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Utilidade / 13 de setembro de 2026

Eu fui ver

Nem picanha nem fuzil: por que a eleição virou ansiedade, e o que fazer com ela

A piada nasceu nos comentários do meu perfil e virou o retrato mais honesto desta campanha. Eu fui ver o que já foi medido sobre eleição e ansiedade, quanto o Brasil compra de calmante por ano, o que a evidência diz que reduz o sofrimento sem custar nada, e o que cada um dos três planos de governo registrados no TSE escreve sobre saúde mental. Contei palavra por palavra: Lula escreve saúde mental duas vezes, Flávio três, Cury catorze. E nenhum dos três fala da cabeça de quem vai votar.

Publicado
13 de setembro de 2026
Atualizado
13 de setembro de 2026
Editoria
Utilidade
Leitura
26 min
Fontes
24 citadas
Foto de Shixart1985, licença CC BY 2.0, via Wikimedia Commons. Imagem genérica, sem relação com qualquer pessoa citada
Foto de Shixart1985, licença CC BY 2.0, via Wikimedia Commons. Imagem genérica, sem relação com qualquer pessoa citada

Um comentário no meu perfil resumiu esta eleição melhor do que qualquer pesquisa:

"Nem picanha nem fuzil prefiro rivotril."

Quem escreveu foi a @anapauliane_. Outras quatro pessoas repetiram a frase embaixo do mesmo post. Do outro lado, alguém respondeu: "22 sem rivotril". E o comentário mais curtido de todos os que eu li nesta semana, com 140 curtidas, é da @marianamazzarino, falando de saúde mental e de criança.

Para quem não pegou a piada: "picanha" virou apelido da promessa de um lado, "fuzil" virou apelido do discurso do outro lado, e "rivotril" é o apelido popular de um calmante de tarja preta. A pessoa está dizendo, rindo, que não quer nenhum dos dois lados. Quer sossego.

Eu fui ver se isso tem tamanho. Tem.

A resposta curta

Sim, eleição mexe com a cabeça das pessoas, e isso já foi medido. Nos Estados Unidos, onde existe uma série longa sobre o assunto, 69% dos adultos disseram em 2024 que a eleição presidencial era uma fonte significativa de estresse na vida deles, e 77% disseram o mesmo do futuro do país. No Brasil, não existe uma pesquisa que faça essa pergunta assim. O que existe aqui é a conta do estrago na convivência: 52,7% já romperam ou se afastaram de alguém próximo por política, e 27% já saíram de um grupo de mensagem para não discutir.

E existe o pano de fundo, que é pior: o Brasil já era o país com o maior percentual de gente com transtorno de ansiedade do mundo antes de qualquer urna ser ligada.

A parte útil vem no fim: cinco coisas que a evidência diz que reduzem o sofrimento, todas de graça, e dois telefones onde se pede ajuda sem pagar nada.

Uma linha antes de começar, e ela vale para o texto inteiro: eu não sou médico e este texto não é conselho médico. Nada aqui manda você tomar, começar ou parar remédio nenhum. Isso se decide com profissional, na frente dele.

69%dos adultos americanosdisseram em 2024 que a eleição era fonte significativa de estresse (APA e Harris Poll)
52,7%dos brasileirosjá romperam ou se afastaram de alguém próximo por política (Instituto Informa, maio e junho de 2026)
9,3%da população do Brasiltinha transtorno de ansiedade, o maior percentual do mundo (OMS, relatório de 2017)
39 milhõesde unidades de clonazepamvendidas no Brasil em 2024 (CMED, ligada à Anvisa)

O tamanho da coisa, com data

De onde veio essa pauta

Ela veio dos comentários, não de mim.

Eu leio os comentários do meu perfil com planilha, um por um. Já contei isso em eu li 3.838 comentários. A piada do "rivotril" não apareceu uma vez. Apareceu cinco, em pessoas diferentes, no mesmo dia. E a resposta de quem defende o outro lado ("22 sem rivotril") mostra que até a briga sobre quem está mais calmo virou briga.

