THIAGODECASTRO Receber no WhatsAppBoletim

Política / 6 de setembro de 2026

Eu fui checar

Três países elegeram quem nunca tinha governado nada. Eu fui ver o que aconteceu depois, e achei a parte que ninguém conta

Um apresentador de reality show nos Estados Unidos. Um ator de comédia na Ucrânia. Um economista de programa de TV na Argentina. Riram dos três e os três ganharam. Só que nenhum deles estava em terceiro lugar a um mês da eleição, e é aí que a comparação com o Brasil de 2026 começa a doer.

Publicado
6 de setembro de 2026
Atualizado
6 de setembro de 2026
Editoria
Política
Leitura
9 min
Fontes
11 citadas
Donald Trump (retrato oficial da Casa Branca, domínio público), Volodymyr Zelensky (Presidência da Ucrânia, CC BY 4.0), Javier Milei (Governo Argentino, CC BY 4.0) e Augusto Cury (foto de arquivo)
Donald Trump (retrato oficial da Casa Branca, domínio público), Volodymyr Zelensky (Presidência da Ucrânia, CC BY 4.0), Javier Milei (Governo Argentino, CC BY 4.0) e Augusto Cury (foto de arquivo)

Você já ouviu esse argumento na mesa do bar: "o Trump ganhou, o Zelensky ganhou, o Milei ganhou, então o de fora pode ganhar aqui".

O argumento é verdadeiro. Eu fui checar cada um dos três, com data e número. E encontrei uma coisa que quem usa esse argumento nunca menciona, provavelmente porque nunca foi olhar.

Vou pela ordem: quem eram, o que aconteceu depois, e o detalhe que muda tudo.

Quem é cada um dos três

Antes de qualquer comparação, é bom saber exatamente do que a gente está falando. Os três costumam ser citados juntos, como se fossem a mesma coisa. Não são.

QuemPaísO que fazia antesQuando ganhou
Donald TrumpEstados UnidosEmpresário do ramo imobiliário. Apresentou um reality show de negócios na TV americana de 2004 a 20152016
Volodymyr ZelenskyUcrâniaAtor e comediante. Protagonista de uma série de TV2019
Javier MileiArgentinaEconomista que ficou famoso discutindo em programas de televisão2023

O comediante: Volodymyr Zelensky, Ucrânia

Esta parte parece invenção de roteirista, e é: literalmente.

Em 2015 estreou na Ucrânia uma série de comédia chamada Servo do Povo. O personagem principal é um professor de história que xinga a corrupção dos políticos dentro da sala de aula. Um aluno filma escondido, o vídeo viraliza, e o professor acaba eleito presidente do país.

Quem fazia o professor era Volodymyr Zelensky, ator e comediante, sem nenhum cargo público na vida.

Em 2018, ele registrou um partido político com o mesmo nome da série. Em 31 de março de 2019, venceu o primeiro turno da eleição real com 30,26% dos votos. Em 21 de abril, venceu o segundo turno com 73,22%, contra o presidente que estava no cargo, Petro Poroshenko.

O que aconteceu depois. Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. O comediante que ninguém levava a sério virou o rosto da resistência de um país inteiro, e passou a ser recebido como chefe de Estado nos maiores parlamentos do mundo. Ninguém ri mais dele.

O apresentador: Donald Trump, Estados Unidos

Donald Trump era empresário do ramo imobiliário e apresentou um reality show de negócios na televisão americana de 2004 a 2015. Nunca tinha ocupado cargo público nem servido nas Forças Armadas.

Isso não é força de expressão. Ele foi o primeiro presidente da história dos Estados Unidos sem nenhuma das duas coisas. Todos os anteriores tinham sido governadores, senadores, deputados, secretários, vice-presidentes ou generais.

Em 2016, ele venceu no colégio eleitoral por 304 a 227 e perdeu no voto popular para Hillary Clinton.

