Antes de qualquer coisa, a régua que vale para o texto inteiro: nada do que está aqui é condenação. É investigação em curso, com versões conflitantes, e cada informação abaixo tem dono declarado.
Se você perdeu o começo: um banqueiro preso, Daniel Vorcaro, do Banco Master; mensagens dele com um ministro do Supremo encontradas no celular; e o ministro André Mendonça, relator do caso, derrubando o sigilo em 1º de setembro. O primeiro capítulo está na matéria em que Mendonça pede o afastamento de Moraes. Este texto cobre o que veio depois, e foi atualizado com o que Fachin decidiu nos dias seguintes.
A linha do tempo, para não se perder
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Fim de semana, 29 e 30 de agosto | Mendonça avisa o presidente do STF, Edson Fachin |
| Segunda, 31 de agosto, à tarde | Mendonça avisa Moraes numa conversa "direta, mas genérica", sem dizer que derrubaria o sigilo |
| Terça, 1º de setembro | Sigilo derrubado. Bate-boca no corredor. Gonet pede anulação do relatório |
| Quarta, 2 de setembro | Fachin divulga nota: "os indícios exigem o devido encaminhamento institucional" |
| Quinta, 3 de setembro | Moraes assina decisão pedindo investigação de Mendonça e lista os alvos das apurações |
| Depois do dia 3 | Fachin abre procedimento, dá cinco dias úteis para quatro autoridades e adia o plenário para a segunda quinzena de setembro |
O bate-boca no corredor
Segundo apuração do Correio Braziliense com pessoas que presenciaram, Alexandre de Moraes e André Mendonça discutiram em voz alta num corredor do Supremo, na terça-feira, 1º de setembro. A expressão usada por quem estava lá, e reproduzida pelo jornal, é que "quase saiu na mão".
Registro necessário: é relato de testemunha, não há vídeo. A diferença importa, mas agora existe um jornal de grande circulação assinando a informação.
O que Moraes teria cobrado, segundo o jornal: como Mendonça soube das mensagens e por que mandou investigar sem submeter a decisão ao colegiado. E teria acusado o colega de direcionar a investigação contra ele.
A ordem dos avisos
Segundo a CNN Brasil, Mendonça avisou o presidente do STF no fim de semana. Avisou Moraes na segunda-feira à tarde. Não informou que derrubaria o sigilo.
Na terça, o tribunal foi pego de surpresa. Esse detalhe é o que sustenta a acusação de Moraes de que o colega agiu sozinho, e é também o que a defesa de Mendonça responde: avisar o presidente é o rito, e ele avisou.
O pedido de anular tudo
Na mesma terça, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a anulação do relatório da Polícia Federal, alegando "dupla nulidade".
A regra que sustenta o pedido: para investigar um ministro do Supremo, seria necessária autorização do colegiado, os 11 ministros. A tese é que Mendonça teria agido sozinho.
A resposta dele é outra: afirma que apenas determinou a identificação de a quem pertencia um número que aparecia nas mensagens, o que não seria abertura de investigação contra ministro.
Os números do relatório
| Item | Número |
|---|---|
| Páginas do relatório da PF | 218 |
| Páginas dedicadas a um ministro | 190 |
| Diálogos entre o ministro e o banqueiro | 187 |
| Parcelas do contrato do escritório da esposa | 36, de R$ 3 milhões |
Segundo o relatório, quem apresentou um ao outro foi o ex-ministro Fábio Faria, em dezembro de 2023.
O contrato
O relatório afirma que o ministro leu e sugeriu alterações no texto do contrato antes da assinatura.
A defesa
A defesa respondeu aos pontos, e a resposta precisa aparecer com o mesmo destaque:
- O setor de conformidade do escritório consultou previamente se havia impedimento legal, e a conclusão foi de que não havia.
- O ministro nunca julgou nenhum caso do banco.
- O contrato foi assinado e o serviço, prestado.
- Sobre as mensagens, a defesa sustenta que as mais citadas não foram enviadas para o número dele.
A honestidade contra o outro lado
Quem defende Mendonça precisa saber disto antes que o adversário conte.
Ele próprio admitiu ter recebido o banqueiro uma vez, em março de 2025, no gabinete, por cerca de duas horas, para tratar de um processo de dívidas do banco. Foi uma visita, registrada.
Uma audiência registrada não é equivalente a 187 diálogos. Mas existe, e omitir isso seria escolher lado em vez de informar.
