A campanha de Lula distribuiu, na noite de quarta-feira, 7 de outubro de 2026, uma cartilha que ensina a militância o que dizer sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno. Um segundo manual, de 12 páginas e sem assinatura, já corria nos grupos de WhatsApp desde o fim de semana. Eu chequei as duas, frase por frase. A maior parte do que elas mandam repetir é exagero, número tirado de contexto ou mentira que o próprio TSE já derrubou.
Fonte: O Povo, Folha do Estado, Informa Limeira e PlatôBR, outubro de 2026.
Que cartilhas são essas?
A primeira é oficial. Foi lançada pela campanha de Lula e mira eleitores com mais de 70 anos, que não são obrigados a votar. Traz oito linhas de ataque a Flávio: pandemia, Previdência e salário mínimo, Farmácia Popular, armas, INSS e outras três sobre investigações e cortes de gastos.
A segunda tem o título "Como virar os 2% e vencer Bolsonaro". Não tem autor, data nem logotipo. Circula em PDF nos grupos de WhatsApp e foi descrita por quatro veículos, que contam tê-la obtido. Ela resume a estratégia em três frases para repetir: "Ele nunca entregou nada", "Ele vai entregar o Brasil para o Trump" e "Ele não é confiável".
O manual também ensina a técnica. Para quem votou em outro candidato no primeiro turno, a ordem não é fazer a pessoa gostar de Lula: "Não gaste energia tentando convertê-lo." A meta é fazer Flávio parecer inaceitável. E, em vez de acusar, perguntar, para a pessoa "chegar sozinha à conclusão". Para os idosos, a militância deve ajudar com transporte, horário e documento, mas só "se esta pessoa quiser votar no Lula".
"Agora é eu, você, e Nossa Senhora"
É assim que o manual do WhatsApp termina. A frase não está ali por acaso. No fim de setembro, espalharam nas redes que Flávio queria tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Foram quase 1 milhão de publicações em menos de três dias.

Era mentira. O projeto que tratava do título é de 2007, de outro deputado, Victório Galli. Ele foi rejeitado por unanimidade numa comissão da Câmara em julho de 2008 e arquivado no mês seguinte. Não há registro de que Flávio tenha apresentado ou apoiado o texto.
Em 30 de setembro, os sete ministros do TSE concordaram que é falso dizer que Flávio propôs, apoiou ou articulou a retirada do título. O tribunal mandou apagar as publicações. Flávio, em vídeo, respondeu: "Isso é uma grande mentira. Não existe esse projeto." Quatro dias depois, ergueu uma imagem da santa ao lado de Tarcísio de Freitas, no centro de São Paulo.
Os "47 mil idosos"
A cartilha oficial diz: "O atraso na vacinação, causado pelo Bolsonaro, matou ao menos 47 mil idosos. E ele ainda debochava das vítimas."
O número vem de um estudo publicado na revista científica Lancet em novembro de 2022. Os pesquisadores usaram um modelo estatístico para estimar quantas mortes de pessoas com 60 anos ou mais teriam sido evitadas se a vacinação tivesse começado oito semanas antes. A vacinação real evitou 58.644 mortes; no cenário antecipado, seriam 105.532. A diferença, cerca de 47 mil, é o número da cartilha.

Três coisas mudam a frase. O estudo fala em vidas que "poderiam ter sido salvas" num cenário imaginado: é uma estimativa, não uma contagem de mortos. A cartilha troca "poderiam" por "matou". E quem está na urna é Flávio, que em 2021 era senador e não tinha cargo nenhum no governo. O plano de governo dele mantém a vacinação e a produção nacional de vacinas.
A Farmácia Popular "desmontada"
O manual diz que Bolsonaro "desmontou" a Farmácia Popular. O programa existe desde 2004 e nunca foi extinto. Quem fechou as 367 farmácias próprias do governo foi Michel Temer, em julho de 2017. A rede de farmácias conveniadas, onde a maioria das pessoas pega o remédio, continuou funcionando.
Em agosto de 2020, a equipe econômica estudou acabar com o programa para bancar o Renda Brasil. Bolsonaro barrou: "Não podemos tirar dos pobres para dar aos paupérrimos."

