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Economia / 9 de setembro de 2026

Eu fui checar

Haddad disse que a inflação de alimentos foi quatro vezes maior com Bolsonaro. Eu conferi tudo, e a conta do seu bolso é outra

Luiz Bacci fez a pergunta que todo mundo faz no caixa: por que com cem reais eu levava três sacolas e hoje levo uma? O ministro respondeu com um número. Eu fui atrás dele e de mais seis. Aqui está o que confere, o que não confere, e a explicação que nenhum dos dois deu: renda média em recorde, endividamento em recorde, carga tributária em recorde e mais da metade do rendimento indo só para a cesta básica. Três recordes ao mesmo tempo, e é isso que explica a sua sensação.

Publicado
9 de setembro de 2026
Atualizado
9 de setembro de 2026
Editoria
Economia
Leitura
7 min
Fontes
10 citadas
Fernando Haddad entrevistado por Luiz Bacci no Show do Bacci, BNTV, 8 de setembro de 2026
Fernando Haddad entrevistado por Luiz Bacci no Show do Bacci, BNTV, 8 de setembro de 2026

A pergunta que Luiz Bacci fez no Show do Bacci, na BNTV, é a mesma que sua mãe faz no caixa do mercado:

"O que a gente comprava com cem reais, levava três sacolas, e hoje se leva uma. Me dá a sensação igual quando o meteorologista fala: a temperatura é 15 graus, mas a sensação é de 11."

O ministro Fernando Haddad respondeu com um número:

"A inflação de alimentos durante o governo Bolsonaro foi quatro vezes maior do que a inflação de alimentos do atual governo."

E completou que isso não significa que os preços pararam de subir, mas que subiram numa proporção menor do que a herdada.

Eu fui atrás. E o resultado é mais interessante do que os dois lados gostariam.

Primeiro: o número dele está certo?

Está quase certo, e o "quase" importa.

Comparando períodos equivalentes, os primeiros 44 meses de cada governo, pelo IPCA-15 da alimentação no domicílio:

GovernoPeríodoAlta acumulada dos alimentos
Bolsonarojaneiro de 2019 a agosto de 2022cerca de 43%
Lulajaneiro de 2023 a agosto de 2026cerca de 14%

Divida um pelo outro e você não chega em quatro. Chega em cerca de três vezes.

A diferença é real, é grande e joga a favor do argumento dele. Mas "quatro vezes" é um arredondamento generoso, e vale registrar que arredondamento generoso a favor de quem fala é a coisa mais comum da política brasileira, dos dois lados.

Segundo: então por que você leva menos sacola?

Aqui está a parte que nem o entrevistado nem o entrevistador desenvolveram, e é a que responde a pergunta de verdade.

Inflação mede a velocidade do aumento. Ela não desfaz o aumento que já aconteceu.

Se o arroz subiu 40% e depois passa a subir 5% ao ano, a inflação caiu. O arroz continua 40% mais caro. A conta do mercado não volta atrás porque o índice desacelerou. Ela só para de piorar tão rápido.

É por isso que a resposta técnica está certa e a sensação de quem empurra o carrinho também está.

Terceiro: e a renda, subiu ou não?

Aqui eu preciso contrariar uma parte do que muita gente do meu lado repete, porque o dado é o dado.

A renda subiu. O rendimento médio do trabalhador chegou a cerca de R$ 3.722 no início de 2026, um dos maiores patamares da série histórica, com ganho real acima da inflação. A massa salarial também está em nível recorde.

E mais: em 2024, um salário mínimo comprava 1,88 cesta básica. Em 2026, compra 2,02.

Quem afirma que o poder de compra simplesmente despencou está errado no agregado, e vai ser desmentido com um link do IBGE em dois minutos.

Só que a história não termina aí.

Quarto: os três recordes que explicam a sua sensação

Se a renda subiu, por que a vida aperta? Porque três outras coisas subiram junto, e todas as três estão em recorde ao mesmo tempo.

O que bateu recordeNúmeroFonte
Famílias endividadas82% em julho de 2026, o maior da série iniciada em 2010, com projeção de 82,6% para setembroPeic, da CNC
Carga tributária32,4% do PIB em 2025, o maior nível da série do Tesouro, com arrecadação de R$ 2,89 trilhõesTesouro Nacional
Empresas em recuperação judicial2.466 CNPJs em 2025, alta de 13% e o maior volume já registradoSerasa Experian

E tem o número que talvez seja o mais cruel de todos: em junho de 2026, o trabalhador comprometeu, em média, 52,02% do rendimento líquido só para comprar a cesta básica.

