Você já ouviu esse argumento na mesa do bar: "o Trump ganhou, o Zelensky ganhou, o Milei ganhou, então o de fora pode ganhar aqui".
O argumento é verdadeiro. Eu fui checar cada um dos três, com data e número. E encontrei uma coisa que quem usa esse argumento nunca menciona, provavelmente porque nunca foi olhar.
Vou pela ordem: quem eram, o que aconteceu depois, e o detalhe que muda tudo.
Quem é cada um dos três
Antes de qualquer comparação, é bom saber exatamente do que a gente está falando. Os três costumam ser citados juntos, como se fossem a mesma coisa. Não são.
| Quem | País | O que fazia antes | Quando ganhou |
|---|---|---|---|
| Donald Trump | Estados Unidos | Empresário do ramo imobiliário. Apresentou um reality show de negócios na TV americana de 2004 a 2015 | 2016 |
| Volodymyr Zelensky | Ucrânia | Ator e comediante. Protagonista de uma série de TV | 2019 |
| Javier Milei | Argentina | Economista que ficou famoso discutindo em programas de televisão | 2023 |
O comediante: Volodymyr Zelensky, Ucrânia
Esta parte parece invenção de roteirista, e é: literalmente.
Em 2015 estreou na Ucrânia uma série de comédia chamada Servo do Povo. O personagem principal é um professor de história que xinga a corrupção dos políticos dentro da sala de aula. Um aluno filma escondido, o vídeo viraliza, e o professor acaba eleito presidente do país.
Quem fazia o professor era Volodymyr Zelensky, ator e comediante, sem nenhum cargo público na vida.
Em 2018, ele registrou um partido político com o mesmo nome da série. Em 31 de março de 2019, venceu o primeiro turno da eleição real com 30,26% dos votos. Em 21 de abril, venceu o segundo turno com 73,22%, contra o presidente que estava no cargo, Petro Poroshenko.
O que aconteceu depois. Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. O comediante que ninguém levava a sério virou o rosto da resistência de um país inteiro, e passou a ser recebido como chefe de Estado nos maiores parlamentos do mundo. Ninguém ri mais dele.
O apresentador: Donald Trump, Estados Unidos
Donald Trump era empresário do ramo imobiliário e apresentou um reality show de negócios na televisão americana de 2004 a 2015. Nunca tinha ocupado cargo público nem servido nas Forças Armadas.
Isso não é força de expressão. Ele foi o primeiro presidente da história dos Estados Unidos sem nenhuma das duas coisas. Todos os anteriores tinham sido governadores, senadores, deputados, secretários, vice-presidentes ou generais.
Em 2016, ele venceu no colégio eleitoral por 304 a 227 e perdeu no voto popular para Hillary Clinton.
O que aconteceu depois. Dois processos de impeachment, uma derrota em 2020 e uma volta em 2024. Não existe veredito tranquilo sobre esse governo, e quem disser que existe está falando pelo próprio lado. O que dá para dizer sem discussão é que o apresentador de TV virou o político mais discutido do planeta por dez anos seguidos.
O economista: Javier Milei, Argentina
Javier Milei era economista e ficou conhecido gritando em programas de televisão argentinos, com o cabelo, a motosserra e a expressão que virou marca: "a casta".
Aqui tem um detalhe importante, e ele joga contra a tese: Milei foi eleito deputado em 2021, dois anos antes de disputar a presidência. Ou seja, ele não é um caso puro de "nunca governou nada". Já tinha mandato.
Em 13 de agosto de 2023, venceu as primárias argentinas com 29,86%, sendo o candidato mais votado do país. Em 19 de novembro, venceu o segundo turno com 55,65%.
O que aconteceu depois. Aqui os números são fortes nos dois sentidos, e eu vou dar os dois.
Inflação mensal na Argentina, em %
Fontes: INDEC, compilado por La Nación
A inflação anual saiu de 211,4% em 2023 para 117,8% em 2024 e 31,5% em 2025.
Agora o outro lado da mesma moeda:
| Pobreza na Argentina | Período | % da população |
|---|---|---|
| Antes de Milei | 2º semestre de 2023 | 41,7 |
| Pico do ajuste | 1º semestre de 2024 | 52,9 |
| Começa a cair | 2º semestre de 2024 | 38,1 |
| Último dado | 2º semestre de 2025 | 28,2 |
Ou seja: a pobreza subiu quase 11 pontos antes de cair. Quem só mostra o primeiro número está fazendo campanha contra ele. Quem só mostra o último está fazendo campanha a favor. Os dois números são do mesmo instituto oficial.
O que os três tinham em comum
Colocando os três lado a lado, aparecem três coisas iguais.
O padrão dos três
Repare que nenhuma das três é "ser honesto", "ter bom plano" ou "falar bonito". São três condições de contexto, e elas não dependem do candidato ser bom. Dependem do país estar cansado.