O que aconteceu depois. Dois processos de impeachment, uma derrota em 2020 e uma volta em 2024. Não existe veredito tranquilo sobre esse governo, e quem disser que existe está falando pelo próprio lado. O que dá para dizer sem discussão é que o apresentador de TV virou o político mais discutido do planeta por dez anos seguidos.

O economista: Javier Milei, Argentina

Javier Milei era economista e ficou conhecido gritando em programas de televisão argentinos, com o cabelo, a motosserra e a expressão que virou marca: "a casta".

Aqui tem um detalhe importante, e ele joga contra a tese: Milei foi eleito deputado em 2021, dois anos antes de disputar a presidência. Ou seja, ele não é um caso puro de "nunca governou nada". Já tinha mandato.

Em 13 de agosto de 2023, venceu as primárias argentinas com 29,86%, sendo o candidato mais votado do país. Em 19 de novembro, venceu o segundo turno com 55,65%.

O que aconteceu depois. Aqui os números são fortes nos dois sentidos, e eu vou dar os dois.

Inflação mensal na Argentina, em %

Dezembro de 2023, mês da posse25,5
Julho de 20262,1

Fontes: INDEC, compilado por La Nación

A inflação anual saiu de 211,4% em 2023 para 117,8% em 2024 e 31,5% em 2025.

Agora o outro lado da mesma moeda:

Pobreza na ArgentinaPeríodo% da população
Antes de Milei2º semestre de 202341,7
Pico do ajuste1º semestre de 202452,9
Começa a cair2º semestre de 202438,1
Último dado2º semestre de 202528,2

Ou seja: a pobreza subiu quase 11 pontos antes de cair. Quem só mostra o primeiro número está fazendo campanha contra ele. Quem só mostra o último está fazendo campanha a favor. Os dois números são do mesmo instituto oficial.

O que os três tinham em comum

Colocando os três lado a lado, aparecem três coisas iguais.

Fama antes da política: o país inteiro já sabia o nome antes da urna
Um inimigo com nome: "o pântano", "os oligarcas", "a casta"
Um povo cansado de todo mundo que já tinha governado

O padrão dos três

Repare que nenhuma das três é "ser honesto", "ter bom plano" ou "falar bonito". São três condições de contexto, e elas não dependem do candidato ser bom. Dependem do país estar cansado.

Agora o Brasil, item por item

Augusto Cury tem duas das três. A terceira, não.

O que os três tinhamO Cury tem?
Fama antes da políticaTem. Mais de 40 milhões de livros vendidos, segundo o site dele
Povo cansado dos de dentroTem. 37,9 milhões de brasileiros não escolheram ninguém em 2022, entre abstenção, branco e nulo
Um inimigo com nomeNão tem. Ele ainda não deu um nome ao adversário

Trump tinha "o pântano". Zelensky tinha "os oligarcas". Milei tinha "a casta". São palavras curtas, que o eleitor repete sozinho e usa para se explicar no almoço de domingo.

O Cury fala em polarização, em briga, em ódio. É verdadeiro, e é abstrato. Não é um nome. E essa é a primeira diferença concreta entre ele e os três.

A parte que ninguém conta

Agora o dado que eu não vi ninguém colocar na mesa, e que muda a conversa inteira.

Nenhum dos três estava em terceiro lugar a um mês da eleição.

QuemOnde estava antes da eleição
Donald TrumpTinha vencido as primárias do partido com 14 milhões de votos, o recorde da história republicana, e chegou como candidato de um dos dois grandes partidos do país
Volodymyr ZelenskyTinha vencido o primeiro turno, com 30,26%
Javier MileiTinha vencido as primárias nacionais, com 29,86%, sendo o mais votado do país inteiro
Augusto CuryEstá em terceiro, com cerca de 10%

Os três não eram azarões na reta final. Eram os favoritos, ou pelo menos estavam na frente do próprio bloco. O outsider deles já tinha ganhado alguma coisa antes de ganhar a eleição.

Isso não quer dizer que o Cury não possa. Quer dizer que os três exemplos mais usados para dizer que ele pode não estão descrevendo a situação em que ele está.