Quando uma piada se repete sozinha, ela parou de ser piada. Virou sintoma.

O que já foi medido: eleição como fonte de estresse

A melhor série longa sobre isso é americana, e eu vou dizer que é americana toda vez que citar, porque é outro país e outro sistema.

Chama-se Stress in America, é da American Psychological Association (a associação dos psicólogos americanos) e quem aplica é o instituto The Harris Poll. A pergunta é simples: isto aqui é uma fonte significativa de estresse na sua vida?

A edição de 2020

Campo de 4 a 26 de agosto de 2020, com 3.409 adultos.

O que foi perguntado2016 ou 20192020
A eleição presidencial é fonte significativa de estresse52% (em 2016)68%
O futuro do país é fonte significativa de estresse66% (em 2019)77%
O clima político atual é fonte significativa de estresse62% (em 2019)68%

O detalhe que importa: não é coisa de um lado só. Entre os democratas, 76% disseram que a eleição estressava. Entre os republicanos, 67%. Entre os independentes, que não têm lado, 64%.

Entre adultos negros, o número pulou de 46% em 2016 para 71% em 2020. Entre pessoas com doença crônica, de 55% para 71%.

Arthur C. Evans Jr., o presidente executivo da associação, resumiu assim, em inglês: "This has been a year unlike any other in living memory". Na minha tradução: este foi um ano diferente de qualquer outro de que se tenha lembrança.

A edição de 2024

Campo de 1 a 23 de agosto de 2024, com 3.305 adultos.

  • 77% citaram o futuro do país como fonte significativa de estresse.
  • 73% citaram a economia.
  • 69% citaram a eleição presidencial.
  • 72% disseram estar preocupados com a possibilidade de a eleição levar a violência.
  • 56% disseram achar que a eleição podia significar o fim da democracia no país deles.
  • 32% disseram que o clima político causou tensão dentro da própria família.
  • 30% disseram limitar o tempo que passam com parentes por causa de valores diferentes.
  • 50% disseram estar menos propensos a se aproximar de outras pessoas por causa da tensão política.
  • 46% disseram que não sairiam com alguém de opinião política diferente.
  • 41% disseram já ter pensado em mudar para outro país.

Evans de novo, em inglês: "People have faced a political climate that is highly charged, which has led to the erosion of civil discourse". Na minha tradução: as pessoas enfrentaram um clima político muito carregado, e isso corroeu a conversa civilizada.

E agora a parte que quase ninguém publica dessa mesma pesquisa, porque ela não rende manchete triste. No mesmo levantamento, 77% disseram que pretendiam votar, 51% disseram se sentir mais motivados a fazer trabalho voluntário ou apoiar alguma causa, e 61% disseram se sentir esperançosos com a possibilidade de a eleição mudar alguma coisa.

Ou seja: o mesmo eleitorado que estava apavorado estava mobilizado. As duas coisas juntas, nas mesmas pessoas.

O buraco honesto: esse número não existe no Brasil

Eu procurei. Não achei.

Não existe, em fonte aberta, pesquisa brasileira que pergunte "a eleição é uma fonte significativa de estresse na sua vida?" e publique o percentual. Não existe série do Anvisa, do Conselho Federal de Farmácia ou de instituto nenhum que mostre venda de calmante subindo em mês de eleição, isolando o efeito da eleição.

Também procurei posição de instituição. Não achei cartilha da Fiocruz, nota do Conselho Federal de Medicina nem documento da Associação Brasileira de Psiquiatria tratando especificamente de saúde mental em período eleitoral.

O que existe em português, hoje, vem de uma organização privada e de matéria de jornal. Em 17 de agosto de 2026, o Instituto Cactus, junto com a EixoGov, lançou dois guias gratuitos e apartidários chamados Saúde Mental e Eleições: um para eleitores, um para candidaturas. A frase que abre o material é esta: "Saúde mental também é uma decisão política". E em 10 de setembro de 2026 o Estado de Minas publicou uma lista de recomendações para o período. Nenhum dos dois traz pesquisa nova com número brasileiro.

