Dia 17 de setembro, quinta-feira, na fábrica da Eurofarma em Montes Claros, Minas Gerais. Faltavam 16 dias para a eleição. O presidente Lula subiu no palco e disse:
"Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar, de graça, das pessoas que tenham obesidade."
No mesmo dia, ele anunciou reajuste de 15% no Bolsa Família.
A frase rodou o país como se fosse notícia de remédio. Eu fui atrás do papel. E o papel diz o contrário.
O que o governo dele assinou um ano antes
Em 15 de setembro de 2025, um ano e dois dias antes do palanque, o Ministério da Saúde publicou a Portaria SECTICS/MS nº 65. Ela torna pública a decisão de não incorporar a semaglutida ao SUS para tratamento de obesidade. Saiu no Diário Oficial no dia 16.
No mesmo dia, a Portaria nº 67 negou o outro remédio da mesma família, a liraglutida.
Quem analisou foi a Conitec, a comissão técnica do próprio ministério, na 25ª reunião extraordinária, em 20 de agosto de 2025. O relatório tem número: 1033/2025. E tem um detalhe que pesa: antes da decisão houve consulta pública, a de número 47/2025, e a maioria das contribuições foi favorável à incorporação. Mesmo assim, negaram.
O tamanho da promessa contra o tamanho da proposta
No Brasil, cerca de 40 milhões de adultos têm obesidade, segundo o levantamento divulgado pela Agência Brasil em janeiro de 2026.
A única proposta concreta que existe na mesa, e que o ministério mandou de volta à Conitec, atende 38.598 pessoas. E não é qualquer pessoa: só quem tem mais de 45 anos, não tem diabetes e já teve infarto ou outro evento cardiovascular.
Uma pessoa em cada mil.
| O que foi dito | O que está no papel |
|---|---|
| "De graça para quem tem obesidade" | proposta para 38.598 pessoas com critério restrito |
| Anúncio em 17 de setembro de 2026 | decisão da Conitec só em fevereiro de 2027 |
| Promessa de campanha | sem portaria, sem data, sem regra de acesso |
| "Vai ser utilizada" | única portaria publicada diz não incorporar |
Não tem data, não tem regra e não tem dinheiro
A nova avaliação da Conitec, que poderia reverter a negativa de 2025, só tem decisão prevista para fevereiro de 2027. Depois da eleição, depois da posse.
E não está no orçamento. O governo entregou ao Congresso o projeto de lei orçamentária de 2027 em 31 de agosto, dezessete dias antes da promessa. A Bloomberg Línea foi atrás e registrou: não há previsão de gasto com a caneta, e o próprio ministério não atualizou a estimativa de impacto. A estimativa que existe é a da Conitec, de 2025: mais de R$ 8 bilhões ao longo de cinco anos, calculada antes da queda da patente.
A conta que não fecha
Vamos fazer a conta com o número mais conservador possível.
Se o SUS atendesse só 10% dos 40 milhões, seriam 4 milhões de pessoas. Com o genérico nacional mais barato, o da Hypera, a R$ 333 por mês, a conta dá R$ 4 bilhões por ano. Com preço de compra pública, mais baixo, algo em torno de R$ 2,3 bilhões por ano.
Agora o outro lado da balança: o Brasil inteiro repassa aos municípios cerca de R$ 1,7 bilhão por ano para o remédio do posto de saúde, a chamada assistência farmacêutica básica.
A conta na mesa | Conitec, Brasil 61, Conasems, Exame
Um ano de caneta para uma pessoa custa o mesmo que remédio de posto para cerca de 1.900 brasileiros. E o posto já falta: o aplicativo Monitora AF, do Conasems, registrou 33 mil reclamações de desabastecimento em 2026.
A fala de março
Em 13 de março de 2026, no Hospital Federal do Andaraí, no Rio, o prefeito Eduardo Paes tinha acabado de anunciar a caneta na rede municipal. Lula, ao lado dele, freou:
"Essa questão é delicada. O remédio não é um prêmio para quem é relaxado. O remédio tem que ser dado para as pessoas que, por necessidade de saúde, não conseguem emagrecer."
E completou mandando as pessoas "tirar a bunda da cadeira e andar um pouco". Está no vídeo do próprio governo e na cobertura do Terra e da Revista Oeste.
Seis meses depois, em campanha, ele prometeu a mesma caneta de graça. A mudança não é de farmacologia. É de postura.
A ficha das promessas
Este não é o primeiro anúncio de campanha que vira prazo depois. O Diário do Comércio contou: das 36 promessas feitas ao ser eleito em 2022, seis ainda não foram cumpridas a três anos de mandato. Levantamentos mais duros, como o da Revista Oeste, falam em 28% de cumprimento na metade do mandato. Os dois números têm método diferente, e os dois estão nas fontes.
O que eu tiro disso
O problema não é o remédio. O remédio funciona, as sociedades médicas defendem e o preço caiu.
O problema é prometer, de um palco, com data marcada para a urna, aquilo que o Diário Oficial do próprio governo negou por escrito, e que no orçamento entregue 17 dias antes não tem uma linha.
Se você acreditou na caneta, guarda esta página. Em fevereiro de 2027 a Conitec decide, e aí a gente confere.
Perguntas que chegam nos comentários
O SUS já dá caneta emagrecedora de graça?
Não. A única portaria publicada sobre o tema, a nº 65 de 15 de setembro de 2025, nega a incorporação da semaglutida. Existe um piloto pequeno no Grupo Hospitalar Conceição e uma proposta em análise na Conitec, com decisão prevista para fevereiro de 2027.
O que o Lula disse exatamente?
Em 17 de setembro de 2026, na Eurofarma em Montes Claros, disse que "essa canetinha vai ser utilizada para cuidar, de graça, das pessoas que tenham obesidade".
Quantas pessoas a proposta atende?
38.598, e só quem tem mais de 45 anos, não tem diabetes e já teve evento cardiovascular. O Brasil tem cerca de 40 milhões de adultos com obesidade.
Está no orçamento de 2027?
Não foi localizada nenhuma linha específica no projeto de lei orçamentária entregue em 31 de agosto de 2026. A Bloomberg Línea registrou que o ministério não atualizou a estimativa de custo.
Ele era contra a caneta?
Em março de 2026 disse que o tema era delicado e que "o remédio não é um prêmio para quem é relaxado". Não era contra o remédio: era contra usar sem critério. Em setembro prometeu de graça.
Quanto custa a caneta hoje?
O genérico nacional da Hypera foi lançado a R$ 333 por mês, com preço congelado. As marcas originais custam bem mais. A patente caiu em março de 2026 e já há dois genéricos aprovados pela Anvisa.







