São 9 da manhã de segunda-feira, 7 de setembro de 2026. Em Brasília, o presidente sobe na tribuna para ver o desfile. No Rio, Augusto Cury começa a caminhar em Copacabana. Vinte minutos depois, Romeu Zema sai da esquina da Consolação em direção ao MASP. Às 11h, Renan Santos abre o ato dele no Ibirapuera. Às 15h, Flávio Bolsonaro sobe no carro de som da Paulista.
Cinco atos. Cinco bandeiras. E no prédio de vidro da Praça dos Três Poderes, onde ninguém desfila, mora o poder que ninguém elegeu.
Hoje o Brasil faz 204 anos de Independência. O grito de 1822 foi contra um poder que decidia sobre a nossa vida de longe, sem nos perguntar nada. Esta reportagem é sobre o grito que deveria ter sido dado hoje. E não vai ser.
Este texto tem opinião. Os fatos, como sempre aqui, têm fonte, data e dono. E o que joga contra a minha opinião entra no fim, sem suavizar.
O 7 de Setembro de 2026 em cinco números
Os cinco 7 de Setembro de hoje
| Hora | Onde | Quem | O que pede |
|---|---|---|---|
| 9h | Esplanada, Brasília | Desfile oficial. Lula na tribuna com Janja e Alckmin, sem discurso | Tema "soberania". É do Estado, não de partido |
| 9h | Copacabana, do Posto 6 ao 5 | Augusto Cury (Avante), caminhada com minitrio | "Pacificação, equilíbrio, diálogo e esperança" |
| 9h20 | Paulista com a Consolação, até o MASP | Romeu Zema (Novo), ato separado | Saída de Moraes do Supremo |
| 11h | Obelisco do Ibirapuera | Renan Santos (Missão) | "Contra o STF e os traidores da nação" |
| 15h | Avenida Paulista | Flávio Bolsonaro (PL), com Tarcísio, Nikolas, Ricardo Nunes e cerca de 300 prefeitos. Michelle Bolsonaro estava anunciada e desistiu na véspera | "Fora Lula, Fora Moraes", "resgatar o Brasil" |
Fora isso, a Gazeta do Povo listou atos com a bandeira "Fora Moraes" em pelo menos dez capitais, de Porto Alegre a Fortaleza. E o Grito dos Excluídos, dos movimentos sociais, sai em 24 dos 27 estados, pedindo o fim da escala 6x1 e moradia. O mapa completo, com horário e endereço, está na matéria dos três 7 de Setembro.
O que acontece em Brasília
O desfile é do Estado brasileiro, não de partido nenhum, e aconteceria com qualquer presidente no cargo. As arquibancadas abriram às 6h20. A revista das tropas foi às 8h45, o desfile começou às 9h15 e vai até por volta das 11h. O público esperado é de 30 mil pessoas. O custo é de R$ 5,74 milhões, 33% mais caro que o do ano passado.
Este ano a festa tem Zé Gotinha, homenagem à Copa do Mundo Feminina de 2027 e a Esquadrilha da Fumaça. Lula assiste da tribuna, ao lado da mulher, Janja, e do vice, Geraldo Alckmin. Ele não discursa. Por ser ano eleitoral, o governo enxugou o roteiro para não dar munição ao tribunal eleitoral.
Estão lá, na mesma tribuna: o presidente da Câmara, Hugo Motta, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o presidente do Supremo, Edson Fachin. Guarde isso, porque os três aparecem mais para a frente nesta reportagem.
A Esplanada está fechada desde as 16h de domingo. Há duas linhas de revista na entrada, a Praça dos Três Poderes está gradeada, e drone particular está proibido de voar da meia-noite às 18h.
O que Lula falou na véspera
No domingo, às 19h30, Lula fez um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão, de 3 minutos e 43 segundos, autorizado pelo presidente do tribunal eleitoral, Kassio Nunes Marques. O tema foi soberania:
Não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras que querem que voltemos a ser colônia. Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém.
Ele falou das reservas de terras raras, da água doce e do petróleo. Não citou o Supremo, não citou Moraes, não citou os atos e não citou a eleição.
O que acontece na Paulista
O ato das 15h é outra coisa: é convocação de campanha, a 27 dias do primeiro turno. Flávio Bolsonaro chamou por vídeo em 26 de agosto, com o slogan oficial do PL, "Vamos juntos resgatar o Brasil".
Na convocação original não havia o nome de Moraes. O que mudou o eixo do ato foi a semana passada, e eu explico isso em detalhe mais adiante. Hoje, as palavras de ordem que a imprensa registra são "Fora Lula, Fora Moraes" e "É agora ou nunca".
Quem organiza: o PL de São Paulo, com uma comissão de líderes evangélicos e coordenação do senador Rogério Marinho. O pastor Silas Malafaia, que organizou os atos dos últimos cinco anos, avisou que desta vez não organiza, porque é "campanha político-partidária", mas confirmou que discursa, com o mote "fora Alexandre Moraes".
Na véspera, numa transmissão ao vivo, Flávio chamou o ato de "chamado de Deus" e mandou um recado direto a uma ministra:
O Brasil espera, Cármen Lúcia, que a senhora vote para que o Alexandre de Moraes seja formalmente investigado. O Brasil olha hoje para a Suprema Corte com muito nojo.
Repare num detalhe que muda a leitura do dia. Zema, Renan e Flávio pedem a mesma coisa, na mesma cidade, no mesmo dia, em três lugares diferentes. Renan Santos recusou o convite para a Paulista e explicou por quê: disse que Flávio "também está envolvido no caso Master". O Zema fez o dele de manhã para não dividir palco. O Cury foi para outra cidade, com outra mensagem.
O que deveria acontecer hoje
Eu sei que não vai ser assim. Mas, para mim, todo ato de hoje deveria ter uma pauta só.
Você votou para presidente em 2022. Vai votar de novo daqui a 27 dias. Você nunca votou para ministro do Supremo. E, mesmo assim, é lá que as decisões mais importantes do país têm sido tomadas nos últimos sete anos, muitas vezes por um ministro sozinho, e muitas vezes desfazendo o que o Congresso que você elegeu acabou de votar.
O 7 de Setembro de 2026 tinha que ser sobre isso. Em vez de cinco palanques brigando pela eleição, uma multidão só pedindo três coisas:
- O impeachment de Alexandre de Moraes, pelo Senado, como manda a Constituição.
