paulista | 34.200 | Poder360, contagem própria | Fotos aéreas de drone em alta resolução cruzadas com o mapa do Google Earth | 15h59 às 16h03 |
| Esplanada, Brasília | 70.000 | Palácio do Planalto, pela Secretaria de Comunicação | Não divulgou método. É estimativa do próprio organizador do evento | Não informado |
| Avenida Paulista | 100.000 | Meta declarada pelo PL antes do ato | Expectativa, não medição |
A Polícia Militar de São Paulo não divulgou número.
Como a USP conta gente, explicado sem complicação
Vale entender, porque esse método vai voltar em toda eleição.
O Monitor do Debate Político é um projeto da Universidade de São Paulo com o Cebrap. Eles fazem assim:
- Sobem um drone no momento em que o ato parece mais cheio.
- Tiram várias fotos de trechos diferentes, com cuidado para que uma não repita o pedaço da outra. Ontem foram 12 fotos.
- Passam as fotos por um programa que foi treinado para marcar cabeça por cabeça. Não é chute, é contagem.
- Publicam a margem de erro. Ontem foi de 12%, o que significa que o número real está entre 25.100 e 32.000.
- Dizem a hora exata da medição, porque ato enche e esvazia. Ontem foi 16h32.
É por isso que o número da USP é o mais citado: ele vem com o método, o horário e a margem. Você pode discordar dele, mas você sabe do que está discordando.
O Poder360 usa drone também, mas cruza com o mapa do Google Earth e fotografou meia hora antes, das 15h59 às 16h03, quando o pastor Silas Malafaia terminava de falar. Método diferente e horário diferente dão número diferente. Não é contradição, é medição de coisas ligeiramente distintas.
A série dos últimos quatro anos
Este é o dado que dá tamanho ao de ontem. Todos os números abaixo são do mesmo Monitor da USP, medidos do mesmo jeito, na mesma avenida.
| Data | Público na Paulista |
|---|---|
| 7 de Setembro de 2022 | 32.691 |
| Fevereiro de 2024 | 185.000 |
| 7 de Setembro de 2024 | 45.400 |
| Abril de 2025 | 44.900 |
| Junho de 2025 | 12.400 |
| Agosto de 2025 | 37.600 |
| 7 de Setembro de 2025 | 42.200 |
| 7 de Setembro de 2026 | 28.500 |
Público nos atos de 7 de Setembro na Avenida Paulista, pela contagem da USP
Fonte: Monitor do Debate Político, USP e Cebrap
Um aviso de método, porque isso confunde muita gente: o Poder360 tem série própria, na qual 2025 aparece com "quase 50 mil" e 2024 com "quase 60 mil". Se você misturar as duas séries, a queda muda de tamanho e o número fica errado. Compare USP com USP, ou Poder360 com Poder360, nunca cruzado.
Por que esse número era importante para o PL
A meta de 100 mil não foi chutada. Ela foi anunciada depois de virem a público as mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, com o ministro Alexandre de Moraes. A campanha apostou que o escândalo levaria multidão à rua.
O ato aconteceu com 14 graus e garoa fina em São Paulo, o que ajuda a explicar parte da diferença. O próprio Poder360 levanta as duas hipóteses: o frio, ou o caso não ter mobilizado o eleitor no tamanho esperado.
Vale registrar que este é o segundo teste de rua abaixo do esperado em menos de um mês. A largada da campanha, em Copacabana, no dia 16 de agosto, reuniu cerca de 9 mil pessoas pela contagem da mesma USP. Depois dela, o Brasil 247 apurou que houve avaliações críticas dentro do próprio PL sobre o formato dos eventos, com dirigentes lembrando que campanha eleitoral tem exigência diferente de manifestação de rua.
O que foi dito no palanque
O tom mudou conforme quem falava. E essa diferença é a informação.
Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, fechou o ato com a tese das facadas:
Ele tomou a primeira facada em Juiz de Fora, no dia 6 de setembro de 2018. Deram uma segunda facada em Bolsonaro: essa farsa que foi esse 8 de janeiro. E vão tentar uma terceira facada, não só em mim, mas também nos meus aliados.
Ele também disse "fora Lula e fora Moraes, quem vota em Lula vota em Alexandre de Moraes", prometeu "acabar com o consórcio Lula e Moraes" e chamou o ministro de "laranja podre" que "não pode contaminar todo o STF". E afirmou que faz campanha de colete à prova de balas.
Silas Malafaia, que organizou o ato, foi o mais direto sobre o pedido do dia:
Não é possível, Moraes tem que ser afastado e tomar um impeachment.
