Diamantina, Minas Gerais, 1905. Um menino de dois anos perde o pai, um guarda-livros que morreu de tuberculose. A mãe, Júlia, professora primária, sustenta a casa sozinha. Para pagar a faculdade de medicina, o menino, já rapaz, trabalha de telegrafista à noite.
O nome dele é Juscelino Kubitschek de Oliveira. E ele é, até hoje, o único médico que presidiu o Brasil.
Em 2026, outro médico está na urna. As propostas dele viraram piada em 24 horas. Este texto não diz que um é o outro. Diz que o riso é o mesmo, e conta o que aconteceu da última vez que o Brasil riu de um médico com um plano. Com o lado ruim dos dois, porque história sem o lado ruim é panfleto.
A ficha do médico número 1
| Juscelino Kubitschek | |
|---|---|
| Nascimento | Diamantina, Minas Gerais, 12 de setembro de 1902 |
| Formação | Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, hoje UFMG, diplomado em dezembro de 1927 |
| Especialidade | Cirurgião e urologista, com estudos em Paris em 1930 |
| Serviço militar | Capitão-médico da Força Pública de Minas na Revolução de 1932 |
| Entrada na política | Deputado federal em 1934, aos 32 anos |
| Cargos antes da Presidência | Prefeito de Belo Horizonte (1940 a 1945), governador de Minas (1951 a 1955) |
| Presidência | 31 de janeiro de 1956 a 31 de janeiro de 1961 |
Ele só entrou na política aos 32 anos, e chegou à Presidência aos 53, com vinte anos de cargos nas costas. Guarde esse dado, porque ele volta no fim.
A ficha do médico número 2
| Augusto Cury | |
|---|---|
| Nascimento | Colina, interior de São Paulo, 2 de outubro de 1958 |
| Formação | Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, a Famerp |
| Especialidade | Psiquiatra, autor da teoria da Inteligência Multifocal |
| Livros | Mais de 30 milhões de exemplares vendidos em cerca de 70 países; o site dele fala em 42 milhões |
| Empresa | Fundou a Escola da Inteligência, que chegou a 400 mil alunos; vendeu 60% dela por R$ 288 milhões |
| Patrimônio declarado | R$ 242 milhões, o maior entre os candidatos a presidente |
| Cargos antes da candidatura | Nenhum. Primeira filiação partidária em 5 de abril de 2026, ao Avante |
O resto da biografia dele está na matéria sobre a empresa, as fazendas e os contratos.
1955: riram do médico de Diamantina
A eleição de 3 de outubro de 1955 teve quatro candidatos fortes, e JK ganhou sem maioria.
Eleição presidencial de 1955, em % dos votos
Fonte: TSE, resultados de eleições anteriores
A oposição, a UDN, disse que ele não tinha voto para governar, porque quase dois terços do país tinham votado em outros nomes. Pediu que o Tribunal Superior Eleitoral exigisse maioria absoluta. Não conseguiu. Então tentou impedir a posse por outro caminho: em novembro de 1955, com o presidente Café Filho afastado por problema de saúde, o substituto, Carlos Luz, deu sinais de que não passaria a faixa. O ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, colocou tropas na rua em 11 de novembro e garantiu que o eleito tomasse posse. O episódio ficou conhecido como o "contragolpe preventivo".
JK tomou posse em 31 de janeiro de 1956, com o Congresso dividido, o Exército dividido e a imprensa da oposição chamando o programa dele de aventura.