Eu podia ter escondido esse buraco e enchido o texto de número americano. Preferi escrever que o buraco existe. Quando você vir alguém dizendo "a eleição aumentou em tantos por cento a ansiedade dos brasileiros", peça a fonte. Eu procurei e não encontrei.

O que existe aqui: o estrago na convivência

Isso o Brasil mede, e mede bem.

Datafolha, 5 e 6 de dezembro de 2019, com 2.948 entrevistas em 176 municípios:

  • 27% já saíram de grupos de WhatsApp para não discutir política.
  • 51% deixaram de comentar sobre política em grupos de mensagem.
  • 19%, um em cada cinco, deixaram de seguir ou bloquearam o perfil de um amigo ou parente por discordar de posição política.
  • 46% deixaram de postar sobre política nas redes para não brigar com família ou amigo.

É de 2019, e eu escrevo a data porque ela importa. É a melhor medida brasileira que existe sobre grupo de mensagem, e ela é anterior a duas eleições.

Instituto Informa, campo de 21 de maio a 7 de junho de 2026, com 2.419 entrevistas: 52,7% já romperam ou se afastaram de relações próximas por divergência política. Quase 3 em cada 10 dizem que isso acontece com frequência. Esse número é o eixo de outra matéria da casa, metade dos brasileiros já cortou alguém da família por política, e lá ele está inteiro.

Ipsos-Ipec, divulgação de dezembro de 2025: 72% se dizem incomodados com a polarização. E, perguntados sobre que sentimento o cenário político desperta, os três mais citados foram tristeza (19%), cansaço (17%) e medo (16%).

BTG/Nexus, campo de 4 a 7 de setembro de 2026, registro TSE BR-06790/2026: o cansaço com a polarização foi de 36% para 43% em menos de um mês.

O país mais ansioso do mundo, antes de qualquer urna

Aqui está o pano de fundo que muda a leitura de tudo.

O mapeamento global mais completo de transtornos mentais que existe é o da Organização Mundial da Saúde, publicado em 2017, com dados de 2015. Nele, o Brasil aparece em primeiro lugar do mundo:

Percentual da população com transtorno de ansiedade, por país

Brasil9,3
Paraguai7,6
Noruega7,4
Nova Zelândia7,3
Austrália7,0
Média mundial3,6

OMS, relatório de 2017 (dados de 2015)

São 18,6 milhões de brasileiros, quase o triplo da média do mundo.

Duas ressalvas que eu não vou esconder. A primeira: o relatório é de 2017 e os dados são de 2015. Eu procurei atualização da OMS com dados mais novos e não encontrei. A segunda: percentual alto pode significar mais doença, e pode significar também mais diagnóstico, porque país que fala do assunto conta mais casos. As duas leituras cabem no mesmo número.

De qualquer forma, a conclusão prática é a mesma: a eleição não inventou a ansiedade brasileira. Ela caiu em cima de um país que já estava assim.

Quanto o Brasil compra de calmante

Cartelas de comprimidos sobre uma mesa, imagem genérica de medicamentos em blister

A piada do comentário fala de um remédio pelo nome comercial. O nome técnico dele é clonazepam, e ele é o ansiolítico mais vendido do Brasil.

Segundo o relatório da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, a CMED, que é ligada à Anvisa, as vendas de 2024 ficaram assim:

RemédioUnidades vendidas em 2024
Clonazepam39 milhões
Alprazolam20,5 milhões
Zolpidem15,9 milhões
Bromazepam15,3 milhões
Diazepam7,7 milhões

Cerca de 2 milhões de brasileiros com mais de 60 anos usam clonazepam.

