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Checagem / 8 de setembro de 2026

Eu fui ver

28,5 mil, 34,2 mil ou 70 mil? Três réguas mediram o 7 de Setembro, e só uma delas pode ser conferida

O ato de Flávio Bolsonaro na Paulista teve 28.500 pessoas pela USP e 34.200 pelo Poder360. O desfile de Lula em Brasília teve 70 mil, número dado pelo próprio governo. A meta do PL era 100 mil. Eu fui ver como cada um desses números foi feito, e descobri que dois deles não podem ser checados por ninguém. Aqui está a régua, a série dos últimos quatro anos, o que foi dito nos palanques e a correção que eu preciso fazer no que escrevi ontem.

Publicado
8 de setembro de 2026
Atualizado
8 de setembro de 2026
Editoria
Checagem
Leitura
13 min
Fontes
21 citadas
Avenida Paulista em imagem aérea de arquivo, foto de arquivo público
Avenida Paulista em imagem aérea de arquivo, foto de arquivo público

Ontem à noite, três números diferentes sobre o mesmo dia circularam na sua timeline.

Um dizia que o ato da Avenida Paulista teve 28.500 pessoas. Outro dizia 34.200. E um terceiro, sobre o desfile de Brasília, dizia 70 mil.

Ninguém está mentindo. O que muda é a régua. E, das três, só uma pode ser conferida por você.

Esta matéria é sobre isso: quem contou, como contou, e o que dá para concluir com honestidade sobre o 7 de Setembro de 2026.

Os três números, lado a lado

OndeNúmeroQuem contouComo contouA que horas
Avenida Paulista28.500Monitor do Debate Político, da USP com o Cebrap12 fotos aéreas de drone, sem sobreposição, lidas por um programa de computador que marca a cabeça de cada pessoa. Margem de erro publicada de 12%16h32
Avenida Paulista34.200Poder360, contagem própriaFotos aéreas de drone em alta resolução cruzadas com o mapa do Google Earth15h59 às 16h03
Esplanada, Brasília70.000Palácio do Planalto, pela Secretaria de ComunicaçãoNão divulgou método. É estimativa do próprio organizador do eventoNão informado
Avenida Paulista100.000Meta declarada pelo PL antes do atoExpectativa, não medição

A Polícia Militar de São Paulo não divulgou número.

Como a USP conta gente, explicado sem complicação

Vale entender, porque esse método vai voltar em toda eleição.

O Monitor do Debate Político é um projeto da Universidade de São Paulo com o Cebrap. Eles fazem assim:

  1. Sobem um drone no momento em que o ato parece mais cheio.
  2. Tiram várias fotos de trechos diferentes, com cuidado para que uma não repita o pedaço da outra. Ontem foram 12 fotos.
  3. Passam as fotos por um programa que foi treinado para marcar cabeça por cabeça. Não é chute, é contagem.
  4. Publicam a margem de erro. Ontem foi de 12%, o que significa que o número real está entre 25.100 e 32.000.
  5. Dizem a hora exata da medição, porque ato enche e esvazia. Ontem foi 16h32.

É por isso que o número da USP é o mais citado: ele vem com o método, o horário e a margem. Você pode discordar dele, mas você sabe do que está discordando.

O Poder360 usa drone também, mas cruza com o mapa do Google Earth e fotografou meia hora antes, das 15h59 às 16h03, quando o pastor Silas Malafaia terminava de falar. Método diferente e horário diferente dão número diferente. Não é contradição, é medição de coisas ligeiramente distintas.

A série dos últimos quatro anos

Este é o dado que dá tamanho ao de ontem. Todos os números abaixo são do mesmo Monitor da USP, medidos do mesmo jeito, na mesma avenida.

DataPúblico na Paulista
7 de Setembro de 202232.691
Fevereiro de 2024185.000
7 de Setembro de 202445.400
Abril de 202544.900
Junho de 202512.400
Agosto de 202537.600
7 de Setembro de 202542.200
7 de Setembro de 202628.500

Público nos atos de 7 de Setembro na Avenida Paulista, pela contagem da USP

202232691
202445400
202542200
202628500

Fonte: Monitor do Debate Político, USP e Cebrap

Um aviso de método, porque isso confunde muita gente: o Poder360 tem série própria, na qual 2025 aparece com "quase 50 mil" e 2024 com "quase 60 mil". Se você misturar as duas séries, a queda muda de tamanho e o número fica errado. Compare USP com USP, ou Poder360 com Poder360, nunca cruzado.