1956 a 1960: o "louco" cumpriu
O programa tinha nome, número e prazo: o Plano de Metas, com 31 metas em cinco áreas, mais Brasília como a "meta-síntese".
| Área | Metas | O que previa |
|---|---|---|
| Energia | 5 | Eletricidade, carvão, petróleo, refino, energia nuclear |
| Transporte | 7 | Ferrovias, rodovias, portos, marinha mercante, aviação |
| Alimentação | 6 | Trigo, armazéns, frigoríficos, fertilizantes, tratores |
| Indústria de base | 11 | Siderurgia, alumínio, cimento, automóveis, construção naval |
| Educação | 1 | Formação de pessoal técnico |
| Meta-síntese | 1 | Brasília |
E os resultados, medidos por quem estudou o período:
O que o Plano de Metas entregou
Fontes: CPDOC/FGV, Plano de Metas (Wikipédia), Presidency of JK
Volkswagen, Willys, Mercedes-Benz, Ford e General Motors abriram ou ampliaram fábricas no Brasil no governo dele. O país que importava carro passou a produzir carro. A siderurgia dobrou. A energia elétrica instalada cresceu perto de 70%.
E Brasília ficou de pé. A lei que criou a Novacap, a companhia da construção, é de 19 de setembro de 1956. A inauguração foi em 21 de abril de 1960. Quarenta e três meses da lei ao Congresso funcionando; cerca de quarenta de obra. O "louco" da capital hoje dá nome ao aeroporto da capital.
2026: o Brasil está rindo de outro médico
Na sabatina do Jornal Nacional, em 29 de agosto, Augusto Cury apresentou propostas que viraram meme antes de virar debate. Eu fui checar cada uma, e escrevi uma matéria sobre cada uma.
| A proposta que virou piada | O que existe por trás | Matéria |
|---|---|---|
| Drone contra feminicídio | Mais de mil polícias americanas já voam drone; o Brasil já treinou 800 agentes; facções do Rio já jogam bomba de drone em policial. Ele errou o exemplo, porque feminicídio acontece dentro de casa | Riram do drone |
| Telemedicina para 80% do SUS | O prontuário integrado acaba com o SUS pagando duas vezes pelo mesmo exame. 80% é meta alta e esbarra na regra do CFM | 80% do SUS por telemedicina |
| Ministério da Inteligência Artificial | O país já tem um plano de R$ 23 bilhões até 2028 e ninguém responde por ele. O ministério não está no plano registrado no TSE | O plano de R$ 23 bilhões |
| Influenciador em embaixada | Chama diplomacia digital. A União Europeia faz desde 2015, os Estados Unidos operam mil contas, a Coreia do Sul exporta US$ 19 bilhões em cultura | Diplomacia digital |
Em nenhum dos quatro casos a piada sobreviveu a uma noite de leitura. Em todos, existia uma versão séria da proposta que ninguém foi ler.
O padrão: médico não promete, prescreve
Existe um jeito de pensar que a faculdade de medicina ensina e a política não: diagnóstico, remédio, dose e prazo. Não existe receita sem dose. Não existe tratamento sem data de retorno.
| JK, 1956 | Cury, 2026 | |
|---|---|---|
| O documento | Plano de Metas, 31 metas com prazo e número | Plano de governo com 18 projetos, 200 páginas, registrado no TSE |
| O que faltava | Custo total e fonte do dinheiro | Custo por projeto e quais ministérios cortar |
| A crítica da época | "Aventura", "loucura", "cidade fantasma" | "Ministério do robô", "embaixador de trend" |
| Quem criticava | A UDN e a imprensa de oposição | Os dois lados, com meme |
Os dois foram chamados de loucos por gente que nunca escreveu um plano. Eu li as 200 páginas de Cury e listei os 18 projetos na matéria do plano de governo, com as quatro lacunas dele. As lacunas existem. A diferença é que quem aponta lacuna leu, e quem faz meme não.
"Mas ele nunca governou nada"
É a objeção mais séria, e ela é verdadeira. Cury nunca administrou um orçamento público, nem de prefeitura pequena. Administrou uma empresa de educação que chegou a 400 mil alunos e uma obra publicada em 70 países. Empresa não é orçamento público: cliente escolhe pagar, contribuinte é obrigado.
Mas vale registrar o que a história diz sobre a objeção. Em 1955, JK nunca tinha governado um país. Tinha governado uma cidade e um estado, o que é muito, e ainda assim a oposição dizia que ele não estava pronto. Ninguém governa um país antes de governar um país.