- A cobrança pública de Davi Alcolumbre, o presidente do Senado, que senta em cima dos pedidos e aparece na mesma investigação.
- A apuração de todo mundo que aparece no caso do Banco Master, de qualquer lado, sem blindagem para ninguém.
Agora os fatos que me trouxeram até aqui.
Quem manda no Brasil hoje?
Primeiro, uma correção que quase todo mundo erra: o Supremo hoje tem 10 ministros, e não 11. Luís Roberto Barroso se aposentou em outubro de 2025. O Lula indicou Jorge Messias para a vaga, e o Senado rejeitou por 42 a 34 em abril deste ano, a primeira rejeição de um indicado ao Supremo desde 1894. A cadeira continua vazia.
Nenhum dos 10 passou por uma urna. Passaram por um presidente, que escolheu, e por 81 senadores, que aprovaram. Depois disso, ficam até os 75 anos.
| Ministro | Quem escolheu | Placar no Senado | Fica até |
|---|---|---|---|
| Gilmar Mendes | Fernando Henrique, 2002 | 58 a 15 | 2030 |
| Cármen Lúcia | Lula, 2006 | 55 a 1 | 2029 |
| Dias Toffoli | Lula, 2009 | 58 a 9 | 2042 |
| Luiz Fux | Dilma, 2011 | 68 a 2 | 2028 |
| Edson Fachin, presidente | Dilma, 2015 | 52 a 27 | 2033 |
| Alexandre de Moraes, vice | Temer, 2017 | 55 a 13 | 2043 |
| Nunes Marques | Bolsonaro, 2020 | 57 a 10 | 2047 |
| André Mendonça | Bolsonaro, 2021 | 47 a 32 | 2047 |
| Cristiano Zanin | Lula, 2023 | 58 a 18 | 2050 |
| Flávio Dino | Lula, 2024 | 47 a 31 | 2043 |
Vale a conta de quem indicou: Lula escolheu 4 dos 10 atuais, Dilma 2, Bolsonaro 2, Temer 1 e Fernando Henrique 1. Se o Lula preencher a vaga aberta, chega a 5 de 11. E quem ganhar a eleição de outubro poderá indicar quatro ministros até 2030, porque Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes completam 75 anos nesse período, além da vaga que já está vazia.
Oito em cada dez decisões, um ministro sozinho
Em 2025, o Supremo tomou 116.170 decisões. Dessas, 93.559 foram individuais, de um ministro só, sem os outros. É 80,5%, número apresentado pelo próprio presidente do tribunal, Edson Fachin, no balanço do ano.
| Ano | Decisões no total | De um ministro sozinho | Proporção |
|---|---|---|---|
| 2023 | 101.970 | 84.650 | 83% |
| 2024 | 115.508 | 94.069 | 81,4% |
| 2025 | 116.170 | 93.559 | 80,5% |
| 2026, até julho | 65.613 | 53.719 | 81,9% |
É justo dizer que a maior parte disso é papelada: recurso negado, processo arquivado, precedente aplicado. E o próprio tribunal tem números que jogam a favor dele. As liminares individuais, que são as decisões que travam ou liberam alguma coisa na hora, caíram 70,6% em três anos, de 1.260 em 2022 para 257 em 2025. Um levantamento de 2022 apontou que 98% das decisões individuais acabam confirmadas pelo colegiado.
Mas há um porém, e ele é do próprio Supremo: em junho deste ano, 94 decisões individuais ainda esperavam o aval dos colegas, descumprindo uma regra interna que o tribunal criou para si mesmo em dezembro de 2022.
E tem outro número que mostra o tamanho do espaço que o tribunal ocupou. As ações que cobram do Supremo uma resposta porque o Congresso não votou alguma coisa, as chamadas ações por omissão, foram 62 entre 1990 e 2018. De 2019 até julho deste ano, foram 109, com recorde de 26 em 2025. O Supremo passou a decidir o que o Congresso não decide.
O Congresso tentou reagir. A proposta de emenda que limita as decisões individuais, a PEC 8, passou no Senado por 52 a 18 em novembro de 2023 e foi aprovada na comissão de justiça da Câmara por 39 a 18 em outubro de 2024. De lá para cá, não andou.
O Congresso votou. O Supremo desfez.
| Quando | O que os eleitos fizeram | O que o Supremo fez | Quem decidiu |
|---|---|---|---|
| Julho de 2025 | O Congresso derrubou o decreto de Lula que aumentava o IOF, um imposto | Moraes restabeleceu quase todo o decreto, sozinho, com efeito retroativo | Um ministro |
| Maio de 2026 | Congresso aprovou a Lei da Dosimetria, que reduz penas do 8 de janeiro. Lula vetou. O Congresso derrubou o veto por 318 a 144 na Câmara e 49 a 24 no Senado. A lei foi promulgada no dia 8 | No dia 9, um dia depois, Moraes suspendeu a aplicação da lei aos condenados. Sem data para o plenário julgar | Um ministro |
| Dezembro de 2025 | A lei de 1950 diz que qualquer cidadão pode pedir impeachment de ministro | Gilmar decidiu sozinho que só o procurador-geral poderia pedir, e subiu o quórum para dois terços. Alcolumbre reagiu, e Gilmar recuou em parte, mas manteve o quórum | Um ministro |
| 2023 a 2025 | Congresso aprovou a lei do marco temporal das terras indígenas, derrubando os vetos | Gilmar suspendeu tudo sozinho em 2024. Em dezembro de 2025 o plenário derrubou o trecho principal da lei | Um ministro, depois o plenário |
| Junho de 2024 | O Congresso nunca votou a liberação da maconha. O Senado tinha aprovado o contrário, por 52 a 9 | O Supremo decidiu que portar até 40 gramas não é crime | O plenário |
| Junho de 2025 | O Congresso tinha aprovado, em 2014, a regra de que rede social só responde por post de usuário depois de ordem judicial | O Supremo derrubou parte da regra e mandou as plataformas responderem já depois de aviso, criando 14 novas regras | O plenário, por 8 a 3 |
| 2024 a 2026 | Congresso aprovou as emendas que os deputados mandam para suas cidades | Flávio Dino suspendeu pagamentos, travou R$ 4,2 bilhões e mandou a Polícia Federal investigar | Um ministro, confirmado depois |
Barroso, quando ainda era presidente do tribunal, resumiu o pensamento da casa em setembro de 2025, sobre a anistia: "Seja lá o que o Congresso faça, será passível de controle do Supremo." Gilmar Mendes foi mais direto, em janeiro de 2025, sobre propostas do Congresso para limitar o tribunal: "se forem aprovadas, serão barradas pelo Supremo Tribunal".