Um estudo publicado na revista Frontiers in Pharmacology em 2024, feito por Fabiana Carvalho, André Comiran Tonon, Maria Paz Hidalgo, Manuela Martins Costa e Sotero Serrate Mengue, usou os dados abertos do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, o SNGPC da Anvisa. Entre janeiro de 2014 e agosto de 2021 foram 32.441.392 vendas de treze desses medicamentos nas farmácias privadas. O clonazepam sozinho respondeu por 29,8% de tudo.

Em outra categoria, a dos antidepressivos e estabilizadores de humor, o Conselho Federal de Farmácia divulgou em 8 de julho de 2024, com dados da consultoria IQVIA, que a venda subiu 11% de 2022 para 2023, chegando a 212 milhões de unidades em 2023.

Agora o cuidado, e ele é grande: número de venda não é número de doente, e não é número de abuso. Parte dessa alta é gente que finalmente procurou ajuda e está sendo tratada, o que é bom. Outra parte é uso longo demais, sem acompanhamento. Na reportagem que levantou os dados da CMED, o neurologista Alan Eckeli, da USP de Ribeirão Preto, descreveu o que vê no consultório: "Muitos chegam com a receita renovada há anos, sem lembrar quando começaram". A psiquiatra Simone Kassouf disse que "entre 20% e 25% das pessoas que atendo já chegam usando".

Eu repito a linha do começo, porque é a mais importante deste texto: quem decide isso é o profissional, com a pessoa na frente. Não é o comentário do Instagram, e não sou eu.

O que cada plano de governo diz sobre saúde mental

Aqui eu fiz o que sei fazer: baixei os três planos registrados no TSE, tirei o texto de dentro do PDF e contei palavra por palavra. Qualquer pessoa refaz essa conta em dez minutos. Os três links estão no rodapé.

Eu já tinha lido os três planos inteiros na matéria eu li os três planos de governo. Aqui eu olhei só uma coisa: saúde mental.

PalavraLula (85 páginas)Flávio Bolsonaro (77 páginas)Augusto Cury (201 páginas)
"saúde mental"23 (uma é o índice)14
"ansiedade"0120
"depressão" (o transtorno)016
"suicídio"005
"CAPS"200
"psicossocial"402
"psiquiatra"004
"psicólogo"002

Quantas vezes cada plano escreve "saúde mental"

Lula2
Flávio Bolsonaro3
Augusto Cury14

contagem feita por mim nos PDFs registrados no TSE, 13/09/2026

Lula

Duas menções, e as duas fazem sentido prático. Na página 39 o plano escreve:

"O Novo PAC apoiou a estruturação de 336 novos Centros de Atenção Psicossocial - CAPS. Na saúde mental, ampliaremos os investimentos na Rede de Atenção Psicossocial e nos CAPS, ampliando a atenção a crianças, adolescentes e jovens."

Na mesma página tem um item que eu não vi em nenhum outro plano: "Ampliaremos os profissionais e as estratégias voltadas às pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas".

Na página 25, sobre juventude: "Aprimorar a política de saúde mental para a juventude é um de nossos compromissos, com foco na Política Nacional de Atenção Psicossocial, na redução de danos e na desconstrução de preconceitos nas comunidades escolares e universitárias".

É o único dos três que cita pelo nome a rede pública que já existe. E é o único que traz um número concreto, os 336 CAPS do Novo PAC. Não traz meta nova com prazo.

Flávio Bolsonaro

Três menções, contando o índice. O tema aparece dentro do capítulo sobre cuidado, junto com idoso, pessoa com deficiência e doença rara. Na página 39:

"A saúde mental é outra face do cuidado, e hoje pesa sobre milhões de famílias, quase sempre em silêncio."

E logo abaixo, na mesma página: "Vamos fortalecer e ampliar a atenção à saúde mental, chegando às famílias que muitas vezes enfrentam tudo sozinhas: o diagnóstico precoce e o apoio às crianças com TDAH; a atenção à depressão e à ansiedade; e o cuidado com os idosos que enfrentam o Alzheimer e outras doenças neurológicas, e com quem cuida deles".