Agora o Brasil, item por item
Augusto Cury tem duas das três. A terceira, não.
| O que os três tinham | O Cury tem? |
|---|---|
| Fama antes da política | Tem. Mais de 40 milhões de livros vendidos, segundo o site dele |
| Povo cansado dos de dentro | Tem. 37,9 milhões de brasileiros não escolheram ninguém em 2022, entre abstenção, branco e nulo |
| Um inimigo com nome | Não tem. Ele ainda não deu um nome ao adversário |
Trump tinha "o pântano". Zelensky tinha "os oligarcas". Milei tinha "a casta". São palavras curtas, que o eleitor repete sozinho e usa para se explicar no almoço de domingo.
O Cury fala em polarização, em briga, em ódio. É verdadeiro, e é abstrato. Não é um nome. E essa é a primeira diferença concreta entre ele e os três.
A parte que ninguém conta
Agora o dado que eu não vi ninguém colocar na mesa, e que muda a conversa inteira.
Nenhum dos três estava em terceiro lugar a um mês da eleição.
| Quem | Onde estava antes da eleição |
|---|---|
| Donald Trump | Tinha vencido as primárias do partido com 14 milhões de votos, o recorde da história republicana, e chegou como candidato de um dos dois grandes partidos do país |
| Volodymyr Zelensky | Tinha vencido o primeiro turno, com 30,26% |
| Javier Milei | Tinha vencido as primárias nacionais, com 29,86%, sendo o mais votado do país inteiro |
| Augusto Cury | Está em terceiro, com cerca de 10% |
Os três não eram azarões na reta final. Eram os favoritos, ou pelo menos estavam na frente do próprio bloco. O outsider deles já tinha ganhado alguma coisa antes de ganhar a eleição.
Isso não quer dizer que o Cury não possa. Quer dizer que os três exemplos mais usados para dizer que ele pode não estão descrevendo a situação em que ele está.
O que os três ensinam de verdade
Se der para tirar uma lição dos três, é esta: outsider não ganha por ser outsider.
Ele ganha quando o país já decidiu que quer trocar tudo, e ele é o único que parece de fora de verdade. O padrão não é "o de fora vence". É "o de fora vence quando o país já desistiu dos de dentro".
Então a pergunta correta não é "o Cury pode ganhar porque o Trump ganhou". A pergunta correta é: o Brasil de 2026 já desistiu dos de dentro?
A resposta está na pesquisa
Na Quaest divulgada em 2 de setembro de 2026, no cenário estimulado: Lula com 37% e Flávio Bolsonaro com 30%.
Somando, dois em cada três eleitores brasileiros já escolheram um dos dois lados de sempre.
Nos Estados Unidos de 2016, na Ucrânia de 2019 e na Argentina de 2023, a rejeição aos nomes tradicionais estava mais alta do que isso na véspera. É a diferença entre um país cansado e um país decidido.
Minha opinião, avisada como opinião
Eu torço pelo Augusto Cury e não escondo isso de ninguém.
É exatamente por isso que eu não uso o argumento fácil. "Trump ganhou, Zelensky ganhou, Milei ganhou" é verdadeiro e é incompleto. Ele diz que dá. Não diz quando dá.
E quando você entende quando dá, você para de torcer no escuro e passa a olhar o número certo: não a pesquisa dele, e sim o tamanho do bloco que ainda pertence aos dois lados de sempre. É esse número que decide.
Perguntas frequentes
Quais países elegeram presidentes que nunca tinham governado?
Os três casos mais citados são os Estados Unidos, com Donald Trump em 2016; a Ucrânia, com Volodymyr Zelensky em 2019; e a Argentina, com Javier Milei em 2023. Trump era empresário e apresentador de reality show, Zelensky era ator e comediante, e Milei era economista de televisão, embora tenha sido eleito deputado em 2021.
O Zelensky era mesmo comediante?
Sim. Ele era o protagonista da série de comédia Servo do Povo, na qual fazia um professor que virava presidente. Em 2018 criou um partido com o nome da série e, em abril de 2019, venceu o segundo turno com 73,22% dos votos.
Como foi a eleição do Trump em 2016?
Ele venceu no colégio eleitoral por 304 a 227 e perdeu no voto popular. Antes disso, tinha vencido as primárias republicanas com cerca de 14 milhões de votos, o maior número da história do partido.
O que aconteceu com a economia argentina no governo Milei?
A inflação mensal caiu de 25,5% em dezembro de 2023 para 2,1% em julho de 2026. A pobreza subiu de 41,7% para um pico de 52,9% no primeiro semestre de 2024 e depois caiu para 28,2% no fim de 2025.
O Augusto Cury está na mesma situação dos três?
Em parte. Ele tem fama anterior à política e um eleitorado cansado, como os três tinham. Mas não deu nome ao adversário, e principalmente está em terceiro lugar a um mês da eleição. Nenhum dos três estava: todos tinham vencido alguma disputa antes.
O Collor não foi um outsider?
Ele foi vendido como outsider em 1989, mas tinha sido prefeito de Maceió e governador de Alagoas. Ou seja, era um político de carreira com imagem de novo.






