O quilo da picanha no varejo de São Paulo custava R$ 71,20 em outubro de 2022, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), e chega a cerca de R$ 79 em agosto de 2026, corrigido pelo IPCA da picanha do IBGE. O salário mínimo compra hoje 20,4 quilos, contra 17 quilos em 2022, e ainda não voltou aos 23 quilos de 2019. Em 2026, a picanha subiu 7,9% em oito meses, mais que o dobro da inflação.
Eu fui atrás da promessa e do preço, porque a piada da picanha nasceu nos comentários do meu perfil e virou matéria aqui na revista, em Nem picanha nem fuzil. Faltava o número. Ele está abaixo, com fonte primária.
O que Lula prometeu, palavra por palavra?
Foi na entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, em 25 de agosto de 2022. Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato do PT, defendia a volta do poder de compra: "O povo tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha", segundo o registro do Correio Braziliense.
A frase virou bordão de campanha. Em abril de 2024, num café com jornalistas, Lula repetiu a promessa, segundo a Gazeta do Povo.

Quanto a picanha subiu com Lula e com Bolsonaro?
O IBGE mede a picanha como subitem do IPCA, a inflação oficial. Eu baixei a série mensal da tabela 7060 do Sidra e acumulei os meses de cada período.
| Período | Picanha | Carnes | Cerveja | IPCA geral |
|---|---|---|---|---|
| Jan/2020 a dez/2022 (Bolsonaro, 36 meses) | 38,0% | 30,3% | 21,2% | 21,7% |
| Jan/2023 a ago/2026 (Lula, 44 meses) | 7,8% | 17,8% | 19,5% | 17,9% |
| Só 2026 (jan a ago) | 7,9% | 6,2% | 2,5% | 3,1% |
Fonte: IBGE, IPCA, tabela 7060. Cálculo da revista com as variações mensais.
Ano a ano, a picanha subiu 17,0% em 2020, 17,4% em 2021 e 0,5% em 2022. Caiu 10,7% em 2023, subiu 8,8% em 2024 e 2,8% em 2025. Os mesmos 7,8% e 38% aparecem no levantamento da consultoria 4intelligence publicado pelo Diário do Comércio em 27 de setembro.
E na sua cidade?
O IBGE só mede a picanha em quatro capitais. Para as outras, a régua disponível é o grupo carnes, que reúne todos os cortes.
| Capital | Picanha, jan/2023 a ago/2026 | Picanha, só 2026 | Carnes, jan/2023 a ago/2026 |
|---|---|---|---|
| Fortaleza (Nordeste) | 10,6% | 13,2% | 18,5% |
| Belo Horizonte (Sudeste) | 14,4% | 7,3% | 18,6% |
| Brasília (Centro-Oeste) | 5,8% | 5,7% | 12,5% |
| Porto Alegre (Sul) | 4,2% | 6,5% | 8,4% |
| Belém (Norte) | não medida | não medida | 22,9% |
| São Paulo | não medida | não medida | 21,5% |
| Goiânia | não medida | não medida | 20,7% |
| Rio de Janeiro | não medida | não medida | 19,2% |
| Recife | não medida | não medida | 15,0% |
| Salvador | não medida | não medida | 13,8% |
Fonte: IBGE, IPCA, tabela 7060.
Quem mora em Fortaleza viu a picanha subir 13,2% só neste ano. Em Belém e em São Paulo, o conjunto das carnes subiu mais que a inflação do período inteiro.
Quantos quilos o salário mínimo compra?
O Poder360 criou um picanhômetro com o preço do IEA, que pesquisa 360 pontos de venda na capital paulista. Eu completei a série com o preço de outubro de 2022 e com uma estimativa para 2026.
| Ano | Salário mínimo | Picanha (R$/kg, varejo SP) | Quilos por salário |
|---|---|---|---|
| 2019 | R$ 998 | R$ 43,50 | 23,0 |
| 2021 | R$ 1.100 | não informado | 16,5 |
| 2022 (outubro) | R$ 1.212 | R$ 71,20 | 17,0 |
| 2023 | R$ 1.320 (desde maio) | não informado | 19,1 |
| 2024 (1º semestre) | R$ 1.412 | R$ 71,00 | 19,9 |
| 2026 (agosto, estimativa) | R$ 1.621 | R$ 79,38 | 20,4 |
Fontes: IEA via Poder360 (2019, 2021, 2023 e 2024) e via Farmnews (2022); salário mínimo pelo Ieprev e pela CNN Brasil. A linha de 2026 é estimativa da revista: o preço de outubro de 2022 corrigido pela alta de 11,5% do IPCA da picanha entre novembro de 2022 e agosto de 2026.
A estimativa de R$ 79 bate com o que a agência AFP encontrou nos açougues em setembro: de R$ 80 a R$ 110 o quilo, segundo a Euronews.

