Circula nas redes um vídeo gravado num vagão do metrô de São Paulo. Passageiros dizem, um depois do outro, que não sabem em quem votar, e a conversa desliza para vacina, Bolsonaro e corrupção. Muita gente viu ali uma encenação. A técnica existe, tem nome e tem história. Quem gravou esse vídeo, porém, ninguém identificou até agora. E esta revista não acusa sem prova. Os outros jogos da campanha de Lula, esses têm prova.
Fonte: Estado de Minas, O Povo e CNN Brasil, outubro de 2026.
Que técnica é essa?
Chama-se Teatro Invisível. Atores ensaiam uma cena e a apresentam num lugar público, como um trem, um restaurante ou uma fila, sem que ninguém saiba que é teatro. Os atores não revelam que são atores. O objetivo declarado é provocar o público a discutir o assunto da cena.
Quem criou foi o diretor Augusto Boal, no exílio na Argentina, nos anos 1970. Segundo o próprio Boal, a técnica começou num restaurante e foi levada depois aos trens da Grande Buenos Aires. Perguntado se era ético fingir uma cena para quem passava, ele respondeu: "Embora não fosse verdade, era verdade!"

Boal voltou ao Brasil e foi eleito vereador pelo PT no Rio de Janeiro, com mandato de 1993 a 1996.
E o vídeo do metrô?
Não há reportagem, checagem ou nota oficial que identifique as pessoas do vídeo, diga quem gravou ou ligue a gravação a alguma campanha. Também não há prova de que seja encenação. Um cuidado: entre 2 e 9 de outubro, o próprio Metrô de São Paulo pôs atores nas estações numa ação de despedida do Bilhete Edmonson, sem nada de política.
O uso eleitoral do Teatro Invisível já foi caso de polícia no Brasil. No Rio de Janeiro, em 2016 e 2024, atores pagos se passavam por moradores comuns e falavam mal de candidatos em pontos de ônibus, padarias e filas de banco. A Polícia Federal deflagrou a Operação Teatro Invisível em 2024 e uma segunda fase em abril de 2025. Os alvos eram políticos de vários partidos.
Janones e a militância "robô"
Na quinta-feira, 8 de outubro, numa live, o deputado André Janones mandou os apoiadores de Lula curtir, comentar e compartilhar os vídeos da campanha antes mesmo de assistir. Admitiu que era agir como robô e disse que seriam só 15 dias. Janones coordena no WhatsApp um canal pró-Lula com cerca de 3 milhões de pessoas, com pauta diária no mesmo horário e sete passos para cada publicação.

Os vídeos que o TSE mandou apagar
No mesmo dia 8, os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques mandaram tirar do ar dois vídeos do perfil de Lula, um de Janja e cinco publicações de Janones e Lindbergh Farias. Todos apresentavam como certos cortes e ameaças atribuídos a Flávio Bolsonaro, sem prova mínima. Mendonça lembrou que o plano de governo registrado por Flávio mantém os programas sociais.
A fake news da padroeira
No fim de setembro, viralizou que Flávio queria tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O projeto que tratava disso é de 2007, de outro deputado, e foi arquivado em 2008. Em 30 de setembro, os sete ministros do TSE concordaram que é falso ligar Flávio a ele.

O incêndio na UFPE
Na noite de 7 de outubro, houve um incêndio na Universidade Federal de Pernambuco. A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) ligou o fogo a bolsonaristas e, no mesmo post, pediu voto a eleitores de outros candidatos. A Polícia Federal investiga três incêndios na universidade em oito dias e, até agora, não encontrou indício de crime. O post sumiu na noite de 8 de outubro.
A cartilha: perguntar em vez de acusar
O "Guia da Conversa", da campanha de Lula, orienta a militância a puxar conversa com indecisos na rua, no ponto de ônibus e na fila do pão, sem brigar. A cartilha para eleitores com mais de 70 anos manda ouvir mais do que falar e fazer perguntas. A mesma cartilha traz oito linhas de ataque a Flávio. Esta revista checou cada uma: a maioria não se sustenta.
O que joga contra, e entra
"O vídeo do metrô é teatro do PT." Não há prova disso. Ninguém identificou as pessoas, e nenhuma campanha assumiu.
"Teatro Invisível é coisa da esquerda." A técnica nasceu com um diretor de esquerda, mas o caso criminoso comprovado no Brasil, no Rio de Janeiro, teve como alvos políticos de vários partidos.
"Os dois lados têm tropa no WhatsApp." Têm: o lado de Flávio também organiza grupos de apoiadores. A diferença está no pedido de compartilhar sem assistir e nas publicações que o TSE mandou apagar por falta de prova.
Perguntas rápidas
O vídeo do metrô com passageiros indecisos é teatro?
Não há prova. Ninguém identificou as pessoas nem quem gravou, e nenhuma campanha assumiu o vídeo até 10 de outubro de 2026.
O que é Teatro Invisível?
Uma técnica criada por Augusto Boal nos anos 1970: atores encenam uma cena em lugar público sem revelar que é teatro, para provocar discussão.
Janones pediu para a militância agir como robô?
Sim. Em live em 8 de outubro, mandou curtir e compartilhar os vídeos antes de assistir e admitiu que era agir como robô.
Quais vídeos o TSE mandou apagar?
Dois vídeos do perfil de Lula, um de Janja e cinco publicações de Janones e Lindbergh Farias, por apresentarem como certas afirmações sobre Flávio sem prova.
Minha opinião
Esta parte é opinião minha, Thiago de Castro.
Eu também ri do vídeo do metrô. Mas aqui a gente só afirma o que consegue provar, e é isso que nos separa de quem fabrica medo. O que está provado já basta: militância mandada a compartilhar sem pensar, vídeos do próprio presidente apagados por mentir e uma fake news sobre a padroeira do Brasil. Quem precisa de tanto truque a 15 dias da eleição está mostrando que não tem argumento.
A resposta
O teatro no metrô é jogo da campanha de Lula? Não dá para afirmar: ninguém identificou quem gravou. Mas a campanha tem jogos com prova: militância "robô", vídeos apagados pelo TSE por falta de prova e a fake news da padroeira, julgada falsa por unanimidade.