Traduzindo: o que você elege pode votar o que quiser. Quem dá a palavra final não foi eleito.
Como se escolhe um juiz supremo no Brasil e no mundo
Aqui está uma coisa que quase nunca aparece no debate: o problema não é ter uma corte suprema. Todo país tem. O problema é o desenho da nossa, que junta duas coisas que a maioria dos países separa: quem escolhe é uma pessoa só, e quem é escolhido fica por décadas.
| País | Quem escolhe | Quanto tempo fica |
|---|---|---|
| Brasil | O presidente indica, o Senado aprova por maioria simples de 41 votos | Até os 75 anos, sem prazo definido |
| Estados Unidos | O presidente indica, o Senado confirma | Vitalício, sem limite de idade |
| Alemanha | Metade eleita pelo Parlamento e metade pela Casa dos Estados, sempre por dois terços | 12 anos, sem recondução, e saída aos 68 |
| Argentina | O presidente indica, o Senado aprova por dois terços | Até os 75 anos |
| Itália | Cinco pelo presidente, cinco pelo Parlamento, cinco pelos próprios tribunais | 9 anos, sem recondução |
| França | Três pelo presidente, três pelo chefe do Senado, três pelo chefe da Câmara | 9 anos, com um terço trocado a cada 3 anos |
| Portugal | Dez pelo Parlamento, três pelo próprio tribunal | 9 anos, sem recondução |
| Espanha | Quatro pela Câmara, quatro pelo Senado, dois pelo governo, dois pelo Judiciário | 9 anos |
| Colômbia | Escolha com participação do Congresso | 8 anos, sem recondução |
| México | Escolha com participação do Congresso | 15 anos |
Duas diferenças saltam da tabela.
A primeira é o quórum. Na Alemanha e na Argentina, o indicado precisa de dois terços do Parlamento, o que obriga governo e oposição a concordarem num nome. No Brasil, basta a maioria simples do Senado, 41 votos. Um governo com base costuma ter isso sem esforço.
A segunda é o tempo. Em quase toda a Europa, o cargo tem prazo: 9 anos, 12 anos, sem recondução. No Brasil, quem entra aos 45 anos fica 30 anos. Alexandre de Moraes entrou aos 48 e pode ficar até 2043.
É por isso que a proposta de mandato de oito anos, que Augusto Cury defende, não é ideia solta de campanha. É o desenho que a maioria das democracias usa. Na palavra dele, em agosto: "oito anos e depois vai embora. Não pode ficar a vida inteira no Supremo".
E vale dizer o outro lado: a Argentina, que tem o quórum de dois terços, viu o Senado rejeitar dois indicados do presidente Milei em abril de 2025. O Brasil, com quórum menor, também rejeitou o indicado do Lula em abril deste ano. O filtro existe nos dois desenhos. Ele só é mais alto lá.
Moraes, caso a caso
"Arbitrário" é palavra de tribunal. Em português de casa: é quando uma pessoa decide sozinha, sem sorteio, sem prazo e sem ninguém acima dela para dizer não. Aqui está o que eu encontrei, com data, do mais antigo ao mais recente.
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 2019 | O próprio Supremo abre o inquérito das fake news, sem pedido do Ministério Público. O presidente do tribunal, Toffoli, escolhe Moraes como relator sem sorteio. O tribunal vira vítima, investigador e juiz ao mesmo tempo. A procuradora-geral Raquel Dodge pede o arquivamento, dizendo que "o sistema penal acusatório não autoriza que a condução da investigação penal seja feita pelo Judiciário". Moraes nega. O inquérito completou sete anos em março e continua aberto. Em fevereiro, a OAB pediu o fim do que chamou de "inquérito de natureza perpétua" |
| 2019 | Moraes manda a revista Crusoé tirar do ar uma reportagem sobre Toffoli. Volta atrás dias depois, sob pressão de entidades de imprensa e do decano do tribunal, Celso de Mello |
| 2021 | O deputado Daniel Silveira é preso em flagrante por um vídeo. Condenado a 8 anos e 9 meses. Bolsonaro perdoa a pena, e o Supremo anula o perdão por 8 a 2 |
| 2022 | O Telegram é suspenso no Brasil por dois dias. No ano seguinte, leva multa de R$ 1,2 milhão por não bloquear o canal de um deputado eleito, e depois multa de R$ 500 mil por hora por mandar aos usuários uma mensagem criticando um projeto de lei |
| 2022 | Documentos internos do Twitter, divulgados depois, mostram que o tribunal eleitoral pediu à empresa os dados de até 260 mil contas por causa de quatro hashtags usadas em três dias |
| 2023 | O blogueiro Oswaldo Eustáquio entra na lista de procurados da Interpol por ordem de Moraes. Comentaristas como Rodrigo Constantino e Paulo Figueiredo têm passaporte cancelado e contas bloqueadas |
| 2024 | A Folha publica mensagens em que o gabinete de Moraes pede, por WhatsApp e fora do rito, relatórios de um assessor do tribunal eleitoral contra bolsonaristas, ao menos 20 vezes. O gabinete diz que tudo foi "oficial e regular" |
| 2024 | O X fica bloqueado no Brasil por mais de um mês. Quem usasse VPN para entrar pagaria R$ 50 mil por dia de multa. A empresa pagou R$ 28,6 milhões para voltar. A Human Rights Watch escreveu que não ficou claro se a medida era "proporcional ou necessária" |
| 2024 | Filipe Martins, ex-assessor de Bolsonaro, passa cerca de seis meses preso com base num registro de entrada nos Estados Unidos. Em agosto deste ano, um juiz federal americano concluiu que o registro era falso |
| 2025 | Débora Rodrigues, a cabeleireira que pichou a estátua com batom, é condenada a 14 anos. No mesmo julgamento, o ministro Fux propôs 1 ano e 6 meses |
| 2025 | O Rumble é bloqueado no Brasil por não ter representante legal e não cumprir ordem de bloqueio de uma conta |
| 2025 | Bolsonaro é condenado a 27 anos e 3 meses por 4 votos a 1, numa turma de cinco ministros, e não pelo plenário. Fux votou pela anulação, alegando que o caso nem deveria estar ali. Hoje ele cumpre prisão domiciliar em Brasília, de tornozeleira, proibido de mandar recado ao ato de hoje "inclusive por meio de terceiros" |
| 2025 | Moraes restabelece sozinho o aumento do IOF que o Congresso tinha derrubado |
| 2026 | Moraes suspende sozinho a Lei da Dosimetria um dia depois de promulgada |
| 2026 | Eduardo Bolsonaro é condenado a 4 anos e 2 meses por coação. No caso de Carla Zambelli, a Câmara votou para não cassar o mandato dela, e Moraes declarou a decisão da Câmara nula |
| 2026 | Na quinta-feira, 3 de setembro, Moraes usa o inquérito das fake news, aquele de 2019, para pedir a investigação do colega André Mendonça, que dois dias antes tinha derrubado o sigilo das mensagens dele com o dono do Banco Master |
Não sou só eu que aponto isso, e não é gente de um lado só. O ex-ministro Marco Aurélio Mello, que passou 31 anos no Supremo, disse em julho de 2025: "É preciso que o Supremo volte a ser Corte Constitucional, e não um ator político." O jurista Ives Gandra Martins falou em ministros que estão "legislando". O professor Conrado Hübner Mendes, da USP, que é crítico declarado do bolsonarismo, disse em dezembro: "os ministros do STF estão absolutamente sem controle". E Oscar Vilhena Vieira, da FGV, o professor que inventou a palavra "supremocracia" em 2008, disse no sábado que o tribunal vive "a crise mais grave em 135 anos" e que ministros "passaram a se comportar como políticos". A revista britânica The Economist, em abril de 2025, falou em "concentração excessiva de poder".
