A Igreja Católica ensina que o cristão deve perdoar quem quebrou a imagem de Santa Dulce, e que esse perdão não dispensa a investigação nem a pena. O Catecismo chama a vingança de ilícita e chama de louvável a reparação "para conservar o bem da justiça".
Eu fui ler os documentos depois de escrever O que ela faria?. Diante de um ataque assim, há quem peça cadeia e há quem diga que o cristão tem de perdoar e esquecer. A doutrina responde aos dois.
O que o Catecismo diz sobre perdoar?
No parágrafo 2840, o Catecismo diz que a misericórdia de Deus "não pode penetrar nos nossos corações enquanto não tivermos perdoado àqueles que nos ofenderam".
No 2843, admite o limite humano: "Não está no nosso poder deixar de sentir e esquecer a ofensa". O que o fiel pode fazer, diz o texto, é entregar o coração ao Espírito Santo, que "muda a ferida em compaixão".
Perdoar não exige esquecer. Exige não alimentar o ódio, que o parágrafo 2303 chama de pecado.
Perdoar apaga a pena?
Não. O parágrafo 2302 separa as duas coisas numa frase: desejar a vingança "é ilícito", mas impor uma reparação "para correcção do vício e para conservar o bem da justiça" é louvável.
O 2266 vai além e diz que é "direito e dever da autoridade pública legítima infligir penas proporcionadas à gravidade do delito". E o 1459 lembra que quem causou dano deve repará-lo, por exemplo, restituindo o que foi roubado.
João Paulo II escreveu a mesma coisa na encíclica Dives in Misericordia, de 1980: o perdão nunca significa "indulgência para com o mal". Segundo ele, reparar o mal e compensar o prejuízo "são condição do perdão". O papa Francisco, em 2015, resumiu: "A misericórdia não é contrária à justiça".
O que é profanar uma imagem?
O Catecismo chama de sacrilégio tratar com indignidade "as pessoas, as coisas e os lugares consagrados a Deus" (parágrafo 2120), e o classifica como pecado grave. A paróquia de Plataforma usou a palavra profanação para descrever o ataque. A lei brasileira também pune quem vilipendia objeto de culto.

O papa que perdoou o homem que atirou nele
O exemplo mais conhecido é do próprio João Paulo II. Em 13 de maio de 1981, o turco Mehmet Ali Ağca atirou nele na Praça de São Pedro. Quatro dias depois, ainda no hospital, o papa disse: "Peço pelo irmão que me feriu, a quem perdoei sinceramente", segundo o Vatican News.
Em 27 de dezembro de 1983, ele visitou Ağca na prisão de Rebibbia, em Roma. Conversaram 21 minutos. Na saída, Ağca beijou a mão do papa, segundo a UPI.
O perdão foi público, e a pena seguiu. Ağca cumpriu 19 anos de prisão na Itália pelo atentado, segundo a Agência Brasil.
E o que fazer agora?
O pároco de Plataforma, padre Marcos Vinícius, disse ao Alô Alô Bahia: "Ao mesmo tempo que buscamos a paz, buscamos a verdade e a justiça".
Na minha opinião, essa frase é o Catecismo inteiro em uma linha. Rezar por quem quebrou a imagem e torcer para a polícia achar essa pessoa cabem no mesmo coração católico.
Perguntas que chegam nos comentários
O católico é obrigado a perdoar quem quebrou uma imagem?
Sim. O Catecismo, no parágrafo 2840, diz que a misericórdia de Deus não entra no coração de quem se recusa a perdoar. Mas admite, no 2843, que ninguém consegue simplesmente deixar de sentir ou esquecer a ofensa.
Perdoar significa não denunciar à polícia?
Não. O parágrafo 2266 diz que a autoridade pública tem o direito e o dever de aplicar penas proporcionais ao delito, e o 2302 chama de louvável a reparação feita para conservar a justiça.
O perdão de João Paulo II tirou da cadeia o homem que atirou nele?
Não. Ele perdoou publicamente Mehmet Ali Ağca em 1981 e o visitou na prisão em 1983, mas Ağca cumpriu 19 anos de prisão na Itália pelo atentado.