Mais da metade do salário para comer. Antes de aluguel, luz, remédio, transporte e escola.

É por isso que a pessoa recebe um pouco mais e sente que tem menos. O aumento existe. Ele só chega em uma mão e sai pela outra, em imposto e em prestação. As famílias têm, em média, 29,5% do orçamento comprometido com dívidas.

Quinto: de onde vem o apelido

Existe um apelido que circula nas redes ligando o ministro a impostos. Apelido não é argumento, e este portal não vive de apelido. Mas o dado que sustenta a piada existe e merece ser dito com nome e número.

A carga tributária de 2025 foi a maior desde o começo da série do Tesouro, em 2010. O avanço foi puxado por tributos federais, com destaque para o IOF, e pelo Imposto de Renda Retido na Fonte. Se fossem contadas as contribuições ao FGTS e ao Sistema S, o total chegaria a 34,35% do PIB.

O Brasil tem hoje a maior carga tributária entre os países emergentes.

Quem quiser defender o governo tem que responder a esse número, e não à piada.

Sexto: as empresas

O número de recuperações judiciais bateu recorde em 2025, com 2.466 CNPJs envolvidos. A agropecuária respondeu por 30,1% dos casos, e o setor de serviços por 30%.

Em janeiro de 2026, 8,7 milhões de empresas estavam negativadas, com dívida média de R$ 23.138 e cerca de sete restrições por CNPJ. Historicamente, empresa negativada é o degrau anterior ao pedido de recuperação.

O que fica

O ministro está certo quando diz que a inflação de alimentos desacelerou. Está exagerando um pouco quando diz que a diferença é de quatro vezes: é de cerca de três.

E está incompleto quando usa isso para explicar por que o mercado dói. Porque preço que subiu não desce quando a inflação cai, e porque o dinheiro que entrou a mais está sendo consumido por imposto recorde e por dívida recorde.

A sensação térmica que o Bacci citou tem uma explicação simples: o número mede a velocidade, o bolso mede o acumulado.

Quem governa deveria responder ao bolso. Não ao índice.

Perguntas que chegam nos comentários

A inflação de alimentos foi mesmo quatro vezes maior no governo Bolsonaro?

Foi cerca de três vezes maior, comparando os primeiros 44 meses de cada governo pelo IPCA-15 da alimentação no domicílio: aproximadamente 43% contra 14%. A diferença é real e grande, mas "quatro vezes" é arredondamento generoso.

Se a inflação caiu, por que o mercado está mais caro?

Porque inflação mede a velocidade do aumento, não desfaz o aumento anterior. Um produto que subiu 40% e agora sobe 5% ao ano continua 40% mais caro do que era.

O poder de compra do brasileiro caiu?

No agregado, não. O rendimento médio está em torno de R$ 3.722, em nível recorde, e o salário mínimo compra mais cesta básica em 2026 (2,02) do que em 2024 (1,88). O aperto vem de outros lugares.

Então por que a vida aperta?

Por três recordes simultâneos: 82% das famílias endividadas, carga tributária de 32,4% do PIB e recuperações judiciais no maior nível já registrado. Além disso, a cesta básica consumiu 52,02% do rendimento líquido médio em junho de 2026.

A carga tributária é realmente a maior da história?

É a maior desde o início da série do Tesouro Nacional, em 2010: 32,4% do PIB em 2025, com R$ 2,89 trilhões arrecadados. Considerando FGTS e Sistema S, 34,35%.

As empresas estão quebrando mais?

Mais empresas entraram em recuperação judicial, com recorde de 2.466 CNPJs em 2025. Mas os pedidos de falência caíram 19%. São movimentos opostos e os dois precisam ser ditos.

Fontes desta materia

  1. Entrevista de Fernando Haddad a Luiz Bacci no Show do Bacci, BNTV, 8 de setembro de 2026
  2. Poder360, inflação acumulada nos governos do século 21
  3. Poder360, sob Lula o Brasil registra a maior carga tributária da história em 2025
  4. Gazeta do Povo, carga tributária bate recorde histórico após o aumento do IOF
  5. Agência Brasil, CNC informa endividamento das famílias em 82%
  6. Senado Notícias, dívidas em recorde assombram as famílias brasileiras
  7. Serasa Experian, indicador de falências e recuperações judiciais
  8. Forbes Brasil, recorde no número de recuperações judiciais, indicador da Serasa Experian
  9. Poder360, renda média sobe a R$ 3.722 no início de 2026
  10. Estado de Minas, poder de compra em 2026, salário mínimo tem ganho real mas alimentos pesam