Quando uma pessoa escolhe quem investiga, investiga, julga, prende, multa, e ainda desfaz o que o Congresso votou, e ninguém acima dela diz não, isso tem o nome que o povo já dá ao Moraes na rua e nos comentários: "ditador". A tabela acima mostra de onde vem o apelido.
Três registros de honestidade, para não deixar buraco. Primeiro: em dezembro, os Estados Unidos retiraram as sanções que tinham aplicado a Moraes em julho de 2025. Segundo: a organização Repórteres Sem Fronteiras, que defende jornalistas no mundo inteiro, apoiou o bloqueio do X, dizendo que era "último recurso" contra uma empresa que se recusava a cumprir a lei. Terceiro: o Supremo diz que todas as decisões dele "foram confirmadas pelo colegiado competente". Sobre isso, a lista responde: o inquérito foi confirmado por 10 a 1 em 2020, a condenação de Bolsonaro por 4 a 1, e a suspensão da dosimetria ainda espera o plenário, sem data.
O 8 de janeiro em números
Como boa parte desses casos nasce do 8 de janeiro de 2023, vale colocar o tamanho da coisa na mesa, com os números do próprio tribunal.
| O que | Quanto |
|---|---|
| Pessoas responsabilizadas até agosto de 2025 | 1.190 |
| Condenados por crimes graves | 279 |
| Acordos para não responder a processo | 552 |
| Absolvições | 10 |
| Denúncias apresentadas até janeiro de 2026 | 1.734 |
| Condenações no total até janeiro de 2026 | mais de 810 |
| Condenados que fugiram para a Argentina | cerca de 60 |
E duas divergências internas que precisam entrar, porque mostram que o tribunal não é um bloco só. Em abril de 2025, os ministros Mendonça e Nunes Marques votaram para absolver 17 réus, alegando que a denúncia era genérica. Perderam por 9 a 2. E em agosto deste ano o plenário derrotou Moraes por 6 a 4 e mandou descontar das penas o tempo de recolhimento noturno, o que deve beneficiar cerca de 410 condenados.
O caso do banco, a história inteira
Nada disso seria pauta de 7 de Setembro sem o que aconteceu entre terça e quinta da semana passada. Mas, para entender a semana, é preciso ver a história desde o começo. Ela tem quase quatro anos.
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Novembro de 2022 | O Banco Master paga um jantar para 150 pessoas em Nova York, num evento de empresários. Entre os presentes, quatro ministros do Supremo: Moraes, Gilmar Mendes, Barroso e Lewandowski. O banco diz que apoia o evento "há muitos anos" |
| Janeiro de 2024 | O escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, assina contrato com o banco: R$ 3,6 milhões por mês, por três anos |
| Abril de 2024 | Daniel Vorcaro, dono do banco, paga uma degustação de uísque em Londres, de US$ 640 mil, para cerca de 40 convidados |
| Março de 2025 | O BRB, banco público do Distrito Federal, aprova a compra de 58% do Master. Se desse certo, o problema viraria conta do contribuinte |
| Setembro de 2025 | O Banco Central veta a compra, por unanimidade da diretoria |
| 18 de novembro de 2025 | O Banco Central liquida o Master e mais quatro empresas do grupo. A Polícia Federal deflagra a Operação Compliance Zero. Vorcaro é preso no aeroporto de Guarulhos, ao tentar embarcar num jato particular |
| 28 de novembro de 2025 | O caso é sorteado para o ministro Dias Toffoli. No dia seguinte, ele viaja a Lima num jatinho que levava a bordo um advogado da defesa do banco |
| 2 de dezembro de 2025 | Toffoli traz o inquérito para o Supremo e coloca sigilo |
| 12 de dezembro de 2025 | O Globo revela o contrato do escritório da mulher de Moraes com o banco |
| Janeiro de 2026 | Segunda fase da operação. O Supremo bloqueia R$ 5,7 bilhões. Em 24 horas, Toffoli muda três vezes a decisão sobre quem pode acessar as provas apreendidas |
| Janeiro de 2026 | O fundo que garante depósitos começa a pagar. Até o fim do mês, R$ 32,5 bilhões a 580 mil pessoas. A conta total do rombo é estimada em quase R$ 47 bilhões, cerca de um terço de todo o fundo |
| 12 de fevereiro de 2026 | Toffoli deixa a relatoria depois que a Polícia Federal apresenta relatórios do celular de Vorcaro que o citam. André Mendonça é sorteado no lugar dele |
| 21 de fevereiro de 2026 | O plenário arquiva, por 10 a 0, o pedido de suspeição contra Toffoli e valida os atos dele |
| 4 de março de 2026 | Terceira fase. Vorcaro é preso de novo, agora por ordem de Mendonça. Segue preso |
| 8 de abril de 2026 | A Receita Federal manda à comissão do Congresso a lista de pagamentos do banco a escritórios e empresas ligados a ex-ministros, ex-presidente e políticos |
| Maio e junho de 2026 | Vorcaro tenta duas vezes fechar delação premiada. A Polícia Federal rejeita as duas, e a Procuradoria comunica a rejeição ao Supremo. Nenhuma delação foi fechada até hoje |
| 27 de agosto de 2026 | A Polícia Federal entrega a Mendonça um relatório de 218 páginas. 181 delas tratam do contato salvo no celular do banqueiro como "Alexandre de Moraes BRASILIA" |
| 1º de setembro de 2026 | Mendonça derruba o sigilo do relatório |
Os documentos do arquivo do contrato mostram que o último a editar a minuta, em janeiro de 2024, foi um usuário chamado "Ministro Alexandre de Moraes". Segundo o relatório, houve ao menos seis encontros entre o ministro e o banqueiro em 2024 e 2025. Numa mensagem a um funcionário, Vorcaro escreveu: "esse Barci de Moraes por favor não deixa atrasar um dia. É o pagamento mais importante que temos".