O contra-ataque: Moraes pede investigação de Mendonça
Em 3 de setembro, Moraes assinou decisão pedindo providências contra o colega. Na decisão, listou os nomes que teriam sido alvo das apurações de Mendonça: além do próprio Moraes, aparece o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A decisão foi publicada na íntegra pelo Poder360 e tem matéria própria.
Isso fecha o desenho cruzado que o país está assistindo:
| Quem | Contra quem | O quê |
|---|---|---|
| Mendonça | Moraes | Derruba o sigilo e pede afastamento |
| Gonet | Mendonça | Pede anulação do relatório |
| Moraes | Mendonça | Pede investigação por agir sem o colegiado |
| Oposição | Moraes | Novos pedidos de impeachment no Senado |
Cada um investiga quem o investiga. E quem admite o impeachment, Alcolumbre, aparece na própria investigação.
O que Fachin fez
Na nota de 2 de setembro:
Os indícios exigem o devido encaminhamento institucional.
Edson Fachin, presidente do STF, 2 de setembro de 2026.
Ele prometeu medidas "no tempo devido e sem açodamento" e conversou individualmente com os ministros, inclusive com Moraes.
Depois, fez três coisas concretas:
- Abriu procedimento formal na presidência do tribunal.
- Deu cinco dias úteis para quatro autoridades se manifestarem: Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
- Adiou a sessão do plenário para a segunda quinzena de setembro.
Ou seja: o colegiado vai discutir o caso, mas só depois do dia 15. A um mês do primeiro turno.
O precedente que faz muita gente duvidar
Em fevereiro, um caso com estrutura parecida chegou à mesa do mesmo presidente, envolvendo outro ministro. Foi arquivado depois que o ministro se afastou do processo.
É por isso que parte dos observadores aposta que este também termina sem consequência. Não é previsão desta reportagem: é o precedente que está na mesa. E é o que dá título à matéria dos 55 pedidos de impeachment.
O que a oposição pediu
Parlamentares de oposição criticaram o procurador-geral, pediram que o Supremo julgue o caso em sessão aberta e transmitida, e protocolaram novos pedidos de impeachment de Moraes. O total contra ele chegou a 55, e o presidente do Senado avisou que não pauta nenhum.
Registro técnico que costuma faltar nessa discussão: pedido de impeachment de ministro do STF quem decide é o Senado, pelo artigo 52 da Constituição, e nenhum jamais foi a plenário na história.
Perguntas que chegam nos comentários
O que tem no relatório da PF sobre Alexandre de Moraes?
190 das 218 páginas tratam dele: 187 diálogos com o banqueiro Daniel Vorcaro e o contrato de R$ 131 milhões entre o escritório da esposa dele e o Banco Master. O relatório afirma que ele revisou o contrato antes da assinatura. A defesa nega irregularidade e diz que ele nunca julgou caso do banco.
Moraes e Mendonça brigaram no STF?
Segundo o Correio Braziliense, com base em testemunhas, os dois discutiram em voz alta num corredor em 1º de setembro. Não há vídeo.
Por que Gonet pediu a anulação do relatório?
Alega "dupla nulidade": investigar ministro do STF exigiria autorização do colegiado, e Mendonça teria agido sozinho. O próprio Gonet é citado nas mensagens do banqueiro, o que a oposição aponta como conflito.
O que Fachin decidiu?
Abriu procedimento, deu cinco dias úteis para Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor da PF se manifestarem, e adiou a sessão do plenário para a segunda quinzena de setembro.
Moraes pode sofrer impeachment?
Só pelo Senado, pelo artigo 52 da Constituição, com pena de perda do cargo e oito anos de inabilitação. São 55 pedidos contra ele, e o presidente do Senado disse que não pauta.
Mendonça também recebeu o banqueiro?
Sim, uma vez, em março de 2025, no gabinete, em audiência registrada, para tratar de um processo de dívidas do banco.
A diferença que decide tudo
Guarde estes dois conceitos, porque eles separam informação de linchamento:
Suspeita é o que a investigação levanta, com base no que encontrou. Prova é o que um julgamento confirma, com contraditório e defesa.
Nada do que você leu aqui é condenação. Tudo tem fonte identificada. E o processo mal começou.
O que acompanhar daqui para frente
- As quatro manifestações cobradas por Fachin, dentro do prazo de cinco dias úteis.
- A sessão do plenário, prevista para depois do dia 15, e se será pública.
- Se o pedido de anulação do Ministério Público prospera.
- Se a delação de Vorcaro é homologada, porque ela pode mudar o tamanho de tudo isso.
Eu volto aqui a cada passo, com fonte.