Nesta semana, viralizou uma frase atribuída a Flávio: "Se eleito, nós vamos acabar com a Farmácia Popular". A checagem do Aos Fatos não encontrou registro dela, e o PL disse, em 7 de outubro, que o programa será mantido. O plano de governo promete manter os programas sociais existentes e levar remédio em casa para idosos e doentes crônicos.
O escândalo do INSS: de quem é?
A cartilha oficial usa o escândalo do INSS contra Flávio. Os números da CGU mostram em que governo os descontos na aposentadoria explodiram.
| Ano | Descontos de associações no INSS |
|---|---|
| 2019 | R$ 604 milhões |
| 2020 | R$ 510 milhões |
| 2021 | R$ 536 milhões |
| 2022 | R$ 706 milhões |
| 2023 | R$ 1,2 bilhão |
| 2024 | R$ 2,8 bilhões |
Em maio de 2022, os descontos somavam R$ 49,9 milhões por mês. Em abril de 2024, R$ 248,1 milhões. Os pedidos de aposentados para suspender descontos foram de cerca de 900 em abril de 2022 para 192 mil em 2024. O ministro da Previdência no período era Carlos Lupi, de Lula, que foi alertado sobre o problema em junho de 2023, segundo atas do Conselho Nacional de Previdência Social.

Aposentado e Bolsa Família
A cartilha manda dizer ao idoso que o aposentado perde com Flávio. Na quinta-feira, 8 de outubro, Flávio respondeu: "Aposentado, fique tranquilo, não caia nessa fake news do PT." Prometeu reajuste "acima da inflação" e disse que o Bolsa Família "é sagrado, ninguém toca".
Quem pôs teto no aumento do salário mínimo foi Lula. A lei sancionada por ele em 27 de dezembro de 2024 limita o ganho acima da inflação a 2,5% por ano, de 2025 a 2030. O teto vale também para quem recebe um salário mínimo de aposentadoria.
"Ele nunca entregou nada"
Flávio relatou o projeto que acabou com a saidinha de presos, que virou lei em 2024. Preside a Comissão de Segurança Pública do Senado desde fevereiro de 2025. É autor da proposta que acaba com a reeleição para presidente e coautor da emenda que isenta de IPVA os carros com mais de 20 anos.
O que joga contra, e entra
"O número dos 47 mil está em estudo científico." Está, e o próprio estudo culpa a coordenação federal da época. Mas é uma estimativa de cenário, e quem disputa a eleição é o filho, que era senador.
"O governo Bolsonaro cortou a Farmácia Popular no orçamento de 2023." A proposta enviada em 2022 cortava cerca de 59% da verba da gratuidade. O Congresso desfez o corte em dezembro de 2022, e o programa nunca parou.
"A lei que dispensou a revalidação dos descontos do INSS foi sancionada por Bolsonaro." Foi, em 2022. Mas a revalidação nunca chegou a valer, o INSS podia fiscalizar os descontos a qualquer momento, e o salto dos valores aconteceu em 2023 e 2024.
"Como autor principal, Flávio não tem lei aprovada." É verdade. Dois projetos dele passaram no Senado e esperam a Câmara. O trabalho que virou lei veio como relator e coautor.
"A cartilha do WhatsApp não é oficial." Não tem assinatura, e nenhum veículo confirmou quem a fez. A de 70 anos ou mais é oficial, da campanha de Lula.
Perguntas rápidas
A campanha de Lula fez uma cartilha contra Flávio?
Sim. Lançou em 7 de outubro de 2026 uma cartilha para eleitores com mais de 70 anos, com oito linhas de ataque a Flávio. Outro manual, sem assinatura, chamado "Como virar os 2% e vencer Bolsonaro", circula no WhatsApp.
Flávio quer tirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida?
Não. O projeto sobre o título é de 2007, de outro deputado, e foi arquivado em 2008. Os sete ministros do TSE concordaram que é falso ligar Flávio a ele.
O atraso da vacina matou 47 mil idosos?
O número é a estimativa de um estudo para um cenário em que a vacinação começaria oito semanas antes. Não é contagem de mortos, e Flávio era senador na época.
Flávio vai acabar com a Farmácia Popular?
Não há registro disso. O PL diz que o programa será mantido, e a frase que viralizou foi considerada falsa pelo Aos Fatos.
Minha opinião
Esta parte é opinião minha, Thiago de Castro.
Uma campanha que precisa de cartilha para ensinar o militante a insinuar, sem acusar, está admitindo que não tem o fato. E quem fecha o manual com "Agora é eu, você, e Nossa Senhora", depois de espalhar uma mentira sobre a padroeira, não está rezando. Está usando a fé do povo.
A resposta
O que a cartilha manda dizer sobre Flávio se sustenta? Na maior parte, não. A padroeira é mentira julgada pelo TSE. Os 47 mil são estimativa vendida como contagem. A Farmácia Popular nunca acabou. E o escândalo do INSS explodiu no governo de quem escreveu a cartilha.