Três mensagens do banqueiro, com data, entraram no relatório:
É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem.Atribuída a 30 de outubro de 2025
Acha que segunda já tenho que estar fora?15 de novembro de 2025
Conseguiu ter notícia ou bloquear?18 de novembro de 2025, dia da prisão dele
Na primeira, os nomes citados batem com o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral, Paulo Gonet. Registre-se o óbvio, porque importa: quem escreve é o banqueiro. Alguém dizer que conta com autoridades não prova que essas autoridades tenham feito qualquer coisa.
A defesa precisa entrar, e entra: o escritório diz que o serviço foi prestado, com 15 advogados e 94 reuniões, que o ministro nunca julgou nenhum caso do banco e que o setor de conformidade do banco consultou antes se havia impedimento. Sobre as conversas com o presidente do Banco Central, Moraes afirmou que trataram "exclusivamente" das sanções americanas contra ele e que "jamais esteve no Banco Central". A Procuradoria-Geral chegou a arquivar uma apuração sobre isso em dezembro. Nada aqui é condenação.
Quem mais aparece no caso, e quanto recebeu
Este é o pedaço que quase some do noticiário, porque é mais confortável tratar o caso como a história de um ministro só. Não é. A Receita Federal mandou ao Congresso, em abril, a lista de pagamentos declarados pelo banco. São nomes dos dois lados da política.
| Quem | Quanto o banco declarou ter pago | O que a pessoa diz |
|---|---|---|
| Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda do PT | R$ 14 milhões a uma consultoria dele | Serviço de consultoria |
| Michel Temer, ex-presidente | R$ 10 milhões ao escritório | Diz que fez "mediação" e recebeu R$ 7,5 milhões |
| Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda | Cerca de R$ 8 milhões | Consultoria de economia entre 2024 e 2025 |
| Antônio Rueda, presidente do União Brasil | R$ 6,4 milhões a escritórios | Partido diz que os serviços foram "estritamente técnicos" |
| Ricardo Lewandowski, ministro da Justiça e ex-ministro do Supremo | R$ 6,1 milhões ao escritório da família | Diz que passou o escritório ao filho ao entrar no governo, em janeiro de 2024 |
| ACM Neto, ex-prefeito de Salvador | R$ 5,45 milhões a uma consultoria | |
| Grupo Massa, ligado à família do governador Ratinho Junior | R$ 24 milhões | O grupo diz que o governador não opera as empresas |
Somando só essa lista, são cerca de R$ 74 milhões. Fora o contrato do escritório da mulher de Moraes.
E há mais nomes no processo, cada um com a sua situação:
- Dias Toffoli, ministro do Supremo, foi o primeiro relator e saiu do caso quando apareceu no celular do banqueiro. Viajou num jatinho com advogado da defesa no dia seguinte ao sorteio.
- Gilmar Mendes, ministro do Supremo, viajou em janeiro de 2025 num avião de uma empresa de que Vorcaro já foi sócio. Diz que não sabia da ligação e que a carona foi oferecida por outro empresário.
- Hugo Motta, presidente da Câmara, esteve no jantar de Londres.
- Paulo Gonet, procurador-geral da República, esteve em Londres e é citado nas mensagens do banqueiro. É ele quem pediu a anulação do relatório que cita Moraes.
- Andrei Rodrigues, diretor da Polícia Federal, esteve em Londres e também é citado nas mensagens.
- Ciro Nogueira, senador, é apontado pela investigação como ligado à chamada "emenda Master", que tentou aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor garantido pelo fundo. Nega tudo e fala em perseguição.
- Flávio Bolsonaro, senador e candidato à Presidência, aparece num registro do órgão de controle financeiro: US$ 1,6 milhão de Vorcaro para o fundo do filme sobre o pai, o Dark Horse, em setembro de 2025.
Nenhum deles é condenado. Alguns nem são acusados formalmente: aparecem numa lista de pagamentos, ou num convite de jantar, o que não é crime. Mas é essa foto de família que explica por que o caso não anda. E é por isso que o meu pedido número três é apuração para todo mundo, sem exceção.
O que mudou nesta semana
| Dia | O que aconteceu |
|---|---|
| Terça, 1º | Mendonça, o relator do caso, derruba o sigilo do relatório de 218 páginas da PF. O procurador-geral Gonet pede a anulação do relatório, alegando que investigar ministro exige aval do plenário. Estadão, Folha e O Globo publicam editoriais pedindo a saída de Moraes |
| Quarta, 2 | Fachin fala em "especial gravidade" e promete medidas "no tempo devido e sem precipitação" |
| Quinta, 3 | Moraes responde usando o inquérito das fake news: pede a investigação de Mendonça por "improbidade, abuso de autoridade e crime de responsabilidade", com base num relatório de 50 páginas sem timbre, sem assinatura e sem data, que a própria PF diz não ter "valor probatório". Na mesma decisão, lista como alvos da apuração do colega os ministros Gilmar, Toffoli, Fux e Nunes Marques, e o presidente do Senado, Alcolumbre |
| Sexta, 4 | Fachin tira o pedido de Moraes do inquérito e dá cinco dias úteis, até o dia 11, para Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor da PF se explicarem. O plenário só decide depois do dia 22 |
| Domingo, 6 | Mendonça libera o relatório da PF para o plenário |
Ou seja: o ministro investigado usou o próprio inquérito para atacar o ministro que o investigou. E o tribunal marcou tudo para depois.