Então a promessa foi cumprida?
Em parte, e a parte que falta pesa. O salário mínimo de 2026 compra 3,4 quilos a mais que o de 2022. Só que a promessa falava em voltar a comer picanha, e a volta ainda não aconteceu: em 2019, o mesmo salário comprava 23 quilos.
No atacado, a conta é pior. A Safras & Mercado registrou o quilo a R$ 57,56 em janeiro de 2023 e a R$ 72,38 em junho de 2026, alta de 25,7%, segundo a CNN Brasil. O salário mínimo diário de 2026 é R$ 54,04. Um quilo de picanha no atacado custa mais que um dia inteiro de trabalho.
E a cervejinha da frase subiu mais que a picanha e mais que a inflação: 19,5% desde janeiro de 2023.
Na minha opinião, o número que mais conta para o eleitor é o de 2026. A picanha subiu 7,9% de janeiro a agosto, contra 3,1% do IPCA. É o ano da eleição, e o corte símbolo da campanha anterior voltou a correr à frente do salário.

O preço vai subir mais?
Os sinais apontam para cima. O boi gordo, que é a matéria-prima da picanha, teve média parcial de R$ 349,20 por arroba em setembro de 2026, recorde nominal para o mês e 13,5% acima do recorde anterior, de 2025, segundo o indicador do Cepea, da Esalq/USP, publicado pela Farmnews.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta que a disponibilidade de carne bovina por brasileiro cai de 34,6 quilos em 2026 para 31,9 quilos em 2027. O rebanho encolhe de 226,3 milhões para 216,9 milhões de cabeças, e a exportação cresce, segundo o Movimento Econômico. Menos boi no pasto e mais carne no navio: a picanha do mercado interno fica mais disputada.
Os especialistas ouvidos pela CNN Brasil atribuem a alta ao ciclo pecuário, a fase em que o pecuarista segura as vacas para cria e manda menos animais para o abate.
O que joga contra, e entra
"Com Bolsonaro a picanha subiu muito mais." Subiu. Foram 38% entre 2020 e 2022, contra 7,8% em 44 meses de Lula, pelo IBGE. A pandemia, o dólar alto e a exportação recorde pesaram no período anterior. Entra no texto, na primeira tabela.
"O salário mínimo compra mais picanha hoje do que em 2022." Compra, cerca de 3,4 quilos a mais, e boa parte disso veio da política de reajuste acima da inflação. Também entra. O que a conta mostra é que o ganho não devolveu o poder de compra de 2019.
"A queda de 2023 foi mérito do governo." O próprio mercado atribui a queda de 10,7% de 2023 e a alta de 2026 ao ciclo do boi, não a uma medida de governo. A promessa usou um preço que nenhum presidente controla.
A resposta de Lula. Segundo a AFP, Lula respondeu que um adversário mostrou picanha na televisão "porque é cara" e que as coisas melhoraram muito no país. Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro distribuiu churrasco num comício e disse, segundo a mesma agência: "Como Lula não trouxe picanha, eu trouxe alguma aqui hoje".
E a resposta?
A picanha está mais barata em quilos de salário do que em 2022 e mais cara do que em 2019. Em 2026, voltou a subir mais que a inflação, puxada por um boi gordo recorde, e a Conab prevê menos carne por pessoa em 2027. Uma pesquisa Paraná Pesquisas de abril de 2025, citada pela Gazeta do Povo, já mostrava 68,4% dos brasileiros dizendo ter dificuldade para comprar picanha e cerveja. A promessa de 2022 virou régua, e a régua de 2026 aponta para cima.
O que pesa no carrinho além da carne está em Haddad e a inflação dos alimentos e na conta do salário mínimo necessário do Dieese.
Perguntas que chegam nos comentários
Quando Lula prometeu picanha e cervejinha?
Na entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, em 25 de agosto de 2022: "O povo tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha".
Quanto custa o quilo da picanha hoje?
Cerca de R$ 79 no varejo de São Paulo, pela estimativa da revista com base no IEA e no IPCA. A AFP encontrou de R$ 80 a R$ 110 nos açougues em setembro de 2026. No atacado, R$ 72,38 em junho, pela Safras & Mercado.
Quantos quilos de picanha o salário mínimo compra?
Cerca de 20,4 quilos em 2026, contra 17 em 2022 e 23 em 2019, pelo preço do IEA na capital paulista.
A picanha subiu mais com Lula ou com Bolsonaro?
Com Bolsonaro: 38% de 2020 a 2022, contra 7,8% de janeiro de 2023 a agosto de 2026, pelo IPCA do IBGE. Em 2026, porém, subiu 7,9% em oito meses, mais que o dobro da inflação.