Por que esse número era importante para o PL

A meta de 100 mil não foi chutada. Ela foi anunciada depois de virem a público as mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, com o ministro Alexandre de Moraes. A campanha apostou que o escândalo levaria multidão à rua.

O ato aconteceu com 14 graus e garoa fina em São Paulo, o que ajuda a explicar parte da diferença. O próprio Poder360 levanta as duas hipóteses: o frio, ou o caso não ter mobilizado o eleitor no tamanho esperado.

Vale registrar que este é o segundo teste de rua abaixo do esperado em menos de um mês. A largada da campanha, em Copacabana, no dia 16 de agosto, reuniu cerca de 9 mil pessoas pela contagem da mesma USP. Depois dela, o Brasil 247 apurou que houve avaliações críticas dentro do próprio PL sobre o formato dos eventos, com dirigentes lembrando que campanha eleitoral tem exigência diferente de manifestação de rua.

O que foi dito no palanque

O tom mudou conforme quem falava. E essa diferença é a informação.

Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, fechou o ato com a tese das facadas:

Ele tomou a primeira facada em Juiz de Fora, no dia 6 de setembro de 2018. Deram uma segunda facada em Bolsonaro: essa farsa que foi esse 8 de janeiro. E vão tentar uma terceira facada, não só em mim, mas também nos meus aliados.

Ele também disse "fora Lula e fora Moraes, quem vota em Lula vota em Alexandre de Moraes", prometeu "acabar com o consórcio Lula e Moraes" e chamou o ministro de "laranja podre" que "não pode contaminar todo o STF". E afirmou que faz campanha de colete à prova de balas.

Silas Malafaia, que organizou o ato, foi o mais direto sobre o pedido do dia:

Não é possível, Moraes tem que ser afastado e tomar um impeachment.

Ele disse que o ministro "transformou a liberdade de expressão em crime de opinião" e o chamou de ditador.

Nikolas Ferreira, deputado federal, foi além do impeachment:

O seu lugar, Xandão, é na cadeia.

E cobrou o presidente do Senado pelo nome, avisando que faria ato no Amapá, estado de Davi Alcolumbre. Chamou o procurador-geral da República de "frouxo".

Valdemar Costa Neto, presidente do PL, ligou a eleição à soltura do ex-presidente: "com Flávio eleito, Bolsonaro está livre no dia seguinte".

E aí veio a fala que destoou de tudo. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, subiu no mesmo palanque e disse:

Ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei e da Constituição. É hora de a Corte não se dividir para se defender, mas se unir para apurar, para dar a resposta que a sociedade precisa.

Repare na distância entre "o seu lugar é na cadeia" e "é hora de a Corte se unir para apurar", ditas com poucos minutos de diferença, no mesmo carro de som. É o retrato de um campo que está negociando, ao vivo, o quanto pode radicalizar.

Um detalhe simbólico do dia: enquanto a multidão gritava contra um ministro do Supremo, outro ministro era homenageado no palanque. André Mendonça, que derrubou o sigilo do relatório, ganhou até um boneco inflável gigante.

O que eu preciso corrigir do que escrevi ontem

Aqui é a parte que separa o portal de um panfleto, e ela é obrigatória.

Na minha reportagem de ontem, e no carrossel que a acompanha, eu listei Michelle Bolsonaro entre os presentes ao ato da Paulista. Ela estava em todas as convocações e em todas as prévias da imprensa.

Ela não foi. Desistiu na véspera. O motivo declarado: o ministro Moraes não havia despachado o pedido para que familiares fizessem companhia a Jair Bolsonaro enquanto ela viajasse, e ela preferiu ficar em Brasília com o ex-presidente.

Também escrevi que não havia confirmação de carta ou mensagem do ex-presidente ao ato. Agora dá para fechar: não houve. Bolsonaro passou o feriado em prisão domiciliar em Brasília, e a apuração do Poder360 mostra o dia dele: cachorros, televisão aberta, exercício, ajudar a filha na lição de casa e jogar baralho. Ele está proibido de qualquer manifesto político, inclusive por meio de outras pessoas. E há um detalhe que só apareceu agora: Flávio está proibido de visitar o pai até 11 de outubro, uma semana depois do primeiro turno.