Vale registrar que Mendonça também tem um problema, e a reportagem não pode escondê-lo. Ele recebeu Vorcaro no gabinete em março de 2025, por cerca de duas horas, o que ele mesmo confirma, dizendo que o encontro foi intermediado por um deputado a pedido de gente de uma igreja e que não se tratou de assunto do Banco Central. Um professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo, Pedro Serrano, resumiu assim: sobre Moraes, "existem indícios que merecem ser apurados", mas "não tem crime comprovado"; sobre Mendonça, "seria adequado retirá-lo da relatoria".
Quem deveria julgar está na mesma foto
Aqui entra o segundo nome da minha lista.
Davi Alcolumbre avisou em agosto de 2025 que não pautaria o impeachment de ministro "nem com 81 assinaturas". Na terça-feira desta semana, disse que há 109 pedidos contra 10 ministros e que "isso não é normal". Na quarta, no plenário, mandou o recado que mostra de que lado ele está olhando:
Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para as mesmas pessoas para fazer um filme, mas o único culpado é o ministro Alexandre de Moraes.
Agora junte três coisas que estão em documentos públicos:
- Em junho, uma proposta de delação de Vorcaro dizia que Alcolumbre teria recebido US$ 30 milhões por meio de um ex-sócio. A Polícia Federal e a Procuradoria rejeitaram essa proposta, que não veio com prova anexada. Alcolumbre diz que "jamais recebeu valores, no Brasil ou no exterior" e promete ir à Justiça. Está registrado.
- O relatório de inteligência da PF que Moraes usou contra Mendonça chama Alcolumbre de "provável alvo estratégico" da investigação, justamente por controlar a pauta do impeachment. O mesmo relatório, diz a PF, não imputa infração a ninguém.
- Na quinta, o senador Carlos Viana entrou com representação contra Alcolumbre no Conselho de Ética do Senado por não encaminhar os pedidos, e pediu o afastamento dele da presidência. Detalhe: o Conselho de Ética está desativado desde 2024, e só quem pode instalar é o próprio Alcolumbre.
E não é só ele. O procurador-geral que pediu a anulação do relatório aparece citado nas mensagens do banqueiro. O diretor da Polícia Federal também. Toffoli saiu da relatoria depois que a PF mostrou que ele aparecia no celular. É por isso que a matéria dos 55 pedidos tem aquele título. Quando quem julga, quem acusa e quem admite o julgamento aparecem na mesma foto, tudo acaba em pizza.
Por isso o grito de hoje não podia ser só "Fora Moraes". Tinha que ser também "e o Alcolumbre, vai pautar quando?".
Como funciona o impeachment de um ministro, passo a passo
Muita gente acha que impeachment de ministro do Supremo é prisão. Não é. E muita gente acha que basta juntar assinatura. Também não é. O rito está na Constituição, no artigo 52, e na Lei 1.079, de 1950, a mesma que serviu para tirar Collor e Dilma.
| Etapa | Quem faz | O que exige |
|---|---|---|
| 1. Protocolo | Qualquer cidadão | Denúncia por escrito, com assinatura reconhecida |
| 2. Admissão | Presidência e Mesa do Senado | Juízo de admissão, sem prazo fixado em lei. É aqui que tudo para |
| 3. Comissão especial | Senadores | Parecer sobre a denúncia |
| 4. Abertura do processo | Plenário do Senado | Maioria simples |
| 5. Julgamento | Senado, presidido pelo presidente do Supremo | 54 votos, dois terços dos 81 |
| 6. Pena | Perda do cargo e oito anos sem poder ocupar função pública. Não há prisão nesse rito |
Duas observações que quase nunca aparecem.
A primeira: não existe prazo na etapa 2. A lei não diz em quantos dias o presidente do Senado precisa decidir. Por isso um pedido pode envelhecer até a legislatura acabar, e é exatamente isso que acontece desde sempre.
A segunda: nunca aconteceu. Nenhum pedido de impeachment de ministro do Supremo foi a plenário na história do Brasil. Entre 2001 e agosto de 2025 foram 176 pedidos. Todos morreram na gaveta. O único caso de ministro que saiu do Supremo por decisão do Senado foi em 1894, e nem foi impeachment: o Senado simplesmente rejeitou a nomeação de Cândido Barata Ribeiro depois que ele já tinha assumido, por entender que faltava a ele "notável saber".
O impeachment de Moraes, em votos no Senado
Fonte: levantamento da Gazeta do Povo com cada senador, 4 de setembro de 2026
Nesta semana, um pedido novo foi protocolado pelo senador Alessandro Vieira com 20 assinaturas, entre elas as de Damares Alves, Hamilton Mourão, Esperidião Amin, Cleitinho, Marcos Pontes, Tereza Cristina, Mara Gabrilli e Carlos Viana. A senadora Damares foi a mais direta, na terça: pediu que Moraes "renuncie ainda hoje à tarde".
O que cada candidato disse
| Candidato | O que disse sobre Moraes e o caso | Onde está hoje |
|---|---|---|
| Flávio Bolsonaro (PL) | "Não dá mais para se omitir"; cobra o impeachment; na live de sábado: "o Brasil olha hoje para a Suprema Corte com muito nojo" | Paulista, 15h |
| Augusto Cury (Avante) | "Alexandre de Moraes deve se explicar, sim. E, se ele cometeu erros passíveis de uma exclusão, deveria ter a dignidade para se autoexcluir ou então sofrer o impeachment" (frase da coletiva de 2 de setembro, segundo O Antagonista) | Copacabana, 9h |
| Romeu Zema (Novo) | Pede a saída de Moraes: "nunca na história deste país o Judiciário foi tão corrupto, o Legislativo tão omisso e o Executivo tão irresponsável" | Paulista, 9h20 |
| Renan Santos (Missão) | Protocolou pedido de impeachment de Moraes e de Toffoli | Ibirapuera, 11h |
| Ronaldo Caiado (PSD) | "O Senado tem maioria para pedir e votar"; "não vejo como ele permanecer no Supremo" | Desfile em Goiânia |
| Lula (PT) | "Investigar todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer". Não disse o nome de Moraes | Tribuna do desfile, Brasília |
Repare: cinco dos seis falam em tirar ou apurar Moraes. E mesmo assim cada um foi para um canto. É isso que eu quis dizer com "eu sei que não vai ser assim".