Ele disse que o ministro "transformou a liberdade de expressão em crime de opinião" e o chamou de ditador.
Nikolas Ferreira, deputado federal, foi além do impeachment:
O seu lugar, Xandão, é na cadeia.
E cobrou o presidente do Senado pelo nome, avisando que faria ato no Amapá, estado de Davi Alcolumbre. Chamou o procurador-geral da República de "frouxo".
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, ligou a eleição à soltura do ex-presidente: "com Flávio eleito, Bolsonaro está livre no dia seguinte".
E aí veio a fala que destoou de tudo. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, subiu no mesmo palanque e disse:
Ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei e da Constituição. É hora de a Corte não se dividir para se defender, mas se unir para apurar, para dar a resposta que a sociedade precisa.
Repare na distância entre "o seu lugar é na cadeia" e "é hora de a Corte se unir para apurar", ditas com poucos minutos de diferença, no mesmo carro de som. É o retrato de um campo que está negociando, ao vivo, o quanto pode radicalizar.
Um detalhe simbólico do dia: enquanto a multidão gritava contra um ministro do Supremo, outro ministro era homenageado no palanque. André Mendonça, que derrubou o sigilo do relatório, ganhou até um boneco inflável gigante.
O que eu preciso corrigir do que escrevi ontem
Aqui é a parte que separa o portal de um panfleto, e ela é obrigatória.
Na minha reportagem de ontem, e no carrossel que a acompanha, eu listei Michelle Bolsonaro entre os presentes ao ato da Paulista. Ela estava em todas as convocações e em todas as prévias da imprensa.
Ela não foi. Desistiu na véspera. O motivo declarado: o ministro Moraes não havia despachado o pedido para que familiares fizessem companhia a Jair Bolsonaro enquanto ela viajasse, e ela preferiu ficar em Brasília com o ex-presidente.
Também escrevi que não havia confirmação de carta ou mensagem do ex-presidente ao ato. Agora dá para fechar: não houve. Bolsonaro passou o feriado em prisão domiciliar em Brasília, e a apuração do Poder360 mostra o dia dele: cachorros, televisão aberta, exercício, ajudar a filha na lição de casa e jogar baralho. Ele está proibido de qualquer manifesto político, inclusive por meio de outras pessoas. E há um detalhe que só apareceu agora: Flávio está proibido de visitar o pai até 11 de outubro, uma semana depois do primeiro turno.
Corrigido, e registrado.
Os outros atos do dia
| Ato | Público | Quem mediu |
|---|---|---|
| Caminhada de Augusto Cury, Copacabana | 1.400 (entre 1.300 e 1.600, pico das 11h30) | Monitor da USP, mesmo método da Paulista |
| Desfile oficial, Brasília | 70 mil | O próprio governo, sem método divulgado |
| Ato da direita em Goiânia, Praça Tamandaré | cerca de 5 mil | Campanha do PL de Goiás. Dois veículos publicam o mesmo número atribuindo a fontes diferentes |
| Ato do Banco Central, Brasília | mais de 500 | Estimativa de reportagem |
| Grito dos Excluídos, Brasília | cerca de 400 | Estimativa de reportagem |
| Ato de Romeu Zema, Paulista de manhã | sem número | Descrito como esvaziado |
| Ato de Renan Santos, Ibirapuera | sem número | Nenhuma estimativa |
| Ato da direita em Copacabana, no Posto 4 | sem número | Aconteceu, está fotografado, ninguém contou |
| Grito dos Excluídos em São Paulo, na Praça da Sé | sem número | Ninguém contou |
| BH, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Salvador, Fortaleza, Florianópolis, Cuiabá, Campo Grande e as demais | sem número | Nenhuma contagem, em nenhuma delas |
Esse último item é o buraco maior da cobertura de ontem, e ele tem nome. Foram cerca de 30 atos identificados no país. Apenas dois tiveram contagem independente, com método publicado: o de Flávio Bolsonaro na Paulista e o de Augusto Cury em Copacabana. Os dois foram medidos pelo mesmo Monitor da USP, com a mesma técnica de foto aérea.
E tem um dado que explica o resto: nenhuma Polícia Militar do país divulgou estimativa de público em 7 de setembro de 2026. Nem em São Paulo, nem no Rio, nem em Minas, nem no Rio Grande do Sul. Nenhuma prefeitura divulgou. Fora daqueles dois atos, o que existe no noticiário é adjetivo: "centenas", "milhares", "esvaziado".
