A pergunta que Luiz Bacci fez no Show do Bacci, na BNTV, é a mesma que sua mãe faz no caixa do mercado:
"O que a gente comprava com cem reais, levava três sacolas, e hoje se leva uma. Me dá a sensação igual quando o meteorologista fala: a temperatura é 15 graus, mas a sensação é de 11."
O ministro Fernando Haddad respondeu com um número:
"A inflação de alimentos durante o governo Bolsonaro foi quatro vezes maior do que a inflação de alimentos do atual governo."
E completou que isso não significa que os preços pararam de subir, mas que subiram numa proporção menor do que a herdada.
Eu fui atrás. E o resultado é mais interessante do que os dois lados gostariam.
Primeiro: o número dele está certo?
Está quase certo, e o "quase" importa.
Comparando períodos equivalentes, os primeiros 44 meses de cada governo, pelo IPCA-15 da alimentação no domicílio:
| Governo | Período | Alta acumulada dos alimentos |
|---|---|---|
| Bolsonaro | janeiro de 2019 a agosto de 2022 | cerca de 43% |
| Lula | janeiro de 2023 a agosto de 2026 | cerca de 14% |
Divida um pelo outro e você não chega em quatro. Chega em cerca de três vezes.
A diferença é real, é grande e joga a favor do argumento dele. Mas "quatro vezes" é um arredondamento generoso, e vale registrar que arredondamento generoso a favor de quem fala é a coisa mais comum da política brasileira, dos dois lados.
Segundo: então por que você leva menos sacola?
Aqui está a parte que nem o entrevistado nem o entrevistador desenvolveram, e é a que responde a pergunta de verdade.
Inflação mede a velocidade do aumento. Ela não desfaz o aumento que já aconteceu.
Se o arroz subiu 40% e depois passa a subir 5% ao ano, a inflação caiu. O arroz continua 40% mais caro. A conta do mercado não volta atrás porque o índice desacelerou. Ela só para de piorar tão rápido.
É por isso que a resposta técnica está certa e a sensação de quem empurra o carrinho também está.
Terceiro: e a renda, subiu ou não?
Aqui eu preciso contrariar uma parte do que muita gente do meu lado repete, porque o dado é o dado.
A renda subiu. O rendimento médio do trabalhador chegou a cerca de R$ 3.722 no início de 2026, um dos maiores patamares da série histórica, com ganho real acima da inflação. A massa salarial também está em nível recorde.
E mais: em 2024, um salário mínimo comprava 1,88 cesta básica. Em 2026, compra 2,02.
Quem afirma que o poder de compra simplesmente despencou está errado no agregado, e vai ser desmentido com um link do IBGE em dois minutos.
Só que a história não termina aí.
Quarto: os três recordes que explicam a sua sensação
Se a renda subiu, por que a vida aperta? Porque três outras coisas subiram junto, e todas as três estão em recorde ao mesmo tempo.
| O que bateu recorde | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Famílias endividadas | 82% em julho de 2026, o maior da série iniciada em 2010, com projeção de 82,6% para setembro | Peic, da CNC |
| Carga tributária | 32,4% do PIB em 2025, o maior nível da série do Tesouro, com arrecadação de R$ 2,89 trilhões | Tesouro Nacional |
| Empresas em recuperação judicial | 2.466 CNPJs em 2025, alta de 13% e o maior volume já registrado | Serasa Experian |
E tem o número que talvez seja o mais cruel de todos: em junho de 2026, o trabalhador comprometeu, em média, 52,02% do rendimento líquido só para comprar a cesta básica.
Mais da metade do salário para comer. Antes de aluguel, luz, remédio, transporte e escola.
É por isso que a pessoa recebe um pouco mais e sente que tem menos. O aumento existe. Ele só chega em uma mão e sai pela outra, em imposto e em prestação. As famílias têm, em média, 29,5% do orçamento comprometido com dívidas.
Quinto: de onde vem o apelido
Existe um apelido que circula nas redes ligando o ministro a impostos. Apelido não é argumento, e este portal não vive de apelido. Mas o dado que sustenta a piada existe e merece ser dito com nome e número.
A carga tributária de 2025 foi a maior desde o começo da série do Tesouro, em 2010. O avanço foi puxado por tributos federais, com destaque para o IOF, e pelo Imposto de Renda Retido na Fonte. Se fossem contadas as contribuições ao FGTS e ao Sistema S, o total chegaria a 34,35% do PIB.
O Brasil tem hoje a maior carga tributária entre os países emergentes.
Quem quiser defender o governo tem que responder a esse número, e não à piada.
Sexto: as empresas
O número de recuperações judiciais bateu recorde em 2025, com 2.466 CNPJs envolvidos. A agropecuária respondeu por 30,1% dos casos, e o setor de serviços por 30%.
Em janeiro de 2026, 8,7 milhões de empresas estavam negativadas, com dívida média de R$ 23.138 e cerca de sete restrições por CNPJ. Historicamente, empresa negativada é o degrau anterior ao pedido de recuperação.
O que fica
O ministro está certo quando diz que a inflação de alimentos desacelerou. Está exagerando um pouco quando diz que a diferença é de quatro vezes: é de cerca de três.
E está incompleto quando usa isso para explicar por que o mercado dói. Porque preço que subiu não desce quando a inflação cai, e porque o dinheiro que entrou a mais está sendo consumido por imposto recorde e por dívida recorde.
A sensação térmica que o Bacci citou tem uma explicação simples: o número mede a velocidade, o bolso mede o acumulado.
Quem governa deveria responder ao bolso. Não ao índice.
Perguntas que chegam nos comentários
A inflação de alimentos foi mesmo quatro vezes maior no governo Bolsonaro?
Foi cerca de três vezes maior, comparando os primeiros 44 meses de cada governo pelo IPCA-15 da alimentação no domicílio: aproximadamente 43% contra 14%. A diferença é real e grande, mas "quatro vezes" é arredondamento generoso.
Se a inflação caiu, por que o mercado está mais caro?
Porque inflação mede a velocidade do aumento, não desfaz o aumento anterior. Um produto que subiu 40% e agora sobe 5% ao ano continua 40% mais caro do que era.
O poder de compra do brasileiro caiu?
No agregado, não. O rendimento médio está em torno de R$ 3.722, em nível recorde, e o salário mínimo compra mais cesta básica em 2026 (2,02) do que em 2024 (1,88). O aperto vem de outros lugares.
Então por que a vida aperta?
Por três recordes simultâneos: 82% das famílias endividadas, carga tributária de 32,4% do PIB e recuperações judiciais no maior nível já registrado. Além disso, a cesta básica consumiu 52,02% do rendimento líquido médio em junho de 2026.
A carga tributária é realmente a maior da história?
É a maior desde o início da série do Tesouro Nacional, em 2010: 32,4% do PIB em 2025, com R$ 2,89 trilhões arrecadados. Considerando FGTS e Sistema S, 34,35%.
As empresas estão quebrando mais?
Mais empresas entraram em recuperação judicial, com recorde de 2.466 CNPJs em 2025. Mas os pedidos de falência caíram 19%. São movimentos opostos e os dois precisam ser ditos.