Corrigido, e registrado.

Os outros atos do dia

AtoPúblicoQuem mediu
Caminhada de Augusto Cury, Copacabana1.400 (entre 1.300 e 1.600, pico das 11h30)Monitor da USP, mesmo método da Paulista
Desfile oficial, Brasília70 milO próprio governo, sem método divulgado
Ato da direita em Goiânia, Praça Tamandarécerca de 5 milCampanha do PL de Goiás. Dois veículos publicam o mesmo número atribuindo a fontes diferentes
Ato do Banco Central, Brasíliamais de 500Estimativa de reportagem
Grito dos Excluídos, Brasíliacerca de 400Estimativa de reportagem
Ato de Romeu Zema, Paulista de manhãsem númeroDescrito como esvaziado
Ato de Renan Santos, Ibirapuerasem númeroNenhuma estimativa
Ato da direita em Copacabana, no Posto 4sem númeroAconteceu, está fotografado, ninguém contou
Grito dos Excluídos em São Paulo, na Praça da Sésem númeroNinguém contou
BH, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Salvador, Fortaleza, Florianópolis, Cuiabá, Campo Grande e as demaissem númeroNenhuma contagem, em nenhuma delas

Esse último item é o buraco maior da cobertura de ontem, e ele tem nome. Foram cerca de 30 atos identificados no país. Apenas dois tiveram contagem independente, com método publicado: o de Flávio Bolsonaro na Paulista e o de Augusto Cury em Copacabana. Os dois foram medidos pelo mesmo Monitor da USP, com a mesma técnica de foto aérea.

E tem um dado que explica o resto: nenhuma Polícia Militar do país divulgou estimativa de público em 7 de setembro de 2026. Nem em São Paulo, nem no Rio, nem em Minas, nem no Rio Grande do Sul. Nenhuma prefeitura divulgou. Fora daqueles dois atos, o que existe no noticiário é adjetivo: "centenas", "milhares", "esvaziado".

Belo Horizonte é o retrato do problema. Um veículo escreveu "milhares" no título e outro escreveu "centenas" no texto, no mesmo dia, sobre o mesmo ato, e nenhum dos dois disse quem contou.

Se você procurar o total do país, ele não existe. Ninguém somou. E o número de "mais de 90 cidades" que está circulando é de 2025, não deste ano: para 2026, os veículos falaram em pelo menos 15 cidades.

Três registros dos atos menores:

  • Augusto Cury caminhou do Posto 6 ao Posto 5 em Copacabana com trio elétrico, falando em pacificação, e mandou um "abraço especial" ao ministro André Mendonça. Numa entrevista depois, resumiu a posição dele sobre a crise: "todo funcionário público, eleito ou não, tem um patrão: o contribuinte". O Monitor da USP mediu o ato dele e chegou a 1.400 pessoas no pico das 11h30. Eu torço pelo Cury e não escondo, e é por isso mesmo que o número entra aqui do mesmo jeito que o dos outros.
  • Romeu Zema foi hostilizado enquanto caminhava. Um homem que o filmava perguntou se ele tinha ido "se aproveitar da manifestação" de Flávio.
  • No desfile de Brasília, antes de Lula chegar, o público gritou pelo fim da escala 6x1. Em outro momento, gritou "sem anistia". E, segundo a cobertura, quem mais animou a arquibancada foi o Zé Gotinha.

E uma ausência que diz muito sobre a semana: dos dez ministros do Supremo, só o presidente Edson Fachin foi ao desfile. Os outros nove faltaram à tribuna para a qual são convidados todo ano.

Perguntas que chegam nos comentários

Quantas pessoas foram ao ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista?

28.500 no pico das 16h32, segundo o Monitor do Debate Político da USP com o Cebrap, com margem de erro de 12%, o que dá entre 25.100 e 32.000. O Poder360, com contagem própria e medição às 15h59, chegou a 34.200. O PL esperava 100 mil.

Como a USP conta o público de uma manifestação?

Com fotos aéreas de drone tiradas no pico do ato, sem sobreposição entre elas, analisadas por um programa treinado para marcar a cabeça de cada pessoa. A margem de erro é publicada junto, o que permite a qualquer pessoa contestar o resultado.