A terceira aparição está na página 40, no capítulo do esporte, que promete foco "na formação de caráter e na saúde mental do jovem".

Não cita CAPS, não cita a rede pública pelo nome, não tem número e não tem prazo.

Augusto Cury

É o plano em que o tema é maior, e isso tem uma explicação óbvia: o candidato é psiquiatra de formação e ganha a vida escrevendo sobre emoção. O próprio plano diz, na página 194, que ele "é considerado o psiquiatra mais lido no mundo na atualidade".

O Programa Nacional de Saúde Mental está nas páginas 44 e 45:

"Vivemos uma epidemia silenciosa de ansiedade, depressão, estresse e sofrimento emocional. Implantaremos uma ampla política nacional de saúde mental envolvendo escolas, empresas, universidades, forças de segurança, unidades de saúde e comunidades, promovendo prevenção, acolhimento e tratamento humanizado."

Logo em seguida vem um item chamado "Prevenção da ansiedade, automutilação e suicídio". Na página 44, na parte de educação, promete "programas permanentes de gestão da emoção, prevenção da ansiedade, depressão, automutilação, bullying e violência escolar". Na página 57, sobre juventude: "A saúde mental dos jovens será tratada como prioridade nacional. Expandiremos o acesso a atendimento psicológico nas escolas, universidades e unidades de saúde".

E tem um trecho curioso na página 163, dentro do projeto de telemedicina que eu já destrinchei em 80% do SUS por telemedicina:

"Enquanto aguardam atendimento, os pacientes terão acesso a conteúdo de educação emocional inspirados na Gestão da Emoção."

A lista do que seria oferecido na fila inclui orientações sobre ansiedade e estresse, exercícios de respiração e relaxamento, vídeos educativos e "suporte psicológico inicial para situações de sofrimento emocional".

Aqui eu preciso apontar duas coisas contra o candidato em quem eu voto.

A primeira: o plano dele não cita CAPS nenhuma vez. Nem CAPS, nem Rede de Atenção Psicossocial. Ele propõe criar uma política nacional inteira sem dizer uma linha sobre como ela conversa com a rede pública de saúde mental que já existe e que atende de graça hoje.

A segunda: "Gestão da Emoção" é o nome da metodologia comercial dele. Uma política pública que roda o método do próprio presidente é um conflito de interesse que precisa estar escrito, e está escrito aqui.

O que nenhum dos três diz

Eu procurei nos três planos uma linha, uma só, sobre a saúde mental do eleitor durante a campanha. Sobre o efeito que a própria disputa causa em quem assiste.

Não tem. Nos três.

Os três falam de saúde mental de jovem, de idoso, de escola, de família. Nenhum liga a política pública ao efeito da própria política. E isso não é falha de um: é falha dos três.

Uma ressalva de método, para você poder me corrigir: a contagem é sobre o texto que sai de dentro do PDF. Se alguma palavra estiver dentro de uma imagem, ela não entrou na conta. E contar palavra não mede qualidade de proposta. Mede prioridade declarada.

Cinco coisas que a evidência diz que ajudam

Nenhuma delas é tratamento. Todas são o que dá para fazer sozinho, hoje, de graça.

1. Botar horário na notícia

Quase metade do país já faz isso por conta própria. O Digital News Report do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, mostra no capítulo do Brasil de 2026 que 47% dos brasileiros dizem evitar as notícias às vezes ou com frequência. A confiança na notícia aqui caiu para 36%, seis pontos abaixo do ano anterior. O relatório explica a queda pela polarização e cita a eleição deste ano.

Eu vou ser honesto sobre o que esse número prova e o que ele não prova. Ele prova que muita gente já está fugindo. Ele não prova que fugir faz bem. Eu procurei ensaio clínico que meça queda de ansiedade ao limitar o consumo de notícia e não encontrei. O que existe é correlação, e correlação não é causa.

