Revista De Castro

Magazine / 1 de outubro de 2026

Eu fui checar

Perdoar quem quebrou a imagem de Santa Dulce? O que a Igreja ensina sobre perdão e justiça

Depois da imagem destruída em Salvador, a pergunta é inevitável: o católico tem de perdoar e deixar para lá? Eu fui ler o Catecismo, a encíclica de João Paulo II sobre a misericórdia e a história do papa que perdoou o homem que atirou nele. O perdão é obrigatório. E ele não apaga a pena.

Publicado
1 de outubro de 2026
Atualizado
1 de outubro de 2026
Editoria
Magazine
Leitura
3 min
Fontes
10 citadas

Ouvir a matéria

Papa João Paulo II numa igreja de Katowice, Polônia, 1983. Bernard Gotfryd / Library of Congress via Wikimedia Commons, domínio público
Papa João Paulo II numa igreja de Katowice, Polônia, 1983. Bernard Gotfryd / Library of Congress via Wikimedia Commons, domínio público

A Igreja Católica ensina que o cristão deve perdoar quem quebrou a imagem de Santa Dulce, e que esse perdão não dispensa a investigação nem a pena. O Catecismo chama a vingança de ilícita e chama de louvável a reparação "para conservar o bem da justiça".

Eu fui ler os documentos depois de escrever O que ela faria?. Diante de um ataque assim, há quem peça cadeia e há quem diga que o cristão tem de perdoar e esquecer. A doutrina responde aos dois.

O que o Catecismo diz sobre perdoar?

No parágrafo 2840, o Catecismo diz que a misericórdia de Deus "não pode penetrar nos nossos corações enquanto não tivermos perdoado àqueles que nos ofenderam".

No 2843, admite o limite humano: "Não está no nosso poder deixar de sentir e esquecer a ofensa". O que o fiel pode fazer, diz o texto, é entregar o coração ao Espírito Santo, que "muda a ferida em compaixão".

Perdoar não exige esquecer. Exige não alimentar o ódio, que o parágrafo 2303 chama de pecado.

Perdoar apaga a pena?

Não. O parágrafo 2302 separa as duas coisas numa frase: desejar a vingança "é ilícito", mas impor uma reparação "para correcção do vício e para conservar o bem da justiça" é louvável.

O 2266 vai além e diz que é "direito e dever da autoridade pública legítima infligir penas proporcionadas à gravidade do delito". E o 1459 lembra que quem causou dano deve repará-lo, por exemplo, restituindo o que foi roubado.

João Paulo II escreveu a mesma coisa na encíclica Dives in Misericordia, de 1980: o perdão nunca significa "indulgência para com o mal". Segundo ele, reparar o mal e compensar o prejuízo "são condição do perdão". O papa Francisco, em 2015, resumiu: "A misericórdia não é contrária à justiça".

O que é profanar uma imagem?

O Catecismo chama de sacrilégio tratar com indignidade "as pessoas, as coisas e os lugares consagrados a Deus" (parágrafo 2120), e o classifica como pecado grave. A paróquia de Plataforma usou a palavra profanação para descrever o ataque. A lei brasileira também pune quem vilipendia objeto de culto.

O papamóvel em que João Paulo II foi baleado em 13 de maio de 1981, exposto no Vaticano

O papa que perdoou o homem que atirou nele

O exemplo mais conhecido é do próprio João Paulo II. Em 13 de maio de 1981, o turco Mehmet Ali Ağca atirou nele na Praça de São Pedro. Quatro dias depois, ainda no hospital, o papa disse: "Peço pelo irmão que me feriu, a quem perdoei sinceramente", segundo o Vatican News.

Em 27 de dezembro de 1983, ele visitou Ağca na prisão de Rebibbia, em Roma. Conversaram 21 minutos. Na saída, Ağca beijou a mão do papa, segundo a UPI.

O perdão foi público, e a pena seguiu. Ağca cumpriu 19 anos de prisão na Itália pelo atentado, segundo a Agência Brasil.

E o que fazer agora?

O pároco de Plataforma, padre Marcos Vinícius, disse ao Alô Alô Bahia: "Ao mesmo tempo que buscamos a paz, buscamos a verdade e a justiça".

Na minha opinião, essa frase é o Catecismo inteiro em uma linha. Rezar por quem quebrou a imagem e torcer para a polícia achar essa pessoa cabem no mesmo coração católico.

Perguntas que chegam nos comentários

O católico é obrigado a perdoar quem quebrou uma imagem?

Sim. O Catecismo, no parágrafo 2840, diz que a misericórdia de Deus não entra no coração de quem se recusa a perdoar. Mas admite, no 2843, que ninguém consegue simplesmente deixar de sentir ou esquecer a ofensa.

Perdoar significa não denunciar à polícia?

Não. O parágrafo 2266 diz que a autoridade pública tem o direito e o dever de aplicar penas proporcionais ao delito, e o 2302 chama de louvável a reparação feita para conservar a justiça.

O perdão de João Paulo II tirou da cadeia o homem que atirou nele?

Não. Ele perdoou publicamente Mehmet Ali Ağca em 1981 e o visitou na prisão em 1983, mas Ağca cumpriu 19 anos de prisão na Itália pelo atentado.

O carrossel que trouxe você até aqui foi feito pela equipe da Revista De Castro.

A gente pesquisa, escreve, escolhe as fotos e monta as 20 páginas no estilo revista, prontas para postar. Você só aprova.

Pedir orçamento no WhatsApp Ver como funciona

Seu Instagram vende ou só posta?

Em uma análise de marketing eu olho o seu perfil, o seu site e os seus anúncios, e digo o que está travando as vendas e o que fazer primeiro.

Marcar minha análise no WhatsApp

Fontes desta materia

  1. Vaticano, Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2759 a 2865 (Perdoai-nos as nossas ofensas)
  2. Vaticano, Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2196 a 2557 (ira, ódio e pena)
  3. Vaticano, Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2083 a 2195 (sacrilégio)
  4. Vaticano, Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 1420 a 1532 (reparação do dano)
  5. João Paulo II, encíclica Dives in Misericordia, 30 de novembro de 1980
  6. Francisco, bula Misericordiae Vultus, 11 de abril de 2015
  7. Vatican News, Há 35 anos, o encontro de João Paulo II e Ali Ağca, seu atirador, dezembro de 2018
  8. UPI, Pope meets his would-be assassin, 27 de dezembro de 1983
  9. Agência Brasil, Autor de atentado contra João Paulo II aguarda ordem de expulsão da Itália, dezembro de 2014
  10. Alô Alô Bahia, Imagem de Santa Dulce dos Pobres é destruída dentro de igreja em Salvador, 28 de setembro de 2026