O ato deste ano foi maior ou menor que o do ano passado?

Menor. Foram 42.200 em 7 de setembro de 2025 e 28.500 em 2026, queda de 32,5%. Contra 2024, que teve 45.400, a queda é de 37%.

Quantas pessoas foram ao desfile de Brasília?

O governo federal informou 70 mil. É estimativa do próprio organizador do evento, sem método divulgado e sem contagem independente, porque o Monitor da USP não mede a Esplanada.

Michelle Bolsonaro foi ao ato da Paulista?

Não. Ela estava anunciada nas convocações, mas desistiu na véspera e ficou em Brasília com Jair Bolsonaro. Ele também não enviou carta nem mensagem ao ato, porque está proibido de fazer manifesto político, inclusive por meio de terceiros.

Quantas pessoas foram à caminhada de Augusto Cury em Copacabana?

1.400 no pico das 11h30, entre 1.300 e 1.600 pela margem de erro, segundo o Monitor da USP, que usou o mesmo método da Paulista. Foi o único outro ato do país com contagem independente.

Quantos atos do 7 de Setembro tiveram contagem independente?

Dois, entre cerca de 30 atos identificados: o de Flávio Bolsonaro na Paulista e o de Augusto Cury em Copacabana. Nenhuma Polícia Militar e nenhuma prefeitura do país divulgou estimativa de público.

Por que existem números tão diferentes para o mesmo ato?

Porque cada instituição mede num horário e com um método. Ato enche e esvazia ao longo da tarde. Quando alguém te mandar um número, pergunte quem contou, a que horas e com qual margem de erro.

O que vem agora

  1. Esta semana tem seis pesquisas. Quaest saiu ontem, Nexus sai hoje, Ideia e Palver amanhã, AtlasIntel na quinta e Datafolha na sexta. São as primeiras a medir o efeito da crise do Supremo.
  2. Sexta, dia 11, vence o prazo que o presidente do Supremo deu a Moraes, Mendonça, ao procurador-geral e ao diretor da Polícia Federal para se explicarem.
  3. Depois do dia 22, o plenário do Supremo decide o que faz com os dois ministros.

Eu volto a cada passo, com fonte.

Leia também: Independência ou Morte, todos contra Moraes, os três 7 de Setembro e Alcolumbre não pauta o impeachment.

Fontes desta materia

  1. Poder360, sob frio de 14 ºC, Flávio reúne 28.500 na Avenida Paulista, pela contagem da USP
  2. Poder360, a contagem própria do veículo, de 34.200 pessoas
  3. Terra, ato de Flávio leva 28,5 mil à Paulista, aponta a USP; em 2025 foram 42,2 mil
  4. Metrópoles, USP estima pico de 28,5 mil pessoas no comício da Paulista
  5. Exame, governo conta 70 mil no desfile e o público da Paulista é estimado em 28,5 mil
  6. Exame, como foi a mobilização da direita na Paulista nos últimos quatro anos
  7. Poder360, a íntegra de todos os discursos no ato da Paulista
  8. ND Mais, o discurso das três facadas, de Flávio Bolsonaro
  9. Jovem Pan, Malafaia faz apelo ao STF para afastar Moraes
  10. ContraFatos, o discurso de Nikolas Ferreira na Avenida Paulista
  11. Poder360, Nikolas defende prisão de Moraes e chama Gonet de frouxo
  12. ICL Notícias, ato na Paulista reúne 28,5 mil e a fala de Tarcísio de Freitas
  13. Poder360, preso e com visitas limitadas, Bolsonaro passa o 7 de Setembro em casa
  14. InfoMoney, Michelle não participa do ato de Flávio Bolsonaro em São Paulo
  15. Jornal de Brasília, o desfile termina com Lula, Fachin e os presidentes do Congresso
  16. Metrópoles, como foram os atos paralelos de 7 de Setembro
  17. BH24Horas, Augusto Cury faz caminhada em Copacabana e cita ministro do STF
  18. NC News, Augusto Cury faz ato em Copacabana e defende pacificação
  19. Congresso em Foco, presidenciáveis vão às ruas no 7 de Setembro marcado por crise no STF
  20. Estado de Minas, ministros do STF evitam o desfile em meio à crise na Corte
  21. Brasil 247, ato de largada de Flávio em Copacabana leva o PL a reavaliar formatos