Então eu escrevo a recomendação pelo que ela é: custa zero, não tem risco, e é o que o Estado de Minas listou em 10 de setembro e o que o guia do Instituto Cactus sugere. Escolha dois horários por dia. Não seja o primeiro ao acordar nem o último antes de dormir. E desligue a notificação, porque notificação decide por você.

Eu ganho a vida com atenção. Estou dizendo para você me consumir menos vezes por dia. Pense no que isso custa para mim antes de achar que é conselho barato.

2. Respirar com a expiração longa

Esta é a mais forte da lista, porque tem ensaio randomizado atrás.

Melis Yilmaz Balban, Andrew Huberman e David Spiegel, da Universidade Stanford, publicaram em 17 de janeiro de 2023, na revista Cell Reports Medicine, um estudo com 111 voluntários. Eles compararam três exercícios de respiração de cinco minutos por dia com meditação mindfulness da mesma duração, por um mês.

Os exercícios de respiração melhoraram o humor mais do que a meditação: ganho diário de 1,91 ponto de afeto positivo na respiração contra 1,22 ponto na meditação. E o exercício que mais funcionou foi o de expiração longa, chamado de suspiro cíclico, que também foi o que mais baixou a frequência respiratória em repouso.

Como se faz, segundo a descrição da própria Stanford: inspire pelo nariz. Puxe uma segunda golada de ar, mais curta, para encher o pulmão até o fim. Solte devagar pela boca, até esvaziar. Repita por cerca de cinco minutos.

Spiegel explicou por que a respiração é diferente das outras funções do corpo: "What's interesting about the breath is that it's right on the edge of conscious control". Na minha tradução: o interessante da respiração é que ela fica bem na fronteira do controle consciente. Você não manda no batimento do coração, mas manda na respiração. E mexer na respiração mexe no resto.

A ressalva: são 111 pessoas saudáveis, num mês. Não é tratamento de transtorno de ansiedade. É uma coisa de cinco minutos que baixa a agitação.

3. Conversar com o outro lado sobre qualquer outra coisa

Esta tem o número mais bonito que eu achei em toda a apuração.

Erik Santoro, de Stanford, e David Broockman, da Universidade da Califórnia em Berkeley, publicaram na Science Advances em 2022 um experimento simples. Pegaram estranhos de partidos opostos e pediram que conversassem por vídeo sobre um tema sorteado.

A dupla que conversou sobre "o seu dia perfeito" teve queda grande na hostilidade. O efeito equivale a 9 graus a mais no termômetro de simpatia pelo eleitor do outro lado. Os próprios autores comparam: esses 9 graus equivalem a desfazer mais de duas décadas de aumento da polarização.

E aqui está a condição que vira regra prática: funcionou melhor quando o tema da conversa não era o ponto de discórdia. Falar do desacordo pode destruir o efeito.

Traduzindo para a mesa de domingo: você não precisa convencer seu tio. Você precisa perguntar para ele qual seria o dia perfeito dele. A ciência diz que isso funciona melhor do que discutir. O efeito não dura para sempre, e isso também está no estudo.

4. Sair do grupo, sem anunciar

Vinte e sete por cento dos brasileiros já fizeram isso, segundo o Datafolha de dezembro de 2019. É comportamento declarado, não é intervenção testada: ninguém acompanhou essas pessoas depois para ver se melhoraram.

Mas é reversível, é de graça e você não deve satisfação a ninguém. Sair de um grupo de mensagem não é romper com a família. É desligar um alto-falante.

5. Saber que dá para baixar a raiva, e que o efeito escorre

Em 17 de outubro de 2024, a revista Science publicou um megaestudo com 32.059 participantes, coordenado por Jan Voelkel e mais de 80 coautores. Foram testadas 25 intervenções de até 8 minutos, online. Vinte e três das 25 reduziram a hostilidade entre adversários políticos de forma significativa.

O que funcionou melhor foi mostrar uma pessoa simpática do outro lado e lembrar uma identidade que os dois lados compartilham.

