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Política / 13 de setembro de 2026

Eu fui checar

Metade dos brasileiros já cortou alguém da família por política. Um candidato foi à Record e pediu o coração, não o voto

Augusto Cury sentou no Domingo Espetacular e disse que mentiram para nós que somos duas famílias. Eu fui atrás do tamanho do estrago: 52,7% dos brasileiros já romperam ou reduziram o convívio com amigos e parentes por divergência política, quase 30% dizem que isso acontece com frequência, e 41% mudariam de país por causa da polarização. Aqui está a fala dele inteira, os números que medem a doença, a promessa do salário doado, o que a Quaest mostra sobre o eleitor sem lado, e o que joga contra um discurso de pacificação a três semanas da urna.

Publicado
13 de setembro de 2026
Atualizado
13 de setembro de 2026
Editoria
Política
Leitura
6 min
Fontes
6 citadas
Augusto Cury, foto de arquivo, CC BY-SA
Augusto Cury, foto de arquivo, CC BY-SA

Um candidato a presidente sentou diante das câmeras do Domingo Espetacular, na Record, e fez um pedido que não estava no manual de campanha:

"Eu quero pedir mais do que o seu voto. Eu quero pedir o seu coração para pacificar essa nação."

E em seguida a frase que, na minha leitura, é a mais forte que ele já disse nesta campanha:

"Há milhões de pessoas encantadoras na direita, milhões de pessoas encantadoras na esquerda. Mentiram para nós que somos duas famílias. É uma família só, chamada família brasileira."

Discurso bonito é fácil de fazer. Então eu fui atrás do que existe de número por trás dele. E o número é feio.

O tamanho do estrago

O que a pesquisa mediuResultadoQuem mediu
Brasileiros que já romperam ou reduziram o convívio com amigos ou familiares por divergência política52,7%Instituto Informa, julho de 2026
Entre esses, os que dizem que o afastamento acontece com frequênciaquase 30%Instituto Informa
Brasileiros que mudariam de país por causa da polarização, se pudessem41%Quaest
Eleitores que se identificam como petistas ou bolsonaristas74% (40% e 34%)Datafolha

Leia a primeira linha de novo. Mais da metade do país já perdeu alguém, ou parte de alguém, por causa de política.

Isso não é um dado sobre eleição. É um dado sobre a mesa de domingo.

Por que a palavra "adoeceu" não é força de expressão

Cury é psiquiatra. Quando ele diz que a polarização "adoeceu toda a família brasileira", ele está usando um vocabulário que conhece.

Existe um nome técnico para o que os números acima descrevem: polarização afetiva. É diferente de discordar. Discordar é ter opinião diferente sobre imposto, aborto, armas. Polarização afetiva é quando a pessoa passa a sentir desprezo pelo outro grupo como grupo, independentemente do que cada indivíduo pense.

É por isso que o irmão vira "o outro lado" antes de virar o irmão de novo. A discordância era sobre uma ideia. O afastamento é sobre a pessoa.

E a característica mais cruel da polarização afetiva é esta: ela beneficia quem a produz e custa para quem a sente. Quem vive de engajamento, de voto cativo ou de audiência precisa que você tenha raiva. Você, o seu irmão e a sua mãe pagam a conta no silêncio do almoço.

O que ele prometeu, e o que dá para cobrar

Na mesma entrevista, ele repetiu uma promessa que vem fazendo desde a sabatina da CNN:

"Não amo dinheiro. Aliás, até o meu salário será doado para duas microempresas e escolas públicas por mês. Eu não preciso de dinheiro, nem preciso de poder."

A tarja da própria Record registrou: "Cury diz que doará salário para duas microempresas e escolas públicas por mês, caso seja eleito".

Vale registrar como promessa, não como fato. Promessa de campanha vira compromisso cobrável no dia em que a pessoa toma posse. Até lá, é palavra. Mas é uma palavra específica, com número, o que a torna fácil de cobrar depois.

O eleitor que esse discurso alcança existe, e ninguém está falando com ele

A Quaest tem mostrado, ao longo desta campanha, que Cury lidera entre os eleitores que não se identificam com nenhum dos dois lados. Esse grupo é justamente o que sobra dos 74% que o Datafolha classifica como petistas ou bolsonaristas: cerca de um em cada quatro eleitores.

É pouco para ganhar uma eleição sozinho. É muito para decidir uma.

E é o único pedaço do eleitorado com quem nem Lula nem Flávio Bolsonaro conseguem falar sem perder o próprio público. Um discurso de pacificação, para eles, custa a base. Para quem não tem base cativa, custa nada.

Isso não torna o discurso sincero ou insincero. Torna o discurso estratégico. E as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

O que eu tiro disso

Eu sou de direita e não pretendo deixar de ser. Continuo achando que o país precisa de alternância, e digo isso aqui todo dia.

Mas o número da primeira tabela não pergunta em quem você vota. Ele pergunta com quem você parou de almoçar.

Dá para manter o lado e devolver a cadeira da mesa. As duas coisas cabem na mesma pessoa. E se um candidato precisou ir à televisão lembrar isso, é porque a gente esqueceu.

Perguntas que chegam nos comentários

O que exatamente o Cury disse na Record?

Que quer pedir mais do que o voto, quer pedir o coração para pacificar a nação; que há milhões de pessoas boas na direita e na esquerda; que mentiram que somos duas famílias, quando é uma só; e que a polarização adoeceu a família brasileira.

Quantos brasileiros já romperam relações por política?

52,7% já romperam ou reduziram o convívio com amigos ou familiares por divergência política, segundo levantamento do Instituto Informa de julho de 2026. Quase 30% dizem que isso acontece com frequência.

O que é polarização afetiva?

É quando a discordância política vira desprezo pelo outro grupo como grupo, independentemente do que cada pessoa pense. É o mecanismo que transforma um parente em "o outro lado".

Ele vai mesmo doar o salário?

É uma promessa de campanha, registrada pela Record e repetida na CNN: doar o salário de presidente para duas microempresas e escolas públicas por mês. Só se torna fato se ele for eleito e cumprir.

Discurso de união ganha eleição?

Sozinho, não. Mas a Quaest mostra que ele lidera entre os eleitores sem lado, cerca de um em cada quatro, e esse é o grupo que nenhum dos dois polos consegue disputar sem perder a própria base.

Isso é propaganda do Cury?

É análise de uma fala pública, com os números que a sustentam e um bloco inteiro com o que joga contra ela. Quem lê os dois lados decide sozinho.

Fontes desta materia

  1. Domingo Espetacular, Record, entrevista com Augusto Cury, 13 de setembro de 2026, trecho publicado com a tarja da própria emissora
  2. O Hoje, mais da metade dos brasileiros já rompeu relações por política, levantamento do Instituto Informa, julho de 2026
  3. Mais Goiás, metade dos brasileiros já rompeu relações por divergências políticas
  4. CNN Brasil, Quaest: 41% dos brasileiros mudariam de país por causa da polarização
  5. Correio Braziliense, pesquisa Quaest sobre como o eleitor lida com a polarização contínua, setembro de 2026
  6. Poder360, Cury defende impeachment no STF em caso de infração grave