Entre os seis, o único que apresentou uma proposta de mudança de regra, e não só de nome, foi o Cury. Ele defende:
- Mandato de oito anos para ministro do Supremo, com fim da vitaliciedade.
- Fim da escolha pelo presidente da República, para reduzir a interferência política.
- Idade mínima acima de 50 anos.
- Nenhuma filiação partidária nos cinco anos anteriores.
- Pelo menos dois terços da carreira dentro da magistratura.
- As duas próximas vagas reservadas a mulheres.
Sobre a anistia aos condenados do 8 de janeiro, ele diz que, se eleito, chamaria juristas brasileiros e estrangeiros para analisar as falhas dos processos antes de decidir.
Eu torço por ele e não escondo. E, por isso mesmo, registro o que joga contra a peça: o Cury não estava no "Fora Moraes" de hoje. Ele foi para o Rio, com bandeira branca e discurso de pacificação. Cobrar explicação e propor mandato de oito anos não é a mesma coisa que gritar palavra de ordem na Paulista.
O que o povo pensa do Supremo
Esta parte é importante porque mostra que a insatisfação não é de um lado só, e que ela cresceu de forma constante, ano após ano, muito antes do caso do banco.
| Instituto e data | Pergunta | Resultado |
|---|---|---|
| Quaest, novembro de 2022 | Confia no Supremo? | 40% não confiavam |
| Quaest, agosto de 2023 | Confia no Supremo? | 40% não confiavam |
| Quaest, julho de 2024 | Confia no Supremo? | 43% não confiavam |
| Datafolha, junho de 2025 | Orgulho ou vergonha dos ministros? | 58% vergonha, 30% orgulho |
| Quaest, agosto de 2025 | Confia no Supremo? | 47% não confiavam, 50% confiavam |
| Quaest, março de 2026 | Confia no Supremo? | 49% não confiavam |
| Datafolha, abril de 2026 | Os ministros têm poder demais? | 75% sim, 20% não |
| Datafolha, abril de 2026 | O Supremo é essencial para a democracia? | 71% sim, 24% não |
| Quaest, abril de 2026 | Confia no Supremo? | 53% não confiam, 41% confiam. Primeira vez que a desconfiança é maioria |
| Real Time Big Data, maio de 2026 | Confia no Supremo? | 55% não confiam, 36% confiam |
Quantos brasileiros dizem NÃO confiar no STF, em %
Fonte: série da pesquisa Quaest, de novembro de 2022 a abril de 2026
No mesmo Datafolha de abril, a avaliação pessoal de cada ministro também apareceu. Moraes é o mais conhecido: 89% dos brasileiros sabem quem ele é. Entre eles, 33% avaliam a atuação dele como ótima ou boa, e 41% como ruim ou péssima. André Mendonça e Cármen Lúcia têm saldo positivo. Dias Toffoli tem o pior saldo do tribunal.
Um Datafolha novo, com entrevistas entre os dias 8 e 11, sai na sexta-feira. Vai ser o primeiro a medir o efeito da crise desta semana.
O que dizem os que defendem o Supremo
Uma reportagem que só ouve um lado não é reportagem. Então aqui estão os melhores argumentos do outro lado, com nome e data.
Luís Roberto Barroso, então presidente do tribunal, em fevereiro de 2025: "É possível não gostar da Constituição e do papel que ela reservou para o Supremo Tribunal Federal. Mas criticar o Supremo por aplicar a Constituição simplesmente não é justo."
Barroso, em agosto de 2025, sobre a atuação de Moraes: "Somos um dos poucos casos no mundo em que um tribunal conseguiu evitar uma grave erosão democrática", sem "desaparecimentos, torturas, acusações sem provas".
Gilmar Mendes, em setembro de 2025, negando que o tribunal pratique ativismo: "Não há o monopólio absoluto, isento a qualquer mecanismo de controle, freio ou contrapeso."
Edson Fachin, atual presidente, em maio de 2026, nos 200 anos da Câmara: "Parlamento e Judiciário não se enfrentam, não se substituem, sustentam-se mutuamente." E, na sexta-feira passada, em plena crise: "nenhuma autoridade está acima da Constituição, nenhum Poder está acima da lei".
O argumento estrutural deles é este: o Supremo decide muito porque é muito acionado, e é muito acionado porque o Congresso não decide. O número das ações por omissão, que eu mostrei lá em cima, sustenta essa tese: elas quase dobraram desde 2019.
O contra-argumento, que é o meu, também tem número: o tribunal não foi acionado para restabelecer um decreto de imposto que o Congresso acabou de derrubar. Isso ele fez por conta própria, sozinho, e em 24 horas.
Como ler o número da multidão amanhã
Amanhã vai sair número de público, e ele vai virar manchete. Guarde esta régua, porque ela vale para ato de qualquer lado.
Quem organiza sempre conta mais. A polícia costuma contar menos. Os institutos que medem por foto aérea e inteligência artificial dão o número do meio. O mais usado no Brasil é o do Monitor do Debate Político da USP, que fotografa no pico do ato e trabalha com margem de 12%.
| Ato na Paulista | Estimativa da USP | Estimativa do Poder360 |
|---|---|---|
| Fevereiro de 2024 | cerca de 185 mil | 300 a 350 mil |
| 7 de Setembro de 2024 | 45,4 mil | 58 mil |
| Março de 2025 | 18,3 mil | |
| Abril de 2025, "Anistia Já" | 44,9 mil | 60 mil |
| Junho de 2025 | 12,4 mil | 16,4 mil |
| Agosto de 2025 | 37,6 mil | 57,6 mil |
| 7 de Setembro de 2025 | 42,2 mil | 48,8 mil |
Duas referências para hoje. A primeira: os dois últimos 7 de Setembro na Paulista ficaram entre 42 mil e 45 mil pela régua da USP. A segunda: o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro em Copacabana, em 16 de agosto, reuniu cerca de 9 mil pessoas no pico.
Quando alguém te mandar um número amanhã, pergunte uma coisa só: quem contou?