O limite honesto: o efeito encolheu bastante em duas semanas. É intervenção de oito minutos, não é vacina. Eu destrinchei esse estudo inteiro em por que você vota com raiva.

Onde procurar ajuda de graça

Fachada de um Centro de Atenção Psicossocial, o CAPS, unidade pública de saúde mental

Se a angústia estiver atrapalhando seu sono, seu trabalho ou a sua convivência com quem você ama, isso deixou de ser assunto de eleição. Procure um profissional de saúde.

Duas portas que não cobram nada:

CVV, telefone 188. Ligação gratuita, de qualquer lugar do Brasil, 24 horas por dia, todos os dias. O 188 virou nacional e gratuito em 1º de julho de 2018. Em 2025, o CVV fez cerca de 2 milhões de atendimentos, uma média de 5,5 mil conversas por dia, com 3,2 mil voluntários. Também atende por chat e por e-mail no site. É apoio emocional, escuta de quem está sofrendo. Não é consulta médica e não passa receita.

CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial. É a porta de entrada da saúde mental no SUS, e o atendimento é gratuito. Funciona em regime de porta aberta: para o primeiro acolhimento não precisa marcar consulta nem levar encaminhamento. A pessoa vai até o CAPS da região dela e pede atendimento. O país tem mais de 3 mil unidades habilitadas, segundo dado do Ministério da Saúde em resposta a requerimento na Câmara em 2025.

Se você não sabe onde fica o CAPS da sua cidade, pergunte na unidade básica de saúde mais perto da sua casa. Eles sabem.

O que eu penso

Esta parte é opinião, e está marcada como opinião.

Eu acho que a piada do "prefiro rivotril" é a coisa mais sincera que passou pelo meu perfil esta semana. Ela diz, rindo, o que a pesquisa diz com número: uma parte grande do país não está escolhendo entre dois projetos. Está tentando atravessar outubro.

Eu acho que um país que aparece em primeiro lugar do mundo num ranking de ansiedade não deveria ser governado por gente que trata cada eleição como ameaça de fim do mundo. Os dois lados fazem isso. E funciona, porque medo move mais gente do que projeto. O preço aparece depois, no grupo de família e na fila do posto.

E eu acho que a ausência de uma linha sobre o eleitor nos três planos diz muita coisa. Os três sabem falar de saúde mental quando o assunto é criança, jovem e idoso. Nenhum consegue olhar para o próprio efeito. É mais fácil prometer cuidar de quem adoece do que admitir que a campanha adoece as pessoas.

Vote. Vote com raiva se for o caso, porque o voto é seu e ninguém tem o direito de pedir que você sinta outra coisa. Só não termine outubro sem o seu tio, sem o seu grupo e sem dormir.

O dia 5 de outubro existe. O tio também.

Perguntas que chegam nos comentários

Eleição causa ansiedade mesmo, ou é frescura?

Causa estresse, e isso já foi medido. Em 2024, 69% dos adultos americanos disseram que a eleição era fonte significativa de estresse na vida deles. No Brasil não existe essa pergunta feita por instituto, mas existe o efeito na convivência: 52,7% já se afastaram de alguém próximo por política. Estresse não é a mesma coisa que transtorno de ansiedade. Quem diz se é uma coisa ou outra é profissional de saúde, não pesquisa de opinião e não eu.

O consumo de calmante aumentou por causa da eleição?

Não achei nenhum dado que mostre isso. Eu procurei série do SNGPC, da Anvisa e de institutos que ligasse período eleitoral a aumento de venda de ansiolítico e não encontrei nenhuma. O que existe é o número total: 39 milhões de unidades de clonazepam vendidas em 2024. A ligação com a urna, neste texto, é leitura minha.

Devo parar de ver notícia até a eleição?