Belo Horizonte é o retrato do problema. Um veículo escreveu "milhares" no título e outro escreveu "centenas" no texto, no mesmo dia, sobre o mesmo ato, e nenhum dos dois disse quem contou.
Se você procurar o total do país, ele não existe. Ninguém somou. E o número de "mais de 90 cidades" que está circulando é de 2025, não deste ano: para 2026, os veículos falaram em pelo menos 15 cidades.
Três registros dos atos menores:
- Augusto Cury caminhou do Posto 6 ao Posto 5 em Copacabana com trio elétrico, falando em pacificação, e mandou um "abraço especial" ao ministro André Mendonça. Numa entrevista depois, resumiu a posição dele sobre a crise: "todo funcionário público, eleito ou não, tem um patrão: o contribuinte". O Monitor da USP mediu o ato dele e chegou a 1.400 pessoas no pico das 11h30. Eu torço pelo Cury e não escondo, e é por isso mesmo que o número entra aqui do mesmo jeito que o dos outros.
- Romeu Zema foi hostilizado enquanto caminhava. Um homem que o filmava perguntou se ele tinha ido "se aproveitar da manifestação" de Flávio.
- No desfile de Brasília, antes de Lula chegar, o público gritou pelo fim da escala 6x1. Em outro momento, gritou "sem anistia". E, segundo a cobertura, quem mais animou a arquibancada foi o Zé Gotinha.
E uma ausência que diz muito sobre a semana: dos dez ministros do Supremo, só o presidente Edson Fachin foi ao desfile. Os outros nove faltaram à tribuna para a qual são convidados todo ano.
Perguntas que chegam nos comentários
Quantas pessoas foram ao ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista?
28.500 no pico das 16h32, segundo o Monitor do Debate Político da USP com o Cebrap, com margem de erro de 12%, o que dá entre 25.100 e 32.000. O Poder360, com contagem própria e medição às 15h59, chegou a 34.200. O PL esperava 100 mil.
Como a USP conta o público de uma manifestação?
Com fotos aéreas de drone tiradas no pico do ato, sem sobreposição entre elas, analisadas por um programa treinado para marcar a cabeça de cada pessoa. A margem de erro é publicada junto, o que permite a qualquer pessoa contestar o resultado.
O ato deste ano foi maior ou menor que o do ano passado?
Menor. Foram 42.200 em 7 de setembro de 2025 e 28.500 em 2026, queda de 32,5%. Contra 2024, que teve 45.400, a queda é de 37%.
Quantas pessoas foram ao desfile de Brasília?
O governo federal informou 70 mil. É estimativa do próprio organizador do evento, sem método divulgado e sem contagem independente, porque o Monitor da USP não mede a Esplanada.
Michelle Bolsonaro foi ao ato da Paulista?
Não. Ela estava anunciada nas convocações, mas desistiu na véspera e ficou em Brasília com Jair Bolsonaro. Ele também não enviou carta nem mensagem ao ato, porque está proibido de fazer manifesto político, inclusive por meio de terceiros.
Quantas pessoas foram à caminhada de Augusto Cury em Copacabana?
1.400 no pico das 11h30, entre 1.300 e 1.600 pela margem de erro, segundo o Monitor da USP, que usou o mesmo método da Paulista. Foi o único outro ato do país com contagem independente.
Quantos atos do 7 de Setembro tiveram contagem independente?
Dois, entre cerca de 30 atos identificados: o de Flávio Bolsonaro na Paulista e o de Augusto Cury em Copacabana. Nenhuma Polícia Militar e nenhuma prefeitura do país divulgou estimativa de público.
Por que existem números tão diferentes para o mesmo ato?
Porque cada instituição mede num horário e com um método. Ato enche e esvazia ao longo da tarde. Quando alguém te mandar um número, pergunte quem contou, a que horas e com qual margem de erro.
O que vem agora
- Esta semana tem seis pesquisas. Quaest saiu ontem, Nexus sai hoje, Ideia e Palver amanhã, AtlasIntel na quinta e Datafolha na sexta. São as primeiras a medir o efeito da crise do Supremo.
- Sexta, dia 11, vence o prazo que o presidente do Supremo deu a Moraes, Mendonça, ao procurador-geral e ao diretor da Polícia Federal para se explicarem.
- Depois do dia 22, o plenário do Supremo decide o que faz com os dois ministros.
Eu volto a cada passo, com fonte.
Leia também: Independência ou Morte, todos contra Moraes, os três 7 de Setembro e Alcolumbre não pauta o impeachment.