Uma cena para guardar
Volta comigo para o dia 7 de setembro de 1822. Dom Pedro está na beira do riacho do Ipiranga. Chega uma carta de Portugal mandando ele voltar e obedecer às Cortes de Lisboa, que decidiam sobre o Brasil sem perguntar nada a quem morava aqui.
Ele tinha duas saídas: obedecer ou gritar.
Dois séculos depois, o brasileiro escolhe presidente, senador e deputado. E depois assiste, de casa, uma corte de dez pessoas que ele não escolheu dizer o que vale e o que não vale do que ele votou. Quando um deles aparece num contrato de R$ 130 milhões com um banco quebrado, o tribunal marca a conversa para daqui a duas semanas, e o Senado diz que "tudo tem tempo e tudo tem hora".
Independência ou morte, hoje, é isto: ou o povo que elege volta a mandar mais do que quem ninguém elegeu, ou a gente continua fazendo cinco atos separados enquanto o riacho passa.
Minha opinião final
Eu torço pelo Augusto Cury e não escondo. Votaria no Flávio sem problema. Não voto no Lula.
E é exatamente por isso que eu digo: hoje não era dia de candidato. Era dia de o eleitor de todos eles pedir a mesma coisa. Que o Senado faça o serviço que a Constituição deu a ele. Que o Supremo julgue o próprio ministro com a mesma pressa com que julga o resto do país. E que ninguém, de nenhum lado, fique de fora da apuração do banco.
Tem uma coisa que eu queria deixar clara, porque ela vale mais que o nome do Moraes. O problema não se resolve trocando uma pessoa. Se sair um ministro e a regra continuar igual, em cinco anos a gente está de novo aqui, com outro nome. O que precisa mudar é o desenho: mandato com prazo, escolha que não dependa de uma caneta só, e um caminho real para responsabilizar quem erra. Isso não é bandeira de um lado. É como quase toda democracia grande do mundo faz.
O dia da Independência é sobre quem manda. Em 1822 a resposta foi dada num grito. Em 2026 ela vai ser dada em cinco palanques que não se falam. Eu escrevi o que eu queria ter visto.
Perguntas que chegam nos comentários
Quais são os atos de 7 de Setembro de 2026 e a que horas?
Desfile oficial na Esplanada, em Brasília, às 9h, com Lula na tribuna. Caminhada de Augusto Cury em Copacabana às 9h. Ato de Romeu Zema na Paulista às 9h20. Ato de Renan Santos no Ibirapuera às 11h. Ato de Flávio Bolsonaro na Paulista às 15h. E atos "Fora Moraes" em pelo menos dez capitais, além do Grito dos Excluídos em 24 estados.
Quantos ministros tem o Supremo hoje?
Dez. Barroso se aposentou em outubro de 2025 e o Senado rejeitou o indicado do Lula, Jorge Messias, por 42 a 34 em abril de 2026, a primeira rejeição desde 1894. A vaga está aberta.
Quem pode tirar um ministro do Supremo do cargo?
Só o Senado, pelo artigo 52 da Constituição, com 54 votos entre 81. A pena é perda do cargo e oito anos sem função pública. Não existe prisão nesse rito. O pedido só anda se o presidente do Senado mandar andar, e a lei não fixa prazo para isso.
Quantos pedidos de impeachment existem contra Moraes?
Depende de quem conta. O próprio Alcolumbre falou em 66 na terça-feira. O JOTA contou 67. Contra todos os ministros são 109. Nenhum pedido de impeachment de ministro do Supremo foi votado na história, e foram 176 pedidos entre 2001 e 2025.
O contrato da mulher do ministro com o banco é ilegal?
Não há decisão dizendo isso. O escritório afirma que o serviço foi prestado, que o setor de conformidade do banco consultou antes se havia impedimento e que o ministro nunca julgou nenhum caso do banco. A Procuradoria-Geral arquivou uma apuração sobre o tema em dezembro de 2025. O que existe é investigação em curso.
Bolsonaro vai ao ato da Paulista?
Não. Ele está em prisão domiciliar em Brasília, com tornozeleira, e desde julho está proibido por Moraes de mandar qualquer manifesto político, inclusive por meio de terceiros.
O que Augusto Cury propõe para o Supremo?
Mandato de oito anos para ministro, fim da vitaliciedade, fim da escolha pelo presidente da República, idade mínima acima de 50 anos, nenhuma filiação partidária nos cinco anos anteriores, dois terços da carreira na magistratura e as duas próximas vagas reservadas a mulheres.
Quanto o Banco Master pagou a políticos e ex-ministros?
A Receita Federal informou ao Congresso pagamentos declarados que somam cerca de R$ 74 milhões a escritórios e empresas ligados a Guido Mantega, Michel Temer, Henrique Meirelles, Antônio Rueda, Ricardo Lewandowski, ACM Neto e ao Grupo Massa. Nenhum deles foi condenado, e alguns nem são acusados formalmente.
Quantas pessoas vão aos atos de hoje?
Só dá para saber amanhã. A régua da USP para a Paulista aponta 45,4 mil em 7 de setembro de 2024 e 42,2 mil em 7 de setembro de 2025. Quem organiza sempre conta mais, a polícia conta menos.
O calendário até a urna
| Data | O que acontece |
|---|---|
| Terça, 8 de setembro | Saíram os números: 28.500 na Paulista pela USP, 34.200 pelo Poder360 e 70 mil em Brasília pelo governo |
| Sexta, 11 de setembro | Vence o prazo de Fachin para Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor da PF se explicarem. No mesmo dia sai o Datafolha que mede a crise do Supremo |
| Segunda, 14 de setembro | Prazo final para o tribunal eleitoral julgar as candidaturas contestadas, e dia de debate |
| Depois de 22 de setembro | O plenário do Supremo decide o que faz com os dois ministros |
| Domingo, 4 de outubro | Primeiro turno |
Uma última observação, e ela vale para você. Ir a ato de rua é direito seu, em qualquer um dos cinco. Mas tem uma regra que pega gente comum: pessoa física não pode pagar impulsionamento de conteúdo eleitoral, pelo artigo 57-C da Lei 9.504. Postar de graça, tudo bem. Apertar "turbinar" num post pedindo voto ou atacando candidato vira problema, com multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil.
Eu volto a cada passo, com fonte.
Leia também: Alcolumbre não pauta o impeachment, e aparece na própria investigação, Moraes pede investigação contra Mendonça, a terceira tentativa de delação do banqueiro do Master e os três 7 de Setembro.