Parar não. Botar horário, sim. Quase metade dos brasileiros (47%) já evita notícia às vezes ou com frequência, segundo o Reuters Institute. A recomendação de escolher dois horários, não checar ao acordar nem antes de dormir e desligar notificação é o que os guias sugerem. Ela custa zero e não tem risco. Só não existe ensaio clínico provando que ela reduz ansiedade, e eu prefiro dizer isso a inventar um número.

Qual candidato fala mais de saúde mental no plano de governo?

Augusto Cury, de longe. O plano dele escreve "saúde mental" 14 vezes e "ansiedade" 20 vezes, tem um Programa Nacional de Saúde Mental nas páginas 44 e 45 e um item sobre prevenção de suicídio. O de Flávio Bolsonaro escreve 3 vezes, o de Lula 2 vezes. Só que o plano do Lula é o único que cita CAPS e a Rede de Atenção Psicossocial pelo nome, e o do Cury não cita CAPS nenhuma vez. Escrever mais sobre o assunto não é a mesma coisa que dizer como fazer.

O que eu faço quando a discussão começa no grupo da família?

O que já foi testado é conversar sobre outra coisa. No experimento de Santoro e Broockman, publicado na Science Advances em 2022, estranhos de lados opostos que conversaram sobre "o seu dia perfeito" ficaram 9 graus mais simpáticos um com o outro no termômetro. Falar justamente do ponto de briga pode destruir o efeito. Ou seja: perguntar do trabalho, do neto e do time funciona melhor do que tentar ganhar a discussão.

Onde eu peço ajuda se estiver ruim de verdade?

CVV no 188, ligação gratuita, 24 horas, todos os dias, de qualquer lugar do Brasil, e também por chat e e-mail no site. E o CAPS da sua cidade, que é gratuito pelo SUS e atende em regime de porta aberta, sem precisar marcar consulta para o primeiro acolhimento. Se não souber onde fica, pergunte na unidade básica de saúde mais perto de casa. Eu não sou médico e nada neste texto substitui atendimento.

Se esta matéria te ajudou a atravessar a semana, ela já fez o trabalho dela. O resto do país continua brigando, e o dia 4 de outubro chega de qualquer jeito. Você não precisa chegar junto com ele em pedaços.

Fontes desta materia

  1. American Psychological Association e The Harris Poll, Stress in America 2020, campo de 4 a 26 de agosto de 2020
  2. American Psychological Association, relatório Stress in America 2020
  3. American Psychological Association e The Harris Poll, Stress in America 2024, campo de 1 a 23 de agosto de 2024
  4. American Psychological Association, relatório Stress in America 2024
  5. Datafolha, pesquisa de 5 e 6 de dezembro de 2019, sobre política e convivência, via Correio Braziliense
  6. Instituto Informa, Panorama Eleitoral Brasileiro, campo de 21 de maio a 7 de junho de 2026
  7. Ipsos-Ipec, Encruzilhada de 2026: polarização, desconfiança e governabilidade, dezembro de 2025
  8. BTG/Nexus, pesquisa de 4 a 7 de setembro de 2026, registro TSE BR-06790/2026, via Brasil 247
  9. Organização Mundial da Saúde, Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates, 2017, via Terra
  10. Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), vendas de 2024, via Sincofarma SP, 23 de outubro de 2025
  11. Carvalho e outros, Dispensing of zolpidem and benzodiazepines in Brazilian private pharmacies, Frontiers in Pharmacology, 2024, com dados do SNGPC da Anvisa
  12. Conselho Federal de Farmácia, com dados da IQVIA, 8 de julho de 2024
  13. Reuters Institute for the Study of Journalism, Digital News Report 2026, capítulo do Brasil
  14. Balban, Huberman e Spiegel, Brief structured respiration practices enhance mood and reduce physiological arousal, Cell Reports Medicine, 17 de janeiro de 2023
  15. Stanford Medicine, cyclic sighing can help breathe away anxiety, fevereiro de 2023
  16. Santoro e Broockman, The promise and pitfalls of cross-partisan conversations, Science Advances, 2022
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