O dinheiro, porque isso importa
JK saiu da Presidência com dívidas pessoais e foi cassado em 1964. Cury entra na disputa com R$ 242 milhões declarados à Justiça Eleitoral, o maior patrimônio entre os candidatos. Ganhou com livro vendido e empresa construída, e a matéria sobre o patrimônio mostra de onde veio cada parte.
Quem passou a vida sem precisar de cargo é quem menos precisa do cargo agora. Isso não é garantia de nada, e rico não é sinônimo de honesto. Mas é um dado, e ele muda uma pergunta: o que faz um homem que não precisa querer o cargo mais difícil do país?
O outro médico de quem o Brasil riu
Não foi só de JK. Em 1994, o Brasil riu de um cardiologista com bigode e quinze segundos de TV, e ele fez 4,67 milhões de votos. A história de Enéas Carneiro está na matéria sobre o gênio de quem o país riu, e os eleitores dele estão voltando nos comentários. Três médicos, três risadas, três planos que quase ninguém leu.
Perguntas que chegam nos comentários
O Brasil já teve presidente médico?
Um só: Juscelino Kubitschek, cirurgião e urologista formado em 1927 em Belo Horizonte, presidente de 1956 a 1961. Todos os outros foram advogados, militares, engenheiros ou de outras profissões.
Quantos votos JK teve em 1955?
35,7% dos votos válidos, contra 30,3% de Juarez Távora e 25,8% de Ademar de Barros. A oposição tentou impedir a posse e o general Lott garantiu a transmissão do cargo em 11 de novembro de 1955.
O que foi o Plano de Metas?
O programa de governo de JK, com 31 metas em energia, transporte, alimentação, indústria de base e educação, mais Brasília como meta-síntese. A indústria cresceu 80% entre 1955 e 1961 e a economia cerca de 7% ao ano.
Quanto tempo levou para construir Brasília?
Quarenta e três meses entre a lei que criou a Novacap, em 19 de setembro de 1956, e a inauguração, em 21 de abril de 1960. As obras propriamente ditas levaram cerca de quarenta meses.
Por que JK rompeu com o FMI?
Em junho de 1959, o Fundo condicionou um empréstimo de US$ 300 milhões a um plano de contenção que atrasaria Brasília. JK rompeu as negociações. A inflação, que o plano previa em 13,5%, ficou em torno de 25% ao ano.
Augusto Cury é médico?
Sim, psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. Nunca ocupou cargo público e se filiou ao Avante em 5 de abril de 2026.
Cury é o novo JK?
A matéria não diz isso. JK tinha vinte anos de cargos antes da Presidência e Cury tem zero. O que a matéria mostra é que o riso diante de um médico com um plano já errou uma vez.
O que eu tirei por não passar na checagem
- "JK foi assassinado." Circula há décadas. Não é consenso, e as investigações oficiais concluíram por acidente. Não entra.
- "42 milhões de livros." É o número do site do candidato. Uso "mais de 30 milhões", que é o que fontes independentes sustentam, e registro os dois.
- "Empresa avaliada em R$ 1 bilhão." Era a negociação inicial. O fechamento foi por R$ 288 milhões pelos 60%, e é esse o número que entra.
- "Brasília em 40 meses." Da lei à inauguração foram 43. Dou os dois.
O riso é o mesmo
Da última vez que o Brasil riu de um médico com um plano, ganhou uma capital, uma indústria automobilística e uma inflação de 25%. Tudo junto, porque é assim que a história vem.
Desta vez, o que a gente ganha depende de quem para de rir e começa a ler. Não digo que Cury é o novo JK. Digo que quem riu de JK nunca leu o Plano de Metas, e quem ri de Cury nunca abriu as 200 páginas. Ler antes de rir é o mínimo que um país adulto faz.
Leia também: Augusto Cury será o novo Fernando Henrique? e Cury lidera entre os independentes, 24 a 21.