O que os três ensinam de verdade

Se der para tirar uma lição dos três, é esta: outsider não ganha por ser outsider.

Ele ganha quando o país já decidiu que quer trocar tudo, e ele é o único que parece de fora de verdade. O padrão não é "o de fora vence". É "o de fora vence quando o país já desistiu dos de dentro".

Então a pergunta correta não é "o Cury pode ganhar porque o Trump ganhou". A pergunta correta é: o Brasil de 2026 já desistiu dos de dentro?

A resposta está na pesquisa

Na Quaest divulgada em 2 de setembro de 2026, no cenário estimulado: Lula com 37% e Flávio Bolsonaro com 30%.

Somando, dois em cada três eleitores brasileiros já escolheram um dos dois lados de sempre.

Nos Estados Unidos de 2016, na Ucrânia de 2019 e na Argentina de 2023, a rejeição aos nomes tradicionais estava mais alta do que isso na véspera. É a diferença entre um país cansado e um país decidido.

Minha opinião, avisada como opinião

Eu torço pelo Augusto Cury e não escondo isso de ninguém.

É exatamente por isso que eu não uso o argumento fácil. "Trump ganhou, Zelensky ganhou, Milei ganhou" é verdadeiro e é incompleto. Ele diz que dá. Não diz quando dá.

E quando você entende quando dá, você para de torcer no escuro e passa a olhar o número certo: não a pesquisa dele, e sim o tamanho do bloco que ainda pertence aos dois lados de sempre. É esse número que decide.

Perguntas frequentes

Quais países elegeram presidentes que nunca tinham governado?

Os três casos mais citados são os Estados Unidos, com Donald Trump em 2016; a Ucrânia, com Volodymyr Zelensky em 2019; e a Argentina, com Javier Milei em 2023. Trump era empresário e apresentador de reality show, Zelensky era ator e comediante, e Milei era economista de televisão, embora tenha sido eleito deputado em 2021.

O Zelensky era mesmo comediante?

Sim. Ele era o protagonista da série de comédia Servo do Povo, na qual fazia um professor que virava presidente. Em 2018 criou um partido com o nome da série e, em abril de 2019, venceu o segundo turno com 73,22% dos votos.

Como foi a eleição do Trump em 2016?

Ele venceu no colégio eleitoral por 304 a 227 e perdeu no voto popular. Antes disso, tinha vencido as primárias republicanas com cerca de 14 milhões de votos, o maior número da história do partido.

O que aconteceu com a economia argentina no governo Milei?

A inflação mensal caiu de 25,5% em dezembro de 2023 para 2,1% em julho de 2026. A pobreza subiu de 41,7% para um pico de 52,9% no primeiro semestre de 2024 e depois caiu para 28,2% no fim de 2025.

O Augusto Cury está na mesma situação dos três?

Em parte. Ele tem fama anterior à política e um eleitorado cansado, como os três tinham. Mas não deu nome ao adversário, e principalmente está em terceiro lugar a um mês da eleição. Nenhum dos três estava: todos tinham vencido alguma disputa antes.

O Collor não foi um outsider?

Ele foi vendido como outsider em 1989, mas tinha sido prefeito de Maceió e governador de Alagoas. Ou seja, era um político de carreira com imagem de novo.

Fontes desta materia

  1. Eleição presidencial na Ucrânia em 2019, resultados dos dois turnos
  2. Volodymyr Zelensky, biografia e a série Servo do Povo
  3. Eleição presidencial nos Estados Unidos em 2016, colégio eleitoral e voto popular
  4. Primárias republicanas de 2016, total de votos de cada candidato
  5. PolitiFact, o recorde de votos de Trump nas primárias republicanas
  6. Resultados finais das PASO argentinas de 2023
  7. Presidência de Javier Milei, cronologia e resultados
  8. La Nación, os dados econômicos do governo Milei contrastados com os números oficiais
  9. CNN, a queda da pobreza na Argentina depois do pico do início do governo
  10. Gazeta do Povo, os números da Quaest de setembro de 2026
  11. TSE, calendário eleitoral de 2026